
Anjos Caídos, de Harold Bloom (Editora Objetiva): «Alteridade é a essência dos anjos; mas também é nossa essência. Isso não significa que os anjos sejam nossa alteridade ou que nós sejamos a deles. Antes, eles manifestam uma alteridade ou uma possível semelhança com a nossa, nem melhor nem pior, mas apenas graduada em escala diferente. O Museu do Vaticano coleciona anjos; nisso, estão juntos devoção e interesse próprio. O que o Vaticano e também a Religião Americana não aceitariam é minha crescente convicção de que todos os anjos, agora, são necessariamente anjos caídos, da perspectiva do humano, que é a perspectiva shakespeariana.
Todo anjo é aterrorizante, escreveu Rilke, que não tinha enfrentado uma tela de cinema na qual John Travolta brincava como um anjo. O que pode significar afirmar que, ainda assim, não é possível uma distinção entre anjos não-caídos e caídos? Nós somos Adão (ou Adão e Eva, se preferem) caído, mas já não somos caídos no sentido agostiniano ou cristão tradicional. Como Kafka profetizou, nosso único pecado autêntico é a impaciência: é por isso que nos estamos a esquecer de ler. A impaciência é cada vez mais uma obsessão visual; queremos ver uma coisa instantaneamente e depois esquecê-la. Leitura profunda não é assim; leitura exige paciência e memória. Uma cultura visual não consegue distinguir entre anjos caídos e não-caídos, uma vez que não podemos ver nenhum dos dois e estamos a esquecer de como nos ler a nós mesmos, o que significa que podemos ver imagens de outros, mas não podemos realmente enxergar os outros nem a nós mesmos.»

11 comentários:
De
bloom a 6 de Novembro de 2008 às 12:38
digam se não é lindo...
De
Mónica a 6 de Novembro de 2008 às 18:37
fica a apetecer ler mais, assim, profundamente
De
McFly a 7 de Novembro de 2008 às 14:47
Incrível. Ainda não experimentei Bloom (e oportunidades não faltaram).
Em breve, espero. Por onde deveria começar, alguma sugestão?
De Nélson a 7 de Novembro de 2008 às 16:03
O Cânone Ocidental é um clássico, mas o Genius é o meu preferido (ver crítica aqui: http://orgialiteraria.com/2008/07/genius-mosaic-of-one-hundred-exemplary.html).
FJV, onde se pode arranjar esse livro do Bloom?
De Nélson a 7 de Novembro de 2008 às 16:04
O Cânone Ocidental é um clássico, mas o Genius é o meu preferido (ver crítica aqui: http://orgialiteraria.com/2008/07/genius-mosaic-of-one-hundred-exemplary.html).
FJV, onde se pode arranjar esse livro do Bloom?
De Bernardo Grangel a 8 de Novembro de 2008 às 15:25
"Como Kafka profetizou, nosso único pecado autêntico é a impaciência"... bonito, mas estaremos a falar de Franz Kafka? Tiradas destas fazem parte dum novo estilo que grassa nos blogs de natureza pseudo-intelectual. Instrua-se por favor, e leia-o bem, antes de concluir.
De Pseudófilo a 9 de Novembro de 2008 às 13:18
Instrua-me, Bernardo.
Para começar, distinga-me intelectual de pseudo-intelectual, e situe-se, por favor, em qual dos dois temos este Bernardo?
Achei muito curiosa a pergunta, estaremos mesmo, mesmo, mesmo a falar do Franz?
Caramba, e ninguém pediu autorização ao Grangel? Isto, sim, é o motivo mor de uma indignação.
De Bernardo Grangel a 12 de Novembro de 2008 às 01:39
nem "intelectual " nem "pseudo-intelectual", fujo deles sempre que posso. Sou apenas um leitor honesto do autor referido, que apesar de apreciar muito o trabalho do autor FJV, discorda profundamente dele nesta tirada acerca de FK. Terei todo o gosto em discutir este assunto mas duvido que um pensador da sua envergadura alguma vez se disponibilize a dialogar com um simples e humilde leitor.
De Pseudófilo a 12 de Novembro de 2008 às 12:06
Como conseguiu medir a minha envergadura?
Bernardo, desiluda-se das aparências.
Por mim, não o acredito assim tão simples ou humilde, assim como não me acredito como pensador, ou isso além do amadorismo.
De Nélson a 12 de Novembro de 2008 às 15:00
Oh anormal, o texto não é do FJV. É do Harold Bloom, professor em Yale e um conceituado crítico literário.
Nem sabe ler...
De Bernardo Grangel a 12 de Novembro de 2008 às 15:59
orgulhosamente anormal, mas honesto meu caro.
Friso novamente que admiro, e muito, a escrita do exmo FJV, mas discordo deste estilo de tiradas. Ao copiar e colar um texto, neste contexto, presumo que pelo menos estejam ambos de acordo: o "conceituado crítico" e o exmo FJV; mas talvez esteja errado. Chamo-me mesmo Bernardo Grangel por acaso.
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