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Uma ameaça real.

por FJV, em 20.11.17

É provavelmente o melhor romance de Camilo José Cela, Mazurca para Dois Mortos. Nele, gosto especialmente do primeiro capítulo e dos primeiros parágrafos: uma invocação da chuva, uma descrição da paisagem envolvida no cinzento turvo da chuva. Era o tempo em que chovia – semanas seguidas de chuva, dois meses de chuva. Não apenas a ‘morriña’, que os galegos, transmontanos e minhotos percebem como a grande melancolia que desce sobre a terra e mantém a humidade e o verde das colinas. Sob a ameaça da seca, muda a ideia do que é o bom e o mau tempo. Pela primeira vez há muito tempo os citadinos apercebem-se de que o “bom tempo” é um conceito relativo e que a sua indiferença em relação ao “interior” é pecaminosa. Não se trata apenas de “poupar um minuto de água” (um esforço de Facebook) – mas de pertencer à própria terra e de sofrer com ela a falta de “bom tempo”, ou seja, de chuva. Talvez agora passemos a dar mais valor aos rios, aos lagos, açudes, barragens, cursos de água que caem das serras onde havia árvores – e a olhar a seca da ficção científica como uma ameaça real.

[Da coluna no CM]

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