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por FJV, em 14.01.06
||| Ministério.
Posição que subscrevo: quando todo o pessoal protesta contra o Ministério da Cultura, o melhor é recuar. Não por cautela corporativa. Mas porque há sempre gato escondido com rabo de fora. A burlesca substituição do director do D. Maria pelo director do Trindade não dá pano para mangas. Se o que está em causa são mudanças políticas ou mudanças na política, isso é completamente indiferente, lamento. É coisa de clientelas. Os protestos contra o Ministério são muito, demasiado, orgânicos. Gustavo Rubim tem razão. Obrigado, Gustavo, pelos pontos nos ii.
E o Eduardo Pitta tem razão: já é a altura de acabar com o Ministério da Cultura. Ponto. Não faz falta. Isto resolve-se como na faculdade: por cadeiras.

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De pepitos a 26.01.2006 às 17:43

O fio do horizonte, ou a tirania de Creonte

A substituição de António Lagarto por Carlos Fragateiro à frente do Teatro Nacional D. Maria II tem tido o mérito de escandalizar algumas pessoas que no fundo parecem ter mais medo de não aparecer ao lado dos seus gurus culturais (últimos guardiões de uma Cultura que só eles decidem) do que vontade de ouvir e entender as verdadeiras razões por detrás desta remodelação no D. Maria. Este caso, aliás, deve ser olhado isoladamente e não confundido nem comparado com outros erros deste Ministério da Cultura, pelo simples facto de que o D. Maria (todos sabemos) agonizava à deriva e, portanto, aqui sim, tem razão a Ministra.
Urge, por isso, dar voz a todos aqueles que concordam com esta revitalização do Teatro Nacional e se envergonham, dia e noite, com os gestos ridículos daqueles que vêem agora os seus interesses ameaçados: Lagarto faltou à verdade (não foi pelos jornais, mas sim pelo MC, que foi sendo alertado e finalmente informado da sua exoneração) e, pior: afastou ainda mais público do TN (a título exemplificativo, lembre-se a caríssima colaboração que fez com os Artistas Unidos que durou nove representações e teve o recorde de 48 espectadores em 450 possíveis [números oficiais]). Quando se percebe que o já satirizado abaixo-assinado que circula na Internet terá sido promovido pelos próprios Artistas Unidos e amigos, tudo isto se torna realmente assustador!
Mais arrepiante ainda é o artigo que o Prof. Eduardo Prado Coelho dedica à questão (Público, 10/1). A propósito de Fragateiro querer apostar na dramaturgia nacional, Prado Coelho dispara: “privilegia-se o que é «nacional», independentemente de critérios de modernidade e de qualidade”. Saberá, pois, o Sr. Prof. que estes dois últimos critérios não invalidam necessariamente o primeiro e que pensar imediatamente o contrário continua a ser o pior dos preconceitos, aquele que tanto tem paralisado o nosso meio artístico? Fragateiro pelo menos parece ter uma vontade: além dos textos universais, promover o regresso e o estímulo aos nossos autores, mas, sobretudo, a criação de uma plataforma com liberdade para questionar, trabalhar e potenciar a nossa língua e a nossa cultura – ou seja, privilegiar o D. Maria!
Prado Coelho partilha connosco, logo a seguir, a brilhante conclusão de que, “como toda a gente alfabetizada sabe, nunca se trata de levar a arte ao povo, mas de levar o povo à arte”. Ora, Sr. Prof., para “levar o povo à arte” o que faz falta não é seguramente um chavão como este que Vossa Ex.ª tanto gosta de repetir. Pelo contrário, o que de facto faz falta para trazer o povo à arte é, antes de mais, querer que ele venha. Não assumir complexos de superioridade, evitando, assim, em muito, os de inferioridade. Não recear que o grupo de adeptos da modernidade se alargue e se diversifique. Não duvidar que o número (e a variedade) de pessoas que exigem qualidade artística é sempre maior do que se imagina. Dar vida e sentido a uma casa como o Teatro Nacional que afinal – goste-se ou não – é de todos nós.
Mas, não, para se “levar o povo à arte”, Prado Coelho prefere “desenvolver estruturas pedagógicas” (isto será o quê? planos pedagógicos? pedagogia estruturada? palavras demagógicas?) “…e criar dispositivos de ensino” (ah, claro, não tínhamos percebido: estruturas pedagógicas são obviamente dispositivos de ensino. Quem é que não vê isso?).
Falemos verdade. Salvando raríssimas excepções, ultimamente o D. Maria tem servido apenas para o clientelismo; as encenações do amigo da amiga que eram um capricho que ele tinha desde jovem e às quais alguns amigos até foram assistir; as produções de alto orçamento, que em Arte são sempre justificáveis à partida, e que, porém, ninguém envolvido nelas se vê com necessidade nem brio para as justificar; as tentativas pueris de ser moderno a todo o custo – sem olhar a meios – sacrificando com isso quase sempre o texto dramático e a sua compreensão; as programações habituais feridas de incoerência, vanidade e redundância.
O TNDM II pode agora, em convivência com as outras salas e companhias de teatro alternativo e independente (que serão sempre uma referência de contemporaneidade e liberdade artística), transformar-se num lugar plural de confronto de textos, universos e estilos diferentes, conciliando sempre um elevado rigor estético e temático com um mínimo de apelo e abertura a um público vasto e múltiplo – e não apenas a um só tipo de plateia ou tendência particular. Acreditamos muito menos num espaço oco, esquecido e desaproveitado que tem estado quase sempre fora do roteiro de quem vive nesta cidade do que num projecto que agora nasce para desempenhar um verdadeiro serviço público, centrado na profunda exegese dramática que pode ser feita da nossa literatura e cultura, que, embora alguns não acreditem, também ela é universal.
Mas quem achasse que já tinha lido tudo, pôde ainda indignar-se com outro comentário de Prado Coelho: “os propósitos de consagrar o D. Maria II ao quase inexistente património teatral português são uma orientação paroquial e pacóvia”. Decididamente, Sr. Prof., a sua especialidade (e terá alguma) não passa nem pelo conhecimento profundo do vastíssimo material poético-dramático português (sugerimos-lhe aliás uma visita ao Museu Nacional do Teatro), nem muito menos pela humildade de pensar que, se esse património teatral lhe parece de facto inexistente, algo deve ser feito para que passe a existir e se deixe mostrar. Quem ignora e faz de maneira tão leviana uma tábua rasa do rico e singular património teatral português, não pode opinar sobre o destino de um dos seus bastiões mais simbólicos, o “quase inexistente” Teatro Nacional.
Há, contudo, um facto que só podemos lamentar. Depois da demissão de Lagarto, Prado Coelho não voltará “a participar em qualquer colóquio no D. Maria II nem [lançará] ali nenhum dos [seus] livros”. Tudo, diz ele, por uma “questão de ética”. Eu diria, uma questão de clientela.

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