Quinta-feira, 26.03.09

Ontem, a CP encerrou as linhas do Corgo e do Tâmega sem avisar ninguém. Contava com o silêncio de todos e fê-lo pela calada, desprezando toda a gente. Mas a culpa não é da CP; é, antes, de todos os pacóvios que transformaram o país num tapete de asfalto, bom para a camionagem, para as empresas de obras públicas e para o consumo de gasolina. Em vez de investir em comboios e serviços decentes para passageiros e mercadorias, os sucessivos governos destruiram um património secular e uma parte da nossa geografia cultural – tudo em nome das ‘grandes obras’ e do ‘grande dinheiro’. Hoje há pouco a fazer. Há alcatrão, cimento, camionagem e gasóleo. Tudo caro. Os comboios portugueses inventaram um país, povoaram-no, desenharam a nossa geografia. Era um país mais bonito do que este.

[No Correio da Manhã.]



FJV
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10 comentários:
De PS a 26 de Março de 2009 às 13:51
Bem mais bonito.


De Fadistas S.A. a 26 de Março de 2009 às 14:06
"Oh tempo, volta para trás."

Vem aí a alta-velocidade, se já agora mal vemos as balas pendulares, que exercícios prazenteiros de ócio teremos ao observar as próximas apressadas máquinas?

Encontramo-nos nos museus dos caminhos de ferro, que belo nome, caminhos de ferro, para uma metáfora recortada num bom poema.


De Amêijoa Fresca a 26 de Março de 2009 às 14:45
Pela noite e pela calada,
desprezando as populações,
a cultura é “desmantelada”
por devassas paliações!

A nossa geografia cultural
nas mãos destes ignorantes,
atinge um nível gutural
de contornos aberrantes!

De alcatrão e de cimento
Portugal tem sido desenhado,
triste é o lamento
do mexilhão estremunhado!


De Mariscando por aqui a 26 de Março de 2009 às 15:09
Senhor bivalve, pergunto sem maldade, o senhor é mexilhão ou é amêijoa? Ou cabem os dois nas mesma concha?, um em cada valva?


De Amêijoa Fresca a 26 de Março de 2009 às 15:26
Resposta em prosa, ok?
É uma pergunta pertinente, de facto. Penso que estou perante um problema de dupla personalidade, sem dúvida! Agora a sério, são duas personagens da minha escrita (das histórias filtradas por mim): a amêijoa representa a “escritora”, a “moralizadora”, a “racionalizadora” e a “defensora” do mexilhão; o mexilhão, por sua vez, representa o “pobre coitado", o “pacóvio”, o “emocional” zé-povinho. Voilà!


De Inacreditável! a 26 de Março de 2009 às 16:09
Talvez em vez de TGV's, se devesse pensar em comboios de mercadorias [contentores de 20' e 40' atrelados numa automotora] porque há uma semana que ando à procura de um transporte para meia dúzia de tarecos [sem valor comercial mas com valor estimativo] e o preço mínimo que consegui até agora, de Lisboa a 380 kms de distância sempre por estradas magnificas, foi de 650 Euros [130 contos! por um percurso de 3H30 de condução]. O primeiro foi 900 euros. Realmente, vão roubar para a estrada!


De Um bocado desbocado a 26 de Março de 2009 às 17:36
Aberto a todas as interpretações: se é assim, então os seus tarecos são enormes!


De JAKIM a 26 de Março de 2009 às 18:17
INACREDITÁVEL,

A rapacidade destravada de alguns (demasiados) prestadores de serviços fê-los esquecer num ápice a razão €uro/E$cudo e também a outra e vai de multiplicar vezes sem conta os seus preços de tabela, sem conta, sem medida e, muito especialmente, sem vergonha. Já tive um problema idêntico - o de trazer uns quantos tarecos de uma distância de trezentos e tal quilómetros - e resolvi-o muito, mas muito, abaixo dos tais 130 contos que tiveram o descaramento de lhe pedir: aluguei um furgão num rent-a-car, guiei-o para norte e para sul e trouxe os ditos tarecos de forma muito mais expedita, ao bom estilo "quem quer vai, quem não quer, manda". Esperando que o que vem dito lhe dê alguma ideia melhor ou lhe resolva o problema, aqui lhe deixo os melhores
Cumprimentos.
JAKIM.


De Marcelo Teixeira a 26 de Março de 2009 às 21:31
Caro Francisco,

Não é só desprezo. Estas medidas já não podem levar o espanto a ninguém, nem sequer aos mais incautos, que seguem e defendem leal e acriticamente a arrogância que caracteriza a gestão do luso quintal.

O que menos espanta é a cobardia com que as coisas se fazem. Nada de extraordinário aconteceu, limitaram-se a seguir os métodos do Eng. Ferreira do Amaral, que procedeu de igual forma no início dos anos 90 ao encerrar o troço Mirandela – Bragança da linha do Tua (deslocando a CP o material ao abrigo da noite, depois de uma primeira tentativa gorada devido à revolta das populações, recordam-se?)

O que menos admira é o desdém absoluto das entidades envolvidas. A CP e a Refer não avisaram ninguém? É natural que nãos percam tempo com banalidades… Nas zonas que deixaram de ser servidas pelas linhas do Tâmega e do Corgo há aldeias com idosos que ficaram (mais) isolados? Ora, já não produzem… Há crianças sem poder ir à escola? Há muito campo abandonado para cultivar… Tinham as linhas potencial turístico? Não chateiem, vão fazer um cruzeiro nas Caraíbas…

O que menos surpreende é a filosofia de actuação dos ocupantes dos cargos públicos, capitaneados por essa figura que dá pelo nome de Mário Lino e, mais acima, José Sócrates. Nada pode travar o progresso, a modernidade portuguesa leva já muitos anos de atraso.

O que surpreende, sim, e revolta, é perceber que, trinta e cinco anos depois dos quarenta e oito, é a falta de intervenção cívica portuguesa que permite situações desta natureza.

Marcelo Teixeira


De nuno ferreira a 29 de Março de 2009 às 13:08
Era muito mais bonito


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