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A Bíblia traduzida por Frederico Lourenço: começa uma leitura nova

por FJV, em 20.09.16

Na próxima quinta-feira, 22, às 18h30, no Centro Cultural de Belém (Sala Sophia de Mello Breyner) — estão todos convidados — lançamento do primeiro volume (Os Quatro Evangelhos) da nova tradução da Bíblia, por Frederico Lourenço.

Apresentação de Tolentino Mendonça, Miguel Tamen e Pedro Mexia.

 

 

Com a publicação do presente livro – contendo os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João – dá-se início a uma coleção em seis volumes que disponibilizará, pela primeira vez em língua portuguesa, a tradução integral da Bíblia Grega (Antigo e Novo Testamentos). Antes de descrever sinteticamente no que consiste a Bíblia Grega e quais são as diferenças que, no Antigo Testamento, ela apresenta relativamente à Bíblia Hebraica, convém desde já esclarecer de forma muito clara as línguas em que os livros da Bíblia foram originalmente escritos.

Em grego foram originalmente escritos todos os 27 livros que integram o Novo Testamento, assim como sete livros do Antigo Testamento que encontramos nas Bíblias organizadas segundo o cânone católico: Tobite, Judite, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico (Ben Sira), Baruc, 1º Livro dos Macabeus, 2º Livro dos Macabeus. Os restantes 39 livros do Antigo Testamento do cânone católico foram originalmente escritos em hebraico (com algumas frases desgarradas em aramaico nos livros de Génesis, Jeremias e Esdras, assim como uma secção mais relevante nesta língua no livro de Daniel).

O aspeto em que as diferentes versões da Bíblia mais divergem é no número de livros que compõem o Antigo Testamento. A Bíblia Hebraica propriamente dita (que, por razões óbvias, não tem Novo Testamento) contém 24 livros. Divididos e subdivididos de outra maneira, estes mesmos 24 livros em hebraico constituem os 39 livros do Antigo Testamento segundo o cânone protestante. Por outro lado, o Antigo Testamento segundo o cânone católico conta 46 livros (juntando aos 39 livros, originalmente escritos em hebraico, sete livros, originalmente escritos em grego). No entanto, a Bíblia Grega é ainda mais extensa do que a católica, uma vez que conta, no total, 53 livros: aos 46 livros do cânone católico juntam-se mais sete livros.

Em suma: a presente tradução dará a ler os 27 livros do Novo Testamento e os 53 livros do Antigo Testamento grego. Será, assim, a Bíblia mais completa que existe em português.

A Bíblia Grega terá nascido em Alexandria (Egipto), no século III antes de Cristo, com a adaptação para grego do Pentateuco (Torah). Segundo uma epístola helenística, preservada em vários manuscritos e alegadamente escrita por um tal de Arísteas a seu irmão, Filócrates (carta depois citada por Fílon de Alexandria, Flávio Josefo, Santo Agostinho, entre outros), a autoria da primeira redação grega do Pentateuco deve ser atribuída a 72 estudiosos judeus (daí a tradicional denominação Septuaginta ou Bíblia dos Setenta), reunidos no Egito para esse fim pelo rei Ptolemeu Filadelfo. Na verdade, este primeiro passo na constituição da Bíblia Grega reflete sobretudo a crescente helenização da cultura judaica da Diáspora no período helenístico (quando um número cada vez maior de judeus helenizados começou a precisar de ler as suas Escrituras naquela que era, para todos os efeitos, a sua língua – o grego).

Durante os séculos seguintes, a escritura judaica em versão helénica foi crescendo: aos Livros da Lei (Génesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronómio) juntaram-se os restantes 34 livros que são comuns à Bíblia Hebraica (onde esses livros se encontram organizados de outra maneira, como já referimos, já que a Bíblia Hebraica só tem 24 livros), complementados, em fase posterior, por livros que nos chegaram em língua grega por uma de duas razões: ou porque nela foram originalmente redigidos; ou porque desses escritos se perderam as versões hebraicas, pelo que, hoje, só os podemos conhecer em grego. Note-se, ainda, que livros que fazem parte da Bíblia Hebraica – como Ester e Daniel – existem na Bíblia Grega em versões bem mais completas, com material suplementar de que não conhecemos qualquer versão em hebraico.

[Da “Introdução”, de Frederico Lourenço]

 

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A natureza humana.

por FJV, em 20.09.16

O futebol não é bem um desporto – é um jogo de guerra interpretado (preferencialmente) por artistas capazes de nos comover com uma jogada, um golo, um drible, uma defesa ou um “posicionamento” (escrevo “posicionamento” porque há no relvado uma certa relação com o tabuleiro de xadrez). Por isso tem os seus deuses, como na tragédia grega – e eles podem ser ao mesmo tempo justos e cruéis. Veja-se o caso de Jorge Jesus. Depois de um bom jogo em Madrid, o treinador não resistiu ao apelo da vaidade humana, sempre tão fácil: os seus batalhões são os melhores, sim, porque ele é um bom general –  e um bom general é que conta; os soldados apenas executam as instruções do general. No domingo, os deuses vingaram-se; são muito ciosos: na batalha diante de um exército comandado por um homem humilde, tímido (até ligeiramente tristonho, como é o caso de Nuno Capucho) e discreto, impuseram-lhe uma derrota amarga como castigo. O futebol dá lições de vida quando menos se espera, como reconhecia Albert Camus: “Tudo o que aprendi sobre a natureza humana, aprendi-o com o futebol.” A natureza humana, precisamente.

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