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O calendário também é uma geringonça.

por FJV, em 31.12.16

É provável que “geringonça” seja, para a vida portuguesa, a palavra do ano – um fenómeno novo na política portuguesa, muito apreciado para quem viu a série ‘Borgen’ na TV – porém, ao contrário da série dinamarquesa, os partidos da coligação entram no governo, não se limitam ao parlapié. Seja como for, há outras. ‘Hostel’ é uma delas, como ‘Airbnb’, o novo alojamento turístico dentro de portas, depois de nos anos anteriores ‘tuk tuk’ ter entrado no léxico urbano, juntamente com ‘chef’ para significar quase tudo, desde o preparador de tostas mistas até ao desenhador de comida em restaurantes com estrelas Michelin. ‘Terrorismo’, infelizmente, também entra, tal como ‘migrante’ e ‘refugiado’. ‘Atentado’. ‘Estado Islâmico’. ‘Trump’. Já esquecemos ‘dívida’, ‘troika’ e ‘austeridade’ – mas a nossa vida em 2007 não será muito diferente, no meio de promessas de vida nova e de desejo de melhores hábitos já a partir de depois de amanhã. No fundo, o calendário também é uma geringonça – mas a sério. Uma convenção que tanto funciona como não funciona. Como todos nós.

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Natal, está bem.

por FJV, em 23.12.16

O mundo dos mercados reduziu o Natal à “festa da família”, tremendo à ideia de explicar a origem da data e substituindo a figura de Jesus pela de um Pai Natal finlandês que foi emagrecendo a conselho dos nutricionistas. “Festa da família” já não é mau e foi, aliás, um recurso dos católicos para não afrontar o laicismo crescente – e alargar a celebração a não praticantes. Inteligente. Hoje, o Natal é uma herança da “nossa cultura”, que lhe associa (erradamente) o Hannukah judaico e o solstício de Inverno do nosso hemisfério, uma espécie de reconciliação com os outros. Proponho que a música ultrapasse a questão: ouvir a Oratória de Natal de Bach (BWV 248) pode ser longo e fastidioso mas, como não sabemos alemão, mesmo os não cristãos podem escutar algumas passagens, se não quiserem ouvir a celebração de Camille Saint-Säens, o concerto n.º 8 de Corelli (um prodígio), a ‘Infância de Cristo’, de Berlioz, ou a bela Missa de Natal, de Marc-Antoine Charpentier. Ouvir música é, nestes tempos, resistir à ameaça da barbárie, o que bem precisamos. Seja, portanto, bom Natal.

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LER Inverno 2016/2017: quase a chegar às bancas.

por FJV, em 22.12.16

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• António Araújo: a esquerda e a direita (em Portugal) já não são o que eram, nem voltarão a ser. António Araújo foi à procura de práticas, hábitos e ideias de uma cultura de direita — e do que poderia distingui-la de uma cultura de esquerda. Encontrou, em vez disso, um abismo a separar a cultura das elites e das não-elites. Da Direita à Esquerda, o seu livro, é um estudo sobre o funcionamento da sociedade portuguesa. | Entrevista de Filipa Melo.

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• Entrevista | Salman Rushdie: «A literatura é olhar para todos os caminhos até encontrar um.»  Depois de viver duas décadas sob a ameaça de morte da fatwa iraniana, Salman Rushdie fala à LER sobre o sentido da literatura na sua vida — e na vida de todos nós. | Entrevista de Isabel Lucas.

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• Camille Paglia: Liberdade e Politicamente Correto. A ideologia do politicamente correto (nas universidades e na imprensa) assenta na vitimização e na limitação da liberdade de expressão, diz Camille Paglia. Trata-se de um caso clássico de institucionalizaçãode ideias outrora revolucionárias. Hoje, uma ameaça cruel à liberdade. | Texto de Camille Paglia.

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• Timothy Garton Ash: A liberdade morre se não a usarmos. O historiador Timothy Garton Ash pensa que, no mundo da internet, da acessibilidade e das conexões globais, a liberdade de expressão enfrenta inimigos severos e subtis – a começar pela nossa indiferença, a terminar na vigilância rigorosa e permanente. | Texto de Timothy Garton Ash.

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• Bob Dylan: um prémio contra a corrente. O almoço de dia 13 de outubro caiu mal a muita gente. Alguns dos mais atentos, que receberam a notícia bombástica em direto, terão ficado tão indispostos que não conseguiram comer mais do que uma sopinha. E tudo por causa de um prémio literário. | Texto de Humberto Brito.

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• Montaige: sobre o que flutua, sobre o nosso mundo. Montaigne: o vão, o diverso e o ondulante — ou tudo o que é preciso saber sobre o humano. Ao contrário do que, por vezes, se supõe, Montaigne não era um teórico abúlico e completamente ­fechado ao mundo. A imagem mítica da torre onde se «encerrou» com os seus livros é, no mínimo, incompleta. | Texto de Hugo Pinto Santos.

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• Escritores: como era a vida antes das redes sociais. Do Bloomsbury, em Inglaterra, ao grupo da Orpheu, em Portugal, passando por referências aos «salões literários» do século XVIII, aos frequentadores do Hotel Algonquin em Nova Iorque, Helena Vasconcelos redescobre alguns dos nomes de poetas e romancistas ingleses do Romantismo que viveram em intimidade cúmplice enquanto escreviam. | Texto de Helena Vasconcelos.


• Crónicas de Abel Barros Baptista, Eugénio Lisboa, Leonor Baldaque e Tiago Cavaco.

[Fotografia da capa: Rui Rodrigues.]

 

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Abstinência sexual.

por FJV, em 22.12.16

A jota do CDS fez uma pergunta: porque é que uma criança de 10 anos aprende na escola tudo sobre a utilização do preservativo (e sobre o aborto, segundo os novos donos da escola pública, transformando tudo em ‘questão técnica’), mas só aos 15 anos discute a hipótese da ‘abstinência sexual’? Bom, porque há hormonas. E porque aos 15 anos toda a gente anda com as hormonas aos saltos. E porque a nossa cultura transformou o sexo numa indústria popular e obsessiva. Porque o sexo está em todo o lado, da televisão à política.Porque ninguém está preparado para explicar o que é a abstinência sexual – muito menos os professores – sem explicar o que é a atividade sexual e, explicando o que é a atividade sexual, as pessoas reconhecem o assunto (mesmo a partir dos 10 anos), mas já abstinência, estamos entendidos. E porque os dois pratos da balança estão sempre desequilibrados (o sexo ganha à abstinência). Porque somos tarados, naturalmente. Mas tudo isto não retira à pergunta alguma lógica. Porque só os mais velhos, como eu, podem falar de uma educação para o pudor sem corar de vergonha.

[Da coluna do CM]

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Como os inteligentes tomam conta da cidade.

por FJV, em 22.12.16

Os inteligentes tomaram conta de Lisboa; basicamente, isso significa que estamos lixados. Veja-se isto: trabalho numa zona tranquila de Sta. Cruz de Benfica, um bairro que nunca teve problemas de trânsito.

Em trinta anos recordo-me de três ‘toques’ entre automóveis; nenhum atropelamento; há gente que pedala pelas ruas e que passeia os canídeos; vejo peões a praticar jogging livremente; há empresas por ali, como aquela em que trabalho – têm lugares de estacionamento; restaurantes de bairro fazem o seu negócio; moradores vivem em silêncio, entre plátanos, acácias, araucárias e (é certo) canteiros que estão por tratar.

Entretanto, os lunáticos das obras – uma divisão camarária que ataca de surpresa, mandatada por inteligentes que desenham a cidade a régua e transferidor (por causa das curvas) – chegaram a este lugar tranquilo e vão instalar uma rotunda, alargar os passeios e torná-los irregulares de modo a diminuir drasticamente a faixa de trânsito (por onde circulam atualmente três linhas de autocarro), criar espaços de estacionamento para prejudicar os moradores, instaurar sentidos proibidos, reduzir o espaço para quem corre e passeia, multiplicar o fluxo de trânsito em ruas antes tranquilas e arborizadas (onde, imagine-se, ainda há duas semanas passeavam patos e pavões da Mata de Benfica, nossa vizinha), inviabilizando também o acesso à avenida mais próxima, e dificultando a vida a condutores e transeuntes. 

Aguarda-se – claro – a chegada da Emel e dos psiquiatras. Ou da polícia. Depressa.

 

Act.: Sim, já chegou a polícia, que toma nota – diligentemente – das matrículas dos carros que não se habituaram às novas regras de trânsito que de um momento para o outro alteram os hábitos de trinta anos de paz.

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Psicopedagogia.

por FJV, em 21.12.16

É muito mais difícil escutar os psicopedagogos sazonais do que descortinar as intenções ocultas de Marques Mendes nas suas homilias de domingo. Explico: ao ouvir Marques Mendes sabemos logo qual a sua agenda e qual o objetivo por detrás da cara de seriedade indignada ou do elogio flutuante. Já alguns psicopedagogos não percebo para que País falam. 
Ontem, por exemplo, li e ouvi dois (a rádio está cheia deles) a defender que os pais devem acompanhar os filhos durante estas duas semanas, caso contrário as crianças sofrerão bravamente o trauma durante as férias escolares e a quadra festiva. Não sei o que sentirão os pais cujas "férias de inverno" se limitam aos dois dias do próximo fim de semana e têm de trabalhar no resto do tempo – talvez sofram idêntico trauma. Tempos existiram em que havia um certo bom senso por parte das pessoas que falam para grandes públicos acerca de temas semelhantes (na política também) e em que o afeto verdadeiro entre pais e filhos, ou dos pais pelos filhos, não era avaliado por sábios cheios de opinião e desejosos de espalhar complexos de culpa.

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Ler Gramsci.

por FJV, em 20.12.16

O grande problema da escola pública (além da igualdade do acesso ao conhecimento e à cultura) não são os crucifixos na sala ou o debate sobre criacionismo. Tem a ver com a forma como as ideologias dominantes se apropriam dos programas de História, Português, Filosofia ou Educação Sexual, por exemplo. 
Num interessante debate que ouvi na rádio, um dos intervenientes defendia que a escola «esclarecesse» alunos do 5º ano sobre temas como o aborto, a contraceção ou as «alterssexualidades». Outro dos participantes protestou: há famílias que não concordam com a abordagem desses temas por crianças com 10 ou 11 anos. «Pena. Vá para um colégio privado» – até porque, lembrou, os professores têm uma certa autonomia. 
Ou seja, os novos donos da ideologia do ME ensinam uma nova religião – e quem não está contente, que se mude. O entrismo na política já deu lugar ao seu pensamento único. Não para esclarecer, mas para formar segundo o seu catecismo, independentemente da vontade das famílias. Este é o debate que interessa fazer sobre a escola pública. O resto são negócios.

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Bad sex.

por FJV, em 12.12.16

Tudo tem a ver com sexo – aprende-se isso com a vulgata mais popularucha dos “estudos psicanalíticos”. Uma vulgata tão desmiolada que até Freud se ria do assunto (“às vezes, um charuto é só um charuto”) e deixava Foucault, nos anos 70, indignado com a vaga contemporânea de discursos sobre “o desejo”, uma variante universitária do “desejo”, sim, mas de ver pornografia. Em Inglaterra acaba de ser atribuído o prémio Bad Sex, relativo a más cenas de sexo na literatura – calhou a vez ao italiano Eri de Luca. Não li, mas imagino: uma distração basta para que toda a gente comece a rir, ou, no caso da literatura portuguesa, a discorrer sobre as vantagens da impotência. Nem todos são Philip Roth, e mesmo assim o autor de O Complexo de Portnoy correu riscos abundantes – desculpa-se-lhe porque o tema passa de livro para livro como um pesadelo. A personagem mais injustiçada da literatura portuguesa, a Senhora Condessa de Gouvarinho, de Os Maias, por exemplo, foi destratada por Eça. O motivo? Ela queria sexo e aventura, implicava que queria passar uma noite em Santarém, a meio de uma viagem de comboio, ou que lhe apetecia apenas o picante do adultério; Carlos, apalermado, julgava que ela queria fugir do marido e asilar-se no Ramalhete. É o nosso prémio Bad Sex.

[Da coluna do CM]

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O cantinho do hooligan. O penálti.

por FJV, em 11.12.16

Sim, foram dois penáltis. Um, vá lá — se descontarmos as dúvidas em relação ao gesto de Pizzi. Mas tenho na memória dois golos injustamente anulados a André Silva, mais cinco penáltis não assinalados a favor do FC Porto nos últimos tempos (incluindo aquela mão de Mitroglou no nosso estádio), mais meia dúzia de foras de jogo incorrectos, mais o esgar de Jorge Jesus a falar de «limpinho, limpinho» depois de um jogo sujo, sujo, e, portanto, o futebol (por mais virtudes que transporte) também faz de nós más pessoas, péssimas pessoas, de modo que.

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Uma alma.

por FJV, em 11.12.16

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Praia do Abano, hoje de tarde. Todos temos uma alma pirosa.

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Informalidade.

por FJV, em 11.12.16

Todos apreciamos a informalidade em determinadas circunstâncias. Mas falar de «feeling» a propósito de dados da macro-economia portuguesa não tem a ver com isso. É bem capaz de ser ligeireza, mesmo que o «feeling» venha a estar correcto. 

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Houellebecq.

por FJV, em 11.12.16

Leia a entrevista de Michel Houellebecq à Folha de São Paulo: a França muçulmana e a progressão da Frente Nacional (que é menor do que a da abstenção), em quem os católicos não votam.

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Frederico Lourenço: um prémio e tudo o mais

por FJV, em 11.12.16

A atribuição do Prémio Pessoa a Frederico Lourenço deixa-me feliz — não apenas por ser o autor da tradução da Bíblia que a Quetzal publica, mas porque é o reconhecimento do seu notável trabalho ao longo dos últimos vinte anos. E porque, através deste prémio (que me escuso a comentar mais, por pudor) ficam também homenageados os estudos clássicos, os resistentes que continuam a ensinar e a traduzir (e a estudar) grego e latim. 

Este prémio, além de distinguir o trabalho do Frederico, deve servir para alertar para a penúria em que se encontram os estudos clássicos: história, língua, cultura, cosmogonias – não para que os alunos se transformem em eruditos e tradutores de Horácio ou Tucídides, mas para que pelo menos a escola não perca a memória do nosso mundo nem da herança que o conhecimento humanístico transporta como uma luz de beleza, de experiência e de consolação diante do vazio de hoje.

Em 1995, havia 13 mil estudantes a estudar Latim; o número passou para para 114 (em 2014). 

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100 anos de Kirk.

por FJV, em 09.12.16

Wyatt Earp (o xerife verdadeiro, não o personagem imortalizado por Burt Lancaster) dizia que Doc Holliday era o atirador mais veloz e mais mortal que jamais conhecera – talvez por isso tenha sido interpretado por Kirk Douglas na versão de John Sturges. Espero que se lembrem de Douglas. No ano em que nasci, ele interpretava o papel de um cowboy (em Fuga sem Rumo, Lonely Are the Brave) cheio de intensidade, melancolia e dramatismo, ao lado de Gena Rowlands, uma das suas grandes companhias no cinema, ao lado de Barbra Stanwick ou da amiga Lauren Bacall. Western? Homem sem Rumo, de King Vidor – reparem no olhar: honra, perdição, um físico invejável. Policial? A História de um Detetive, de William Wyler: traição, drama, perda. Vejam-no em O Grande Ídolo (Champion), em Spartacus (de Kubrick), nos numerosos filmes de guerra – poucos atores sublinham em conjunto a força física, a originalidade, a inteligência e a sobriedade na interpretação como Kirk Douglas. Mais do que uma força da natureza – de quem hoje festejamos o seu centenário – é uma das memórias do próprio cinema. Um atirador veloz e letal.

[Da coluna do CM]

 

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Alunos felizes.

por FJV, em 09.12.16

Vai uma grande barulheira em redor dos resultados do inquérito PISA 2015. O essencial é isto: os resultados melhoraram para os estudantes portugueses; tamanha revelação deixa esquerda e direita a batalhar sobre quem tem mais responsabilidade nessa melhoria, e transforma a leitura dos dados numa encenação ideológica sobre o papel da escola, do ensino, dos exames e dos vários ministros que passaram pela Av. 5 de Outubro, onde está instalado o monstro. O monstro é o Ministério da Educação. A ninguém há de passar pela cabeça que melhores resultados se conseguem com menos trabalho, menos autonomia das escolas e dos professores, menos dedicação, menos exigência e menos desperdício no sistema educativo. O monstro – e o complexo de pedagogos, técnicos e pessoas que há muitos anos não põem o pé numa escola e escrevem textos ilegíveis – nunca aceitou como boas nem a experiência nem as recomendações de professores. Como resposta, prepara-se para manejar as estatísticas a fim de acabar com as retenções, em vez de insistir na preparação dos alunos para enfrentar o destino e escolherem o seu caminho.

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Benite.

por FJV, em 09.12.16

Passam quatro anos sobre a morte de Joaquim Benite (1943-2012), jornalista, crítico e encenador de teatro, fundador do Grupo de Campolide e, mais tarde, da Companhia de Teatro de Almada – e, como o recordo comovidamente, grande recriador de Shakespeare. A última das suas encenações foi justamente Timão de Atenas, que já tinha encenado em Mérida, em 2008 (dois anos antes de Troilo e Créssida) – e que foi estreada pela Companhia 16 dias depois da sua morte, a 20 de dezembro de 2012, uma homenagem maravilhosa a um homem encantador, uma grande voz (no sentido literal) do nosso teatro, um encenador corajoso de O’Neill, Gogol, Brecht, Raul Brandão ou Mozart (inesquecível, A Clemência de Tito), Marivaux e Molière, Pushkin e Gil Vicente ou António José da Silva, Saramago e Thomas Bernhard. A obra completa da Companhia de Teatro de Almada (as suas encenações, a dos convidados, a do seu grande Festival) continua hoje pela mão de Rodrigo Francisco, mas não cessa de evocar a presença tutelar de um homem generoso e sonhador, capaz de arriscar quase tudo pelo teatro. Com uma voz quase sobrenatural.

[Da coluna do CM]

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Empoderamento, aitem e genderificar.

por FJV, em 09.12.16

 

Em português, gentrificação é a palavra usada para significar gentrification, do inglês (gentry), que vem do francês arcaico (genterise) – significa a ocupação do centro das cidades por gente mais ou menos rica. O seu uso pode irritar-nos; é um pouco como se escrevêssemos roque em vez de rock. Na rádio, sobretudo, ouvem-se coisas desta novilíngua – mas admito que nos gabinetes da burocracia há ainda mais abundância de expressões, que convinha registar. Outro dia ouvi dizer que era preciso fazer um debate sobre a genderificação (do inglês gender, género), uma vez que há cargos que estão muito genderificados. Semanas antes escutei uma senhora exigir mais empoderamento (empowerment) para as mulheres e que ela própria tinha contribuído para empoderar mulheres num país de que já não me recordo da América Latina, e o presidente da Câmara de Valongo publicou um livro sobre política onde insiste na necessidade de empoderar os cidadãos do concelho. Depois, há os cidadãos e as cidadãs que dizem aitem em vez de item (um advérbio latino, igualmente) e que já evito corrigir, embora apeteça chicoteá-los. Pessoas que falam mal o português decidiram falar em portinglês. Mas pensam mal em ambas as línguas.

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Cinatti.

por FJV, em 09.12.16

Conheci Ruy Cinatti (1915-1986) num sábado de verão, em Lisboa – uma figura maravilhosa, palradora, exuberante e triste, com uma cruz ao peito, uma sacola de pano onde viviam papéis amarrotados e poemas que distribuía de vez em quando. A maior parte deles sobre Timor (estávamos já nos anos da ocupação indonésia). E Deus. Falámos de ambas as coisas. E de África, Portugal – e do mar. Mais tarde eu veria esse seu mar, em Baucau, Tutuala, Loré, Díli. Mas também o de São Tomé, outra da suas paixões. Encontrei-o mais vezes, a cruz ao peito, mais triste, e o resumo destas conversas era o título do seu primeiro livro, Nós Não Somos deste Mundo (de 1941). A sua poesia acaba de ser publicada (pela Assírio & Alvim) num livro volume com mais de mil páginas, organizadas pelo minucioso e apaixonado Luís Manuel Gaspar (com Joana Matos Frias e o Padre Peter Stilwell) – a poesia inédita e póstuma sairá depois num segundo volume. Cinatti recorda-nos todas as nossas heranças: cristã, oriental, africana, índica, atlântica, clara e escura, tempestuosa ou comovida, como a manhã imensa de que falam os seus poemas. Bem vindo sejas.

 

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Quaraouiynie, Fès el-Bali.

por FJV, em 06.12.16

Onde queria eu estar hoje? Em Fez, Marrocos – sob as cordilheiras que delimitam a planície. Mas hoje não venho falar de geografia e sim de recolhimento, em plena Fès el-Bali, a velha cidade fundada em 789 e onde se encontra a universidade Quaraouiynie, criada 70 anos depois, com a sua biblioteca – a mais antiga do mundo em atividade. Nunca foi devorada pelas chamas, como a de Alexandria; nunca foi destruída por religiosos suspicazes nem assaltada por fanáticos. Conserva manuscritos de uma beleza inestimável, de Ibn Khaldoun ao evangelho de Marcos na sua primeira tradução árabe ou aos estudos teológicos do avô de Averróis, o grande comentador de Aristóteles, sem falar dos tratados de astrologia ou geometria, da poesia do deserto, do Al-Andalus ou de al-Mutamid, o poeta de Beja, ou de Ibn Amar, o de Silves. A biblioteca de al-Quaraouiynie acaba de reabrir depois de meia década de restauro. E, coisa maravilhosa, foi fundada em 859 por uma mulher, Fatima el-Fihriya, filha de um mercador tunisino convertido aos negócios e ao céu tépido de Fez. Quem sabe, talvez tivesse visitado o Algarve.

[Da coluna do CM]

 

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Itáilia.

por FJV, em 05.12.16

A Itália interessa-nos pouco, como se pertencesse a outro continente, o que é uma pena. Daí a imprensa ter banalizado os termos do referendo deste fim de semana, catalogando o “não” no saco enlameado dos “populismos” – a atitude mais fácil. Na verdade, o “não” italiano foi a resposta a uma tentativa autoritária e de concentração de autoridade por parte do primeiro-ministro Renzi. José Sócrates, nos seus tempos áureos, apadrinharia a solução e chamaria “populista” a quem desafiasse a autoridade “eficaz” do Estado (como acabou por fazê-lo). Ontem ouvi vários jornalistas lamentarem, com uma melancolia abjeta, “o fim de dois anos de estabilidade”. Acontece que, em democracia, é fundamental o equilíbrio de poderes, a que Renzi queria pôr um travão, em nome de maiorias substanciais no parlamento. Que isso venha de jornalistas é ainda mais lamentável – e deve-se sobretudo à ignorância e à preguiça. Se “a Europa” estava ao lado de Renzi (do que eu duvido muito), isso então é pior, porque significaria que estaria a sacrificar tudo (a democracia, a representação, o equilíbrio) em nome do poder sem freios.

[Da coluna do CM]

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Então e os espanhóis?

por FJV, em 02.12.16

Vamos e venhamos, o 1.º de Dezembro é um feriado importante e estapafúrdio: é o dia anti-espanhol. Para o celebrar sem ferir suscetibilidades, temos de falar na nossa independência em geral e fazer contorcionismos poéticos com a data, assinalada desde 1823 sob a égide do senhor D. João VI – com um baile – e sob o olho conspícuo dos partidários de D. Miguel. É o feriado civil mais antigo, tal como a vizinhança com Espanha. Sobre Espanha já falei: sou bilingue e gosto. O Presidente da República discursou como lhe competia, transformando o feriado anti-espanhol (os reis de Espanha mal tinham regressado a Madrid) em Dia da Soberania, pela ética, contra as “sujeições” e “subserviências”, pela independência económica e seguintes. Já o primeiro-ministro, citou Pessoa, Antero e a causa da decadência dos povos peninsulares a fim de clamar contra o nacionalismo, a xenofobia e o protecionismo, ou seja, não devemos hostilizar os espanhóis nem defenestrar pessoas, ao contrário do que diz o espírito do 1.º de Dezembro, feriado que todos agradecemos. Para o ano, então, uma coisa menos complicada. Um baile.

[Da coluna do CM]

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Espanha.

por FJV, em 01.12.16

Não deixemos para amanhã o que podemos fazer hoje: falar sobre Espanha. Por mim, vivi parte da infância com a gravura da defenestração de Miguel de Vasconcelos às mãos dos “conjurados” e com um D. João IV de gola eclesiástica vindo da penumbra. De D. Afonso declarando a independência até 1640, passando por Nuno Álvares Pereira e pelos episódios de Colombo e Magalhães, a Espanha era o inimigo aberto. Mas quis o destino que eu vivesse até ao fim da adolescência encostado à fronteira, que fôssemos aos bailes do colégio da Av. Portugal na vila galega vizinha e que consumíssemos La Casera. Praticamente, sou bilingue. Vi televisão espanhola desde a infância. Li os poetas e filósofos espanhóis. Tive uma namorada espanhola. Escrevi um romance passado em Espanha – o país que tínhamos de atravessar de noite, de comboio, para chegar à Europa. A verdade é que precisamos de Espanha, e não apenas pela economia, mas para que tenhamos alguém de quem desconfiar, ao jeito de um infiel inimigo externo. Digam lá que não causou estranheza ver um Filipe ser festejado no Porto e em Guimarães com gritos de ‘Viva o Rei!’.

[Da coluna do CM]

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