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Brasil, notas avulsas, 1.

por FJV, em 23.06.13

A imprensa do PT acusa os manifestantes de serem manipulados por «fascistas» e o movimento Passe Livre retira-se dos protestos por considerar que «forças conservadoras estão se aproveitando da dinâmica das massas» (recorde-se que o Passe Livre foi inicialmente financiado pelo PT e depois «enquadrado» e tutelado pelo PSOL). Isso aconteceu depois de grupos enviados pelo PT e comandados pelo presidente do partido, Rui Falcão, terem sido vaiados e impedidos de participar nas manifestações pacíficas de São Paulo, Rio, Belo Horizonte ou Porto Alegre. Rui Falcão foi o mesmo que tentou pôr «o Brasil inteiro na rua» depois de o Supremo ter condenado o gang do Mensalão, para mostrar que o PT e as suas franjas (CUT, MST, etc.) mandam mais do que a Justiça. Nem de propósito, uma das reivindicações do «povo petista» das ruas é a promulgação da PEC37, uma alteração da Constituição para retirar poderes de investigação ao Ministério Público e concentrá-los na Polícia, ou seja, em órgãos dependentes do governo. É contra a PEC37 que o Brasil se ergue também. Aliás, convém não perder de vista a notícia de que espiões da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) foram desmascarados quando investigavam o governador Eduardo Campos, pré-candidato do PSB à Presidência e rival sério no espaço político de Dilma.

Por isso, Lula e João Santana, o técnico de marketing do PT, aconselharam Dilma a fazer uma comunicação rápida (ela arruína-se a cada minuto de discurso) e onde promete que o dinheiro arrecadado com o pré-sal do petróleo brasileiro será aplicado na Educação. A decisão foi tomada depois de Lula ter reunido com os militantes do PT e de ter «tomado nota» das suas «reivindicações», bem como da sua má-vontade contra Fernando Haddad, o prefeito petista de São Paulo, «o traidor» que, mesmo assim, recordem-se, incitou à violência durante a campanha eleitoral, queimando em público um retrato do governador Alckmin. Ou seja, Dilma apropriou-se da agenda da rua com mais um programa de marketing político, porque o PT não pode ser «atropelado pela História». Como escrevi no post anterior, o PT prepara-se para recolher os lucros da radicalização dos protestos — isso fornecer-lhe-á argumentos para impor a sua agenda. Simples: como recordava o editorial do Estado de S. Paulo, «os cidadãos comuns se tornaram duplamente reféns: dos baderneiros que desdenham das exortações da maioria ao pacifismo – e do costumeiro descontrole das tropas mobilizadas para reprimi-los.» Por agora, os «cidadãos comuns» estão na rua; mas os profissionais aguardam.

Adenda: O «profissional» que mais aguarda é Lula, evidentemente. Ao ser mobilizado por Dilma, ao regressar ao palco do PT, reunindo com os seus militantes, ao apoderar-se do discurso do «PT da rua», Lula está a postos para substituir a sua dama de opereta. Esse vai ser o drama duplo da actual presidente: gerir a onda os protestos e precaver-se contra o ataque de Lula e dos seus amigos dilectos.

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