Sábado, 20.09.08

 

Que haja políticos que viveram da «política da emigração», não me espanta. Espanta-me que agora falem em chapeladas, depois de terem passado vinte ou trinta anos a organizar chapeladas, a participar em jantares e «festas da emigração», a angariar fundos entre emigrantes – para o partido, para as campanhas –, a promover nomenklaturas locais e estudar colocações políticas escandalosas. Basta viajar um pouco pelas comunidades de emigrantes para ficar surpreendido com o que está em jogo: pequenos interesses, falta de ligação às próprias comunidades, desprezo pela condição de emigrante, desprezo pela ideia de participação democrática. Sim, parece que a opinião da emigração é um pouco «reaccionária». É gente que teve de sair de Portugal para poder viver com dignidade – dizem-lhe agora que, afinal, não tem dignidade bastante para votar e meter o seu voto num envelope. É uma democracia controlada, manejada consoante a feição dos interesses? É, provavelmente, sim. Mas é sobretudo uma vergonha. Uma vergonha que dá vergonha.
Eu, se fosse emigrante – e da próxima vez que fossem visitar-me em romagem, à cata de votos e fundos para as campanhas, a falar de diáspora e das «remessas» – mandava-os à merda.

[Na imagem, Caracas.]



FJV
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6 comentários:
De paulo miranda a 20 de Setembro de 2008 às 20:42
vale tudo!


De André Couto a 20 de Setembro de 2008 às 21:54
Os votos são como o que dizem das sondagens: "valem o que valem". E valem muito, os votos, pelo menos.
Gostaria apenas de referir o seguinte, se com votos por correspondência a abstenção foi elevada nas últimas eleições, nem quero pensar no que acontecerá com voto presencial.
Mas o fundamental da questão para mim é o seguinte:
Cabe ao responsáveis pelos organismos da democracia zelar, promover e facilitar o acesso dos cidadãos à vida pública do país, quer em questões de fundo, quer em questões tão prosaicas como, imagine-se, votar. O que não poderá nunca é o Estado ser um elemento dificultador e de encravamento do acesso dos cidadãos a um dos seus mais essenciais direitos (e também dever): O voto.
Se um cidadão, apenas um, desejar manifestar a sua opinião e, através do voto cumprir a sua obrigação de cidadão, não pode o Estado, mas não pode mesmo, servir de obstáculo. Nem com a desculpa que seja um obstáculo facilmente transponível.

Cumprimentos


De Carlos Azevedo a 21 de Setembro de 2008 às 02:07
Nem mais.


De Helder Fernando a 21 de Setembro de 2008 às 04:29
O voto que mete medo

Por circunstâncias várias, iguazinhas a elevado número de cidadãos de nacionalidade portuguesa, não sinto nem nunca senti a totalidade das possíveis angústias ou alegrias próprias do imigrante ou do emigrante. Mas, claro, senti algumas.
Agora mesmo, sinto que a governança portuguesa continua a não perceber – pior, a não querer perceber – as realidades de quem faz a sua vida fora do País. A completa insensibilidade daqueles senhores e daquelas senhoras que vivem dos bitaites ” governamentais, pela real importância da grande comunidade portuguesa (e até da língua portuguesa) no estrangeiro, para além de absurdamente estúpida, chega a parecer arrogantemente provocatória.
De alguns milhões de compatriotas, somente uns 150 mil estão inscritos para votar; destes, uma reduzidíssima parte adere ao acto eleitoral. Os números falam por si. Para grande e óbvio contentamento da generalidade dos políticos profissionais em Portugal, tanto nos poderes como nas oposições. Nunca se mostraram consequentemente interessados em que as coisas fossem de outra maneira. A gente, cá de fora, sabe bem porquê.

Os portugueses fora de Portugal, embora, por motivos óbvios, continuem a enviar remessas, são sistematicamente empurrados para o abismo da indiferença em relação à Pátria. Resultado, mais de 80 por cento de abstenção for a de portas de cada vez que há eleições legislativas.
O que é que o governo – que, desde sempre, tem lidado gostosamente com essa realidade – vem propor? Curto e grosso: Acabar com o voto por correspondência. Por causa da “segurança”, do “risco da falta de transparência”, por o voto presencial ser um “acto mais digno”. E mais, a nova medida far-se-á contra os “sindicatos do voto”. Empolgante esta cruzada governamental lusitana.
Onde terão ido buscar a ideia? Que estudos foram feitos, onde, quando e por quem? Detectaram-se casos graves, em quantidade e estratagema, de fraude eleitoral, de falsificação, de desvio de votos? A favor de quem ou a desfavor de que força política? Nesta material, há arguidos, acusados ou já culpados?
Em Macau, mesmo nas rapidinhas visitas ministeriais cheias de graça, nunca ouvi falar de que o voto por correspondência era menos digno, nem da existência de “sindicatos do voto”; pelos vistos, nunca se sabe. Ou seja, eles lá sabem… (...)
Lá, pelas urnas da lusitana Europa, para além do projecto de lei do PS visando acabar com o voto por correspondência dos emigrantes, a partir das próximas legislativas, estão previstos outros procedimentos como o voto electrónico, por exemplo? Ou acordos com representações municipais no estrangeiro? É que existem situações em várias partes do mundo, de comunidades de eleitores portugueses a centenas e até milhares de quilómetros de embaixadas ou consulados. Mas isto são minuciosidades para a grandeza dos governantes.
A democracia sempre trouxe riscos. Vai daí, o PS do Rato estudou com profundidade outras propostas, outros mecanismos sugeridos, só pode ser. Ou, em vez de estimular ao voto e ao bom ambiente à volta do eleitor, propiciá-lo a percorrer cada vez melhor os caminhos da cidadania, da ligação à Pátria, não faz nada disso?
Será que o partido e o governo decidiram, desta vez assumidamente, dar uns atrevidos pontapés no rabo em mais de 4 milhões de portugueses que já não têm rabo para aturar tanta aparente incompetência, tolice e ignorância à solta?
Integração dos portugueses com direito a voto, na vida política da Pátria, porquê e para quê, se os centros de decisão em Portugal não gostam nem permitem?
Só se fosse para influenciarmos o eleitorado a acabar com os métodos habituais de reinar, e, pelo modo democrático, correr com aquela espécie de reinóis dos centros de decisão. E influenciarmos alguns políticos a serem melhores pessoas e melhores governantes. Disso têm eles medo, dá-nos uma trabalheira e temos bastante mais que fazer.

Helder Fernando


Publicado no jornal HOJE MACAU, 16-09-08



De martins a 21 de Setembro de 2008 às 09:52
Não vale a pena estar com "análises" esquisitas sobre o vvoto dos emigrantes. O voto, em qualquer eleição, deve ser sempre presencial e nunca por correspondência. Porquê agora este alarido da direita?


De Niet a 21 de Setembro de 2008 às 10:06
Existe um sindroma de Lellização da vida política portuguesa. Que tenta corromper a idoneidade e classe do punhado de homens que rodeia ainda o Sócrates Pereira de Sousa.Esta farsa de manipulação eleitoral vai dar cabo do que resta dos exaustos núcleos de Esquerda Democrática lusitana nos Cinco Continentes. Tudo pelo afã alarve de tentar preservar a deputada Maria Carrilho e um " funcionário ", P Pisco, que sobrevive sob as ordens de José Lello e os seus amanuenses, cópias de estilo Maquiavel minhoto, cmo dizia o outro tenor da Direita, Proença de Carvalho, contrabandista sem pejo das ideologias " centristas " do sistema político plutocrático que nos envergonha e enoja.


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