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Aproveitamento político.

por FJV, em 17.08.17

Claro que ninguém fica indiferente à energia e à presença do Presidente da República no Funchal, depois da tragédia da Senhora do Monte, de Pedrógão ou de outros cenários onde os portugueses percebem que o Estado não os ignora de todo. Mas a consolação tem de dar lugar, depois, ao apuramento de responsabilidades da parte do mesmo Estado a quem os portugueses entregam os seus impostos, delegam a procura de justiça ou de segurança. Não faz sentido, por isso, que o primeiro-ministro critique o “aproveitamento político” das tragédias. Não são as tragédias que estão em causa – mas uma soma inacreditável de incompetências, mentiras, desacertos, além da descoordenação de meios e de respostas. O próprio primeiro-ministro alterou várias vezes a sua posição em relação ao Siresp, por exemplo. Não basta que faça perguntas aos seus serviços: nós fazemos perguntas; o Estado tem de dar respostas – é assim que funciona a democracia. Não se trata de “aproveitamento político” das tragédias, mas de verificar que o Estado, para o qual contribuímos mais do que generosamente, falha e mente onde não pode falhar nem mentir.

[Da coluna do CM]

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No Delito.

por FJV, em 17.08.17

Por convite do Pedro Correia, o Delito de Opinião publica esta semana um texto meu, «O tempo sem pessimistas».

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Catalanistas.

por FJV, em 17.08.17

O «provincianismo independentista» não esconde um certo rabo de palha: decretada a independência, terminariam estes processos que fazem da Catalunha a capital da corrupção em Espanha. O número de delitos de corrupção investigados na Catalunha é o dobro de Madrid ou da Andaluzia e 300 vezes mais do que Navarra, 15 vezes mais do que a Galiza, superior em 40 vezes às comunidades de Aragão, de Castela e Leão ou de Múrcia. Para entusiastas do independentismo catalão, ler La Soledad del Manager ou Los Mares del Sur, de Manuel Vázquez Montalbán – e comparar com as biografias políticas de alguns líderes catalanistas. O velho Tarradellas definiu a coisa como uma dictadura blanca.

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Perigosa, esta coisa.

por FJV, em 16.08.17

Há tempos, uma dirigente socialista escreveu no Twitter um post escandalizado: então esta jornalista ainda não foi despedida? A ideia de calar os que têm outra opinião, que interpretam os factos de outra forma, que dizem uma verdade inconveniente (como era o caso), ou fazem uma piada, tem vindo ser adotada como regra. As opiniões de um funcionário num documento interno da Google foram o suficiente para que fosse despedido pela empresa porque o texto “perpetuava estereótipos de género”. A atriz Lena Dunham (série Girls) declarou no Twitter que, enquanto esperava um voo, ouviu dois empregados da American Airlines numa conversa “transfóbica” (o seu voo era noutra companhia, já agora); a companhia tratou de saber quem seriam os funcionários, para despedi-los. O comediante Bill Maher, insuspeito de simpatias republicanas (é campeão de piadas contra Trump), protestou esta semana contra o despedimento de Jeffrey Lord, um comentador pró-Trump da CNN apanhado numa piada de mau gosto – mas declaradamente piada. Há tempos, o próprio Maher usou a palavra ‘nigger’ numa piada e originou uma campanha para o seu despedimento da HBO. Está perigosa, esta coisa – e imbecil.

[Da coluna do CM]

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Proiba-se.

por FJV, em 15.08.17

Antigamente, havia extraordinários desejos inconfessáveis: ter uma aventura com um ator ou uma atriz de cinema, aceder a uma profissão, pensar em sexo (a maior parte do tempo) – a lista é muito variada e, ai de nós, pecadores, quase interminável. Hoje, uma das ambições da humanidade esclarecida é proibir. Proibir uma palavra, proibir açúcar, proibir uma ideia, proibir uma pessoa. Não basta não gostar, discordar, achar imbecil – é preciso proibir. Desta vez, quem chamou a atenção para o assunto foi o escritor espanhol Javier Marías. Fui ver à fonte, a imprensa inglesa: a principal associação de estudantes de Oxford quer proibir as togas (é uma questão antiga) ou, agora, proibir que existam togas diferentes. É que o tamanho das mangas das togas são importantes: se forem compridas, significam que os estudantes chegaram, digamos, ao topo e foram distinguidos de alguma maneira. A rapaziada acha que é traumatizante a exibição dessas mangas largas e compridas para os que tiveram notas inferiores – e que “perpetuam” um estatuto de desigualdade que é preciso banir. Proíbam-se.

[Da coluna do CM]

 

P.S. - A associação de estudantes de Oxford (OUSU) é especialista em pedir proibições – uma delas foi a de uma conferência da feminista Germain Greer, pelo facto de não concordarem com as suas ideias sobre género – o que não conseguiu; também tentou, e conseguiu, proibir um debate sobre o aborto (por considerar ofensivas certas ideias defendidas por dois dos participantes) e outro sobre, tome nota, «Freedom of Speech and Right to Offend».

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Os avanços civilizacionais e a avó que vai dar à luz um neto.

por FJV, em 15.08.17

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O admirável mundo novo lusitano rejubilou porque, a acreditar na primeira página do Expresso de anteontem, uma avó irá dar à luz um neto, ou seja, será “portadora” (o termo é letal) de uma criança para a sua filha, que não pode engravidar. A ideia não me enternece. Há crianças abandonadas pelo mundo fora e os números portugueses dão conta de estatísticas que devíamos baixar: repito, crianças abandonadas pelos seus progenitores. A maior parte deles é entregue às instituições sociais do Estado e podem vir a ser, ou não, adoptadas por famílias desde muito cedo. Compreendo o que dizem ser as “alegrias da maternidade” e, à distância, entendo (mas não o partilho como um valor absoluto) o desejo de perpetuar o património genético de uma família através de uma criança gerada no laboratório ou no ventre de uma barriga de aluguer. Trata-se de um manifestação moderna do egoísmo das gerações para quem não existe um impossível ou um interdito. Aldous Huxley já referia o assunto em Admirável Mundo Novo um livro aborrecido, mas premonitório. Os avanços civilizacionais são cruéis.

[Da coluna do CM]

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Bolivarianos.

por FJV, em 11.08.17

Pedro Correia sobre dois pataratas bolivarianos. 

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Viver num T2 no centro da cidade por menos de 400€? Sim, é possível.

por FJV, em 11.08.17

Carlos Guimarães Pinto explica como não tem sentido nenhum dizer que as pessoas estão a ser expulsas do centro das cidades — e prova-o, indicando mesmo apartamentos disponíveis a menos de 400€ mensais. Uma oportunidade para «os jovens», mesmo os do Bloco.

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The Cook, the Thief, The Mayor, The Judge, His Wife & Her Lover

por FJV, em 10.08.17

Nesta novela deliciosa não falta praticamente nada. O único pormenor trágico é mesmo a indiferença.

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A cozinha de Pandora.

por FJV, em 10.08.17

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Que a BBC o diga parece-me bem: que a cozinha portuguesa é a mais influente do planeta inteiro. Tudo começou com o jornalista David Farley a pesquisar as origens da tempura japonesa, que o levou até aos nossos peixinhos da horta; daí, para a curiosidade em relação aos nossos Descobrimentos quinhentistas e à relação que estabelecemos com ingredientes e cozinhas de todos os continentes; daí, para a nossa própria cozinha: plural, variada, criativa e aberta a influências. Há muita gente que fica espantada quando lhes digo que o prato de referência dos judeus de Bagdade era o bacalhau (numa variante parecida com a patanisca, keftes) tal como os judeus de Roma popularizaram o nosso filete de bacalhau salgado, os nossos fritos de grão singraram no Levante e Médio Oriente, ou o nosso estufado de borrego em Java e nos mares da região – além da feijoada no Brasil, claro. Ou quando refiro que somos os melhores a preparar arroz (temos mais de uma centena de variantes) ou pratos de vegetais. Sinceramente, acho que está aberta a caixa de Pandora, e que esta Pandora é saborosa. E suculenta. (Ainda ouço alguns a rir da sugestão de globalizar o pastel de nata...)

[Da coluna do CM]

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O cantinho do hooligan. Bem vindos. 2.

por FJV, em 10.08.17

Nada de novo, portanto: se tivesse sido usado o vídeo, o FC Porto teria concluído o campeonato anterior no primeiro lugar, acima dos 82 pontos.

Por falar nisso, revejam os arquivos: no campeonato de 2007-2008, que foi viciado pela tomada de assalto da Liga, o FC Porto terminou com 75 pontos e não com 69. Dez anos depois, o Conselho de Justiça dá razão ao FC Porto, devolvendo-lhe os pontos, ou seja, assumindo que o Apito Final foi — vamos lá escolher uma palavrinha — uma roubalheira para favorecer o Benfica. Com todas as letras.

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O cantinho do hooligan. Bem vindos.

por FJV, em 09.08.17

1. Foi preciso o video-árbitro para validar o golo de Marcano no jogo de hoje, que o árbitro-assistente tinha anulado. Infelizmente, o video-árbitro não foi usado na Supertaça para invalidar o primeiro golo do SLB, para marcar o penálti cometido por Sálvio ou para puxar do cartão vermelho que não foi mostrado a Jardel (o do Benfica).

2. Medo: seis falhanços de Aboubakar (Moreira prometeu só defender os remates de Aboubakar).

3. Vinganças merecidas: o regresso de Marega, Óliver a dar cartas, dois voos de Casillas.

4. Tiquitaca: Óliver, Alex Telles e Brahimi — e golo.

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Má consciência.

por FJV, em 09.08.17

Regresso em grande de Filipe Nunes Vicente no blog Má Consciência:

Um belo texto aqui, para começar: «Bronzeadas, musculadas e, sobretudo, tatuadas. Enxameiam as páginas  das secções-vidas dos media. Se andam assim têm boas razões, mas estou desfazado do meu género: masculino e, até à data, hetero (ainda não conheci o Nené).Aqueles corpos provocam-me a mesma sensação que os dobermanns. Sempre tive cães, noto bem o interesse de um bicho elegante, mas o dobermann lembra-me a Uzi do tenente Macias, meu instrutor do tempo do desperdício. A psicanalista de serviço já sacou do moleskine: medo de mulheres poderosas. Os psicanalistas são viciados na forma: filha-colo-pai-édipo, bebé-cocó-prazer etc. Não há nada mais excitante do que uma cabeça premiada e um carácter generoso num corpo discreto. A traição da aparência é a atracção.»

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As nadadoras-salvadoras de Gijón.

por FJV, em 09.08.17

Gosto da indumentária das nadadoras-salvadoras de Gijón: vermelho, como convém, e com uma reduzida cuequinha de biquíni que se perde entre os glúteos – o resultado é interessante, se me faço entender. Este comentário seria considerado machista e sexista pela conselheira municipal de Segurança Cidadã da cidade asturiana – e eu seria denunciado pela local Associação de Mulheres Separadas e Divorciadas, que não admite piadas nem exclamações de júbilo heterossexual. Várias comissões de igualdade de género espanholas, muito bigodudas, consideram sexistas algumas observações sobre o assunto nas “redes sociais”. Fui ver, indignado. Por exemplo: “10 afogados e só de manhã. Alguns, duas e três vezes”, e foto de uma nadadora. Ou: “Onde é que me inscrevo para poder afogar-me um pouco?” Escandaloso machismo e sexismo. O município, entretanto, pediu às nadadoras para usarem calções, o que levou a jornalista (e romancista) Carme Chaparro, da Telecinco, a protestar contra esta atitude ainda mais sexista, dizendo que o problema é dos homens, que “não são capazes de se controlar”. Assim vai o radicalismo ibérico.

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Serra do Roboredo.

por FJV, em 09.08.17

Nunca descobri a Serra do Roboredo, que agora arde perto de Moncorvo: ela descobriu-me a mim, inventou-me, fez-me amar aquelas árvores (os carvalhos brancos, as faias, negrilhos, amendoeiras, castanheiro bravo, sobreiros, medronheiros, cerejeiras, cedros, zimbros e ciprestes), as colinas de vegetação suave (urze, giesta amarela, cravinas, orquídeas, esteva e carqueja, pilriteiros, rosa-brava e refúgios de espargo, serralha e acelga), as suas sombras humedecidas (onde nascem míscaros, sanchas e roques), a capela de N.S. da Teixeira (frescos que lembram El Greco), as ruas silenciosas de Maçores, Açoreira, Felgueiras, Peredo e Urros, ou a Fraga do Facho e a água do seu ribeiro (“os castanheiros curvam-se sobre ela, para que o sol do estio a não aqueça”, como escreveu Campos Monteiro). Eu saía a pé da minha aldeia, Pocinho, e a Serra do Reboredo era o esplendor aberto ao céu, comovente, de onde levantava a neblina para deixar ver, da outra margem, todo o Vale do Nídeo onde flutuavam águias, açores e falcões) até à foz do Côa. Não são eucaliptos que ardem, ó ignorantes. É a minha serra.

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A Caixa, com certeza.

por FJV, em 09.08.17

Durante anos, os do “oásis” e os da “euforia” (até se acabar o dinheiro, como todos sabemos – e frequentemente se esquece), Portugal podia não ter a extraordinária vaga de turistas que enchem as nossas ruas. Mas, à mesma dimensão, havia uma extraordinária vaga de gestores (os melhores do mundo, os pilares da Europa, as colunas da economia) a encher os gabinetes das “nossas empresas”, incluindo o banco público. Parece que em grande parte delas houve irregularidades e má gestão, ou não estariam como estão ou como acabaram por desaparecer; parece que, no caso da Caixa, houve dinheiro para todos os amigos do regime comprarem ações de outros bancos (que depois foram destruir, também metodicamente), montarem empresas inviáveis, negócios tão ruinosos que nunca empobreceram os gestores amigos que, entretanto, transitaram para outros negócios em que era necessário ser muito amigo “das autoridades”. E o que concluem os relatórios (como o da Caixa)? Que é tudo exagero e maledicência. Em literatura, nem o Cohen de Os Maias, de braço dado com o conde Gouvarinho, era capaz desse descaramento.

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Portugueses na Venezuela.

por FJV, em 08.08.17

Por motivos, digamos “literários”, colecionei histórias de emigração portuguesa um pouco por toda a parte – e do tempo em que não havia Skype, nem internet, nem voos acessíveis. Em quase todo o lado havia histórias de heróis. Em todos os continentes. De vencedores e derrotados, de luz e de sombra, de glória e de perda. Na Venezuela conheci gente que se espalhou de Caracas (no belo bairro da Candelaria) às cidades do petróleo, das ilhas à penumbra dos Andes, do Orinoco a Maracaibo – quase todos tinham sobrevivido às adversidades. Penso neles como heróis: no imobiliário e na construção, nos restaurantes e no comércio, no ensino e na agricultura. Guardo da comunidade portuguesa da Venezuela uma impressão amável e malandra, de gente ambiciosa e grata – o Centro Português de Caracas, obra coletiva, é a prova. Talvez um dia, quando a literatura ou o cinema portugueses quiserem fazer o retrato dos seus contemporâneos, eles possam figurar nessas páginas e nessas imagens como heróis discretos que defrontaram o país que os empurrou para a emigração e a terra que lhes está a ser tão amarga.

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O mundo moderno e a falência das pessoas normais.

por FJV, em 08.08.17

O mundo comoveu-se com o relato de Lamar Odom, estrela da NBA, basquetebolista de eleição, grande talento (sem ironia: esteve nos Lakers, nos Clippers, nos New York Knicks e nos Dallas Mavericks), ex-cônjuge de uma Kardashian, e, portanto, milionário e consumidor de drogas. O desfile de explicações vem da infância, naturalmente: marijuana num bairro pobre, vítima e algoz, pobre e sonhador, cocaína entre sexo e adultério, bebida e fama – e mais cocaína ainda. Parece que Lamar bateu no fundo, entrou em coma, despertou, viu os filhos (finalmente) e se arrependeu de ser um idiota, publicando um texto mais ou menos comovente. A internet e as televisões choraram e aplaudiram. Acontece que percursos como os de Lamar Odom com a cocaína são comuns; em quase todos eles, os imbecis transformam-se em heróis depois de confessarem ser imbecis. Infelizmente, as pessoas que não se drogam, não casam com uma Kardashian, não são milionários, não publicam fotos parvas no Instagram ou não abandonam os filhos são consideradas gente sem grande interesse e exemplos para ninguém. Nisto estamos.

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Christian Millau (1928-2017), absolutamente perto do divino.

por FJV, em 05.08.17

Insolente, impertinente, desrespeitador – é o que significa impoli em francês. É esse o título do diário de Christian Millau (1928-2017), Journal impoli, publicado em 2011 e que, em subtítulo, leva os anos a que diz respeito: 2011-1928, assim, invertendo a ordem do tempo. São 700 páginas que afrontam a cultura francesa mais oficial, a dos mandarins e das universidades, falando de Céline e de Hemingway, de Churchill e de Orson Welles, do grande Blondin ou de Mauriac e Cendrars, vultos que hoje estão na galeria dos esquecidos. Como o próprio Millau, um autor desconhecido em Portugal – e aqueles que o conhecem associam-no a Henri Gault, com quem se associou para lançar em 1972 o mais famoso dos guias gastronómicos, o GaultMillau, a quem se deve a consagração da nouvelle cuisine. Jornalista de política e romancista, no pós-guerra lutou contra o moralismo literário, essa literatura de tias velhas que destruiu a cultura francesa. O seu humor era corrosivo. O seu gosto era absolutamente divino – sem ele, a literatura gastronómica seria banal. Morreu anteontem.

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Férias de um selvagem.

por FJV, em 04.08.17

Quando comecei a escrever sobre viagens, no início dos anos 80, havia lugares tão sombrios como maravilhosos para descobrir. Atravessar África de uma costa à outra, descer a América do México à Antártida, cruzar as rotas do Médio Oriente ou subir pela Ásia até à Mongólia: era difícil, um desafio sem comodidades, uma tentativa de chegar a “um lugar único”. Hoje, qualquer “lugar único” desses tempos tem um ‘spa’ igual aos do Algarve, cozinha gourmet como a de Tóquio e uma rede ‘wifi’ que atravessa o deserto. Claro que há sempre possibilidades, mas não convém falar delas (são o nosso segredo). Eça dizia que o mundo se estava a tornar banal e que um dia chegaríamos a Tombuctu para encontrar um cavalheiro local a ler um jornal de Paris. A diferença seriam as pessoas, as suas histórias, a sua comida, a sua língua. Com a televisão e a net há cada vez menos diferenças (além das guerras – vejam no mapa) e há quem venha a Lisboa para comer um sushi igual ao de Los Angeles. Este ano, as minhas férias foram entre casa e a esplanada do café do bairro. A ler e a dormir, feliz como um selvagem.

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O Estado gosta de coisas sexy e cheias de marketing.

por FJV, em 03.08.17

Henrique Pereira dos Santos (HPS) é arquiteto paisagista, especialista em paisagem rural, conservação da natureza e autor de estudos sobre a matéria – e uma das pessoas que mais entende e escreve sobre incêndios. Ontem, no blogue Corta-Fitas, publicou um texto sobre um dos projetos que bem conhece, o da utilização de rebanhos e pastoreio como forma de gerir os territórios e, inclusive, de contribuir para a gestão dos fogos florestais. Do concurso público em que foi apresentada a proposta (“gestão socialmente útil do fogo nas nossas paisagens”) veio um conjunto de inanidades, cheia de palavreado que valha-nos Deus, excluindo o projecto de um total de 253. Protestaram e foi-lhes dada razão. É um método usado lá fora, onde está no topo das soluções – menos em Portugal, onde consumimos milhões a alugar helicópteros que não funcionam e a pagar manipulação de informação. Como escreve HPS, as autoridades querem coisas mais sexy e cheias de marketing. Por exemplo, subsidiou-se com 1 milhão de euros um projeto de monitorização de incêndios por drones. Sim, também não funciona.

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Boaventura, o amiguinho dos circenses.

por FJV, em 03.08.17

Compreendo – com dificuldade, mas com paciência – a nostalgia estalinista de alguns comunistas históricos, pelo menos até chegar à parte do Gulag, das purgas, dos julgamentos forjados e das vagas de assassínios (os textos de Lenine já mostram a tendência criminosa do autor e do regime). Mas tenho alguma dificuldade (é uma maneira de dizer) em entender que Boaventura Sousa Santos ache graça ao regime venezuelano, um subproduto do caudilhismo latino-americano alimentado por ideólogos europeus pagos com regularidade (dos trotsquistas ingleses aos especialistas circenses do Podemos espanhol). Um regime que mata nas ruas, que fecha jornais e televisões, que desperdiça e empobrece os recursos do país, que obriga os seus concidadãos a insuportáveis e intermináveis missas (assisti a dez horas de celebração com Chávez e é um pouco menos que abjeto), que manipula e falsifica um milhão de votos, que manda os seus capangas esmurrar deputados ou prender ilegalmente os oposicionistas, não é companhia que se recomende. Será que defendem isto para Portugal, os amiguinhos de Maduro?

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