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«É disto que estamos a falar: votar já não conta.»

por FJV, em 23.01.18

Excelente texto de Luís Naves no Delito de Opinião: «Estamos sobretudo a assistir a uma mudança significativa do modelo da União. Até agora, a UE foi uma aliança de nações. No futuro, os federalistas dirão que os seus «valores europeus» são incompatíveis com os nacionalismos. A preparar o terreno, eles têm feito a distinção entre patriotas e nacionalistas (como se fossem dois conceitos, não dois sinónimos), olham com simpatia para movimentos secessionistas conduzidos por elites razoáveis, como parece ser o caso dos catalães, levados ao colo pela imprensa oficial da Europa, a mesma que repete em cada parágrafo essa irritante treta dos «regimes iliberais» do Leste. […] Há países que não cedem na defesa dos seus interesses e têm de ser disciplinados. Por outro lado, a Europa tenta avançar com um projecto político onde as nações terão menor espaço, um projecto onde não cabem os nacionalistas (os mais assanhados, polacos e húngaros, caem na categoria de xenófobos), um projecto que não se resume aos mercados livres que os britânicos defenderam, mas a verdadeira convergência (a iliberal Hungria tem um IRC de 9%, que Macron já criticou, por achar muito baixo). Haverá harmonização fiscal e os parlamentos nacionais vão perder parte dos seus poderes orçamentais.
Então, o que é que a Polónia tem a ver com a Catalunha? O caso catalão mostra-nos o que poderá acontecer às nações que não contam: a Espanha será uma manta de retalhos, como provavelmente a Itália acabará por ser (um governo com Berlusconi, Liga Norte e ainda uns ultra-nacionalistas promete travar os populistas). A Polónia quer evitar a menorização, vê-se como grande nação regional, defensora da civilização cristã, num patamar semelhante ao da França. A Polónia delira, a Espanha apanhou gripe catalã, a Itália, essa, está na mesma.
E, mesmo assim, há uma agitação no Danúbio. Em vez de aceitarem a generosidade alemã, os países de Visegrado querem resistir e juntam-se num clube que lembra cada vez mais o império Habsburgo, lembram-se? aquele que acabou em Sarajevo. Ao mesmo tempo, o caso catalão, sendo um exercício de alta criatividade artística dos seus dirigentes, está a dar ideias. Já ouviram falar da impronunciável Szekely Fold e da resposta que deu o PM romeno? Claro que não. E há mais micro-regiões que até agora só existiam em mapas obscuros desenhados nas húmidas catacumbas do castelo de Kafka.
Em resumo, e termino, a Europa não se sabe bem para onde vai, mas vai levada por elites que já não querem ouvir as suas próprias populações. Os catalães votaram, mas serviu para alguma coisa? Os polacos também votaram, mas ninguém quer saber. Os alemães votaram em Outubro e disseram que os social-democratas iam para a oposição, e que vemos, os populistas lideram a oposição? As eleições na República Checa, onde venceram os populistas, já deram em governo? E em Itália, votar servirá para alguma coisa? E na Hungria, onde Orbán tem sondagens a dar maioria qualificada, vão dizer que não conta? Não, votar já não serve para nada, nós estamos a ser dirigidos pelos 32% da CDU alemã e pelos 35% (se não me engano) do movimento de Macron na primeira volta das legislativas francesas. Só há coligações negativas, grandes entendimentos entre derrotados, geringonças e minorias. É disto que estamos a falar: votar já não conta.»

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Supernanny.

por FJV, em 23.01.18

Regra essencial: sempre que alguém iniciar ou concluir uma indignação em nome dos “sagrados princípios”, da moral, da ética, às vezes do Estado de Direito – desconfie. Geralmente é palhaçada. O caso da SuperNanny (que não penso ver) é o mais recente. Eu gostaria, antes, de me defender das crianças sempre que oiço as suas vozes, já devidamente idiotizadas, a fazer publicidade na rádio e na televisão a produtos financeiros (lembram-se daqueles mais ruinosos e aldrabões?), a saldos nos hipermercados e lojas de informática, a telemóveis e férias no Algarve, sem que “as instituições” saltem para a rua, indignadas, em saiote e camisa de noite, a fingirem de mamãs fofinhas e a servirem-se do seu estatuto intocável para ameaçar e silenciar. Ah! E quero que “as instituições” vigiem muito bem aqueles programinhas de rádio e colunas de jornal assinados por pedagogos e psicólogos, geralmente marcianos em trânsito, cujo único objetivo é destruir a vida dos pais, explorando o seu sentimento de culpa. Isso sim, era um grande favor. Isso e agilizarem os processos de adoção e deixarem de pregar.

[Da coluna no CM]

 

Adenda: 1) Quando este texto foi publicado na edição em papel do CM, esta manhã, recebi cinco mails de protesto e alguns amigos enviaram-me «reacções do Facebook». Eu gosto particularmente das «reações do Facebook», que me acusam de «apoiar» o programa de televisão, que não vi – nem penso ver. Não passa pelas pobres almas que «reagem no Facebook» a ideia de que o assunto me é indiferente desde que me não obriguem a ver o programa. Já passaram pela TV tantas indignidades, tantos Big Brothers, tantas coisas que fariam corar de vergonha os produtores de SuperNanny, que – sim – corro o risco de vir defender o programa que não vi nem penso ver. Mas o mais hilariante foi a reação de um grupo de médicos ou psicólogos que a redação de lifestyle do Observador convidou para ver o programa e que chegou à fantástica conclusão de que «o happy end do último programa» não era «verdadeiro». Tamanha descoberta encheu-me de piedade. Pois se é televisão! Pois se é um «big brother»!

2) Quanto aos «programinhas de rádio» que menciono, não tenho nada contra as pessoas que os fazem – profissionais dedicados e complacentes que dão conselhos exactamente como SuperNannies. Num dos últimos que ouvi, por alturas do Natal, os dois psicólogos disputavam o papel de marciano, relembrando aos pais-ouvintes que nas férias de Natal não podiam deixar «os filhos ao abandono, em casa, e que, pelo contrário, deviam acompanhá-los «nesta temporada» provavelmente para não os traumatizar. Portanto, as pessoas «metiam férias» e seguiam os conselhos dos psicólogos – ou ficavam a alimentar a culpa por não poderem fazê-lo. Marcianos e é já com bonomia.

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