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por FJV, em 29.11.05
||| Cultura.
Quando dirigia a revista Ler, quis por várias vezes saber «que livros lêem os candidatos». Candidatos a primeiro-ministro (desculpem a imprecisão...), candidatos a Belém. Primeiro, formalidades e protocolo: contactar a candidatura propriamente dita. «Ó pá, vai ser difícil.» Depois, feito o pedido oficial, por fax, meia-dúzia de telefonemas para amigos que trabalhavam nas candidaturas. «Vê lá se me mandas a lista», pedia eu a dois ou três ao mesmo tempo. «Vamos ver, pá, mas ele quer ver isso antes de mandar.» Uma semana de espera. O candidato compunha a sua lista de leituras («os livros da minha vida, vá lá») com recato, inspiração e responsabilidade. Semana e meia de espera. «Tá difícil, há os comícios, ontem fomos para Viana do Castelo, amanhã temos de estar em Évora.» «Mas façam a lista, são quinze livros. Dez livros.» «Vamos ver. Ele não tem tido tempo.» «Mas escreve que era o Sandokan.» «Não pode ser, pá, isto tem de ser bem pensado.» Mais dois dias para pensar. Chegava o fax do candidato, depois o fax do outro candidato, depois o do outro. Telefonemas a agradecer os faxes. «Ó pá, e que livros é que citou o fulano?» «Nada de especial, tu sabes. Eles fazem como vocês, assim por cima, ideias gerais, a Bíblia, Os Lusíadas, e tal, Guerra e Paz.» Silêncio. Burburinho. «Ouve lá, ele citou a Bíblia?» «Citou.» «Desculpa lá, mas altera a nossa lista. Tira o Aquilino e põe a Bíblia.» «Tiro o Aquilino?» «Tira o Aquilino.» «Mas ele concorda?» «Bom, a Bíblia é fundamental, não é? Se não for o Aquilino é quem?» «Não sei.» «Então sai o Aquilino.» Depois outro telefonema, cumprimentos e agradecimentos. «Tu sabes, ele queria pôr aquele livro, aquele do...» «Sei.» «Não pode ser.» «Porquê? Se ele gosta.» «Não pode.»

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3 comentários

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De monica a 29.11.2005 às 22:42

ou como a outra, que gostava tanto, tanto, da Agustina que um dia ainda havia de ler um livro dela.
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De pio a 29.11.2005 às 17:03

Francisquinho, ha uma coisa sobre cultura, que eu nuca me esqueco. Quando tinhas um programa de livros na rtp2, ouve uma vez, que o convidado era o V G Moura, e cada vez que lhe perguntavas que e que achava de um tal livro, ele dava respostas do tipo "Nunca li, mas e muito bom.", "nunca li, mas e o melhor livro de...", etc. Eu fiquei admirado de nao lhe perguntares: se nao leu, como e que sabe? Achei o programa, o exemplo perfeito da pseudointelectualice que vai ai por Lisboa!
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De GS a 29.11.2005 às 10:55

Delicioso... Conte mais, tem que contar!

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