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Brasil, notas avulsas, 2.

por FJV, em 25.06.13

Os analistas convocados pelas televisões, que durante anos (salvo erro, seis) fecharam os olhos ao «mensalão», aos escândalos políticos, aos deslizes da política económica brasileira, aparecem agora felizes porque Dilma prometeu «ampliar a participação popular e os horizontes da cidadania». A ideia de um «plebiscito popular que autorize o funcionamento de processo constituinte específico para fazer a reforma política que o país tanto necessita» é precisamente o marketing de que já se sentia a falta para manter tudo na mesma e ganhar fôlego para preparar a reeleição. Além de haver inconstitucionalidades claras no processo proposto por Dilma (é a «tendência bolivariana» a empobrecer mais e mais a política brasileira), o oportunismo é latente e visa aproveitar o único valor que o PT conhece – o da rua. Seja lá o que for que a rua peça ou exija. Como tinha escrito nos posts anteriores (aqui e aqui), Dilma aproveitou bem os protestos, que servem para justificar a nova agenda radical. Pelo meio, estará a PEC37, evidentemente — a alteração da Constituição para retirar poderes de investigação ao Ministério Público e concentrá-los na Polícia. Ora, «ampliar a participação popular e os horizontes da cidadania» é uma treta; Lula sempre quis rever a constituição para moldá-la aos interesses do PT, Dilma vai consegui-lo através de um «plebiscito popular para fazer a reforma política que o país tanto necessita». Ora, quem melhor do que o PT aproveitou o sistema político para forjar uma inteligentíssima aliança entre Lula, Sarney, Maluf, MST, PP, e toda a tralha do costume? O que é necessário é, justamente, cumprir a lei e fazer cumpri-la. Lula e o PT lançaram a rua contra o Supremo Tribunal, porque este condenou o gang de corrupção do seu tempo do Planalto — daí que a PEC37 seja uma peça tão fundamental. Mas é assim: «plebiscito popular» agrada muito aos comentadores, coitados, enquanto Aldo Rebelo, um ministro-hierofante (do PC do B) transita de estádio para estádio, reafirmando que as obras da Copa são essenciais para o desenvolvimento do Brasil, tal como as derrapagens orçamentais. Onde é que ouvimos isto antes?

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Shakespeare, Timão de Atenas.

por FJV, em 25.06.13

Até ao fim do mês a Companhia de Teatro de Almada está no Teatro Nacional D. Maria II com uma peça de Shakespeare, Timão de Atenas. Há dois motivos muito sérios para vê-la. Em primeiro lugar, trata-se de Shakespeare, o autor mais importante de todo o nosso cânone; depois, é a derradeira encenação de Joaquim Benite (estreou no ano passado, logo a seguir à sua morte, em Dezembro), continuada por Rodrigo Francisco. Benite era um encenador culto, inteligente e terno – e a sua leitura de Shakespeare (encenou Othello, O Mercador de Veneza e Troilo e Créssida) reconduz-nos à proximidade com a poesia e a tragédia dos homens. Timão de Atenas é uma advertência sobre a vaidade e a ingratidão, mas também sobre a renúncia ao bom senso, temas eternos de Shakespeare. Ver a peça é, pois, uma dupla homenagem: a Joaquim Benite, que devemos recordar; a Shakespeare, que nunca devemos esquecer.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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