Três milhões e meio de portugueses conheceram-se na internet através do Hi5. Parece-me um manifesto exagero, mas é muito provável que seja verdade. Os portugueses gostam de si mesmos, mas à distância. Quando estão próximos uns dos outros tendem a considerar que a ficção é muito melhor do que a realidade. A estatística apenas me surpreendeu porque passei algum tempo a imaginar o que dirão, uns aos outros, esses três milhões e meio de portugueses; na maior parte dos casos não conhecem o cheiro uns dos outros nem o tom de voz (se é estridente ou amável), nem as mentiras que as pessoas dizem normalmente. Pela internet, no Hi5, conhecem uma fotografia, uma biografia melhorada e os erros ortográficos uns dos outros. Se pensarmos bem, é uma revolução porque corresponde a quase um terço da população. Antes do Hi5 estávamos sós, irremediavelmente sós, sem comunicação, ignorando-nos? Ou já nos conhecíamos mas preferimos a internet porque, ao perto, somos insuportáveis?
No Correio da Manhã de ontem.

21 comentários:
Francisco, se pudesse fazer bandeira deste texto era o que faria. Para ver se acordam e se dão conta da pobreza contida neste tipo de relação. Apesar de alguns momentos de insuportabilidade, também prefiro o cheiro, o calor, os abraços verdadeiros e não virtuais. Mas, talvez seja uma mudança civilizacional e nós ainda não percebemos.
De Jorge Vassalo a 15 de Fevereiro de 2008 às 18:09
caro Francisco, é natural que se aumente este epifenómeno. O facto de muita gente ter um perfil no Hi5, Netlog, Fotolog, etc (eu tenho, por acaso~), não forçosamente faz com que se crie laços com ostros "amigos" ou "amigos" de "amigo. Tenho 200 e pico amigos no Hi5. Não tenho 200 e picos amigos. A internet faz no Hi5 o mesmo que faz aqui. Torna possivel conhecer-se quem, por barreiras simples como a rede social, a rotina do dia-a-dia, a teia de conhecimentos, o tempo ou até este acabrunhamento pessimista e fechado tipicamente português não poderia conhecer.
É um facto. Mas não faz com que se Ame, seja de que maneira for, outra pessoa sem que se conheça. Num bar não conheceria, por exemplo, o íntimo de alguém melhor. E uma coisa havia de positivo no tempo da Telnet ou do agora vazio Irc. Não se via as caras, mas via-se muitas vezes os corações....
Agora, mais tarde ou mais cedo, tudo se inverterá. O cheiro, o toque, o sabor, o olhar... tudo isso ainda é muito mais importante. E vital. Um abraço poveiro, esta bela terra onde recentemente esteve.
De C a 16 de Fevereiro de 2008 às 00:52
Nem mais, e ainda que na net (se os interessados quiserem), depressa se encontram, vêem, falam, ouvem, amam ou não e; tal como diz o nosso anfitrião criador deste blogue, se cheiram. Do virtual ao real visível é um passinho. Querendo.
De Anónimo a 15 de Fevereiro de 2008 às 21:49
Mas são sobretudo os miúdos, acho eu. Os miúdos, na escola, estão sempre com o Hi5 minimizado enquanto alegadamente investigam não sei quê sobre a matéria.
Os miúdos e a minha mulher-a-dias, que tem arranjado muitos namorados através do dito meio.
Não tenho opinião muito negativa sobre o assunto. Enfim, é um meio como outro qualquer para se conhecerem pessoas. Umas vezes resulta, outras não.
O cheiro, o tom de voz... Francisco, não és deste mundo. Melhor, és um romântico. Quem é que se preocupa com isso, nos nossos dias. Os outros são bons/boas ou nada. É só.
De
anita a 15 de Fevereiro de 2008 às 22:54
e como é que se faz para conhecer todos esses portugueses? Qual é o endereço desse tal Hi5? ;-)
Anita
P.S. bom blógue!
De isabel prata a 16 de Fevereiro de 2008 às 06:18
acredita nesse número Francisco? já reparou que é mais de um terço da população portuguesa? ai, ai! compare com a percentagem de portugueses que usam internet (o INE deve ter esse nº).
De Paulo a 16 de Fevereiro de 2008 às 18:56
Sim, Francisco.
Somos insuportáveis.
Tanto fora, quanto dentro da Internet.
O HI5 permite-me esconder a minha cara feia, viver carnavalescamente em paralelo, com a fantasia e o alter-ego.
Viver em ficção.
E sabe que mais?
A culpa (ou mérito...) é da literatura...!
De C a 17 de Fevereiro de 2008 às 10:32
Sublinho o que disse, embora eu não 'seja Hi5'. A literatura (o livro em si) conduz-nos para ideias e mundos outros, (quantas vezes inacessíveis por todas as razões), e/ou paralelos. Seduz, leva o leitor para fora de si mesmo mas para dentro dela própria. Possessiva isola. A net junta alguns destes alienados.
A sociedade evolui a cada passo, mas os «velhos» são avessos à mudança e acham mal que os miúdos sejam muito diferentes. Tenho resistido embarcar nesses contactos . Ainda não vou além dos e-mails e dos bglogs.
Estes permitem treinar a escrita, alinhas as ideias e traduzi-las em textos com coerência e lógica e, se possível, em bom português.
Abraços
No blog Do Miradouro (http://domirante.blogspot.com/) há novos artigos
De anonimo a 17 de Fevereiro de 2008 às 13:42
E parte deles agora hanegam pela PNET.pt
http://www.pnet.pt
De
Snowmass a 17 de Fevereiro de 2008 às 17:39
Gostamos de parecer o que não somos, e assim podemos ficar sempre com melhor aspecto, ideias, especulando a imaginação de outrem!
Igualmente temos que afirmar que temos apetência para usar e abusar de telemóveis e claro de Hi5.
E também gostamos pouco de trabalhar no real - preferimos o virtual!
De paulo miranda a 17 de Fevereiro de 2008 às 17:49
excelente artigo!
Comentar post