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A grande ilha do silêncio de Deus.

por FJV, em 24.11.17

Morreu o Pedro Rolo Duarte. Isto é tão absurdo. Passou este dia, mas não passou a ideia de que se trata de um absurdo. Ruy Belo dizia que “somos a grande ilha do silêncio de Deus”, e às vezes só silêncio pode responder a este absurdo, o de o Pedro ter sido levado para outro lado, onde não podemos escutá-lo. Ouço-o ainda, na Rádio Comercial, há muitos anos (Só Com Gelo), leio-o aqui e ali, conversamos de passagem, rimos de passagem. A vida passa depressa. Ao balcão do Hotel D. Carlos, em whiskies de fim de dia. Nas redacções onde nos cruzámos, nas entrevistas que me fez, na coragem que teve em quebrar tantos lugares-comuns, dizendo o que pensava, o Pedro ficará para sempre como um certo tipo que tinha bom gosto, imaginação, delicadeza, tudo o que agora está a mais nesta frase. É um absurdo o Pedro morrer. Resta-nos “a grande ilha do silêncio de Deus”, que é o que somos nestas alturas.

 

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O debate não é sobre a liberdade dos humoristas mas sobre a liberdade.

por FJV, em 24.11.17

A insistência no “politicamente incorreto” pode, claro, resvalar para o “politicamente abjeto” – esta evidência assusta a maior parte dos gramáticos que policiam a nossa linguagem. Ricardo Araújo Pereira está entre os alvos mais fáceis; nos últimos dias, foi acusado de quase tudo nas chamadas redes sociais, e não me custa acreditar que, em breve, seja acusado de homofóbico, racista, xenófobo – a lista habitual é uma argamassa, nunca se é acusado de uma só coisa e há de acabar como fascista, e assediador sexual. O debate não é sobre a liberdade dos humoristas mas sobre a liberdade em sentido lato (onde eles estão incluídos, porque caminham no fio da navalha). Nem sobre a ameaça à criatividade. Tem a ver com o desejo de silenciar os outros e de substituir a realidade por uma língua infantilizada e hipervigiada, sem pecado nem dúvida. Os filhos dos anos 60 e 70 não admitem contrariedades; quando estas existem, querem “zonas seguras”. Não têm sentido de humor nem lhes interessa o passado (a História). Antigamente, queríamos debater; as novas polícias do pensamento querem exterminar. 

[Da coluna no CM]

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