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Os mais novos preferem ser futebolistas ou larápios, quando há meio século preferiam ser médicos, professores ou Maurice Chevalier.

por FJV, em 28.01.16

Em França, vai uma grande inquietação em redor de Michel Onfray – filósofo, militante de esquerda, fundador da Universidade Popular de Caen, polémico devido às suas posições depois dos atentados de novembro em Paris. O que defende Onfray? Dez anos depois das ‘primaveras árabes’ (agora ‘invernos islâmicos’), substituir o “politicamente correto” pela “geopolítica”, abandonar a ideia de bombardear o Médio Oriente, obrigar o Islão a fazer parte da República, preferir ditaduras laicas a teocracias islâmicas saídas de eleições. E, na base de tudo, uma reforma da consciência europeia. Nestes anos, diz Onfray (um filósofo hedonista, libertário), substituiu-se o real pelo virtual, o sexo pelo género, e falar de família, estudo, rigor, serviço militar, educação e valores nacionais – é ser reacionário, bolorento e nauseabundo. O resultado é uma geração “sem valores” (hoje, a menção deste vazio gera escândalo), em que os mais novos preferem ser futebolistas ou larápios, quando há meio século preferiam ser médicos, professores ou Maurice Chevalier. Há qualquer coisa de novo a acontecer na esquerda, que continua surda a debates.

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Mozart.

por FJV, em 26.01.16

 Este ano assinalam-se os 400 anos da morte de William Shakespeare (1564-1616) e de Miguel de Cervantes (1547-1616) – duas efemérides (em abril) que deviam ocupar uma parte do nosso ano de memórias, a juntar ao doméstico centenário de Vergílio Ferreira. Mas, houvesse ensino da música nas nossas escolas, e amanhã haveria festa em nome de Mozart (1756-1791), de cujo nascimento nos separam 260 anos. Nem seria preciso “ensino da música” com toda a formalidade, nem é necessário que seja um pólo de “ensino artístico”; bastaria que, uma vez por outra, a escola se preocupasse com a música, por exemplo – e levasse os alunos a ouvir W. A. Mozart, com ou sem solenidade. Acredito que alguns professores o façam; eu tive essa sorte, no meu velho liceu, onde o professor não se limitava a programar exercícios de “canto coral”, e nos surpreendia com discos a meio da aula. As “condições” eram piores do que hoje, mas ouvimos Bach, uma sinfonia de Beethoven, um pouco de Schubert. E Mozart, claro. Que pena as nossas escolas serem surdas – a Mozart e ao transcendente que ele nos obriga a respirar.

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O Nobel do aparatchik e os aparatchiks que lhe atribuíram o Nobel e se calaram com Pasternak.

por FJV, em 22.01.16

Em 1965, o Nobel da Literatura foi parar às mãos do soviético Mikhail Cholokhov (1905-1984), autor de O Don Tranquilo, uma epopeia bolchevique (cinco volumes em Portugal), prémio Lenine em 1940, eleito para o Comité Central do PC da URSS em 1961, um aparatchik de Brejnev, além de plagiador – e uma das vozes que se ergueu para insultar Boris Pasternak quando este, em 1958, foi obrigado a recusar o Nobel (com Doutor Jivago) e remetido a exílio interno. Sete anos depois, medricas, a Academia Nobel atribuiu o prémio a Cholokhov para pacificar a coisa. Nesse ano, os inteletuais alinhados com a URSS eliminaram da lista de candidatos nomes como Borges, Nabokov, W.H. Auden, Durrell, Beckett, Somerset Maugham ou Anna Akhmatova. Tudo isto se soube com a abertura de documentos mantidos em segredo até agora. Ah, a vida literária.

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Um espectáculo para patetas.

por FJV, em 20.01.16

Que se saiba, o mundo não melhorou muito nos últimos tempos; em Itália, por exemplo, nasceu uma petição online dirigida diretamente a Deus, a pedir a reversão da morte de David Bowie. Isto, enquanto a imprensa, distraidamente, “acusa” Bowie de ter escondido que tinha um cancro do fígado e que sofrera seis ataques cardíacos desde 2004 – como se o normal fosse publicar periodicamente um boletim clínico para benefício das “redes sociais”. Vagamente, o que chamávamos “a sociedade” transformou-se numa geringonça de “redes sociais” em que tudo se partilha, sobretudo a intimidade – até não haver intimidade na doença, no sexo, na família, na vida dos filhos ou na dedicação aos gatos. Pior do que isso, parece existir mesmo “a obrigação de partilhar” com os outros aquilo que, antes, era do foro estritamente pessoal. Para não deixar que Bowie partisse como um reles culpado, a explicação foi a de que o silêncio guardado sobre a sua doença foi também uma das suas famosas encenações. A nenhum pateta passa pela cabeça que o combate com a morte não é um espectáculo para patetas.

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