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O País do Futuro.

por FJV, em 19.05.17

Diz-se que há uma “maldição de Stefan Zweig”, o escritor austríaco que fugiu da Europa e do nazismo para se fixar no Brasil, em Petrópolis, onde se suicidou em 1942. Em 1941 publicou Brasil, País do Futuro – título que constituiu, em simultâneo, uma promessa e uma maldição. O Brasil, hoje, é uma equação incerta. É um país que já não tem desculpa. Não pode desculpar-se com a “herança colonial portuguesa” (sua desculpa fácil de sempre, sobretudo entre os intelectuais) nem com a agressão do capitalismo. Minado (verdadeiramente minado) pela corrupção, raros são os políticos a salvo da suspeita. Depois do consulado equívoco de Lula e da tragédia de Dilma (um pesadelo de incompetência e desleixo), o Brasil ouviu, incrédulo, o depoimento do antigo presidente petista, culpando a sua falecida mulher por eventual corrupção. Uma vergonha. Anteontem, o país soube que Michel Temer não tem apenas falta de legitimidade eleitoral – mas também de probidade. Nada de novo. Do PSDB ao PT, passando pela desgraça que é (e sempre foi) o PMDB, poucos se salvam. O país do futuro é de novo um enigma. E um escândalo.

 

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De novo, cultivar o jardim.

por FJV, em 19.05.17

Sob o efeito da guerra que ocupara a Europa no início da segunda metade do século XVIII e ainda vivendo o horror do terramoto de Lisboa, o de 1755, Voltaire termina Cândido, ou o Otimismo de uma forma enigmática, mas deliciosa – sim, o otimismo é bom; mas “devemos cultivar o nosso jardim”. Foi essa a escolha dos eleitores franceses (como está a ser a dos alemães, aliás, voltando as costas ao populismo de Schultz): um certo regresso a casa, cuidar da França, recentrar a política para que ela tenha espaço para a imaginação. Por alguma razão isso não alegra nem seduz os nossos tribunos, certamente porque têm dificuldade em ler a língua de Voltaire (e, assim, de compreender como a França voltou a estar no centro da Europa). É possível que este “novo centro” francês, bem expresso no governo anunciado ontem, ao afastar os cavernícolas da velha esquerda (a balela dos “insubmissos profissionais”) tanto como os herdeiros da gerontocracia da direita (e da sua pose) consiga despenalizar a política. E que os europeus possam cumprir o desígnio de Voltaire: cultivar o seu jardim.

 

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De todos nós?

por FJV, em 19.05.17

Várias almas dedicaram os últimos dias a proclamações patrióticas a propósito da vitória de Salvador Sobral lá em Kiev. Que isto é um prémio para todos nós, o reconhecimento de que somos geniais, de que o talento para a música nasceu aqui, e de que não há um único desafinado de Valença à ilha do Corvo. Esta apropriação dos prémios pela pátria inteira é meio esquisita. Claro que ficamos felizes, claro que exultamos – Salvador é dos nossos. Mas, quando se trata de generalizar, alto lá. Foi assim com o Nobel de Saramago; a partir daí, éramos todos grandes escritores. Foi assim com Ronaldo; passámos a ser todos bons de bola. Lá por Maria João Pires ser genial, o país não deixa de ter pianistas desafinadas. Os políticos em funções usam muito essa artimanha: somos os melhores do mundo, não há ninguém assim. Acontece que cada um desses prémios recebidos é fruto de muito trabalho, dedicação, abnegação muitas vezes, e sofrimento, insistência. Silêncio. Incompreensão. Injustiça. Alegria também. Mas não gastem tudo com trivialidades patetas. O prémio é deles. 

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