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Vá lá, um pouco de calma, isto é normal.

por FJV, em 31.05.17

Outro dia, um texto publicado num blogue feminista chique (Capazes) defendia que, em nome do equilíbrio democrático, o direito de voto fosse retirado aos ‘homens brancos’ durante, digamos, vinte anos. Isso serviria para impor um módico de justiça ao nosso mundo, dominado pelos ‘homens brancos’, período após o qual os direitos políticos lhes seriam suavemente restituídos. Ou não. Aí está um tema para discussão. Entretanto, em Paris realizar-se-á um festival “afro feminista europeu”, o Nyansapo, em que só 5% do recinto estará “aberto a todos”. 80% do espaço será “não misto para mulheres negras” além de 15% “não misto para pessoas negras”. Esta distribuição do espaço do festival (que a presidente da câmara de Paris pediu para proibir) também não me comove por aí além. Poderíamos falar da “idade do ressentimento”, da parolice, da vida sexual das doninhas, dos “estudos culturais” das universidades e da abundância de pólen na atmosfera. Não é caso para guerra civil. Há certos momentos em que não vale a pena discutir com pessoas malucas. Elas ganham.

 

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Turismo.

por FJV, em 31.05.17

Com ironia, Eça de Queirós achava que a visita dos estrangeiros era um incómodo: estamos nós em camisa, de chinelos, a palitar os dentes – e vem esta gente obrigar-nos a recolher o lixo e a ter maneiras à mesa. Os deputados que se preparam para agravar as condições de existência do “alojamento local” fazem-no por disciplina partidária, porque o Estado precisa de fazer o seu saque e de elaborar regulamentos. Mas, lá no fundo, servem a pequena xenofobia, a ideologia da treta, o atavismo e os interesses pessoais – e não esqueceram o que disse um responsável pelo setor nos tempos da pós-revolução (que o turismo é “a prostituição de um povo”, lembram-se?). O ataque ao “alojamento local” é ótimo para o lóbi hoteleiro, que quer ser absolutamente dominador (quem sabe, um dia poderá financiar campanhas eleitorais). Para os burocratas, os turistas são um incómodo e um perigo, mesmo que 90% dos residentes na capital se declarem satisfeitos com o turismo – e a sentir mais orgulho na sua cidade. Por detrás de um destes burocratas está sempre um perigoso provinciano encartado. E maldoso.

 

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Vaidade impura.

por FJV, em 29.05.17

Uma certa pessoa recomenda livros portugueses em inglês. E tal.

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O cantinho do hooligan. Do problema do treinador.

por FJV, em 29.05.17

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Nestes dias tenho receio das notícias sobre treinadores que se despedem do seu emprego, seja ele onde for. Claro que acho benigna a ideia de há treinadores que se recusam a trabalhar no FC Porto por motivos financeiros para lá do razoável – significa que algum bom senso entrou naquelas cabeças e que pode haver esperança – mas acho pior a mania de apresentar-nos um treinador-surpresa (a lista vai de Jorge Simão e regressa a Rui Barros e passa por meia dúzia de nomes espanholizantes, sem mencionar Vítor Oliveira). Como não acredito, sinceramente, que tivesse havido uma proposta séria e conforme a Marco Silva, Carvalhal ou Sérgio Conceição, o facto de não contratarem a Madonna já me parece um sinal de sorte.

Duas notas ainda: 1) depois de Lopetegui ter arrasado o balneário e deixado sementes aqui e ali, e de Nuno Espírito Santo ter querido dançar o funaná em câmara lenta, até acho plausível que os treinadores com dois dedos de testa hesitem várias vezes antes de atender um telefonema. Já vão longe os tempos em que treinar o FC Porto era ser bafejado pela sorte. Isto devia dar uma ideia, aos vários directores em exercício, da merda que fizeram. 2) também dá ideia da pouca coragem desses treinadores, que preferem trabalhar para ficar em 11.º em vez de começar por jogar na Champions – mas eles lá devem reconhecer as suas limitações.

Está a ser, vai ser, há de ser um folhetim bonito de se ver.

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Totti, totus tuus.

por FJV, em 29.05.17

Ontem, depois de ter vencido o Génova (o 3-2 foi de Diego Perotti aos 90 minutos), parecia que o clube romano estava a festejar o segundo lugar no campeonato – mas não: era a despedida de Francesco Totti, o número 10 da AS Roma. Melhor: o eterno 10 da AS Roma. Em futebol, 25 anos na equipa principal são uma eternidade – quase toda a vida de Totti, ‘Il Re di Roma’ ou ‘Il Capitano’. O homem que podia ter jogado noutros clubes – e ganho muito mais dinheiro – e nunca saiu “do clube do seu coração”. Hoje, “clube do coração” não quer dizer nada a não ser que se esconda a “cor do coração” e Totti nunca o fez: onde ele estava, estava a AS Roma, no lugar de campeão, no de segundo (a Roma é campeã de segundos lugares), no de sexto, no de antepenúltimo. Ontem, Totti encheu de lágrimas o Estádio Olímpico. Aos 40 anos Totti já não “fazia a diferença”, nem a Roma está na primeira linha. Mas ao vê-lo, ali, reunindo milhares de adeptos para a sua despedida, só podíamos ter inveja daquela glória hoje tão rara. Não no futebol (“É um mundo que não me agrada, cheio de gente que não gosta de futebol, que só gosta de dinheiro”, diz Totti). No mundo dos homens que ainda são humanos.

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Dracula, Bram Stoker.

por FJV, em 29.05.17

Parece que há cerca de quatro anos a editora inglesa Constable & Robinson recebeu um manuscrito, The Cuckoo’s Calling, Quando o Cuco Chama, de um autor desconhecido, Robert Galbraith. Na resposta, o editor dizia que se tratava de um livro comercialmente inviável e recomendava mesmo que Galbraith, ai dele, tivesse aulas de “escrita criativa”. Erro crasso: Galbraith era o pseudónimo que J.K. Rowlling (criadora de Harry Potter) usava para as histórias policiais do detetive Cormoran Strike, e o livro foi um sucesso comercial. Coisa diferente ocorreu há 121 anos, quando a mesma casa editora aceitou publicar um “romance de horror” de um vago jornalista irlandês que trabalhava em Londres no Telegraph, Bram Stoker. O livro não foi um best-seller imediato, mas Conan Doyle (o criador de Sherlock Holmes) achou-o magnífico e a crítica, em geral, comparava-o a Frankenstein, de Mary Shelley, às obras de Stevenson ou Poe, ou a O Monte dos Vendavais. O personagem principal era um conde que vivia entre a Transilvânia (na atual Roménia) e a Moldávia – e o livro era Drácula, publicado a 26 de maio de 1897, há 120 anos. Passado todo este tempo, Drácula ainda povoa os nossos pesadelos.

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Lembram-se de quando a China produzia apenas relógios de imitação?

por FJV, em 29.05.17

 

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Ah, «compreender» o terrorismo

por FJV, em 24.05.17

O essencial sobre a tudologia acerca do terrorismo, pelo Pedro Correia. Era fundamental acertarmos nisto.

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Simon Templar.

por FJV, em 24.05.17

Como Simon Templar e como James Bond, ao lado de Jane Seymour

  

Roger Moore (1927-2017) sabia que era “apenas Roger Moore” – isso não o incomodava. Ou seja, sabia que ia passar à história do cinema como Simon Templar (‘O Santo’) ou como James Bond, os dois personagens que interpretou com humor e desprendimento. Era “o inglesinho elegante” em quem o ‘smoking’ branco assentava bem, que sabia levantar a sobrancelha direita nos momentos certos, e que fingia – adoravelmente – correr risco de vida ao lado de Britt Ekland, Barbara Bach, Lois Chiles, Maud Adams ou Grace Jones, atrizes de quem hoje poucos se lembram (são sete filmes como Bond). O seu génio está todo em Simon Templar, ‘o Santo’, com a sua roupa e penteado imaculados, além de cenas mirabolantes mas de reduzida ação. Hoje, quando vemos os filmes de 007 com Moore, recuamos mais do que um século; aquela sofisticação vem tocar-nos de leve, e rimo-nos: quase tudo é graciosamente obsoleto, até o sentido de humor, o donjuanismo com aquela banda sonora (Carly Simon, Duran Duran, Sirley Bassey ou Sheena Easton, lembram-se?). Roger Moore era mestre numa grande escola de cavalheiros.

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Manchester.

por FJV, em 23.05.17

Há exactamente 16 anos, a 1 de Junho, estava bem perto da discoteca Dolphinarium, em Telavive – onde um bombista suicida se fez explodir matando 21 adolescentes. Na altura, o Guardian publicou as declarações do pai do jihadista, Saeed Hotari: «I am very happy and proud of what my son did and I hope all the men of Palestine and Jordan would do the same.» À ABC News, as declarações foram ligeiramente diferentes: «I am proud and I will never forget it until the last day of my life. This kind of death is better than any other kind of death. Thanks to God.» 

Dois anos depois, a foto de Saeed Hotari estava presente na sessão onde o mayor de Londres, Ken Livingstone, e Cherie Blair, mulher do primeiro-ministro britânico, prestavam homenagem aos heróis do Hamas e da então Jihad Islâmica, que reivindicaram o atentado na Dolphinarium e que, menos de dois meses depois, faziam explodir a pizaria Sbarro, no centro de Jerusalém, à hora de almoço. 

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O amor presidencial.

por FJV, em 23.05.17

O que é uma hipérbole? Uma figura de estilo que assenta na expressão exagerada de uma imagem, uma ideia, uma comparação. Se quiserem mais, perguntem ao Presidente da República que, chegado aos Açores, tratou de classificar como uma “grande terra com grande gente”. Que problema isto levanta? Aparentemente nenhum, e sou açoriano honorário – mas, conhecendo os portugueses, não haverá concelho que não tenha já montado o seu vigilante “elogiómetro” (um dispositivo para medir a intensidade dos elogios patrióticos). Minhotos, alentejanos, beirões do mar e da serra, raianos e ilhéus: não conheço terra que não esteja pronta para o seu elogio – e a compará-lo com os precedentes. Se o presidente é tão elogioso para com (imaginemos) as ameixas de Elvas, o que dirá (imaginemos) do presunto de Chaves? A uruguaia Cristina Peri Rossi tem um belo romance intitulado O Amor É uma Droga Dura. Também o otimismo patriótico é uma droga dura. Obriga-nos a subir a dose do elogio; chegará um dia em que o dicionário não bastará para satisfazer a fome de amor presidencial. Será, ai de nós, um dia terrível.

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110 anos de Lawrence Olivier.

por FJV, em 23.05.17

Daqui a uma semana, o Teatro de S. João, no Porto, vai estrear Macbeth, de Shakespeare (encenação de Nuno Carinhas, tradução de Daniel Jonas). Refiro-o também porque passaram ontem 110 anos sobre o nascimento de Lawrence Olivier (1907-1989), a quem devemos a grande trilogia de Shakespeare no cinema: Henrique V (1944), Hamlet (1948, vários triunfos nos Oscares) e Ricardo III (1955) – um clássico na representação de Shakespeare, e na história dos seus rostos inesquecíveis (há ainda Otelo, Henrique V, Rei Lear e O Mercador de Veneza). Foi durante um Hamlet que conheceu (em 1937, o mesmo ano em que representa Macbeth) uma das mulheres da sua vida, Vivien Leight (a Scarlett O’Hara de E Tudo o Vento Levou e a Blanche Du Bois de Um Elétrico Chamado Desejo). Reduzir Olivier a Shakespeare é ridículo: ele é o grande rosto de Heathcliff no Monte dos Vendavais de 1939, ou o de Rebecca, de Hitchcock, ao lado de Joan Fontaine, ou Mr. Darcy no Orgulho e Preconceito com argumento de Aldous Huxley (de 1940). A sua representação devolve-nos o prazer dos clássicos.

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O País do Futuro.

por FJV, em 19.05.17

Diz-se que há uma “maldição de Stefan Zweig”, o escritor austríaco que fugiu da Europa e do nazismo para se fixar no Brasil, em Petrópolis, onde se suicidou em 1942. Em 1941 publicou Brasil, País do Futuro – título que constituiu, em simultâneo, uma promessa e uma maldição. O Brasil, hoje, é uma equação incerta. É um país que já não tem desculpa. Não pode desculpar-se com a “herança colonial portuguesa” (sua desculpa fácil de sempre, sobretudo entre os intelectuais) nem com a agressão do capitalismo. Minado (verdadeiramente minado) pela corrupção, raros são os políticos a salvo da suspeita. Depois do consulado equívoco de Lula e da tragédia de Dilma (um pesadelo de incompetência e desleixo), o Brasil ouviu, incrédulo, o depoimento do antigo presidente petista, culpando a sua falecida mulher por eventual corrupção. Uma vergonha. Anteontem, o país soube que Michel Temer não tem apenas falta de legitimidade eleitoral – mas também de probidade. Nada de novo. Do PSDB ao PT, passando pela desgraça que é (e sempre foi) o PMDB, poucos se salvam. O país do futuro é de novo um enigma. E um escândalo.

 

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De novo, cultivar o jardim.

por FJV, em 19.05.17

Sob o efeito da guerra que ocupara a Europa no início da segunda metade do século XVIII e ainda vivendo o horror do terramoto de Lisboa, o de 1755, Voltaire termina Cândido, ou o Otimismo de uma forma enigmática, mas deliciosa – sim, o otimismo é bom; mas “devemos cultivar o nosso jardim”. Foi essa a escolha dos eleitores franceses (como está a ser a dos alemães, aliás, voltando as costas ao populismo de Schultz): um certo regresso a casa, cuidar da França, recentrar a política para que ela tenha espaço para a imaginação. Por alguma razão isso não alegra nem seduz os nossos tribunos, certamente porque têm dificuldade em ler a língua de Voltaire (e, assim, de compreender como a França voltou a estar no centro da Europa). É possível que este “novo centro” francês, bem expresso no governo anunciado ontem, ao afastar os cavernícolas da velha esquerda (a balela dos “insubmissos profissionais”) tanto como os herdeiros da gerontocracia da direita (e da sua pose) consiga despenalizar a política. E que os europeus possam cumprir o desígnio de Voltaire: cultivar o seu jardim.

 

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De todos nós?

por FJV, em 19.05.17

Várias almas dedicaram os últimos dias a proclamações patrióticas a propósito da vitória de Salvador Sobral lá em Kiev. Que isto é um prémio para todos nós, o reconhecimento de que somos geniais, de que o talento para a música nasceu aqui, e de que não há um único desafinado de Valença à ilha do Corvo. Esta apropriação dos prémios pela pátria inteira é meio esquisita. Claro que ficamos felizes, claro que exultamos – Salvador é dos nossos. Mas, quando se trata de generalizar, alto lá. Foi assim com o Nobel de Saramago; a partir daí, éramos todos grandes escritores. Foi assim com Ronaldo; passámos a ser todos bons de bola. Lá por Maria João Pires ser genial, o país não deixa de ter pianistas desafinadas. Os políticos em funções usam muito essa artimanha: somos os melhores do mundo, não há ninguém assim. Acontece que cada um desses prémios recebidos é fruto de muito trabalho, dedicação, abnegação muitas vezes, e sofrimento, insistência. Silêncio. Incompreensão. Injustiça. Alegria também. Mas não gastem tudo com trivialidades patetas. O prémio é deles. 

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Impossível explicar.

por FJV, em 16.05.17

Agora que o Papa regressou a casa, que os políticos guardaram as selfies na coleção (passaram ao futebol logo a seguir), e que grandes figuras da igreja já declararam não acreditar em Fátima – voltemos nós, pessoas comuns, ao assunto. Em primeiro lugar porque falar de religião é pouco popular, está fora de moda. Falei com várias «pessoas comuns» que foram a Fátima e que não debatem a diferença entre «visões» e «aparições», nem estão ocupadas com «as provas da existência de Deus». A experiência de Q., que todos os dias me serve o primeiro café ao balcão da cafetaria, é a mais forte, a mais profunda, aquela que nos deveria fazer pensar. Diz-me Q. que o mais comovente de tudo foi o silêncio. E, depois, a contemplação da luz das velas no meio da escuridão. Deus é isso: um grande silêncio que não tem a ver com os palradores. Há muita gente da igreja que só olha para o céu para ver se chove, porque já não sabe falar de Deus. E há pessoas como Q., que falam do essencial com uma pontaria divina: o silêncio, a escuridão que mostra a luz, os outros, a serenidade que não se explica.

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Bastava ser mortal.

por FJV, em 15.05.17

 

Salvador Sobral: não vale a pena dizer mais nada. A sua canção (e de Luísa, a extraordinária e belíssima Luísa) comoveu a Europa mas, antes disso, comoveu os portugueses de todas as condições – e ele cantou-a em nosso nome, e em nome da melancolia portuguesa, perto do sublime, do arrojo e do despojamento. A vitória na Eurovisão nem é o mais importante, porque será submergida pelo folclore e pela contagem dos anos de humilhação sofridos por Portugal. O que é realmente importante é a simplicidade da vitória: no meio do plástico e da imundície, Salvador não teve de fazer grande esforço. Limitou-se a cantar uma canção que há de perdurar. Vejam-se os textos do Guardian, do Figaro e do Telegraph, que não são propriamente fanáticos do festival da Eurovisão – e que assinalaram a trapaça montada por Salvador (a melancolia, tão cativante, tão prometedora), aproveitando uma brecha e levando ao palco de Kiev uma canção que comoveu toda a gente. Nós, que fomos preparados para a derrota em todas as circunstâncias, nem acreditámos que era tão fácil. Que bastava ser mortal.

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O cantinho do hooligan. «Quem é, no seu entender, a primeira figura do tetra do Benfica?»

por FJV, em 15.05.17

Quem é, no seu entender, a primeira figura do tetra do Benfica? [A pergunta do CM hoje]

Tenho dificuldade em eleger uma única figura. Se fosse o caso, seria Rui Vitória. O presidente do Benfica, igualmente, porque não se meteu no futebol. Os jogadores mais decisivos, como Jonas, Pizzi, Mitroglou, Cervi ou Salvio. Mas gostaria também de mencionar Julen Lopetegui e Nuno Espírito Santo.

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Títulos e explicações que há dois anos nunca seriam assim.

por FJV, em 15.05.17

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Nossa Senhora do Metro.

por FJV, em 12.05.17

Cara Assunção: absolutamente genial. Recordo, para quem não viu, a declaração de Assunção Cristas no Parlamento, defendendo “rasgo, horizonte e ambição”: “A nossa proposta são 20 novas estações para o metro de Lisboa e espero que possam ser estudadas, planeadas, financiadas e tratadas.” Pois Fernando Medina que trema – diante de 20 novas estações de metro, ele perderá Lisboa. No Porto, Rui Moreira estremece. 20 estações? É obra, é arrojo e, como diz Assunção, é “rasgo, horizonte e ambição”. Rima. Algures em Lisboa, Sócrates exulta: “Estão a dar-me razão! E eu só queria um aeroporto em Beja e meia dúzia de auto-estradas no Gerês.” Proposta leviana? Não. As estações serão “estudadas, planeadas, financiadas e tratadas”. É irrealista? Não. Serão “planeadas e financiadas”. É impossível? Não. Serão “tratadas”. Melhor do que isto só o conde Gouvarinho, de Eça, que gostaria de ser ministro da marinha para instalar um teatro em Luanda. Da Vinci também teve “rasgo, horizonte e ambição” há 600 anos, quando desenhou máquinas voadoras – e, hoje em dia, ninguém deixa o de o convidar para jantar.

 

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Voltar à vida, Voltaire.

por FJV, em 11.05.17

Quando François Hollande ganhou as eleições presidenciais, um grupo de socialistas portugueses, já bronzeados pelo verão incipiente, festejou o acontecimento num hotel lisboeta. Basicamente, tratava-se de tagarelar sobre “o futuro luminoso” que estava a chegar e sobre a “nova Europa” cujas portas o cavalheiro estaria prestes a abrir de par em par. Foi, como costuma ser nestas ocasiões (a seguir veio a avalancha de syrizistas), um chorrilho de disparates. Seis anos depois, os tagarelas não estão satisfeitos – Hollande percorreu a escala de disparates com proficiência e os seus dois bertoldinhos, Hamon (que prometia uma “esquerda inovadora”) e Mélenchon (que falava com rimas e hendecassílabos), foram derrotados sem ‘glamour’. Quer a “esquerda inovadora”, quer a “esquerda insubmissa” preferiam, lá no fundo, uma vitória fanfarrona da extrema-direita, o que lhes permitiria invocar a catástrofe e encher a rua de barricadas (o que, na época, não fizeram com a invasão alemã). É provável que os franceses tivessem aprendido a lição de Voltaire e decidido cultivar o seu jardim, em tranquilidade.

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E agora, “máquinas de leitura”.

por FJV, em 09.05.17

Acabo de ler um livro de dois grandes especialistas do MIT em robótica e “máquinas de leitura”, delambidos com os livros digitais e defendendo que a era do “livro imóvel” terminou. Colocando em rede o nosso aparelho e ligando-nos a outros leitores, podemos partilhar notas e comentários, além de ver que sublinhados foram por leitores do Alasca, sem falar de os nossos sublinhados ser vistos por outros leitores cuja existência e amizade poderíamos dispensar. Além disso, os autores, Brynjolfsson e McAfee, festejam a ‘fluidez’ do e-book porque, ao contrário do livro em papel, o e-book pode ter uma edição semanal ou mensal, consoante o catavento do autor, que o “atualiza” sempre que lhe der na veneta ou ceder às sugestões da vasta assembleia de leitores. Para quem pensava que o livro era um monumento delicado, solitário e destinado às nossas melhores horas de isolamento (o tal “prazer difícil”, de que falava Harold Bloom), eis que os pantomineiros da “leitura digital” nos dizem que podemos mudar o guarda-roupa da Senhora Condessa de Gouvarinho ou rapar o bigode aos personagens de Camilo.

 

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Que linda, a Arábia Saudita.

por FJV, em 08.05.17

Que a Síria tivesse sido membro do Conselho de Direitos Humanos da ONU enquanto ordenava massacres e fuzilamentos, é coisa de somenos importância. A Líbia também fez parte do grupo, tal como Cuba. A Arábia Saudita, enquanto decapitava forte e feio (crucificou e decapitou há pouco um miúdo de 17 anos), foi reeleita para a presidência de peritos do mesmo Conselho. Não nos escandalizemos: na ONU, o voto dos magarefes é muito apreciado. Mas a Arábia Saudita queria mais. E conseguiu-o agora (com Guterres no cargo de secretário-geral, uma pessoa tão boa), ao ser eleita para a comissão dos Direitos das Mulheres. Escuso de enumerar as blandícias e benesses proporcionadas às mulheres naquele país (desde a interdição de conduzir ou praticar desporto até à vigilância da bainha da burqa), e que as leitoras conhecem como um interessante incentivo à luta pelos seus direitos, nomeadamente a serem chicoteadas se mostrarem o tornozelo. Trata-se de um grande avanço para a humanidade, que não deixamos de assinalar com alegria. Espero que seja um homem a representá-las. Para não as incomodarem.

 

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O tempo da comida.

por FJV, em 06.05.17

Lembro-me bem do tempo em que os inteletuais, por exemplo, evitavam falar de comida – um assunto que sujava os dedos (ao longo da minha vida conheci gente que desprezava ostensivamente assuntos de comida e que garantia que se devia “comer para viver e não viver para comer”, o que é uma trafulhice de todo o tamanho). Na década de 80, inclusive, chegaram a vender-se apartamentos sem cozinha. O mundo mudou; hoje a comida transformou-se numa obsessão: ou com dietistas que possuem a fórmula mágica da saúde eterna, ou com a avalanche de loucuras ‘gourmet’, ovas de caracol, festivais de comida, ‘showcooking’, festas de ‘street food’, cursos de cozinha, mostras de cogumelos ou tofu, delírio com sushi, a moda das sopas orientais, ‘ramen’, ‘souping’, ‘hibachi’, bebidas à base de carvão, abacate, etc., etc. Por instantes, eu – que cozinho todos os dias, e gosto – tive saudades de outro tempo. Havia comida. Havia cozinheiros. Gostávamos do que gostávamos. Procurávamos produtos naturais que não eram “biológicos”. E comer era simples como viver. Exceto para gente palerma, ontem e hoje.

 

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Açúcar, o tanas.

por FJV, em 05.05.17

Um dia destes liguei o rádio do carro a meio da manhã e calhou estar na “hora do fórum” ou da “antena aberta”. Antes que tivesse tempo para mudar de estação apareceu uma voz a garantir “ao auditório” que “a maior ameaça para a humanidade” era o açúcar. Tamanha revelação deixou-me tranquilo (não uso açúcar e consumo doces muito raramente) porque estava a pensar no Estado Islâmico, no penteado de Trump, em Nicolás Maduro ou nas fissuras do Ártico. Eleger o açúcar como maior inimigo da humanidade pareceu-me interessante. Hoje, não basta reduzir-lo ou deixá-lo: é preciso erradicá-lo dos nossos dicionários (acabou-se o “com açúcar, com afecto”, de Chico Buarque). Ontem passei os olhos num livro recente, ‘Guerra ao Açúcar’, que contém uma ameaçadora lista de pecados, das bolachas às frutas, dos hidratos à frutose (o sumo de laranja é assassino, fique a saber) e ao oxigénio em geral, e que equipara o consumidor de açúcar a viciado em crack. Concordo plenamente. O ar faz mal. Viver é perigoso. Aviso que estou barricado em casa, rodeado de pirâmides de chocolate. Espero a chegada da polícia.

 

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Tolerância, mas de ponto.

por FJV, em 05.05.17

O Bloco de Esquerda não se opõe à “tolerância de ponto” para a função pública na sexta-feira, 12 de maio, por ocasião da visita do Papa. Por um motivo essencial: porque se trata da “competência exclusiva do governo”, e nisso o Bloco não se mete, e não se opõe – posição muito diferente da que tomou há sete anos, quando houve dois dias de “tolerância de ponto” por ocasião idêntica. Sete anos mudam muito na vida de um partido e a lista das piruetas do Bloco é extravagante mas inteligente, de acordo com as sábias palavras do dr. J. Miguel Júdice, que acha que as piruetas são a essência da política e que os bons políticos mentem primorosamente. Ainda a “tolerância de ponto”: acontece que os portugueses que não trabalham para o Estado não têm essa graça concedida – mesmo fazendo prova de que são católicos. Compreende-se; devem existir razões de logística: no trânsito, nas “acessibilidades”, no sistema policial, na relação com a Igreja ou com os muitos eleitores da função pública, a quem aproveito para saudar por ocasião da melhoria das condições meteorológicas durante esse fim de semana.

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Grandes livros.

por FJV, em 04.05.17

Há alguma razão para falarmos dos “Grandes Livros”? Há. Por causa do tempo que eles transportam, por serem uma exceção à mediocridade, por terem resistido à passagem de milhões de outros livros, por terem criado mundos que só dependem das suas páginas. Em tempos envolvi-me em discussões sobre o Plano Nacional de Leitura e a sua extensão – com tantos livros incluídos nessa lista, correríamos o risco de não haver distinções entre os “Grandes Livros” e aqueles que se limitam a não padecer de erros ortográficos. Mas era uma batalha perdida. Uma das perversões do “julgamento democrático” assenta nesta pergunta básica: “Quem decide o que são os Grandes Livros?” Um grupo de iluminados? Não vale a pena argumentar. O anti-elitismo, em matéria literária, leva mais rápido à mediocridade geral, que pode ser saborosa, mas não distingue o mau do bom. Eu também gosto de maus livros (e de maus filmes), mas não forço ninguém a gostar de maus textos e de maus exemplos. Já em relação aos “Grandes Livros” – tenho saudades deles todos os dias. E tenho pena de a escola os ter expulsado.

 

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Baleia azul.

por FJV, em 04.05.17

Está a decorrer, em surdina e cheio de palavras roubadas à “psicopedagogia” radiofónica, um debate sobre o Baleia Azul. Ouvi mencionar a solidão dos adolescentes, a atração pelo abismo, a falência do sistema de ensino, a falta de perspetivas de emprego (tinha de aparecer), os malefícios da internet, a cultura do risco (ui), a importância de consultas com neuropediatras (ui, ui), a depressão infantil, a privação de dinheiro (juro) – e tomei conhecimento da existência da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens, além da “culpa” dos pais que não vigiam os filhos mas que, se vigiassem, seriam culpados de vigilância intolerável. Faltou falar da troika, do populismo, de sexismo e xenofobia, do peso das mochilas, mas acredito que estamos a tempo. Por simpática distração, suponho, os psicopedagogos consultados não se referiram à natureza criminosa do jogo (que incita à morte, o que é crime e basta), à falta de atuação da polícia, que nestes casos parece uma agremiação de sociólogos transcendentais, e ao carácter geralmente imbecil de muitos adolescentes.

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Para além de Fátima.

por FJV, em 03.05.17

A vinda do papa a Fátima alimenta uma compreensível mas perigosa indústria: a da sua popularidade. Se não acreditamos na ação do Espírito Santo, pode ser um caso de conversão no limite: ateus ou anticlericais convictos sentem-se subitamente iluminados pela insuspeita “obra do papa” (escolhendo as frases que lhes agradam); fidelíssimos de João Paulo II transitam do polaco para o argentino com o mesmo entusiasmo, como se Bento XVI não tivesse existido. Em resumo: foram desde o início do ano, entre nós, publicados 34 livros sobre a sua augusta figura (além da tolerância de ponto), como ‘pop star’ capaz de frases que satisfazem todos os gostos – mas com pouca referência a Deus. A única coisa que me fascina em Fátima é a multidão. E, na ausência dela, a solidão extrema diante da desolação (o betão de Fátima é a prova da imensa capacidade da igreja de hoje para ignorar a beleza). Estive lá nas duas circunstâncias. Comove-me a multidão em recolhimento, cada peregrino na sua solidão; não compreender esta solidão é não entender que Deus só se encontra no deserto, de onde nunca se regressa.

 

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Plano quinquenal facultativo.

por FJV, em 03.05.17

Foram recentemente apresentadas as linhas gerais do novo Plano Nacional de Leitura, agora com piscadelas de olho “ao digital” – e tanto a experiente e apaixonante Teresa Calçada, que foi responsável pelas bibliotecas escolares e agora dirigirá o PNL, como o primeiro-ministro, teceram loas aos maravilhosos benefícios que a leitura prodigaliza. Quem não os conhece, nem que seja por ouvir dizer? Lamento discordar no que diz respeito à leitura como porta aberta para “a cidadania inclusiva” (não tem nada a ver) e lamento não ser muito otimista acerca do futuro, tal como ele está a ser preparado. A leitura será – infelizmente – uma das chamadas “práticas minoritárias”. Não pode concorrer com “o digital”, nem com as séries de televisão ou com o hip-hop das novas gerações. Nas regras que São Bento escreveu para a sua ordem, no século VI, contava-se a “obrigação de ler”. Não o “direito à leitura” mas a “obrigação”, física e moral – para não cair na “acédia”, ou seja, na dispersão e no desinteresse. Foi também isso que permitiu que “o livro” sobrevivesse até hoje, se me faço entender.

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