O texto de Manuel Maria Carrilho no DN de hoje chama a atenção para coisas essenciais, comuns a governos de esquerda e de direita. Não se trata de um ataque da cultura ao erário público, mas da necessidade de valorizar a cultura e de iniciar um debate sobre o papel do Estado na sua promoção e protecção. Estão incluídos o património (quanto a mim, elementar e fundamental -- e continuamente desprezado até à erosão, quer da rede de museus, quer do «património edificado» e visitável), a leitura pública (continuamente desprezada e ignorada, em favor da tecnomania actual, e salva apenas pela contribuição dos bibliotecários) e o apoio às artes. Tenho dúvidas sobre este último aspecto, se «o apoio» se restringir ao financiamento e atribuição de subsídios, e não avançar para o espaço vazio que o Ministério da Educação deixou por ocupar, em matéria de -- por exemplo -- educação musical e artística, ou de itinerâncias pela província. O texto de Carrilho é corajoso nestas circunstâncias. Mas creio que não vai haver debate nenhum. Querem lá eles saber do assunto.
Ver os comentários de João Gonçalves e de Tomás Vasques.

9 comentários:
Invisível, ilegível e incompreensível,
três palavras definidoras
de uma legislatura risível,
de políticas aterradoras!
Com o garrote orçamental
da (des)governação socialista,
a asfixia é brutal
de uma cultura miserabilista!
O mexilhão interessado
por uma cultura decente,
fica literalmente arrasado
com esta política indecente!
A Amêijoa Fresca agradecida
por tão honrosa distinção,
sente-se francamente embevecida
e bebe um whisky de “eleição”!
Agora, em prosa. Leio no seu comentário algumas inquietações críticas com as quais concordo, em absoluto. Aliás, após ter lido o artigo no DN, também me ocorreu a seguinte “quadra”:
Pelos nomes foram chamados
os bois da nossa desgraça,
os espíritos mais definhados
não lhe acham muita graça!
Bem haja!
Bolas, Fracisco! O debate de que 'eles' não querem saber também depende da capacidade que tenhamos de o forçar — por que me parecerá que há uma espécie de rendição nesta tua posta?!
Não a leio ou a encontro, a essa rendição, nem em Carrilho nem no João Gonçalves, ambos com uma frontalidade e acutilância de que muitos, ou por comprometimento com a agenda do Poder ou por alienação natural sob a Situação, se mostram incapazes.
Será próprio apenas dos que passam fome e dificuldades lutarem como doidos por causas de que 'eles' não queiram saber? Mesmo enquanto património e causa, Portugal não tem ninguém ao leme.
«Much ado about nothing»?
De Niet a 25 de Março de 2009 às 20:45
O senhor MM Carrilho é um grande ponto. Terceira " escolha " de Guterres, cedo espezinhou os lances especulativos e anti-estatais de mestres , Deleuze e Rorty, pelo menos, abracando as teses da " sopeira " de Mitterrand e hoje homem-de-mao de Sarkozy, Jack Lang. Piruetas magistrais denunciadas ,a seu tempo e horas, por Torcato Sepúlveda, Vasco Pulido Valente, José Fonseca e Costa e António Barreto, se estao bem lembrados.
Agora na UNESCO, em Paris, apontou os canhoes e " assassina " de mao-beijada a Cultura da era Sócrates, sem um módico de compreensao e camaradagem pelos seus companheiros de partido. Coisas à Carrilho: integrou Portugal na era do Espectáculo Integrado e queimou milhoes de subsídios europeus em obras de alcance muito polémico e na gangrena das legioes de subsidio-depentes...A ambicao era tanta...que correu o boato de querer suceder a Sampaio em Belém...Paladino do Oxbridge de pacotilha vê-se agora em Paris numa jaula dourada, onde o hiperrealismo do Terceiro Mundo lhe irá tirar o sono e os sonhos...Niet
Duvido que os apoios às artes a que o texto se refere se restrinjam "ao financiamento e atribuição de subsídios". Mas não é preciso conhecer a resposta para virmos a esta caixa de comentários e sorrirmos com expressões como "gangrena das legiões de subsidiodependentes". É o que dão os encontros com a ingenuidade. Quem tivesse, de facto, noção do país onde vive e do que realmente se passa nos bastidores do seu tecido cultural, mais depressa louvaria o trabalho dos supostos subsidiodependentes e pediria mais investimento na Cultura, nomeadamente nos apoios (que, de resto, não são apenas destinados à criação). São ideias erradas e estafadas mas, principalmente, preguiçosas. Só preconceito não basta.
Declaração de interesses: directamente não os tenho, não recebo subsídios.
De LUIS BARATA a 26 de Março de 2009 às 09:53
"Querem lá eles saber do assunto"- Está tudo dito. Basta pensar nas escassas linhas sobre cultura que constavam da moção de Sócrates aprovada no Congresso de Espinho.
De Niet a 26 de Março de 2009 às 22:46
Acenar com miríficos subsidios nao me parece ser o objectivo político de MM Carrilho pela publicacao deste panfleto.No meio de um conflito assimétrico que se prende com as dificuldades efectivas da expressao política numa Democracia Representativa, MM Carrilho desfralda a bandeira da prossecucao de uma Politica Cultural via seleccao e escol de iluminados e de intocáveis. Claro está, ele acena para uma espécie fora-de-uso( e nao localizável em Portugal) de Burocracia Celeste. Que nao tem( nem pode ter preco) e que acabaria por criar conflitos pela imposicao de regras e catálogos de programas e procedimentos numa escalada incontrolável e dantesca. Numa microscópica escala, foi o que surgiu no seu Consulado(Carrilho), com a vertigem dos afastamentos e zangas no inner circle,de muito mau estilo e sentido.E que a Imprensa relatou e comentou.Como dizia Maquiavel, as pessoas que desejam viver livres sao as que menos desejam dominar...Niet
De Martins a 28 de Março de 2009 às 17:10
Curioso!...Quando Carrilho se candidatou à Câmara de Lisboa, não descansaram enquanto não desfizeram o homem em picadinho. Agora que Carrilho, bem instalado no seu posto de Embaixador na Unesco, se entretem a dizer mal de Portugal e da política cultural do governo, agora passou a ser um intelectual, um homem de visão, etc, etc. Realmente a direita é muito porca!
Comentar post