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Jean-Pierre Melville.

por FJV, em 20.10.17

Ninguém se recorda hoje de Jean-Pierre Melville, não só por ser francês, mas também porque a sua obra nunca foi verdadeiramente popular, tirando talvez o caso de Cai a Noite Sobre a Cidade (de 1969), uma tradução livre para Un Flic (Um Chui), com Alan Delon e Catherine Deneuve. É uma história de maus e bons que amam a mesma mulher (o ‘mau’ é Richard Crenna, que mais tarde apareceria em Rambo ou em Noites Escaldantes, de Lawrence Kasdan). O mundo dos ‘maus’ aparece frequentemente em Melville, como em Ofício de Matar (Samurai, 1970), também com Delon, que é o primeiro rosto de O Círculo Vermelho, com Gian Maria Volonté e Yves Montand. Melville (o apelido verdadeiro é Grumbach, mas quis homenagear o autor de Moby Dick) é uma das estrelas do film noir, o policial francês. A sua dimensão literária é permanente (em 1949 realiza Le Silence de la mer, adaptando o romance de Vercors); melancólico, nostálgico, depressivo, o seu olhar capta a solidão de heróis perdidos e funestos. Passam hoje 100 anos sobre o seu nascimento e, tal como a própria melancolia, é um nome fora de moda.

[Da coluna do CM] 

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Uma história de fantasmas.

por FJV, em 20.10.17

Tristão da Cunha, primeiro vice-rei da Índia (e primo do seu sucessor, Afonso de Albuquerque), nunca pôs o pé na ilha de Tristão da Cunha, que descobriu em 1506, e que é hoje domínio inglês (aliás, cegou e não chegou a ocupar o cargo na Índia, acabando por ser ele o organizador da embaixada de D. Manuel ao papa Leão X). A mesma coisa aconteceu com Gonçalo Álvares, navegador de Vasco da Gama, que nunca pernoitou na ilha de Gonçalo Álvares, a 400 quilómetros. Nenhuma destas ilhas (6 no total), parte do arquipélago de Tristão da Cunha, tem aeroporto; é preciso apanhar um navio na África do Sul, mas sem carreira regular. A 2400 quilómetros fica Santa Helena (4 mil habitantes), a capital do território britânico de Santa Helena, Ascensão e Tristão da Cunha. Quem descobriu Santa Helena, onde Napoleão morreu no exílio? Um navegador ao serviço de Portugal, João da Nova, que também descobriu Ascensão (1501). O primeiro ocupante da ilha foi o soldado português Fernão Lopes, que aí viveu em completa solidão por 30 anos depois de ter sido desfigurado às ordens de Albuquerque por, em Goa, se ter passado para o inimigo e se ter convertido ao Islão. Resumo da história: no sábado passado foi inaugurado o aeroporto de Santa Helena. Digam lá se não dava um filme.

 [Da coluna do CM] 

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Stop the press! O PCP fez uma descoberta!

por FJV, em 18.10.17

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Segundo o Expresso: «Moção de censura é uma “manobra” com “objetivos partidários”, diz PCP.»

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Caras de pau.

por FJV, em 18.10.17

O Bloco de Esquerda, essa grande picareta que há anos pedia demissões aos gritos, dia sim, dia não, vem com ar compungido,  dizer que a demissão da MAI não resolve nada. Se a hipocrisia contasse, o BE tinha maioria absoluta entre os caras de pau.

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Ah, a dificuldade de governar.

por FJV, em 17.10.17

É um estado de guerra e de dor no país. 38 mortos. No domingo atravessei-o, entre colunas de fumo e de fogo; quem ouvisse as autoridades – pelo rádio do carro – dir-se-ia ser inevitável: trágico, terrível, não há nada a fazer, “vai ser pior”. Temi que tivessem endoidecido quando um tipo sensato como Jorge Gomes entrega as armas do Estado e diz que temos de nos autoproteger e não esperar ajuda dos bombeiros ou dos aviões. Ou seja, as mesmas autoridades que decidem que temos de comer mais arroz carolino do que quinoa falham depois na tarefa essencial de proteger aldeias, bens e pessoas – e uma ministra em estado de negação lembra que por ela até se demitia para ter as férias que lhe devemos. Ah, a dificuldade de governar. Ah, a ingratidão pela “maior reforma nas florestas desde D. Dinis”. Ah, a reforma da proteção civil. Desejam-se inquéritos para salvar a pele dos camaradas – mas não para esclarecer os governados e honrar os mortos e sobreviventes. E era difícil prever isto? Não. A meteorologia tinha-o escrito. A arrogância e o desprezo que têm pelo país está a fazer o resto. 

 [Da coluna do CM] 

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Conferência de imprensa.

por FJV, em 16.10.17

O primeiro-ministro compareceu hoje na conferência de imprensa sobre os incêndios para dizer que o governo vai realizar um conselho de ministros extraordinário a fim de analisar o relatório que lhe foi entregue e avançar para a reforma das florestas e da protecção civil. A cada pergunta colocada, o primeiro-ministro respondia que o governo vai realizar um conselho de ministros extraordinário a fim de analisar o relatório que lhe foi entregue e avançar para a reforma das florestas e da protecção civil. Quando alguém lhe perguntou se iria manter a ministra da Administração Interna, o primeiro-ministro respondeu que o governo vai realizar um conselho de ministros extraordinário a fim de analisar o relatório que lhe foi entregue e avançar para a reforma das florestas e da protecção civil. A propósito das falhas registadas durante este fim de semana, o primeiro-ministro lembrou que o governo vai realizar um conselho de ministros extraordinário a fim de analisar o relatório que lhe foi entregue e avançar para a reforma das florestas e da protecção civil. No caso das competições europeias de futebol desta semana, o primeiro-ministro lembrou que o governo vai realizar um conselho de ministros extraordinário a fim de analisar o relatório que lhe foi entregue e avançar para a reforma das florestas e da protecção civil. Quando uma jornalista lhe perguntou se gostava mais de arroz carolino ou de quinoa, o primeiro-ministro recordou que o governo vai realizar um conselho de ministros extraordinário a fim de analisar o relatório que lhe foi entregue e avançar para a reforma das florestas e da protecção civil.

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Caligrafia.

por FJV, em 13.10.17

Houve um tempo em que a Finlândia era o modelo. Se na pátria de Sibelius as turmas de liceu tinham 17 alunos, nós expulsávamos o 18.º. Se na Finlândia tinham deixado de estudar sentados, em Portugal eliminavam as cadeiras. Se lá escreviam tudo em tablets, nós queimaríamos os cadernos. Lembro-me de um primeiro-ministro, orgulhoso de as crianças da primária passarem – como na Finlândia – a desenhar formas geométricas nas aulas, não com giz num quadro, mas com a ajuda de um computador. Ainda houve quem dissesse que desenhar um hexâmetro à mão era pedagogicamente mais indicado – mas para quê? Havia a Finlândia, onde, aliás, deixaria de se escrever à mão. Ora, a Finlândia é um país belíssimo, mas tem muitas coisas idiotas. O CM de anteontem comoveu-me com a imagem de Prakriti Malla, uma nepalesa de 14 anos que tem a mais bela caligrafia do mundo; a sua letra é maravilhosa, perfeita, pode ser lida por todos. Sou um fanático de “escrever à mão”: a letra manuscrita completa-nos, ajuda-nos a pensar melhor, a compreender melhor e cuidar da nossa língua. Vão lá à net ver a caligrafia de Malla.

[Da coluna do CM] 

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Milhões.

por FJV, em 12.10.17

A “Operação Marquês” vai arrastar-se pelos tribunais nos próximos dois anos – será pasto de “manobras judiciais”, discussões sobre provas, suspeitas e desmentidos, argumentos e barulheira. Mas é sobretudo um retrato do país e das oligarquias que se instalaram em redor do Estado e lançaram as suas redes por todo o lado – porque, também elas, têm horror ao vazio. É uma misturada: capital financeiro, negócios favorecidos pelo Estado e pelas grandes corporações, capacidade de influenciar e de destruir, de roubar e de tirar partido mas, sobretudo, de usar o poder em nome das suas famílias. No fundo, dois séculos de história. Pega-se num fio, e vamos dar aos arrivistas que chegam à política vindos da província e que querem enriquecer “como os outros”, que já são ricos e têm pé de meia. Pega-se noutro, e chegamos à perigosa endogamia da banca e dos negócios – gente que sabe pagar os seus serviços. Pega-se num outro e deparamos com serviçais que aprenderam a fazer empresas de papelão. Milhões. É um processo de milhões que se colam ao nome de gente poderosa para quem o país é um obstáculo. 

 [Da coluna do CM] 

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Mérito ou não.

por FJV, em 12.10.17

O Prémio Maria Isabel Barreno é atribuído a “mulheres criadoras de cultura” e não cabe aqui discutir o mérito de cada uma das premiadas (nas edições de 2013 e de 2016 – a lista foi anunciada ontem), segundo a avaliação da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género e de um departamento do Ministério da Cultura. Pelo contrário: há quase unanimidade na apreciação desses nomes – e escolher Paula Rego ou Joana Carneiro, Elisabete Matos ou Bárbara Bulhosa, Joana Villaverde ou Cristina Paiva apenas entre 52% da população (ou mulheres portuguesas da “cultura portuguesa”) acaba por, injusta e involuntariamente, reduzir-lhes o mérito: elas distinguem-se entre os 100% de portugueses, homens e mulheres. Portanto, premiar mulheres distintas por serem mulheres não é valorizar o seu lugar. Na literatura como no cinema, na edição, nas artes plásticas, no jornalismo, na invenção da vida de todos os dias, as mulheres têm um papel cada vez mais importante, decisivo – e também maioritário. Lutar pela igualdade de género “nas artes” é ridículo. As mulheres estão lá por mérito e na primeira linha.

 [Da coluna do CM] 

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Gramática.

por FJV, em 10.10.17

São cada vez mais populares na Austrália, segundo o The Guardian (por isso não desconfiem já de mim), as aulas e cursos livres de gramática. Leram bem. Gramática. É uma ocupação de classe média e grupos tão diversos como advogados, editores, professores ou médicos e responsáveis da administração pública recorrem a esses cursos. E porquê este interesse por orações subordinadas, complementos diretos, verbos irregulares ou apenas pura ortografia e filologia? Porque, escreve Kate Jinx, escritora e realizadora, a gramática foi desvalorizada e eliminada dos currículos escolares a partir dos anos 70 – e surge, desvairada, a “síndrome do impostor”, ou seja, a sensação de que, independentemente do grau de sucesso da sua carreira profissional, há uma clara falta de bases lá atrás, e por culpa do sistema de ensino. Escrever corretamente, escrever em bom Português, apreciar as lições dos mestres, também deixou de ser uma preocupação geral; basta a “competência comunicativa”, uma coisa que permite que um cachorro estenda a pata à dona ou que saibamos onde é a casa de banho num hospital.

 [Da coluna do CM] 

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Um trapo fascista.

por FJV, em 10.10.17

Há uns tempos apareceu na baixa lisboeta um grafito que anunciava o seguinte: “Camões, o totó do imperialism [sic] colonial esclavagista.” A acompanhar a frase, uma suástica. Agora, vieram os protestos (organizados por uma associação intitulada Descolonizando) contra a colocação de uma estátua do padre António Vieira no Largo Trindade Coelho, também em Lisboa – por parte, diz a ficha, de “investigadores, professores, artistas e activistas de diversas nacionalidades”. Trata-se da tendência, importada – e sem tradução – dos EUA e de Inglaterra sobretudo, e que visa limpar o passado dos sinais do passado, sobretudo dos seus autores. É claro que, tanto no caso de Camões como no de Vieira (considerado estupidamente um “esclavagista  seletivo”) – como no de Diogo do Couto ou Fernão Mendes Pinto, para abreviar, mas a lista pode estender-se – não interessa aos justiceiros estudá-los ou situá-los no seu tempo, mas arrematar uma bandeira e colar-lhes o labéu de criminosos. Eça era um machista, Camilo um miguelista e, se não me engano, a Língua Portuguesa um trapo fascista. Vamos para bingo.

 [Da coluna do CM] 

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O PCP.

por FJV, em 09.10.17

Procedem-se atualmente a grandes reflexões acerca da derrota do PCP nas eleições autárquicas (sendo a do PSD muito mais fácil de explicar) – personagens graves, hirsutas, compenetradas, invocam as sibilas para tentarem perceber o que levaria tantos cidadãos e munícipes a negarem o seu voto ao PCP. O secretário-geral do partido recusa esse debate; não lhe interessa – mas, em vez de uma grande intervenção à maneira de Bertold Brecht (“dissolver o povo e eleger outro”) deixa o aviso: os apóstatas vão arrepender-se em breve, porque lhes vai faltar o braço do Partido e a áspera sapiência dos seus autarcas. As explicações são muito em surdina e assentam em vários ordenamentos sociológicos e ideológicos, como por exemplo a traição pesada que representa a aliança comunista com os socialistas, uma espécie de subserviência que os velhos militantes leninistas vituperam. Argumento sólido, sem dúvida. Mas, no meio disto, ninguém põe sequer a hipótese de os eleitores terem finalmente considerado que, cem anos depois da revolução soviética  do seu destino, já não querem votar no PCP.

[Da coluna do CM] 

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Clássicos do dia eleitoral.

por FJV, em 01.10.17

Portanto, em dia de futebol, a abstenção desceu.

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