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A desilusão da esquerda na Venezuela, 2.

por FJV, em 28.05.16

A mesma esquerda que fica transida de indignação com o processo de impedimento da presidente brasileira (ignorando que, nos últimos 30 anos, o PT de Lula patrocinou 40 pedidos de impeachment por razões bem mais ridículas do que as que levaram ao afastamento de Dilma), marcha para apoiar Nicolas Maduro e o regime venezuelano – o mesmo que destruiu um país produtor de petróleo, multiplicando os pobres, destruindo o sistema de ensino, malbaratando dinheiros públicos, prendendo opositores sem acusação nem razão, esvaziando supermercados, fechando jornais e televisões, exportando a ‘revolução bolivariana’ (pagando o Podemos espanhol, por exemplo), adiantando e atrasando os relógios meia hora, anunciando que Hugo Chávez se transformou em “passarito” – a lista é infindável (chegando ao cúmulo de a Venezuela não ter dinheiro para imprimir papel moeda...). Agora, Nicolás Maduro decretou o ‘estado de emergência económica’ e mandou prender os industriais que não produzam o suficiente (mesmo com a falta recorrente de matérias-primas) e parem as suas fábricas. Em breve quererá liquidar os que não usem bigode. Haverá sempre patetas a apoiá-lo.

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A desilusão da esquerda na Venezuela.

por FJV, em 27.05.16

Podem googlar à vontade que hão de aparecer-vos as vastas e definitivas opiniões de Paul Krugman e Joseph Stiglitz – os preferidos das pessoas que gostam de citar Prémios Nobel da Economia – a aplaudir a Venezuela pelas suas políticas. Sobre o Bloco de Esquerda, o Podemos espanhol e o Syriza, nem vale a pena pesquisar. Aconselhado por luminárias europeias e por magos da altermundialização (sociólogos brasileiros que afundaram o país, universitários pagos a peso – e Boaventura de Sousa Santos), Hugo Chávez conseguiu destruir o país enquanto exportava a “revolução bolivariana” e o “socialismo do século XXI” para outros países da América e fechava jornais e televisões (Mário Soares achava bem, pois tratava-se de gente “impertinente”). Totalmente destruído? Não. O que sobrou está a ser varrido por Nicolás Maduro, um desequilibrado que ameaça encerrar o parlamento e dizimar quem se lhe oponha antes de deixar a Venezuela a ferro e fogo. No meio deste espectáculo cheio de penúria, ilegalidade e repressão, falta aparecer Noam Chomsky a celebrar uma digna cerimónia em nome do fantasma de Chávez.

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Versões para jovens adultos.

por FJV, em 26.05.16

Dan Brown vai publicar uma versão do Código Da Vinci para adolescentes (em Inglaterra young adults); sinceramente, não compreendo a razão. Fazer uma versão do Quixote ou de Os Lusíadas, entende-se, mas o Código Da Vinci já é uma leitura adolescente, sem densidade gramatical e com uma complexidade muito inferior à Guerra dos Tronos, que qualquer adolescente acha um figo. Mas as livrarias inglesas esperam – para este Natal – uma edição das Aventuras de Os Cinco para crescido’. A ideia é fazer uma paródia simpática às personagens criadas por Enid Blyton; mas, apesar da brincadeira, há quem vá levá-los a sério, como as pessoas que se ofendem com matérias de politicamente correto. Entre os novos títulos (nada de Os Cinco e o Circo, ou Na Ilha Encantada) contam-se Os Cinco Largam a Copofonia, Os Cinco Atiram-se ao Farnel sem Glúten ou Os Cinco Aprendem a Parentalidade. Evidentemente que se trata de gozo puro, mas há alguma curiosidade sobre a identidade de género da Zé e o estatuto legal de Tim como animal de companhia.

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Espiões.

por FJV, em 23.05.16

Perdi a conta aos livros de espionagem que passaram pela minha mesa de cabeceira. Passam-se em vários cenários. Antes e depois da queda do Muro de Berlim. Antes e depois da morte de Mao. Antes e depois da II Guerra. nos EUA, em Inglaterra ou na antiga URSS (sim, eu gostava de Julian Samyonov, o autor de A Tass Está Autorizada a Anunciar e de Dezassete Instantes de uma Primavera). Antes e depois da emergência do fundamentalismo islâmico. Na Islândia ou na Austrália, em Marrocos ou em Lisboa. Escritos por Graham Greene ou por John Le Carré. Com bons e maus, homens e mulheres, heróis e fantasmas. Sobre os espiões portugueses pouco se escreveu – não que eles não existam, apesar dos sucessivos esforços em “queimá-los”, como está a acontecer atualmente – de novo. A notícia de ontem, no entanto, animou-me: um espião português foi preso quando se encontrou, em Roma, como um agente do SVR, o antigo KGB. De repente, o mundo (que sempre foi perigoso) voltou a ter uma ordem e um sentido. E Portugal, o país dos espiões traídos, voltou a ter alguma importância. Não é por acaso que a maior parte da nossa espionagem, até ao século XIX, se produziu na Rússia e em Roma.

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Por uma frase se trai.

por FJV, em 12.05.16

No «debate» sobre educação, como sobre saúde, ou até sobre economia, há cada vez mais gente a revelar-se inimiga da «liberdade de escolha». Todos são, subitamente, amigos do Estado — pugnando (a palavra está certa) por «mais Estado» em todos os domínios, um Estado que seja dono de tudo, que dirija o ensino e a economia, os transportes públicos e as artes, o trânsito e a meteorologia, os contratos de trabalho e os «tempos livres dos cidadãos» (além de espreitar para os orgãos de comunicação, com a proposta de subsídios à imprensa, tão recentemente sugerida). Os neo-iliberais são mais perigosos do que se pensa — andam à solta e têm boas intenções.

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Longe de Manaus: na Sérvia.

por FJV, em 12.05.16

861890574.0.l.jpg Nas melhores livrarias de Belgrado.

 

Gosto muito da capa, que eu nunca arriscaria em Portugal. Mas arrisco outra coisa, que é agradecer esta edição sérvia a duas pessoas que me são muito caras: ao Paulo Ferreira, meu agente (da Bookoffice), que tem feito muito pelos meus livros e a quem devo muito, bastante, e é um tipo generoso como há poucos; e à Magda Barbeita, professora de português na Sérvia. A Magda é uma mulher extraordinária e uma leitora raríssima. Fez, há dois anos, uma tese sobre «as investigações do inspector Jaime Ramos», que eu nunca lhe agradeci o suficiente. Abraços para os dois.

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Cela.

por FJV, em 11.05.16

Ontem, por toda a Galiza, assinalou-se o centenário do nascimento de Camilo José Cela (1916-2002); em Espanha, menos. A Espanha atual, moderna e cheia de conveniências, acrílica, que discute o fim da sesta e das touradas, que se incomoda com o colesterol e o açúcar, que tem horror aos conhaques de antanho, ressentida como um abanico, já não tem muito a dizer sobre Cela, e detesta-o. Personagem pícaro e burlesco (polémico é dizer pouco), o autor de Mazurca para Dois Mortos não cabe nas margens de nenhuma correção política. Ele detestava o termo “tremendista”, que lhe aplicavam – mas Cela era tremendo, ex-franquista e censurado pelos franquistas, anarquista, erotómano, viajante (a pé, pela Espanha fora), Nobel em 1989, Príncipe das Astúrias em 1987, apaixonado pela língua, desbragado, maravilhoso narrador. A Mazurca é uma obra-prima (não há chuva como a do seu primeiro parágrafo), mas há também Família de Pascual Duarte, San Camilo e A Colmeia – e Essas nubes que pasan (não traduzido aqui, uma pena) e Vagabundo ao Serviço de Espanha, uma pérola de paixão pela terra. Um grande mau feitio, um génio como os de antigamente.

 

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Marão.

por FJV, em 02.05.16

Foto Ronda dos Cumes Sagrados

 

A abertura do gigantesco túnel do Marão deixa-me feliz porque os transmontanos ficam contentes, mas sobretudo porque haverá menos trânsito à superfície, o que fará da viagem um percurso bem mais agradável para quem quiser apreciar a beleza da serra de Teixeira de Pascoaes. A vontade irresistível de regressar às obras públicas prolonga um dos equívocos do interior do país: que com mais “vias rápidas” chega o dobro da riqueza. Errado: sai o dobro da gente. Uma pessoa sobe a um pico de Armamar, por exemplo, e vê – dos dois lados do rio – o traçado de estradas a rasgar a paisagem, deixando-a escalavrada e coberta de betão. Ficou a gente mais rica, nasceram mais indústrias? Não; mas, dizem-me, é uma rica imagem do progresso da nossa terra, o que contenta um dos povos que mais aprecia obras, retroescavadoras, argamassa e paisagens dizimadas. O túnel do Marão facilitará muito as viagens de fim de semana até Vila Real e Bragança (bom para o turismo rápido), mas o destino de Trás-os-Montes sairá mais beneficiado com a subida do meu GD Chaves à I Liga do que com o orgasmo de betão que deixa os políticos a salivar.

 

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Safe place.

por FJV, em 01.05.16

Tornou-se agora um hábito, nas universidades dominadas pelas esquerdas de várias procedências, a criação de “lugares a salvo” de agressões ideológicas. O objetivo, tonto e paternalista, é não agredir os pobres estudantes com “ideias incorretas”, como o racismo, o machismo, o sexismo e outras patifarias protegendo-os de tudo o que os ofende. Não se discutem as ideias: proíbem-se e retiram-se do espaço público. Em Nova Iorque, por exemplo, os estudantes multiculturais sentiram-se ofendidos por uma estátua de Henry Moore e a universidade foi obrigada a retirá-la. Em Oxford, foi cancelada uma conferência de Camille Paglia porque a comunidade LGBT se sentia ofendida pelas suas ideias sobre “género”. Uma estudante de arte da Universidade da Pensilvânia sentiu-se ofendida com a exibição de ‘La Maja Desnuda’, de Goya, e a Comissão de Ação Afirmativa das Mulheres considerou que o quadro de Goya instaurava um ambiente hostil e desconfortável para a mocinha, ou seja, de assédio. Nos anos 60 e 70, a luta era contra o paternalismo e pela discussão aberta. Hoje, as universidades são altares da vitimização e da ignorância.

 

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O Estado, o Estado.

por FJV, em 01.05.16

Portugal é um país liberal, mas nunca foi um país de liberais; ou seja, atrás da cortina existe, periódica ou permanentemente, a tentação de estabelecer pequenas ditaduras. A do sistema educativo é uma delas, herdeira do jacobinismo vintista (“Portugueses, não me obrigueis a libertar-vos pela força!”, ameaçava D. Pedro IV, antes da guerra civil), da República do PRP e de Afonso Costa, e do salazarismo. Para lá da discussão sobre os “contratos de associação” e o papel do ensino particular e cooperativo, a tentação de uniformizar e de pôr o Estado a dirigir todo o aparelho educativo é enorme. Manual escolar único, todo o poder à escola do Estado, conceber a escola não-estatal como um pecado social – esta trindade não é inocente e antecede o momento em que sovietes improvisados determinarão o que é correto ensinar-se em matéria de História, por exemplo, e em que os professores serão instrumentos da ação educativa e política do Estado (será a segunda fase, mas está no programa). Para esta nova geração de incumbentes, a escola é uma das divisões do aparelho ideológico do Estado. É gente bem intencionada e perigosa.

 

 
 

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Um elevador na China.

por FJV, em 01.05.16

A ideia de que os processos criativos são, muitas vezes, atitudes para sublimar a violência, ou de que há atitudes violentas que tresandam a criatividade, acaba de ganhar um novo adepto: este vosso colunista, extremamente relapso a ver vídeos classificados como (exultem!) “virais”. Desta vez, as imagens – divulgadas ontem pelo CM e captadas por câmaras de vigilância de um elevador, na China – mostram uma jovem a ser incomodada por um rapaz à ilharga que tanto a ronda com exuberância, como a toca sem cerimónia, mas sem autorização; ultrapassada esta barreira, a mulher, de aparência franzina (a elegância é bom engodo), golpeia-o com um decidido sopapo, primeiro, e conclui com dois exatíssimos pontapés na virilha. O macho afoito fica deitado no chão, aos olhos de toda a China (o vídeo foi divulgado pelo ‘Diário do Povo’, 6 milhões de leitores, e pela rede Sina Weibo, 250 milhões) – e ela sai, consultando seu telemóvel. Espero que não sejam imagens forjadas porque o momento é uma obra de arte sobre a qualidade das relações humanas e uma lição sobre assédio sexual nos elevadores chineses.

 

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Shakespeare, Cervantes e cerveja.

por FJV, em 01.05.16

Hoje sabemos que William Shakespeare e Miguel de Cervantes não morreram no mesmo dia, a 23 de abril de 1616. E que nenhum deles, aliás, morreu a 23 de abril (Cervantes a 22 de abril, o inglês a 3 de maio). Mas, em literatura, a verdade não pode atrapalhar uma boa história, e a boa história é imaginarmos que os dois maiores génios da literatura europeia deram o último suspiro no mesmo dia, à luz da mesma melancolia. Não foi assim. Mas é assim por nossa conveniência. Por isso continuaremos a comemorar o encontro destas duas almas no mesmo dia do nascimento de São Jorge da Capadócia (na atual Turquia, em Izmit, antiga Nicomedia), uma figura emblemática que se festeja na Catalunha com livros e rosas – e do desaparecimento de Inca Garcilaso de Vega, não o poeta espanhol, mas o historiador mestiço peruano, cujas obras se publicaram em Lisboa (e não em Espanha) na primeira década do século XVII. Tudo a 23 de abril, tal como a publicação, na Alemanha, mas 100 anos antes da morte de Cervantes e Shakespeare, de uma das mais belas leis da nossa civilização, a Lei da Pureza: dizia que a cerveja só podia fabricar-se com água, cevada, levedura e lúpulo. 

 

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O drama dos refugiados.

por FJV, em 01.05.16

A recente operação de sensibilização para os mais jovens acerca do ‘drama dos refugiados’ é um exemplo de como a fábrica de cidadania é ridícula. A ‘operação da mochila’ visava mostrar às crianças como era difícil ser refugiado; até o presidente da República metia lá dentro um livro em vez de um anoraque, e as “redes sociais” protestaram quando alguém preferia transportar coisas politicamente incorretas. O problema é que o ‘drama dos refugiados’ não é o de guardar apenas três ou quatro coisas numa mochila, como faziam os escuteiros do meu tempo antes de se aventurarem num fim de semana na serra: é o de abandonarem uma casa, um país, uma rua, uma escola – por causa de uma guerra que os doutrinadores de cidadania europeia se mostraram incapazes de deter, vencer ou evitar, quer por covardia, quer por ignorância ou preconceito. Estou à espera que, um destes dias, um dos nossos doutrinadores nos lembre o grande estadista que é Bashar al Assad, para não irmos mais longe, defendendo Khadafi (sim, já sei: era um homem convertido ao bem depois de uma carreira de assassino e lunático).

 

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