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É uma espécie de longa travessia do deserto.

por FJV, em 13.12.17

O Webster, o dicionário dos dicionários em língua inglesa, elegeu “feminismo” como a palavra do ano. Também podia ser “assédio”, “abuso”, “denúncia”, e compreender-se-ia que se tratava de feminismo. 2017 foi o ano de tudo isso, e foi uma longa marcha desde o século V, quando a matemática, astrónoma e filósofa Hipátia foi assassinada em Alexandria por uma horda de cristãos em fúria, que a queimaram – ou, recuando, desde que Fatima Al-Fihriya Al-Qurashiya, filha de um mercador de Fez, fundou nesta cidade a biblioteca de Al Quaraouiyine no século IX antes da nossa era. Ou desde que, em 1678, A Princesa de Clèves foi publicado anonimamente, ou quando, em 1847, Charlotte Brontë publicou Jane Eyre, trinta anos depois de Mary Shelley, também anonimamente, ter publicado Frankenstein. Cada um destes nomes é hoje analisado, estudado e admirado independentemente de ser mulher – mas o caminho até à dignificação (das investigadoras do Centro 3B da Universidade do Minho como do futebol feminino) não é fácil. É uma espécie de longa travessia do deserto que nos deve encher de orgulho.

[Da coluna no CM]

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Pobre Balthus.

por FJV, em 13.12.17

Apesar dos protestos, que voltaram depois de uma acalmia, o Met, Metropolitan Museum of Art, de Nova Iorque, recusou retirar uma pintura de Balthus, “Thérèse Sonha”, das suas paredes. Uma petição pública exigia que fosse retirada porque o retrato (de 1938) levava o Met a “romantizar o voyeurismo e a objetificação das crianças” – e a “desculpabilizar a onda de agressões sexuais a que estamos a assistir”. Pobre Balthus (1908-2001), o protegido de Rilke, de Gide e de Cocteau, o admirador de Piero della Francesca, o amigo de Camus e de Saint-Éxupéry, Malraux ou Man Ray. Para o que as coisas e as obras do passado estão guardadas. Já tínhamos visto o primeiro-ministro italiano mandar tapar as esculturas do Renascimento para receber o seu homólogo iraniano, entre outros casos de imbecilidade temporária – que ameaçam tornar-se mais prolongados. Para substituir o quadro de Balthus, a petição propunha apenas que se usasse uma obra de uma mulher, do mesmo período. Podíamos recuar até Artemisia Gentileschi, no século XVII, que despedaçava cabeças, mas enfim.

[Da coluna no CM]

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Madonna, “Os Maias”, o Ramalhete.

por FJV, em 13.12.17

Não sabia que Madonna ia viver entre as paredes do que podia ter sido “o Ramalhete”. A imprensa noticiou vagamente que um hotel de Santos, em Lisboa, ia recolher a cantora durante um ano, mas a minha filha lembrou que se tratava do Ramalhete de Os Maias, o palacete que tão funesto seria para a família criada por Eça de Queirós, com os seus cretones e salas acolhedoras. Ontem, nestas páginas, Leonardo Ralha voltou ao assunto, e bem, porque foi também o dia em que se soube que Portugal tinha sido eleito “o melhor destino turístico do mundo”, distinção que tanto nos honra como responsabiliza para os anos futuros. Há uma ligação entre Os Maias e o melhor destino turístico do mundo – ou se é um areal cheio de dinheiro, como o Dubai, ou se é um território com história, passado, literatura e velhas mitologias que se instilam nos visitantes, a receber com galhardia e sentido do lucro. O turismo é isso. Quer dizer, “o nosso turismo” é isso: mitologias cedidas por empréstimo. Ter Madonna a ler Os Maias seria uma coisa tremenda, capaz de fazer inveja à rapaziada do secundário.

[Da coluna no CM]

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