Sexta-feira, 03.10.08

 

Adeus, Dinis. Até amanhã, entre fumo e histórias — as de futebol e andorinhas, as que nos enchiam de riso e as que havemos de contar ainda.

Dinis Machado, o autor de O Que Diz Molero, morreu hoje, sexta-feira. Ele era, também, Dennis McShade.

 

 

 

Dinis Machado é o autor de um dos livros que, se fôssemos mais tocados pela palavra «gratidão», elogiaríamos com mais frequência: O Que Diz Molero, publicado quando a ficção portuguesa não sabia que era portuguesa e ignorava que tinha de trocar de bandeiras, por volta de 1977. O Que Diz Molero, o livro que não envelhece, foi o primeiro grande best-seller de ficção portuguesa depois da revolução e transportava uma imensa alegria nas suas páginas. Ora, na época em que a chamada «literatura policial» não se escrevia em nome próprio (até porque, no Portugal de Salazar, não havia razões para que os romances se ocupassem de crimes lusitanos – que «não existiam»), Dinis Machado inventou um personagem admirável, o assassino Peter Maynard (devedor de Pierre Ménard, a quem Jorge Luis Borges atribui a proeza de reescrever o Quijote palavra a palavra), e um pseudónimo adequado para figurar como autor: Dennis McShade. [Do Editorial da LER 72]


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6 comentários:
De Cochise a 3 de Outubro de 2008 às 23:19
Na noite da passagem de ano de 77 para 78, noite de grande tempestade, na sequência de um desgosto "do coração", fui para a cama às 11 horas com O QUE DZ MOLERO comprado uns dias antes. A intenção era ler 2 ou 3 capítulos para me ajudar a adormecer. Foi um deslumbramento e só consegui dormir depois de o ter terminado. O dia seguinte amanheceu esplendoroso e o ano de 78 foi dos melhores anos da minha vida. Nunca mais esqueci aquela noite, aquele ano e aquele livro. Tenho essa divida com o Dinis Machado.
Que o Grande Manitou o receba condignamente.


De ams a 4 de Outubro de 2008 às 00:15
"quando a ficção portuguesa não sabia que era portuguesa e ignorava que tinha de trocar de bandeiras (...). Se pudesse explicar, agradecia.


De Mónica a 4 de Outubro de 2008 às 10:45
poucos poderão (viver e) morrer como ele: cumpridos. com tudo o que é preciso escrever já escrito


De A. Pinheiro Torres a 4 de Outubro de 2008 às 19:28
Eu também fiquei mais admirado que o Austin a olhar para o Deluxe - quando atingi a cena dos "camones" no Bairro Alto.
Caramba, este extraordinário escritor devia ser ainda um Grande argumentista.
RIP Mc Shade.


De António a 5 de Outubro de 2008 às 17:48
Só para referir o importante papel que Dinis Machado teve numa outra área, a Banda Desenhada.
Ele foi um dos responsáveis pela elaboração da revista Tintin , que a partir de 1968 mudou a forma como a banda desenhada era vista em Portugal.


De Mário a 6 de Outubro de 2008 às 10:18
Uma dupla vénia a Dinis Machado, pelo livro que comprei na altura da saída e pelo seu papel na revista Tintin (que foi a minha abertura ao mundo mais vasto).



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