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Brasil, notas avulsas, 2.

por FJV, em 25.06.13

Os analistas convocados pelas televisões, que durante anos (salvo erro, seis) fecharam os olhos ao «mensalão», aos escândalos políticos, aos deslizes da política económica brasileira, aparecem agora felizes porque Dilma prometeu «ampliar a participação popular e os horizontes da cidadania». A ideia de um «plebiscito popular que autorize o funcionamento de processo constituinte específico para fazer a reforma política que o país tanto necessita» é precisamente o marketing de que já se sentia a falta para manter tudo na mesma e ganhar fôlego para preparar a reeleição. Além de haver inconstitucionalidades claras no processo proposto por Dilma (é a «tendência bolivariana» a empobrecer mais e mais a política brasileira), o oportunismo é latente e visa aproveitar o único valor que o PT conhece – o da rua. Seja lá o que for que a rua peça ou exija. Como tinha escrito nos posts anteriores (aqui e aqui), Dilma aproveitou bem os protestos, que servem para justificar a nova agenda radical. Pelo meio, estará a PEC37, evidentemente — a alteração da Constituição para retirar poderes de investigação ao Ministério Público e concentrá-los na Polícia. Ora, «ampliar a participação popular e os horizontes da cidadania» é uma treta; Lula sempre quis rever a constituição para moldá-la aos interesses do PT, Dilma vai consegui-lo através de um «plebiscito popular para fazer a reforma política que o país tanto necessita». Ora, quem melhor do que o PT aproveitou o sistema político para forjar uma inteligentíssima aliança entre Lula, Sarney, Maluf, MST, PP, e toda a tralha do costume? O que é necessário é, justamente, cumprir a lei e fazer cumpri-la. Lula e o PT lançaram a rua contra o Supremo Tribunal, porque este condenou o gang de corrupção do seu tempo do Planalto — daí que a PEC37 seja uma peça tão fundamental. Mas é assim: «plebiscito popular» agrada muito aos comentadores, coitados, enquanto Aldo Rebelo, um ministro-hierofante (do PC do B) transita de estádio para estádio, reafirmando que as obras da Copa são essenciais para o desenvolvimento do Brasil, tal como as derrapagens orçamentais. Onde é que ouvimos isto antes?

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Shakespeare, Timão de Atenas.

por FJV, em 25.06.13

Até ao fim do mês a Companhia de Teatro de Almada está no Teatro Nacional D. Maria II com uma peça de Shakespeare, Timão de Atenas. Há dois motivos muito sérios para vê-la. Em primeiro lugar, trata-se de Shakespeare, o autor mais importante de todo o nosso cânone; depois, é a derradeira encenação de Joaquim Benite (estreou no ano passado, logo a seguir à sua morte, em Dezembro), continuada por Rodrigo Francisco. Benite era um encenador culto, inteligente e terno – e a sua leitura de Shakespeare (encenou Othello, O Mercador de Veneza e Troilo e Créssida) reconduz-nos à proximidade com a poesia e a tragédia dos homens. Timão de Atenas é uma advertência sobre a vaidade e a ingratidão, mas também sobre a renúncia ao bom senso, temas eternos de Shakespeare. Ver a peça é, pois, uma dupla homenagem: a Joaquim Benite, que devemos recordar; a Shakespeare, que nunca devemos esquecer.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Brasil, notas avulsas, 1.

por FJV, em 23.06.13

A imprensa do PT acusa os manifestantes de serem manipulados por «fascistas» e o movimento Passe Livre retira-se dos protestos por considerar que «forças conservadoras estão se aproveitando da dinâmica das massas» (recorde-se que o Passe Livre foi inicialmente financiado pelo PT e depois «enquadrado» e tutelado pelo PSOL). Isso aconteceu depois de grupos enviados pelo PT e comandados pelo presidente do partido, Rui Falcão, terem sido vaiados e impedidos de participar nas manifestações pacíficas de São Paulo, Rio, Belo Horizonte ou Porto Alegre. Rui Falcão foi o mesmo que tentou pôr «o Brasil inteiro na rua» depois de o Supremo ter condenado o gang do Mensalão, para mostrar que o PT e as suas franjas (CUT, MST, etc.) mandam mais do que a Justiça. Nem de propósito, uma das reivindicações do «povo petista» das ruas é a promulgação da PEC37, uma alteração da Constituição para retirar poderes de investigação ao Ministério Público e concentrá-los na Polícia, ou seja, em órgãos dependentes do governo. É contra a PEC37 que o Brasil se ergue também. Aliás, convém não perder de vista a notícia de que espiões da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) foram desmascarados quando investigavam o governador Eduardo Campos, pré-candidato do PSB à Presidência e rival sério no espaço político de Dilma.

Por isso, Lula e João Santana, o técnico de marketing do PT, aconselharam Dilma a fazer uma comunicação rápida (ela arruína-se a cada minuto de discurso) e onde promete que o dinheiro arrecadado com o pré-sal do petróleo brasileiro será aplicado na Educação. A decisão foi tomada depois de Lula ter reunido com os militantes do PT e de ter «tomado nota» das suas «reivindicações», bem como da sua má-vontade contra Fernando Haddad, o prefeito petista de São Paulo, «o traidor» que, mesmo assim, recordem-se, incitou à violência durante a campanha eleitoral, queimando em público um retrato do governador Alckmin. Ou seja, Dilma apropriou-se da agenda da rua com mais um programa de marketing político, porque o PT não pode ser «atropelado pela História». Como escrevi no post anterior, o PT prepara-se para recolher os lucros da radicalização dos protestos — isso fornecer-lhe-á argumentos para impor a sua agenda. Simples: como recordava o editorial do Estado de S. Paulo, «os cidadãos comuns se tornaram duplamente reféns: dos baderneiros que desdenham das exortações da maioria ao pacifismo – e do costumeiro descontrole das tropas mobilizadas para reprimi-los.» Por agora, os «cidadãos comuns» estão na rua; mas os profissionais aguardam.

Adenda: O «profissional» que mais aguarda é Lula, evidentemente. Ao ser mobilizado por Dilma, ao regressar ao palco do PT, reunindo com os seus militantes, ao apoderar-se do discurso do «PT da rua», Lula está a postos para substituir a sua dama de opereta. Esse vai ser o drama duplo da actual presidente: gerir a onda os protestos e precaver-se contra o ataque de Lula e dos seus amigos dilectos.

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O homem que não estava lá.

por FJV, em 21.06.13

Gandolfini não era apenas Tony Soprano. Era Leroy em A Mexicana (com Brad Pitt e Julia Roberts), o coronel Winter em O Último Castelo (com Redford), o detetive Hildebrandt em Corações Solitários (com Travolta), Big Dave em O Barbeiro (com Billy Bob Thornton e Frances McDormand) – e uma longa série de personagens secundários que interpretou com aquele tom discreto que fazia dele «o homem que não estava lá». Mas só James Gandolfini podia dar a Tony Soprano aquele olhar triste, comovente, duro, divertido, onde a astúcia se perde na procura de uma bondade impossível, porque Soprano era Soprano, nunca teria remissão para nenhum dos seus pecados, apesar da depressão que o domina. Poucos personagens se colaram tão assim a um actor que entra na galeria dos grandes desperados americanos. Na sua morte (só podia ser do coração) repita-se uma das suas deixas notáveis: «Jesus fuckin’ Christ!»

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Sir Lancelote.

por FJV, em 21.06.13

Eu não sabia quem era Lancelote Rodrigues até, há alguns anos, um amigo (Ferreira Fernandes) mo recomendar como uma enciclopédia sobre o Oriente e, sobretudo, sobre Malaca – onde nasceu em 1923 – e Macau, onde viveu desde os 12 anos. Era conhecido como o padre dos refugiados (portugueses de Xangai na década de cinquenta – uma história por contar – vietnamitas, chineses, malaios, indonésios e cambojanos depois, além de dissidentes de toda a espécie, que recambiava para outros países), mas a sua vida complexa, astuciosa e sábia, levou o padre Lancelote a percorrer os bastidores da vida do Oriente e a conhecer, como quase ninguém, os atalhos invisíveis que se cruzavam sobre o Rio das Pérolas. Teria dado (e deu) um bom e magnânimo espião. Sir Lancelote, pois, porque foi condecorado por Isabel II em 1992 (três anos antes de Portugal o distinguir com a Ordem do Infante) – e porque era um cavalheiro, poliglota, amável, cuidadoso. Morreu anteontem e ficou registado no livro dos grandes portugueses. 

 

 

 

 

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Brasil, o princípio do fim do embuste.

por FJV, em 21.06.13

As televisões gostam muito de revoluções. A revolução, segundo parece, está em marcha no Brasil. O que eu disse de Lula, do PT e dos metralhas brasileiros defende-me. Dilma Rousseff não me interessa; é uma personagem secundária de opereta local, arrastada pelos acontecimentos e por Lula, o homem que «não sabia de nada». Por isso, devia rejubilar e pôr-me à espreita: vêem como eu tinha razão?, o povo está em armas nas ruas, protesta contra o PT, contra o aparelho que montou nos últimos dez anos, contra o desregramento da economia brasileira, contra a ignorância e a oligarquia, contra a corrupção. Mas, em vez disso, acho que vale a pena explicar.

A era de Collor de Mello, com aquele personagem trágico PC Farias, não foi nada comparada com corrupção engendrada pelo governo de Lula, completamente leninista: apoderou-se do aparelho de Estado, da polícia, das empresas estatais, dos bancos do Estado, fez circular dinheiro entre partidos, montou negócios entre as grandes corporações e os interesses do Estado que controla. E tudo isto deu no Mensalão e, agora, no escândalo da secretária de Lula, o homem que «não sabia de nada» e que tem uma coluna de opinião no New York Times, cujo correspondente no Brasil (Larry Rohter) quis expulsar, o que seria inédito desde lá atrás, muito lá atrás, logo depois do AI5. 

Ora, os últimos dez anos foram anos do PT e de Lula no poder. Um poder tentacular e ambivalente, negociado com os partidos mais estranhos. Repare-se nos interesses que levam Lula e Dilma a desenhar, presentemente, com a colaboração do marketing de João Santana, uma grande coligação que vai do PC do B ao PP, passando pelo PMDB e pelos evangélicos. Porquê? Bom, para prolongar o poder a todo o custo.

Este clima de imunidade e impunidade feriu lentamente a sociedade brasileira. Há aquela frase do «rouba mas faz», e há a fase em que o lulismo, toda a tralha do PT, incluindo Dilma, pode meter-se em negócios e em experimentalismos sociais, mas é absolvida porque é amiga dos pobres. Isso pegou durante a reeleição de Lula, pegou durante a eleição de Dilma, pegou durante o primeiro ano do governo de Dilma, em que a corrida de ministros se sucedia mês-sim-mês-não, pega de cada vez que a assembleia de mirones internacionais desata a canonizar Lula. Mas deixa de pegar quando a inflação aparece ao dobrar da esquina, quando o crescimento zero deixa de ser uma ameaça para passar a ser a realidade e quando o paraíso na terra passa a ser o inferno ao alcance da mão.

Ou seja, o caldeirão estava preparado. Bastava pôr ao lume. Está ao lume, e acrescido de outro problema, que é o da impunidade da violência e da ilegalidade com protecção política do Planalto, como aconteceu nos últimos dez anos (assisti a várias campanhas eleitorais no Brasil e recordo o inflamado Jacques Wagner, na Bahia, por exemplo, fazendo campanha contra a polícia para agradar «às massas»; resultado, a violência e a criminalidade dispararam em Salvador, e «as massas» estão sitiadas por uma elite de criminosos; o PT sabe do assunto). O MST, por exemplo, habituou os brasileiros aos seus actos de violência ao mesmo tempo que recebia a bênção de Lula e o dinheiro do Estado e dos seus aparelhos. O PT mais radical ainda não saiu verdadeiramente da clandestinidade e tem mesmo uma imprensa que defende a censura, a acção directa e violenta, a perseguição aos adversários – como se não estivesse no poder. A imprensa afecta ao PT é uma colecção de pérolas sobre a insurreição violenta – desde a linguagem usada até à substância que ali se defende.

Por isso, a primeira surpresa: o PT vê a rua voltar-se contra o PT. Só foi surpresa para alguns que o próprio ministro da Justiça aparecesse a condenar a polícia de S. Paulo diante da bandidagem. Não venham com a história da «explosão social». Ela existe, mas não tem nada a ver com a bandidagem. [Uma amiga dizia-me: «No Rio, tudo acordou como se não fosse nada.» Pudera: os pobres limparam tudo durante a noite.] Gilberto Carvalho (ministro da Presidência) disse anteontem que o governo está «a ser atropelado pela história» e tremeu meio mundo. Porque o PT sempre incentivou este género de protestos — o PT sempre esteve no poder e na rua ao mesmo tempo, nos últimos dez anos. E ficou surpreendido porque a rua, hoje, não é do PT – um partido, aliás, tão ruidoso como minoritário. E o rosto de Dilma, vestida de fantasia para um drama de segunda ordem, é esse: «Como é possível? Então a rua não era nossa? Não foi para isso que armámos a CUT, o MST e outros grupos de companheiros? Não foi para isso que tivemos os melhores do marketing? Não foi para isso que hostilizámos “as elites” e depositámos a nossa esperança no povo?» Mas Dilma não percebe. E por isso, quando se tratou de analisar «a questão das tarifas», Dilma reuniu com Lula, Aloíso Mercadante (ministro da educação e futuro director de campanha da própria) – e o homem do marketing, João Santana. Tudo se resolveria com uma contracampanha. Que está a ser organizada, descansem.

Sim, estes são sinais de insatisfação da sociedade brasileira. São sobretudo expectativas goradas. Só que houve um momento em que a guarda avançada do PT acusava todos os protestos de serem armados pela direita, pela tucanagem, por FHC... Mas acontece que esse discurso passou momentaneamente – mas vai voltar. E, enquanto não volta, «as massas» deram sinais de rebelião e de desconfiança radical. Acontece que essa fase já não pode desculpar-se com o governo de FHC — que aliás desenhou a maior parte das políticas públicas sustentáveis de redistribuição de riqueza na sociedade brasileira.

Recordo um dos pontos altos da gigantesca manifestação pacífica de São Paulo, anteontem: quando as pessoas cantaram «Dirceu pode esperar, a cadeia é o seu lugar». Isto é muito importante — porque o que José Dirceu representa, com aquele grupo onde entram José Genoíno, Marcos Valério, Delúbio Soares, a banda do Mensalão (todos condenados à prisão pelo Supremo), é o pior do lulismo. Lula sempre foi protegido (pelo PT, naturalmente; mas também por Sarney, por Maluf, por Calheiros, pelo PMDB, pelas grandes corporações...). Ele é o que não sabia de nada, o que estava na sala ao lado mas «não sabia de nada». E que, mesmo diante da condenação do gang do Mensalão, apareceu, como ele diz, «a defender os companheiros nesta hora difícil em que estão a ser perseguidos». Não estão a ser perseguidos: foram efectivamente condenados em tribunal. E toda a gente viu. Mesmo que o seu aparelho esteja ao serviço de Dilma, que foi — aliás, ministra da Casa Civil de Lula e que, portanto, não se sabe se «não sabia de nada» do Mensalão e dos outros casos afastados da cena política por serem «invenção das “elites”».

É isto – além da violência que não comanda – que o PT não percebe. É por isso que Fernando Haddad, o prefeito petista de São Paulo, está a ser odiado pelo próprio partido (se bem que o PT aprecie a desordem de SP, porque pode culpar Alckmin, o governador do PSDB e adversário de Lula na reeleição).

Ora, o que existe é uma explosão a três tempos. O protesto mais imediato tem a ver com as tarifas dos transportes — e foi esse que mais chamou a atenção das televisões e jornais, enquadrado pelo grupo Passe Livre. [Na verdade, um dos grupos foi lançado por um partido de esquerda, o PSOL, de Luciana Genro, filha de Tarso Genro, ex-ministro de Lula e actual governador do Rio Grande do Sul. E, na sua génese, foi financiado pelo próprio PT.] A sua última reivindicação é tarifa zero para os transportes, mesmo depois de as principais capitais terem baixado as tarifas (o que prova a natureza da sua agenda). O problema dos transportes é dramático num país em que os empregos estão no centro e os salários mínimos estão na periferia. Essa travessia, nas capitais, chega à centena de quilómetros. Os transportes urbanos vão entre 1 e 3 reais. Se multiplicarmos 2 reais por 26 dias de trabalho, vezes dois, temos 104 reais com um salário mínimo de 680 reais. Não é diferente da situação portuguesa, com a diferença de os transportes, no Brasil, serem muito piores e de estarem sujeitos a todo o tipo de violência. Mas, ao contrário do que pretendem mostrar as televisões portuguesas, inflamadas com o desejo de revolução desde que não seja ao pé da porta, são os pobres os principais prejudicados com essa violência, cujos detritos têm de limpar no dia seguinte. O que os orquestradores deste protesto não esperavam é que houvesse uma vaga de fundo que os ultrapassasse — e houve. 

Portanto, há um segundo protesto, e esse teve início moderado Brasília, quando as vaias a Dilma surgiram — um protesto inicial contra a Copa 2014, e que foi adquirindo cada vez mais notoriedade até chegar a São Paulo, muito mais geral, e que o PT olha como profundamente hostil, porque levou para a rua «manchas da classe média», habitualmente silenciosa (Dilma foi eleita com 56% dos votos, contra os 54% de Serra — com uma abstenção de 21,5% num país onde o voto é obrigatório, e que somados aos nulos dá 26,7%) mas devastada pelo anúncio da recessão que chegará logo depois da Copa. E esse protesto é o que dói mais, porque pode ter um efeito definitivo na campanha de reeleição, que está a ser preparada por Lula.

Vi, nesses ajuntamentos, um cartaz curioso: «Não cabem aqui...» Essas razões que «não cabem aqui» podem querer dizer que há um sector da sociedade brasileira que desperta para o embuste do petismo. E, pior, são manifestações pacíficas, tranquilas, de pura demonstração de um cansaço que estava anunciado – e de um desconcerto diante da enormíssima despesa pública de que a construção dos estádios da Copa (com a sua inevitável carga de suspeitas de corrupção) é apenas um exemplo. Estas são manifestações em que o PT é vaiado, em que Lula e Dilma são vaiados (alguém viu na televisão a manifestação diante da casa de Lula, por exemplo?), em que a CUT é expulsa, em que o gang do Mensalão é assobiado.

Finalmente, aquilo a que as televisões dão destaque, à procura de espectáculo: as cenas de bandidagem e de descontrolo. O PT, mais uma vez em sintonia com a sua tradição, ataca a polícia e envia grupos profissionais para se associar aos protestos — porque está encurralado e tem de manter o hábito de dançar com ruído na sua lógica de selvajaria. As franjas radicais estão lá, em pleno, tentando obter na rua aquilo que não podem fazer no Congresso, nos tribunais, nas eleições e na vida de todos os dias. Essas franjas são compostas por todos os «aliados históricos» do lulismo, desde os «companheiros» das ocupações selvagens até àqueles que querem impedir investigações do Ministério Público e condenações no Supremo (é curioso como o PT se tornou racista ao ponto de relembrar, em surdina, a cor do presidente do Supremo, Joaquim Barbosa, que desmontou o Mensalão e provou a cumplicidade do Planalto dos tempos de Lula). Essas franjas não só aprovam as cenas de bandidagem como reclamam a rua do Brasil. Nem que para isso tenham de «compreender» e de «fornecer uma explicação sociológica» para os assaltos, violência contra a imprensa, assalto ao Congresso e ao Itamaraty, etc. Desconsolem-se os que festejam a violência — o PT já se solidarizou com ela e deu-lhes as boas vindas, se bem que tenha sido recebido com apupos para já, e felizmente. Mas, fiel aos seus princípios, bem tentou festejar.

Parte do Brasil pode estar a arder. Talvez seja a agonia do petismo, do lulismo e da «imensa sabedoria» que o dr. Soares vislumbra em Dilma. Mas, entretanto, vem aí o marketing, e talvez nada fique por aqui.

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Pedro Armendáriz.

por FJV, em 21.06.13

Mito romântico, ator de primeira linha, preferido de mestres. Lembram-se de Pedro Armendáriz? Morreu exatamente há cinquenta anos, cumpridos anteontem, e deixou um rasto de luz onde entram Forte Apache (ao lado de John Wayne e Henry Fonda) ou O Fugitivo (com Fonda e Dolores del Río), de Ford, ou Os Insurrectos (com Jennifer Jones), de John Huston, para não mencionar a sua derradeira aparição, em 007, Ordem para Matar, onde faz o papel de espião inglês em Istambul – um mês depois, devorado pela dor e pelo cancro, suicidou-se. Discreto nas suas interpretações, lembra o que ele era: um cavalheiro latino de antigamente, uma beleza com rugas, um mexicano criado nos EUA, e a quem o México deve muito (juntamente com Dolores del Rio, o realizador Emilio Fernández, ou o fotógrafo Gabriel Figueroa, um génio – juntaram-se os quatro em María Candelaria). Vejam os seus filmes. É uma bela homenagem.

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Snowden.

por FJV, em 21.06.13

Atravesso o Rio das Pérolas, diante da baía de Xiangzhou. É impossível não pensar no destino de Edward Snowden, escondido em Hong Kong. Os jornais, naturalmente, exploram a natureza das relações entre os EUA e a China – e não faltam teorias conspirativas nem condenatórias que arrastam Snowden para a lama. Há uma diferença abissal entre o seu caso e o de Julian Assange: onde a WikiLeaks vertia informação sobre relações entre Estados, o programa divulgado por Snowden interessa a todos os cidadãos vigiados, em qualquer parte do mundo, pela segurança americana. A ameaça terrorista é um argumento tão elástico que pode tornar-se inaceitável quando os critérios da cibersegurança global se transformam numa porta aberta para a violação da privacidade e para a captura indiscriminada de informações que o Estado e as suas agências partilham, arquivam e usam como se fossem proprietários dos cidadãos.

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Lord Peter Wimsey.

por FJV, em 13.06.13

Lord Peter Wimsey era desleixado, elegante, aventureiro, corajoso, autodidacta, erudito e um excelente bailarino. Todas essas qualidades ressaltam em livros como O Crime Exige Propaganda, Qual dos Cinco? ou O Mistério do Bellona Club. É, além disso, um dândi ruidoso e mestre do disfarce, vive em Londres, aprecia vinho do Porto – e foi criado por Dorothy L. Sayers, uma figura amável da chamada «literatura policial», nascida há exatamente 120 anos em Oxford, a 13 de Junho de 1893. Na época em que Dorothy L. Sayers começou a escrever policiais (a primeira aventura de Wimsey apareceu em 1921, mas a sua estreia foi na poesia, em 1916), o mais importante era lançar o desafio ao leitor: quem foi? Wimsey descobriria; ele era um génio parecido com Fred Astaire, que conheceu milhões de leitores, todos divertidos pelo seu sentido de humor e pela saudável irresponsabilidade de um lorde britânico.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Rio das Pérolas, 3.

por FJV, em 13.06.13

 

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Snowden

por FJV, em 13.06.13

Aos 29 anos, Edward Snowden (ex-colaborador da CIA, namorada bonita, casa no Havai) tramou a sua vida: divulgou documentos que demonstram que o governo americano vigia tudo o que são comunicações eletrónicas não só entre os seus cidadãos, mas em todo o mundo, através de contas pessoais em coisas tão “inocentes” como Google, Facebook ou Skype. Mais: mostrou que essa política, lançada por governos anteriores, foi endurecida pela administração Obama – até chegar ao assassínio de concidadãos através de ‘drones’. Snowden lançou, com dados concretos, a suspeita de que a vigilância anti-terrorista é um degrau para ir mais longe na captura das liberdades mais básicas, do direito à privacidade e na construção de uma máquina de conspirar contra os cidadãos e manipulá-los, em qualquer parte do mundo. Pode ser condenado a prisão perpétua por isso. As histórias do cinema transformaram-se em realidade.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Rio das Pérolas, 2.

por FJV, em 11.06.13

Névoa entre as ilhas.

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Rio das Pérolas.

por FJV, em 11.06.13

Na cidade que não dorme.

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Os tempos mudam.

por FJV, em 11.06.13

As loas à presidente brasileira, Dilma Rousseff, são muito parecidas com as que foram entoadas pelos europeus desde que descobriram o «bom selvagem» no século XVIII. Lula vinha para salvar o mundo, por exemplo, tal como Hugo Chávez reencarnava a figura do «bom revolucionário». Como os europeus não podiam ser nem «bons selvagens» nem «bons revolucionários» (tinham de tratar da vidinha, e as suas classes possidentes manter um bom nível de vida), decretaram que ambas as coisas existiam na América Latina, mesmo depois da queda do «tigre de papel» local, os EUA, que nunca entendeu o seu continente vizinho. Os europeus esquecem que as suas políticas protecionistas (uma vaca francesa recebe mais subsídios num mês do que um agricultor latino-americano ou asiático em toda a sua vida) são injustas, classistas e arrogantes. Hoje, a Europa enfrenta a maior crise estrutural dos últimos quinhentos anos: o centro do mundo desloca-se para o Oriente, para onde vão a inteligência, a riqueza e até o futebol ou o domínio dos mares. Mas a sua especialidade mantém-se: choraminga e empertiga-se.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Dia.

por FJV, em 11.06.13

O Dia de Portugal transformou-se em Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Compreende-se o esforço: é necessário associar a Portugal não apenas «as comunidades» (no país e, sobretudo, fora dele – somos uma comunidade extraterritorial) mas também uma voz que cante as nossas glórias e heróis. No entanto, fora da escola hoje em dia ninguém liga grande coisa a Os Lusíadas, uma epopeia politicamente incorreta, um dos mais notáveis poemas épicos da humanidade. Resta «o 10 de Junho» propriamente dito, que a imprensa aguarda, esfregando as mãos – porque tem discursos, e os discursos são o alimento da pátria. Aguardam-se, assim, o discurso do Presidente e, com igual euforia, os comentários, que já estão preparados antes do discurso, salvo erro. A isto se há de resumir o programa do dia. Felizmente restam-nos os portugueses que estão pelo mundo fora. Esses sim, festejam o Dia de Portugal.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Tom Sharpe

por FJV, em 08.06.13

Nunca foi um autor muito considerado pelos críticos, que desconfiam do humor, e pelos seus pares, que arrumam o humor nas prateleiras do fundo. A principal razão tinha a ver com o seu humor diabólico, corrosivo, politicamente incorreto. Em Wilt, Tom Sharpe decompõe a família do seu personagem mais definitivo, Henry Wilt, um professor de literatura em escolas politécnicas, casado com Eva, uma esposa exigente e que, periodicamente, sucumbia a ideias lascivas sobre libertação sexual ou consumo de produtos ecologicamente sustentáveis. Wilt descria de tudo como um pessimista cómico, farto de ensinar literatura a estudantes ignorantes e com hormonas descontroladas. As suas filhas gémeas aterrorizavam-no, histéricas e destinadas a escravizar futuros namorados. O seu universo é um repositório de valores aparentemente reacionários, de cenários e episódios rocambolescos de onde ninguém se salva com compostura, e de críticas corrosivas ao sistema escolar e literário britânico. Tom Sharpe, que morreu anteontem aos 85 anos, era um dos últimos pedaços de dinamite do humor inglês. As pessoas demasiado corretas não gostavam dele. Uma vantagem.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Escutas.

por FJV, em 06.06.13

Quando alguém fala sobre direitos cívicos, liberdade & intromissão do Estado, há cépticos que desconfiam dos cépticos habituais, aqueles que desconfiam da bondade dos sistemas de vigilância e do recurso permanente às escutas telefónicas. Uma pescadinha de rabo na boca.

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Livrarias, coisas conservadoras.

por FJV, em 06.06.13

A «utopia global», no caso dos livros, nunca esteve tão perto de ser assustadora. A ministra francesa da Cultura acusou diretamente a Amazon de prática de dumping, ou seja, de vender livros a preço inferior ao seu custo a fim de conseguir uma presença dominante no mercado – para depois regressar numa posição de quase monopólio. O cenário, aqui, não tem os aspetos românticos do filme com Tom Hanks e Meg Ryan (You’ve Got Mail): é um processo que ainda está a meio e que pode deixar um rasto de desemprego, de banalização do mercado e de uma vida cada vez mais difícil para as editoras. Com a crise económica, as livrarias ficaram ainda mais indefesas e sitiadas: menos leitores, menos vendas e menos variedade. Mas há alguns sinais positivos: nem de propósito, a histórica Livraria Bertrand, no Chiado, foi votada como a livraria preferida pelos lisboetas. É a livraria mais antiga do mundo em atividade. No fundo, esta escolha significa que ainda há quem resista à monstruosidade e ao negócio dos livros sem rosto. Rejubilemos por instantes.

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Esclarecimento.

por FJV, em 05.06.13

Para abrir e fechar a questão: o Público dedicou ontem a sua manchete a um assunto nobre – a autorização para a saída de Portugal de um quadro de Carlo Crivelli (não se trata de exportação, uma vez que essa autorização diz respeito ao espaço comunitário) na posse de um coleccionador privado. Compreendo a natureza da matéria uma vez que, por várias vezes, pedi esclarecimentos suplementares sobre exportação (essa sim, exportação) de bens culturais, a fim de impedir a saída de peças importantes do património artístico português.

Toda a imprensa reproduziu a notícia (num espaço de 6-páginas-6, o meu nome aparece em dois pequenos parágrafos) durante o dia de ontem e parte de hoje. No entanto, à excepção da Antena 1, nenhum jornal me pediu, sequer, para comentar o assunto ou dar a minha explicação, o que diz bem do processo de intenções que decorre. Adiante.

O caso é que — e para encerrar a questão — todos os procedimentos legais foram respeitados e cumpridos. Em resumo:

 

1) o quadro, ao contrário do que se escreveu no Público, nunca esteve nem “classificado” (só assim legalmente protegido até ao fim do necessário processo de “desclassificação”) nem em vias de ser “classificado”.

2) ao fim de três anos de duração do processo (o habitual é prolongar estes assuntos até uma das partes cair de inanição e a outra esquecer o assunto), era preciso dar uma resposta: ou ficar com o quadro, pagando-o, o que significava, na prática, dispor de aproximadamente €2,9 milhões; ou autorizar a sua saída para Paris. Escuso-me de comentar a hipótese de ter €2,9 milhões disponíveis (anos antes, o Estado português não tinha disponibilizado €50,000 para ficar com a arca de Fernando Pessoa que, aliás, é exposta sempre que o proprietário é solicitado). Confesso, também, que gostaria de pedir o NIB de algumas das pessoas que — com a habitual arrogância — ontem tinham redescoberto Crivelli, a fim de custear as obras de restauro dos carrilhões de Mafra (€2M), da torre da Sé de Lisboa, do Convento de Cristo, de S. Bento de Castris, do Forte da Graça, etc. Dinheiro há sempre, suponho.

3) não querendo comentar a qualidade, a singularidade e até o relevo deste Crivelli (esta obra do veneziano foi exposta uma vez em Lisboa, em 1972), a autorização foi dada com base num parecer técnico e legal devidamente elaborado por organismos da SEC. 

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O Dantas.

por FJV, em 05.06.13

A Assírio & Alvim publicou uma edição especial do Manifesto Anti-Dantas, de José de Almada Negreiros, «poeta futurista e tudo», acompanhada de um CD com a gravação original pela voz do escritor (datada de 1965). O livro tem um grafismo soberbo, reproduzindo a edição original, e Sara Afonso Ferreira explica-nos – em cerca de cem páginas – cada linha do Manifesto. O texto de Almada é um pilar do nosso modernismo literário; ninguém passa pelos primeiros anos do século XX sem referir o manifesto que deixa de rastos o autor da moda em 1915. Curiosamente, conheci poucas pessoas que tivessem lido Dantas. Nem Soror Mariana, nem A Ceia dos Cardeais, que estão na base da intervenção de Almada. É uma pena; Júlio Dantas tem algumas páginas de grandeza mas na literatura só teve direito a contraditório. É o mais famoso dos escritores desconhecidos. Há quem pense que nunca escreveu um livro, sequer.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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O Expresso do Oriente.

por FJV, em 05.06.13


Os idiotas falantes que agora tergiversam sobre a Europa deviam fazer uma pequena genuflexão para assinalar os 130 anos que passam sobre a primeira viagem do comboio Orient Express. Mas temo que o assunto não os comova ou que a sua ignorância seja mesmo terrível. A ligação entre Paris-Viena-Istambul (bem como Londres-Budapeste-Praga-Veneza) assinala uma Europa de fim de século (1883) que nunca deixou de estar presente na nossa imaginação literária ou cinéfila. Basta pensar em Agatha Christie, sim, mas também em Graham Greene, Verne, Paul Theroux ou Ian Fleming (o de 007) – que escolheram esse comboio como cenário. Depois da queda do muro de Berlim, a ideia da velha ‘Mittleuropa’ regressou para deslocar o eixo continental para Leste – o Orient Express da época do império Otomano podia ser um antídoto contra esse centralismo, mas o mundo tinha mudado. Passados 130 anos, as viagens de avião substituíram a utopia orientalista e o sonho de um continente alargado. A Europa já não tem memória para as coisas que valem a pena.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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