Ainda a propósito
desta polémica, o oficial
Jornal de Angola encetou uma campanha para a
canonização absoluta de Agostinho Neto. Compreende-se. Mas
neste outro artigo, sobre «Literatura e Identidade Política», a coisa vai mais longe, até ao «exercício de cidadania», depois «da “insolente” entrevista do Escritor José Eduardo Agualusa, sobre a poesia de Neto». Como preâmbulo não está mal: «
Ao escritor importa narrar, verdades ou inverdades, mas cabe aos professores, intelectuais ou sábios ensinarem o que é verdadeiro, científico, afastando os embustes, malabarismos; e aos políticos servirem em nome do bem comum.»
A seguir, a canonização: «
A escrita não pode servir para humilhar, banalizar, diabolizar os ícones, heróis, mitos, deuses ou divindades; Neto é Kilamba, kituta, kiximbi; sendo-o é intérprete das divindades aquáticas do Kwanza, é o antropónino de crianças que nascem com poderes especiais, segundo o antropólogo Virgílio Coelho (1989).» Note-se que «
quem o ataca, ataca a razão da utopia – a Independência de Angola».
Mais adiante: «
Exige-se respeito, veneração, solenidade aos heróis, escritores, mesmo quando os gostos estéticos diferem. É uma questão de temor reverencial, seja sobre Neto ou qualquer outro escritor que retrata da nossa identidade [...].»
Chamo especial atenção para esta passagem, em que o autor (que ensina Ciência Política e Direito Público) pede a
criminalização de José Eduardo Agualusa:
«[...] deve haver responsabilidade criminal e civil por estarem reunidos todos requisitos do ultraje à moral pública (ofendeu a moral cultural ou intelectual dos angolanos), previsto e punido no Artigo 420º do Código Penal. É preciso moralizar, sob pena de banalizar a figura mais importância da nossa memória colectiva contemporânea.»

9 comentários:
Realmente em consonância com as "agressões ideológicas" dos tempos do PREC ...
De
jpt a 7 de Abril de 2008 às 00:43
aprecio, em particular, o "temor reverencial"
O que me fascina mesmo é o modo como o discurso antropológico foi incorporado no discurso político africano, como arma ideológica. Estas citações são maravilhosas.
De
Ciranda a 7 de Abril de 2008 às 12:09
Como é que é???
De JN a 7 de Abril de 2008 às 15:03
... e pronto José Eduardo Agualusa, já tem a sua fatwa
Agualusa foi muito condescendente ao considerar Neto um "poeta medíocre".
É que Agostinho Neto jamais foi poeta. Chamar-lhe tal coisa é ofender os poetas.
O que ele foi sabem-no bem os que não se deixam levar por patranhas: um ditador sanguinário, responsável directo por milhares de mortes.
De Anónimo a 19 de Abril de 2008 às 22:19
Eloquente, este comentário!
Manuel Barata
Cada um tem direito a sua opinião, enfim, dizem que só a verdade é que magoa... Mas parece que há mais mediocridade, só de olhar para um suposto professor universitário a fazer discursos idióticos dá me vontade de rir... ou chorar... ou um mistura dos dois.
De Miguel Marques a 22 de Abril de 2008 às 17:39
Sou angolano e vivo em Angola. O Agualusa foi infeliz, motivado pela sua arrogância que desta vez acompanhou e mal com ignorancia.O dito cujo não fundamentou o porque dos visados serem medíocres e tambem não esclareceu porque é que entende que todos aqueles que apreciam o que neto escreveu "nao percebem nada de poesia".A.Neto em particular viveu num contexto de guerra colonial e tinha um papel fundamental nessa guerra, logo as suas obras reflectem isso mesmo. Ele não era escritor, escreveu.É isso que o Sr.Aguaardente tem de compreender, o contexto.A.Neto escreveu encarcerado, nas matas,etc.Não como o esse senhor que escreve como profissão à beira-mar plantado.Tem de se relativizar os contextos.
Quanto ao professor universitario que quer canonizar A.Neto chamasse João Pinto e é um fanatico do MPLA, por isso deve ser desculpado.
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