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O cantinho do hooligan. Da natureza da goleada.

por FJV, em 15.02.18

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A lógica da Amazon.

por FJV, em 13.02.18

A Amazon passa por ser uma livraria online que nunca deu lucros como livraria — mas enquanto algoritmo. Jeff Bezzos, o fundador, construiu uma base de dados de consumidores (um algoritmo), não para vender livros, mas para lhes vender tudo, de roupa a perfumes, carros a computadores, biscoitos ou panelas de cozinha. Mas os livros foram o aferidor do status de cada cliente, o fornecedor de dados sobre o comprador. Ter essa base de dados e negociar com ela é o verdadeiro negócio – os livros não lhe dão lucro. Tudo o resto já conhecemos: as condições de trabalho escravo, a construção de algoritmos de consumo, o cruzamento de dados com outras tecnológicas, as negociatas de bolsa. Ontem, depois de ter sabido que ia sair um novo livro sobre as condições de trabalho escravo nas tecnológicas, com especial relevo para a Amazon, fui procurar informações sobre ele. Sai a 1 de março. Qual o site onde há mais informações? No da Amazon, claro – que ganhará dinheiro a vender um livro contra a Amazon, tal como o Facebook o ganha de cada vez que há aumento de tráfego e de publicidade ou com campanhas contra o capitalismo global e o Facebook. Tudo lógico.

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Duas vitórias no alfarrabista.

por FJV, em 11.02.18

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Língua e raça.

por FJV, em 10.02.18

O povo não anda bom. Em Espanha, a pátria da maior meia dúzia de coisas mais estapafúrdias que conheço, uma deputada do Podemos (está nessa meia dúzia) declarou-se “porta-voza” do partido, em vez de “porta-voz”. Vai passar a haver “porta-vozes” e “porta-vozas”. Logo, a vice-secretária geral socialista correu a apoiá-la, porque “a linguagem evolui”, lembrando o caso de uma carinhosa ministra que se dirigiu à assistência de uma charla dividindo-a entre “membros e membras”, se bem que outra dirigente do partido (os exemplos são como as cerejas) já tivesse usado a expressão “jovens e jovenas”, distinguindo os “altos cargos” ocupados por homens e as “altas cargas” desempenhados por mulheres. Adoro Espanha, faz-me rir. Já os EUA deixam-me imobilizado de choque e pavor: Ali Michael, uma loiríssima professora da Universidade da Pensilvânia declarou que jamais terá filhos só para não gerar mais gente branca: “Não gosto da minha ‘brancura’ (‘whiteness’), mas gosto ainda menos da dos outros. Não quero ter filhos biológicos para não propagar biologicamente os meus privilégios.” Bom fim de semana.

[Da coluna no CM]

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Um país adolescente.

por FJV, em 09.02.18

Coisas impopulares. Parece haver uma disputa no Parlamento acerca de uma proposta de lei do CDS para a criminalização do abandono voluntário de idosos, à qual a esquerda atribui propósitos perigosos, desde “uma profunda desumanidade” (a lei, não o abandono) até “hipocrisia”, passando por outros ditirambos da ordem. Basicamente, não se pode criminalizar quem abandona os idosos (as pessoas que antes conhecíamos por velhos) em hospitais, nas ruas ou em lares ilegais porque essa atitude, certamente malvada, se deve ao facto de as famílias não terem condições para albergá-los em suas casas. É compreensível e muito atendível. No entanto, dada a facilidade com que o mesmo parlamento aprovou idêntica lei acerca do abandono de animais, causa estranheza o tom da resposta dos partidos de esquerda. Se a lei proposta pelo CDS é iníqua e castigadora, o que propõem então as madamas e os cavalheiros, agora que estão na flor da idade? Que haja políticas sociais. Muito bem. Portanto, tudo certo que se abandonem os nossos velhos desde que haja políticas sociais num país cada vez mais adolescente.

[Da coluna no CM]

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Um lugar de onde não se excluem os que vivem com os outros.

por FJV, em 09.02.18

O que se passa na interessante (sem ironia) cabeça da hierarquia da igreja que, vivendo uma grande crise – relacionada com sexo –, vem recomendar abstinência sexual aos casais católicos recasados? A frase é comprida, mas está correta. E evoca o papa João Paulo II, o inspirador da diretiva. É certo que ela diz respeito apenas aos católicos e não aos que vivem fora desse círculo de giz que se apaga com bastante frequência – mas, num pontificado gerido por um cardeal “moderno”, “progressista” e “sorridente” (três tentações juntas), é interessante ver como a igreja aceita a missão de ser uma fábrica de pecados e contravenções que não têm a ver com a sua dimensão religiosa. Esta é a igreja moderna que também quer gerir a vida sexual dos seus crentes. Mais: a que aceita o infeliz jugo de apreciar o modo como os fieis vivem a sua vida íntima, em vez de iluminar a forma como interpretam a perpetuam a fé. Bento XVI, um homem mal querido, continua a escrever sobre essa lâmina poderosa que é a sua fé: fala da Casa onde se entra. Esse lugar de onde não se excluem os que vivem com os outros.

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Obras notáveis de voluntariado.

por FJV, em 08.02.18

Tomada de assalto pela geração do ‘lifestyle’, a imprensa bem educada não gosta das “imagens negativas do mundo” – e recusa-se a contar as suas histórias com medo do “neo-realismo”, que não acha compatível com a sua ideia de conforto. Infelizmente, o mundo não é um lugar perfeito e, de entre as suas várias iniciativas, há uma que precisamos de elogiar repetidamente ao Presidente da República: a atenção que ele presta e exige que prestemos aos sem-abrigo. Não se trata de apenas de compaixão (mas não viria mal ao mundo se também fosse), apenas de caridade ou solidariedade – por isso há obras notáveis de voluntariado como o Banco Alimentar, a Casa, a Crescer, a Sopa dos Pobres, a AMI, e outras que se dedicam a diminuir o sofrimento dos que nem sequer cabem nas estatísticas. Devido à “vaga de frio”, o Presidente lançou uma nova ofensiva, lembrando-nos os sem-abrigo e transportando-os para os ecrãs das televisões, bem como àqueles que dão parte do seu tempo a esse apoio anónimo. Num mundo que anda à caça do Euromilhões, é bom haver quem se lembre – e ajude com o que pode.

[Da coluna no CM]

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O país estaria, supostamente, transformado num icebergue.

por FJV, em 06.02.18

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 Ontem, de madrugada, arranquei a caminho do Norte. Durante uma, duas horas, fui bombardeado por quase todas as rádios, que previam uma espécie de catástrofe, ou seja, o congelamento coletivo acima do Tejo e a leste de Santarém, mais coisa, menos coisa. A viagem fez-se bem, não houve nevões nem vagas de frio; os termómetros, mesmo de madrugada, mantiveram-se numa zona confortável. À hora de almoço, depois de uma manhã de trabalho, observei várias reportagens televisivas pintalgadas de vermelho-escândalo: o país estaria, supostamente, transformado num icebergue. Não estava, para desespero de repórteres habituadas aos termómetros lisboetas, para quem o hemisfério devia encerrar de outubro a maio. Para elas e eles, a minha explicação sucinta e pedagógica: estamos a atravessar o inverno; no inverno há frio e é costume as pessoas agasalharem-se; a “natureza” (uma coisa que existe cá fora, e que não é apenas boazinha) resiste bem ao frio e precisa dele; chuva não quer dizer “mau tempo”; além de Lisboa, do Bairro Alto e do Chiado, há outras terras no mapa de Portugal – podem visitá-las.

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A exploração do “corpo feminino”, ai de nós.

por FJV, em 05.02.18

 Rose McGowan na red carpet da Fórmula Um do cinema.

 

Peço desculpa por voltar ao tema, mas ele chama-nos. O facto de uma pintura de J.H. Waterhouse ter sido retirada de uma galeria de Manchester (porque era preciso “discutir a forma como a arte vê o corpo da mulher”) veio que nem de propósito acompanhar a decisão de a Fórmula 1 ter decidido acabar com a presença de jovens raparigas junto das boxes por se tratar de uma exploração do “corpo feminino”, ai de nós. Como vejo duas ou três corridas de F1 por ano, o assunto não me entristece nem alegra, limitando-me a observar como o “corpo feminino” continua a ser exposto nas boxes de Cannes, dos Globos de Ouro, dos Grammys e creio que dos Óscares e de outras presenças “da grande arte”, além das revistas de moda e páginas parvas do Instagram. O atual fascismo libidinal que persegue obras de Balthus, pode também vir a censurar quadros de Velázquez (Vénus ao Espelho) ou Goya (La Maja Desnuda) e a coisa promete seguir adiante. Enquanto isso não acontece, espero agora que eliminem atrizes decotadas das passadeiras vermelhas de Hollywood, onde são transformadas em puros objetos.

[Da coluna no CM]

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Seios com folhas de nenúfar.

por FJV, em 02.02.18

John William Waterhouse (1849-1917) nasceu em Roma em 1849 – um pintor clássico, interessado em temas literários, históricos e religiosos. Quando morreu, em 1917, era um dos expoentes da estética pré-rafaelita (é autor do A Dama de Shalott), a meio caminho do impressionismo. A Academia Real britânica tem-no como um dos seus mestres, e isso é dizer tudo. Pois não é. Um museu de Manchester possui o original de Hilas e as Ninfas (Hilas, é um argonautas da mitologia grega), e decidiu retirá-lo das suas paredes considerando que vivemos num “mundo cheio de questões interligadas de género, raça, sexualidade e classe” e que precisamos de discutir a forma como vemos o corpo da mulher. De facto, no quadro mostram-se os seios de duas das ninfas; outras, pudibundas, escondem-nos com folhas de nenúfar. Isto é altamente ofensivo e o museu acha que precisa de ser discutido. Em breve discutirão a Vénus ao Espelho de Velazquez, e poderão retirá-lo. Em Birmingham, uma doutrinária de género obrigou um museu a tapar partes de um quadro de Modigliani. Cuidado Picasso! Cuidado Matisse!

[Da coluna no CM]

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Na adversidade é que vale a pena escrever.

por FJV, em 01.02.18

Escritores corporativos irritam-me cada vez mais, sobretudo em matéria de queixinhas políticas. Nos EUA, que é a pátria atual das vítimas, multiplicam-se os artigos que falam de uma “crise da ficção” atribuída a Trump, aos tempos de Trump, às mentiras de Trump e à cabeleira de Trump. Autores de renome, premiados e festejados, falam do mal que os “anos Trump” andam a fazer à literatura – sem ninguém se rir. Bons tempos em que a literatura americana não tinha “causas” e era excelente. Havia Steinbeck. Nabokov, e Hemingway, que se desprezavam mas escreviam supimpa. Norman Mailer descreveu mundo, investigando, mesmo acusado de pulha. Gore Vidal escreveu os melhores volumes de ficção sobre a América sem as queixinhas das corporações de escritores escandalizados. Hoje, queixam-se da América machista, racista e imbecil – mas escrevem como pregadores calvinistas: cheios de fé, mas com pouca qualidade, apaparicados como membros de uma sociedade de caniches (há exceções, como Ellroy, Donald Ray Pollock e um bom punhado de emigrantes). Na adversidade é que vale a pena escrever.

[Da coluna no CM]

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