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Um mundo que esconde os seus.

por FJV, em 30.11.16

Quando o papa João Paulo II adoeceu de Parkinson, houve quem defendesse que não se deviam publicar as imagens da sua debilidade. Não eram “agradáveis”. Mostravam um homem mortificado pela doença, pela idade e pela proximidade da morte. O século XXI, recente, exigia coisas “agradáveis”, um mundo cheio de anjos da Victoria’s Secret e lojas gourmet no Chiado, imbecis felizes numa piscina de spa ou ciclistas de licra a passar rente ao rio. Foi pouco depois que conheci dois casos de paralisia cerebral – a filha do meu amigo Mário Augusto e o filho do jornalista brasileiro Diogo Mainardi. A dedicação, amor, ternura e absoluta entrega desses pais foram uma lição para mim e acompanhou-me até hoje, quando o Conselho Superior de Audiovisual francês censurou a passagem (na TV) de imagens de crianças com síndrome de Down, alegando que elas poderiam ferir “as consciências” de mulheres que tinham abortado – e não eram “serviço público”. Qualquer coisa aconteceu no género humano que transformou as nossas sociedades num pasto para o despotismo e a falta de generosidade. Um mundo que esconde os seus.

[Da coluna do CM]

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A ilha da Liberdade.

por FJV, em 30.11.16

Para compreender a espalhafatosa e falhada invasão americana de Cuba recomendo um livro portentoso, O Fantasma de Harlot, de Norman Mailer. São mil páginas imparáveis – um romance – que tratam de reconstruir a história da CIA, a corrupção do clã Kennedy (e companhia) e a decadência do espírito da América. Para condenar a estupidez dos americanos não é necessário tecer loas ao ditador cubano (basta ver O Padrinho). Jerónimo de Sousa e o PCP nunca perderam a face por isso, mesmo que recomendem Fidel como expoente dos “ideais da liberdade, da paz e do socialismo” e designem Cuba como “Ilha da Liberdade” (vem nos jornais deste domingo). Declarações como estas (ou sobre Estaline como campeão dos direitos humanos) nunca têm contraditório. Há anos, este jornal entrevistou uma deputada do PCP e perguntou-lhe o que pensava do Gulag e dos campos da morte soviéticos – respondeu que não tinha dados, nem tinha estudado o assunto na faculdade. Jerónimo de Sousa é uma excelente pessoa; mas teria ele concordado com o fuzilamento de portugueses, se tivéssemos vivido uma ditadura militar comunista?

[Da coluna do CM]

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