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por FJV, em 24.06.06
||| Martin Adler. {Actualizado}













Martin Adler tinha 47 anos e foi assassinado ontem, a tiro e pelas costas, na Somália, durante uma manifestação convocada pelos Tribunais Islâmicos. Martin estava em trabalho para o Channel Four inglês, ao serviço de quem já ganhara alguns prémios para reportagens efectuadas nos lugares mais perigosos do planeta -- da faixa de Gaza ao Afeganistão, da Somália e da Etiópia à Colômbia.
Martin escrevia também para a imprensa sueca e inglesa (Daily Telegraph e Independent) como free lancer. Acontece que não é um desconhecido para nós -- e especialmente para mim, que dirigi a Grande Reportagem. Martin era um excelente repórter que trabalhou para a Grande Reportagem no Ruanda, no Afeganistão, na Somália, na Colômbia, na Guatemala, no Sudão, no Paquistão, no Iraque ou na Tchechénia, por exemplo.







Várias capas da GR foram possíveis graças ao trabalho de Martin, que além de escrever muito bem e de ter o espírito de repórter permanentemente afinado, era também um fotógrafo de eleição (para quem tem colecções antigas da GR, vejam-se as fotos da Tchechénia ou do Afeganistão). Em 2002, Martin partiu para a Somália e para a Etiópia (a reportagem foi capa da GR), onde acompanhou grupos ligados à Al'Qaeda, negociantes de armas e de droga, bem como raptores de crianças destinadas a campos de treino terroristas no Sudão. Na Tchechénia escreveu, para a GR, alguns textos memoráveis sobre o assalto do exército russo a Grozny (onde ele prova a ligação entre as milícias muçulmanas e a Al'Qaeda). No Afeganistão «descobriu» o santuário dos taliban nas montanhas do Norte e as suas ligações ao exército regular que entretanto tinha sido formado. Essas reportagens foram prémio lá fora. Infelizmente, ignoradas aqui.
Nunca sabíamos onde estava Martin Adler. Os seus endereços de email (dois deles ainda guardo num caderno) bastavam-nos, ou um telefonema vindo de qualquer lugar -- da Suécia ou de Damasco, de Londres ou de Bogotá, de Bali ou de Cabul. As reportagens chegavam-nos no dia combinado, as fotos mostravam um mundo que não existia apenas na televisão. A sua fantástica humildade, só possível num grande repórter que fotografava, filmava e escrevia, era uma marca que notávamos sempre em Martin. Quando precisávamos de uma história (o fundamentalismo na Indonésia, as bombas de Bali, a morte em Grozny ou o rapto de crianças na Guatemala), Martin estava sempre disponível para a Grande Reportagem. Trabalhando para os gandes jornais ingleses e suecos, para a BBC ou para o Channel Four, Martin Adler nunca recusou escrever e fazer reportagens para nós. Algumas das grandes entrevistas com os líderes do terrorismo na Indonésia ou no Afeganistão, por exemplo, foram feitas por ele, e para a GR.
Morreu ontem, baleado pelas costas, aos quarenta e sete anos; negaram-lhe aquilo a que até então ele nunca fugiu: encarar o perigo de frente.
Onde quer que esteja o filho da puta que disparou aquelas balas, mais os filhos da puta dos Tribunais Islâmicos implicados na sua morte, gostava que houvesse justiça.

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Escreve o Pedro Almeida Vieira:
«Nunca conheci pessoalmente Martin Adler, mas desde que comecei a escrever na Grande Reportagem, no ano de 1998, habituei-me a acompanhar (respeitar com reverência) o seu excelente trabalho - mais, a sua coragem. Mas a palavra «coragem» tinha nele uma dupla, tripla expressão: porque os conflitos e as injustiças sobre as quais escrevia implicavam um verdadeiro risco de vida, pelas denúncias em si mesmas e por ele se expor fisicamente em locais perigosíssimos. Martin Adler era um «missionário do jornalismo»; e com ele (com os seus olhos e a sua pena) morreu, um pouco mais, a nossa (ténue) esperança de um Mundo são. A sua morte é a confirmação de que o Mundo é estúpido. E ele sabia disso; por isso, foi o jornalista que foi.»
Escreve o José Moreno:
«Na notícia do DN de hoje, fui primeiro atraído pelo título - "Jornalista sueco abatido a tiro em Mogadíscio" -, depois pela imagem de um corpo no inerte no chão e em seguida pela legenda da foto. Só então percebi que era a primeira vez que via uma imagem - a última - de um jornalista e reportér fotográfico que li com deslumbramento durante anos a fio na Grande Reportagem. Foi um choque tremendo para mim, pequeno certamente por comparação com o que certamente sentiram aqueles que o conheciam e com ele trabalharam. Se alguma palavra puder chegar aos que lhe eram próximos, que saibam que Martin Adler era um homem admirado e que o seu nome ecoa na minha memória - um anónimo leitor - como um agente da minha maneira de ver o mundo e por isso mesmo um formador de carácter. Obrigado.»
Escreve o Rui Branco:
«Ontem, numa esquina de Lisboa, levei com um murro no estômago. Ninguém me bateu, apenas me caiu em cima um bloco bem sólido de memória na cabeça. De vez em quando isso acontece-me, não sei porquê, não vislumbrei nenhum gatilho visual aparente, mas acontece. Lembrei-me do soldado desconhecido e de como é sobre ele que eu me ergo, de como somos todos soldados à força. Não sei se Martin Adler gostaria desta imagem, de soldado, provavelmente não. Mas refiro-o porque há um trilho, uma geneologia em que este jornalista tragicamente se insere, sem armas que matem mas morto por elas. Há batalhas importantes para esta guerra que ainda nos permite ressaltar murros no estômago imaginários (mas bem físicos, ao mesmo tempo). Haja muitos blocos de memória a cair-nos em cima da cabeça destes que nos farão sempre entesar a coluna e seguir em frente. Mas já bastam os exemplos, a memória do mundo tem um excesso de heróis.»



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FOTOGRAFIAS DE MARTIN ADLER DO ARQUIVO
DA GRANDE REPORTAGEM.


























































































































Para ver mais trabalhos de Martin Adler, consultar o arquivo da Panos Pictures UK (dica do P.A. Vieira)

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14 comentários

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De EUROLIBERAL a 29.06.2006 às 16:08

o "estado" terrorista de iSSrael prendeu 10 ministros e 20 deputados palestinianos eleitos democraticamente ! A ESCÓRIA NAZI-SIONISTA JULGA-SE O "POVO ELEITO" (pqop) E TRATA OS PALESTINIANOS COMO SUBHOMENS (Untermenschen, diziam os nazis), a quem nega todos os direitos cívicos e humanos. Não dá a nacionalidade nem permite que tenham um Nação independente. Querem mante-los em cativeiro, encafuados em guettos-bantustões, e permanentemente massacrados até ao genocídio total.

ESSES FILHOS DA PUTA NAZIS SERÃO TODOS ABATIDOS PELA NAÇÃO ÁRABE unida. NÃO MERECEM PERDÃO PULHAS NAZIS QUE ATACAM UM POVO INDEFESO A QUEM ROUBARAM A PÁTRIA, TERRAS E CASAS COM DIVISÕES BLINDADAS, F-16, APACHES, MISSEIS E NAVIOS DE GUERRA. TODA A ESCUMALHA cobardola DAS SS TSAHAL DEVE SER JULGADA E EXTERMINADA. SÃO A RALÉ DA HUMANIDADE.

E qualquer filho da puta que apoie esses nazis é isso mesmo: um filho da puta.
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De Sliver a 28.06.2006 às 19:46

Visite o Observatório da Jihad:
http://www.observatoriodajihad.blogspot.com/
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De Borboleta a 26.06.2006 às 15:52

«Choque» é a primeira palavra que me ocorre quando relembro o momento em que soube do assassinato de Martin Adler; «revolta» é a segunda. segui o seu trabalho durante anos na GR, admirava a sua mestria, a fluidez da sua escrita, a enorme sensibilidade da sua objectiva. há uma terceira palavra que me ocorre: «dúvida» - as palavras de condenação e as promessas de justiça não cairão em saco roto? apanharão o(s) seu(s) assassino(s)? descansa em paz, Martin...
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De nils a 26.06.2006 às 10:41

Ao ver as fotos passei a saber quem era... mais inquietante é saber que cerca de 15 anos me separam da idade de Martin Adler e ter quase a certeza que hoje (pelo menos em Portugal) já não fazemos repórteres assim. É bonita a sua homenagem, a ela me associo!
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De para mim a 25.06.2006 às 22:47

Concordo e subscrevo o que disse José Moreno...
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De M em Campanhã a 25.06.2006 às 19:54

também baleado pelas costas, morreu na Somália, há 9 anos, o médico Ricardo Marques, em missão ao serviço dos Médicos Sem Fronteiras.

então, como agora, não há nada (nem gritar mil vezes filhos da puta) que aquiete a dor raivosa de perder assim pessoas maiores que o nosso mundo.
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De Rui MCB a 25.06.2006 às 13:31

Ontem, numa esquina de Lisboa, levei com um murro no estômago. Ninguém me bateu, apenas me caiu em cima um bloco bem sólido de memória na cabeça. De vez em quando isso acontece-me, não sei porquê, não vislumbrei nenhum gatilho visual aparente, mas acontece. Lembrei-me do soldado desconhecido e de como é sobre ele que eu me ergo, de como somos todos soldados à força.
Não sei se Martin Adler gostaria desta imagem, de soldado, provavelmente não. Mas refiro-o porque há um trilho, uma geneologia em que este jornalista tragicamente se insere, sem armas que matem mas morto por elas. Há batalhas importantes para esta guerra que ainda nos permite ressaltar murros no estômago imaginários (mas bem físicos, ao mesmo tempo). Haja muitos blocos de memória a cair-nos em cima da cabeça destes que nos farão sempre entesar a coluna e seguir em frente. Mas já bastam os exemplos, a memória do mundo tem um excesso de heróis!
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De Silvia Chueire a 25.06.2006 às 04:00

Impressionantes os trabalhos dele. E a morte assim violenta e estúpida, revoltante.
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De ISA a 25.06.2006 às 00:48

estou chocada, deixa saudades este profissional de mão cheia. que se faça justiça, sim, contra esses filhos da puta!
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De José Moreno a 24.06.2006 às 23:21

Na notícia do DN de hoje, fui primeiro atraído pelo título - "Jornalista sueco abatido a tiro em Mogadíscio" -, depois pela imagem de um corpo no inerte no chão e em seguida pela legenda da foto. Só então percebi que era a primeira vez que via uma imagem - a última - de um jornalista e reportér fotográfico que li com deslumbramento durante anos a fio na Grande Reportagem. Foi um choque tremendo para mim, pequeno certamente por comparação com o que certamente sentiram aqueles que o conheciam e com ele trabalharam. Se alguma palavra puder chegar aos que lhe eram próximos, que saibam que Martin Adler era um homem admirado e que o seu nome ecoa na minha memória - um anónimo leitor - como um agente da minha maneira de ver o mundo e por isso mesmo um formador de carácter. Obrigado. Paz à sua alma.

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