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Uma última oportunidade à Europa.

por FJV, em 31.07.16

Por que somos nós europeus? Porque somos herdeiros de Shakespeare, da Bíblia, de Bach, de Cervantes, de Mozart, de Goethe, de Darwin, de Newton, de Michelangelo, de Voltaire, de DaVinci. Porque somos herdeiros da ideia de tolerância. Porque separámos Igreja e Estado, Religião e Política. Porque somos também herdeiros de Giordano Bruno, queimado vivo no Campo de Fiori. E de Galileu. E somos igualmente herdeiros da minissaia de Mary Quant, do rock dos Rolling Stones e das dúvidas de Espinosa, expulso de Portugal. Somos também herdeiros de Lutero e de Santo Agostinho. E de Tolstoi, Turgueniev ou Cesário Verde. Somos herdeiros da prosa de Flaubert e da poesia de Yeats. E somos europeus porque somos judeus, protestantes ou agnósticos, porque lemos o Corão ou os Vedas hindus, porque podemos ser budistas, ou católicos, ou acreditar em bruxas. Somos também herdeiros do nosso fardo e da nossa culpa. Isso não faz de nós pessoas especiais. Mas é essa herança que temos de defender quando a barbárie chega à nossa porta, entra nas nossas fronteiras e degola pessoas como nós. E não devemos ter vergonha dessa herança.

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Um preço a pagar

por FJV, em 30.07.16

Durante anos, e de cada vez que explodia um autocarro em Israel, de cada vez que um restaurante era varrido à bomba em Jerusalém, de cada vez que um mercado ia pelos ares em Telavive, a “boa consciência europeia” reagia começando pelo fim – culpando as vítimas, por existirem, e elogiando o braço armado do terrorismo, um alfobre de heróis medonhos. O espectáculo foi tão degradante que incluiu as grotescas declarações antissemitas de Ken Livingstone, o ‘mayor’ esquerdista de Londres (sobre o “trabalho inacabado de Hitler”), e da mulher de Tony Blair, que declarava “compreender”, ai dela, os bombistas suicidas que se faziam explodir em escolas ou ruas da única democracia do Médio Oriente. Hoje, essa mesma Europa fica surpreendida com os atentados de Paris ou de Nice, e com a barbárie que vem nas fotografias de Raqqa, a sede do Estado Islâmico. Com o  seu desinteresse pelas próprias raízes, e com a sua desistência para os grandes combates e os seus valores, a Europa corre o risco de se transformar no palco do terrorismo desta década. Talvez então consiga, finalmente, compreender Israel.

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Roger Scruton sobre o Brexit

por FJV, em 15.07.16

 

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Férias.

por FJV, em 15.07.16

Uma das coisas que mais me diverte, ao ler os jornais, são as “descobertas” que as várias ciências decretam para a nossa vida. Com tudo isso, ainda não sei se o café está interdito a pessoas com problemas cardíacos ou se o colesterol aumenta de cada vez que como um ovo. Mas é no domínio das “ciências do comportamento” que a especulação me diverte realmente. Por exemplo: em setembro, teremos artigos sobre o stresse pré-escolar, tal como em Maio tivemos manifestos sobre os malefícios dos exames. Uma das “descobertas” mais recentes tem a ver com o planeamento das férias das crianças. Durante décadas fomos industriados a fazer planos rigorosos para a “ocupação de tempos livres”, o que sempre me pareceu absurdo – porque o tempo livre não me parece que sirva para ser ocupado, mas para ser livre. A nova tendência, segundo percebi, é a de deixar que as crianças “se aborreçam” um pouco durante as férias a fim de usarem a sua criatividade e não estarem sempre sujeitas a programas que cansam toda a gente. Era o que se fazia quando as férias eram férias e os profissionais da pedagogia não tinham via livre.

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Jogar à bola.

por FJV, em 12.07.16

Uma vitória no futebol não é a vitória do futebol – tal como o futebol não é apenas futebol, jogo de bola. O que ensina o futebol? Liderança e concentração; estratégia e sacrifício; gosto pelo talento e inteligência tática; observação e reclusão. Não é por acaso que os grandes livros atuais sobre futebol são usados como instrumentos de “políticas de liderança” (de Alex Ferguson a Jorge Valdano, para não irmos mais longe – Valdano, aliás, é um grande autor, o mais imitado hoje em dia), mais do que “lições sobre o sucesso” ou resumos de vitórias. Há no futebol, além disso, um certo gosto pela tragédia; uma parte do jogo de anteontem foi retirada a uma peça de Eurípedes sobre a necessidade de heróis e acerca deles. Nem faltou uma espécie de borboleta na face de Ronaldo, como uma predição da Úrsula de ‘Cem Anos de Solidão’. Nem uma ressurreição (duas, contando com a de Eder) e um combatente tão estóico e discreto como Patrício (por vezes, um futebolista é também um dramaturgo em ação). De certa maneira, Portugal foi como Prometeu, roubando a bola aos deuses – para jogar no meio do nosso bairro.

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John Le Carré.

por FJV, em 08.07.16

Estreou ontem Um Traidor dos Nossos, um filme de Susanna White a partir do notável livro de John Le Carré, com Ewan McGregor a fingir de inocente e Damian Lewis (um shakespeareano que chegou à série Homeland), Stellan Skarsgård no papel de mafioso russo, e uma Naomie Harris que a beleza nunca atraiçoa. Convido-vos a ver o filme, mesmo que as críticas cinéfilas sejam “adversativas” (sinceramente, é uma boa razão). A história de ‘Um Traidor dos Nossos’ é demasiado atual para a deixarmos escapar – trata de como a máfia russa e o seu Estado minam a City londrina e a própria democracia. O livro é um pequeno prodígio e faz parte da sequência de “livros pessismistas” de Le Carré (de O Fiel Jardineiro a Amigos Até ao Fim ou Uma Verdade Incómoda) – é ele próprio um guião cinematográfico que dispensaria algum ‘kitsch’ que o filme transporta. São assim os seus livros, para nosso deleite: argumentos de uma intensidade bravíssima, com personagens perturbadoras, sem medo de interpretarem histórias amargas ou heróis destinados a serem ignorados. Leiam o livro, não percam a magia no original.

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Raymond Chandler, já adulto.

por FJV, em 06.07.16

Amanhã chega às livrarias a reedição de um dos títulos mais emblemáticos da coleção Vampiro – mas, valha a verdade, trata-se de um livro sem o qual uma biblioteca da literatura policial fica incompleta. O Imenso Adeus, de Raymond Chandler, é o mais adulto (e o penúltimo) dos romances de Philip Marlowe, o detetive para quem “os problemas são a sua profissão”. Sem Marlowe (e as suas representações no cinema – Bogart, Mitchum, Montgomery, Gould – e na literatura) não seríamos quem somos. Ele inventou a melancolia na literatura policial. Dez anos antes Maigret era melancólico, sim – mas não sabia. Graças a Chandler e a livros como À Beira do Abismo, A Dama do Lago ou Perdeu-se uma Mulher, o policial deixou de ser um gueto e foi finalmente admitido no anfiteatro da literatura; mas é O Imenso Adeus que completa a revolução com uma história sobre a amizade e a confiança (entre Marlowe e Lennox), o amor (as passagens sobre Linda Loring devem ser sublinhadas a ouro), os escritores, o álcool, a honra, a vida perdida sem regresso. Sem Marlowe não seríamos como somos, tão imperfeitos.

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O biquíni, 70 anos, uma velharia.

por FJV, em 05.07.16

O que eu sei sobre Mary Quant sabia nesta página de jornal, e havia de bastar: escreveria que popularizou e institucionalizou a minissaia, libertando pelo menos vinte centímetros das pernas das senhoras; depois, contaria várias histórias que ocuparam o cinema, a literatura e o jornalismo da época. Outra data: vinte anos antes da minissaia vestida por Twiggy, a mãe do suíço Louis Réard, um engenheiro de máquinas, deixou-lhe em herança uma fábrica de lingerie feminina. O que há de comum entre o desenho industrial e os brocados, a seda ou o algodão sensuais? Quase tudo, daí em diante; tanto que, há exatamente 70 anos, a 5 de julho de 1946, um ano depois do fim da II Guerra, Réard apresentou ao mundo um dos grandes símbolos do otimismo filosófico e existencial da época: o biquíni, fato de banho de duas peças. Na altura, tratava-se de um “biquíni gola alta”, evidentemente, mas só nos anos sessenta (quando Mary Quant já exorbitava), e depois do seu segundo casamento, a devassa Jayne Mansfield desceu a gola dois centímetros abaixo do umbigo. Daí em diante até à ‘burqha’, foi o que se sabe.

 

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100 anos de beleza.

por FJV, em 01.07.16

É provável que Olivia De Havilland não desse uma boa Scarlett O’Hara (Vivien Leigh) em E Tudo o Vento Levou; mas é uma maravilhosa Melanie Hamilton; o timbre da sua voz é terno, digno, amável, destinado ao drama (ao de Lágrimas de Mãe, por exemplo). E a sua beleza brilha alto em A Caminho de Santa Fé ao lado de Errol Flynn (com quem estaria também em Capitão Blood, Robin dos Bosques, A Carga da Brigada Ligeira, Isabel de Inglaterra, entre outros), e em quase todos os filmes de Michael Curtiz e Raoul Walsh – ou interpretando o papel feminino principal de Sonho de uma Noite de Verão, Hermia (ao lado de Cagney, Mickey Rooney ou Dick Powell), como recompensa do seu grande conhecimento de Shakespeare. Contracenou com todos os grandes atores do seu tempo, antes e depois dos Óscares que a premiaram; será sempre o lado bom nos filmes mais negros (como John Huston o previu em This is Our Life, com Bette Davis). Hoje, Olivia De Havilland festeja os 100 anos. Inglesa, nasceu em Tóquio a 1 de julho de 1916. Um século de beleza que se assinala hoje.

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