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Ouro Preto, Marília e Elizabeth.

por FJV, em 29.05.13


A cidade inclinada

 

[Em memória de Marília de Dirceu e Elizabeth Bishop.]

 

Ruas do ouro antigo, barroco de noites escuras, janelas

sobre o vale; o que antigamente tinha uma história

é hoje enumeração simples, sombras sob as varandas,

nos sobrados elegantes, entre os nomes dos fantasmas

que se perderam antes de mim, nos muros, nas mesas

de botecos, Marília adormece nos braços de Gonzaga.

Ainda se ouve a música, ainda se ouve a chuva,

ainda se iluminam as ladeiras de Ouro Preto,

 

como uma ameaça vinda do fundo, num quadro que

reconhece amantes vencidos, conjura de solitários,

gente que vivia entre as montanhas, os arvoredos.

A história nem sempre é uma grande recompensa,

rodeada de arte, de velharias, varandas, ventanias

que vagueiam entre os vales. As duas mulheres dão-se

as mãos ao entardecer; brava coragem de enfrentar

as dezenas de igrejas cujos sinos dobram a finados

 

celebrando os mortos em nome dos mortos, o tempo

passado, não a alegria da espécie. Elizabeth escreve

no casarão, ou deixou de escrever; amantes, entristecem,

comovidas pela contrariedade, sabem que o Inverno

é rigoroso, que a trovoada e a maldade caminham mais

depressa, chegam mais perdidas ao lado escuro da vida.

Não há romance que lhes ensine como perdoar o medo

onde não há refúgio diante da cidade inclinada.

 

Ouro Preto, 2007.

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Marília de Dirceu em Ouro Preto.

por FJV, em 29.05.13

 

Sobrados, declives, Ouro Preto repete-se sem ficar

exausta, dividida pela história; coisas sem sentido

lembram-se a esta hora, mal se aproxima a chuva

de Verão, como um desenho barroco cheio de plantas

exóticas e frutos silvestres, coloridos, incandescentes:

ruas perdidas, emaranhadas, respiração de história

maldita e de personagens que se perdem entre

os silvados, sob as varandas, ao luar das Arcádias,

em sonhos com mulheres aprisionadas,

vítimas da história e do tempo – elas conhecem

as penumbras em redor da cidade, as ladeiras

entre muros arruinados, por onde caminhavam

poetas dedicados ao tribunal, heróicos e decididos,

compondo versos espectrais, de exílio, sombrios,

esquecidos em épocas sem sentido – como eles,

os amantes de Marília, ouvindo o curso da água

nas fontes. Como pastores, descem pela serra,

pelos desfiladeiros, pontes mal equilibradas,

terrenos cultivados, inclinação mal refeita

de um mundo que terminou sob o jugo da eternidade,

ou do medo, ou do abandono. Árvores de Minas Gerais,

escuras e altíssimas, protegem a noite

e os seus amores; bastava uma palavra para libertar

Marília de Dirceu; um véu bastava, um nome

era suficiente e aterrador. Mas as sombras

de Ouro Preto acolhem as neblinas a esta hora –

a do entardecer. Há cidades que vivem

com os seus fantasmas, as suas florestas,

um sobrado elegante onde só as sombras dançam

para recordar amores de outrora,

para iluminar ruas que sobem e nunca regressam

ao mesmo ponto. Os amantes de Marília ouvem

o curso da água, antes de abandoná-la ao curso

do tempo; passam rente aos muros brancos,

escolhem mal as palavras, os declives e as assombrações,

protegem-se nas horas terríveis, ouvem uma música

raríssima que ecoa entre ruas e conversas

fora de horas, quando é mais difícil escolherem

um destino, uma forma de encarar os picos das montanhas.

É apenas literatura, nem sequer poesia

– esse sinal escrito no céu, sobre os telhados e a chuva,

apenas literatura, apenas observações acerca

dos campos lavrados, das musas que não sofrem

nem são amadas, das janelas entreabertas para a luz

que tinge Ouro Preto com o seu nome escuro.

 

Ouro Preto, 2007



Poemas de Tomás António Gonzaga, as ruas onde passou parte da melhor história de Portugal no Brasil. Havia uma poeira fina, amarelada. Essa não foi a primeira imagem mas foi a mais intensa, aquela que perdurou. A primeira foi a do desenho de um vale escuro, denso, sitiado pelo pico do Itacolomi e pela Serra da Mantiqueira, pelos fios de água do Rio das Velhas e do Piracicaba, mergulhado naquela vaga de calor onde cada pedra fala da história e do passado. É impossível não ceder ao peso da história; casarões erguidos em colinas, em ladeiras e becos, pracetas onde ipês frondosos servem de testemunhas à passagem do tempo. Mas a outra imagem, a imagem decisiva, apareceu depois: uma poeira fina misturada às nuvens de calor que subiam e desciam o vale. Foi mais do que isso que levou D. Pedro a chamar-lhe Imperial Cidade de Ouro Preto, substituindo o nome antigo, Vila Rica – o desígnio da história, o centro difusor do independentismo brasileiro que alimentou a Inconfidência Mineira e a conspiração do Tiradentes, a importância económica da região, a tradição de uma cidade que foi capital do barroco brasileiro. De alguma maneira, tanto Gonzaga como Cláudio Manuel da Costa fizeram o melhor da poesia pós-barroca, só comparável em génio ao atormentado e revolucionário Boca do Inferno, o “genial canalha” Gregório de Matos, o escandaloso poeta baiano do século XVI.
Ouro Preto lembra a história das cidades abandonadas por algum mistério do tempo. Há aqui o perfume da maldição e do castigo por, nesses tempos de glória, a riqueza dos seus habitantes ter levado a cobrir varandas e fachadas com folha de ouro. Isolada do mundo, escondida no vale, Ouro Preto fomentou aquela luxúria da decadência e foi um centro produtor de música, de pintura, de escultura, de literatura – e de contemplação, a mãe de todos os vícios artísticos.
Ao crepúsculo, Ouro Preto recebe os seus fantasmas, um a um.

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Ouro Preto.

por FJV, em 29.05.13

 

 

 

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Falhar, falhar melhor.

por FJV, em 29.05.13

A imagem não engana, não é manipulada nem chega através de mediadores comprometidos ou falsamente independentes do «mundo do futebol». É o retrato da dor: ao cair de joelhos no Estádio do Dragão, ao olhar para o céu no Arena de Amesterdão e, finalmente, ao oferecer o seu rosto para o esgar do sofrimento, à beira das lágrimas, no Estádio Nacional, anteontem. Jorge Jesus não enganou ninguém, nem sequer os seus indefectíveis. Limitou-se a ser o personagem de uma tragédia pessoal traduzida no lema dos grandes heróis que ninguém perdoa: falhar, falhar de novo, falhar melhor. A frase é de Samuel Beckett (de Worstward Ho/Pioravante Marche) e ilustra o drama do homem cercado pela derrota, pelo dever e pela multidão ululante. É impossível não guardar simpatia, não pelo que ele é de facto, mas pelo que representa, como se estivesse a cumprir o desígnio de Beckett: «Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor.»

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Abertura.

por FJV, em 27.05.13

 

 

 

dos trabalhos do mundo corrompida

que servidões carrega a minha vida

 

 


e eis súbito ouço num transporte público:

as luzes todas acesas e ninguém dentro da casa:

sete ou nove metros de labaredas,

e nem um grito, um sussurro, uma palavra:

só a casa ocupada pela grandeza da estrela,

a grandeza primeira

 

 

já não tenho mão com que escreva nem lâmpada,

pois se me fundiu a alma,

já nada em mim sabe quanto não sei

da noite atrás da luz: livros, frutas na mesa, o relógio que mede

minha turva eternidade

e o tempo da terra monstruosa,

já nada tenho com que morrer depressa,

excepto

tanta hora somada a nada:

acautela a tua dor que se não torne académica

 

 

Herberto Helder, Servidões. Assírio & Alvim, 128 págs.

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O cantinho do hooligan. Uma época de sonho.

por FJV, em 26.05.13

  

Eu não queria, mas é bom evocar momentos tão decisivos do futebol português. Por exemplo este: uma época de sonho. O tri do Benfica já cá canta.

Infelizmente, o resultado de hoje inviabiliza a nossa primeira vitória na próxima época sobre o Benfica. A Supertaça será com o Guimarães. 

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Joe Abreu.

por FJV, em 23.05.13

Não foi fácil mas, quando morreu, em Março de 1993 (sepultado em Seattle), tentei obter todas as informações sobre José Abreu, aliás Joe Abreu, porque nasceu na Califórnia a 24 de Maio de 1913, há cem anos. E o que poderemos fazer para assinalar o centenário do nascimento de José Abreu, aliás Joe Abreu, filho de pais madeirenses? Pegar num bastão de madeira e numa bola de algodão e couro com o peso exato de 142 gramas – e recordar o primeiro jogador português presente nas grandes competições americanas e um herói do basebol durante a II Guerra. Dos 11 home runs de 1937, com os Oakland Hawks (onde jogou também Lewis Fonseca, que chegou a treinador dos White Sox), até à sua contratação pelos New York Yankees, em 1942, Abreu passou pelos Cincinatti Reds, pelos Chicago Cubs e pelo Los Angeles, para referir as equipas principais. Faz parte da nossa galeria de aventureiros, o que não é pouco.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Wagner.

por FJV, em 22.05.13

Ao tentar determinar o legado ou a influência de Richard Wagner e da sua música (uma obra grandiosa, feita de tumulto, extensão, solenidade e história), deparamos com uma dificuldade: é que a maior parte da nossa cultura musical seria impossível sem referir o seu nome e óperas tão populares hoje como o Crepúsculo, O Ouro do Reno, Tristão e Isolda ou a tetralogia de O Anel dos Nibelungos. Nascido há duzentos anos, em Leipzig, a 22 de Maio de 1813, Wagner é provavelmente um dos músicos que mais marcou a música contemporânea. A sua biografia, o seu destino e o fogo em que se consumiram muitas das justificadas polémicas sobre a sua obra, estão ligados apenas à música. Ao escutar O Navio Fantasma, Os Mestres Cantores de Nurenberg ou o dueto de amor de Tristão e Isolda, o coração esvai-se e perdoa, convertido a cada acorde e a cada fuga, como se sobrevoasse o mundo na companhia de um génio admirável e tempestuoso.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Falta pouco.

por FJV, em 22.05.13

 Novo romance de José Eduardo Agualusa, na Quetzal – primeira semana de Junho.

Aqui está a capa.

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O vendedor de passados.

por FJV, em 21.05.13

Há um extraordinário romance de José Eduardo Agualusa, O Vendedor de Passados (em adaptação para cinema), em que o personagem principal, Félix Ventura, tem um estranho negócio: reescreve a biografia dos seus clientes consoante as necessidades e as exigências da vida corrente num novo regime político. Em Portugal, a avaliar por episódios recentes, teria alguma procura. Em 1975 essa indústria foi bastante lucrativa e, nos anos 80, teve uma retoma extraordinária. O Expresso, por exemplo, redescobriu alguns textos de Paulo Portas no semanário O Independente, nos quais zurzia em figuras com que agora tem de negociar e de se relacionar. É a vida. Há quem se escandalize e quem esconda o seu próprio passado, ou quem fique apenas desejoso de reconstruí-lo à medida das conveniências. Não é grande solução: o inferno tem uma grande e profundíssima memória. A imprensa está cheia de deslizes.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Down by the salley gardens.

por FJV, em 21.05.13

 

Passeio por Sintra. 

 

 

DOWN by the salley gardens my love and I did meet;

She passed the salley gardens with little snow-white feet.

She bid me take love easy, as the leaves grow on the tree;

But I, being young and foolish, with her would not agree.

 

In a field by the river my love and I did stand,

And on my leaning shoulder she laid her snow-white hand.

She bid me take life easy, as the grass grows on the weirs;

But I was young and foolish, and now am full of tears.

 

W.B. Yeats

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O cantinho do hooligan. Interlúdio.

por FJV, em 20.05.13

Obrigado. Sem ressentimentos.

Campeão Nacional 2012-2013.

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Chet.

por FJV, em 19.05.13

Ouço «Serenity», do álbum Smokin’ with the Chet Baker Quintet, e passo depois para The Touch of Your Lips, que marcou a minha década  de oitenta, na companhia de My Foolish Heart e de Misty. Chet Baker morreu há 25 anos (assinalaram-se no passado dia 13), em Amesterdão, crê-se que depois de mais uma sessão de drogas duras. A relação da sua vida com as drogas é permanente, mas prefiro esquecê-la em nome da música de Chet Baker e, sobretudo, do tom que o seu trompete transportava, num crescendo de melancolia e depressão, perto da tragédia. «Early Morning Mood» e «Anticipated Blues» são dois temas fatais, mesmo para quem não navega nas águas do jazz, e tenho pena que não entrem, como pano de fundo, no documentário que Bruce Weber dedicou a Chet Baker, Let’s Get Lost. Mas o título rende-lhe homenagem: ouvir o seu trompete, grave e triste, continua a ser o primeiro passo para a perdição.

[Da coluna do Correio da Manhã.]


 

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Bom-senso, de novo.

por FJV, em 19.05.13

O Filipe resume o essencial sobre a co-adopção e a adopção e o que interessa dizer sobre o assunto.

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Para os tempos da peste.

por FJV, em 19.05.13

Se a realidade não está conforme ao que pensas que é melhor para a realidade, acusa-a de reaccionária. Geralmente resulta durante uns tempos. Ou então diz a verdade sobre como as coisas são. Os tempos da peste são assim.

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Blogosfera.

por FJV, em 19.05.13

Como de costume, o bom senso e um pouco de serenidade nos posts de Luís Naves.

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Recordações. Moledo.

por FJV, em 19.05.13

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Django.

por FJV, em 19.05.13

Alguns dos seus acordes aparecem nos filmes de Woody Allen – são um misto de melancolia e humor, coisa que evoca diretamente a figura do guitarrista Django Reinhardt (1910-1943), o homem que poderia ter alterado o som do jazz se não tivesse morrido aos 43 anos, a 16 de Maio, há 60 anos – e se não fosse belga com origens ciganas, mas isso é outra história. Para quem ouve «Nuages», um dos seus grandes temas, «Stardust», a sua versão de «All the Things You Are» ou «Blues for Ike» (dedicado a Duke Ellington, com quem tocou nos anos 40 em Nova Iorque), Django só pode estar no grande palco do jazz, que muitas vezes dividiu com Stéphane Grappelli, mas onde lhe está reservado um lugar de primeira linha. É aí que o encontro, o cigarro dependurado da boca, a guitarra entre as mãos – a guitarra que, no jazz, esteve sempre em plano secundário, salvo quando Django Reinhardt é evocado.

[Da coluna do Correio da Manhã.]


 

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El Calafate, Argentina. Continuação.

por FJV, em 19.05.13

Na semana passada «recomendei» um artigo da jornalista Josefina Licitra sobre o «escândalo» de corrupção montado pelos Kirchner na Argentina. As notícias continua, apesar de o Dr. Soares ter dito que gosta muito desse governo e de D. Cristina. É uma história policial e rocambolesca, como de costume. Aguardo o capítulo em que os guarda-costas de Hugo Chávez entrega a D. Cristina as malas com dólares. Há-de chegar. Mas já chegou a La Angostura, uma espécie de Suíça nos Andes.

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Constituição aos infantes.

por FJV, em 19.05.13

O partido Os Verdes (e creio que toda a esquerda) acha que os estudantes do 3.º Ciclo devem estudar a Constituição. Não me parece desajustado nem cruel; há coisas bem piores, como ler alguns textos de certos manuais de Português. De resto, compreende-se o interesse da esquerda em obrigar os adolescentes a ler a Constituição – porque o atual regime, agonizante, desenhado nos anos 70, assenta naquele texto cuja revisão parece ser um tabu. Já a direita diz que é melhor as escolas ensinarem minudências de direito constitucional em vez de mostrar aos alunos que o povo português tomou a decisão de  “abrir caminho para uma sociedade socialista”, como se lê logo a abrir. Justo receio. Mas por que não se pode rever a Constituição e retirar os seus simpáticos anacronismos? Porque seria um escândalo. E nisto estamos: metade do país não deixa que os seus filhos leiam um texto que já devia ter sido revisto.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Recordações.

por FJV, em 19.05.13

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Angola, descolonização.

por FJV, em 19.05.13

Passados quase 40 anos sobre a independência dos países africanos de língua portuguesa, começa a ser desclassificada uma quantidade generosa de fontes históricas, o que permite fazer luz quer sobre episódios fundamentais desse período, quer sobre o cenário geral em que decorrem. Segredos da Descolonização de Angola, da jornalista Alexandra Marques (Dom Quixote, 544 págs.), que chegará às livrarias por estes dias, é um documento notável que nos ajudará a reconstituir a retirada portuguesa de Angola. Não se tratou de descolonização, de facto – mas de uma simples transferência de poderes num palco dominado pelas grandes potências da época. Quanto mais documentos deste género forem publicados mais depressa terminarão o tabu, os traumas e a versão oficial e desculpabilizadora que dominam a explicação desses anos de fogo. O tempo passa e cura as feridas; mas, para isso, tem de ser conhecido.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Empresários.

por FJV, em 08.05.13

Hoje, no Público, a notícia de que só 20% das empresas portuguesas (as PME...) geraram emprego nos últimos cinco anos. Um amigo enviou SMS: são as empresas que o Estado não ajudou a pagar salários, encontrar clientes, procurar novos negócios, voltar a pagar salários. Poucos dos senhores deputados que clamam por crescimento, crescimento, crescimento ou emprego, emprego, emprego, jamais teve o encargo de pagar salários. Anda se fossem obras públicas, para fazer negócios e assumir o papel de «facilitador»...

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El Calafate, Argentina.

por FJV, em 08.05.13

  

 

El Calafate, Argentina. Apesar da beleza natural, do glaciar de Perito Moreno, dos passeios pelas florestas ou no deserto, recomendo a leitura desta peça de Josefina Licitra (vários prémios de jornalismo, artigos publicados na Rolling Stone, vários livros, presente na revista colombiana El Malpensante, etc.): é ali que fica o segredo do regime de corrupção dos Kirchner. Agora que (apesar da sua tentiva de calar a imprensa) foram publicados novos documentos sobre a forma como Cristina Kirchner maneja o seu dinheiro (e até como o recebia dos guarda-costas de Hugo Chávez), o artigo publicado na edição de Abril da Piauí ganha ainda mais actualidade. No fundo, é do regime dos Kirchner que o Dr. Soares gosta muito. Devemos estar atentos.

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A morte lenta do chavismo.

por FJV, em 08.05.13

Artigo de Mario Vargas Llosa, «La Muerte Lenta del Chavismo» (no El Pais deste último domingo).

Versão no Estado de S. Paulo.

 


O presidente do Congresso iniciou a sessão retirando o direito dos parlamentares de oposição de se manifestar sobre a fraude eleitoral e ordenou que seus microfones fossem desligados. Quando os deputados protestaram, levantando uma faixa que denunciava um “golpe contra o Parlamento”, membros oficialistas e seus guarda-costas lançaram-se contra eles com socos e pontapés que deixaram alguns deputados, como Julio Borges e María Corina Machado, com lesões e edemas. Para evitar provas da arbitrariedade, as câmaras da TV oficial foram direcionadas oportunamente para o teto da assembleia. Mas os celulares de muitos participantes filmaram o ocorrido e o mundo inteiro tomou conhecimento da selvageria cometida, assim como das gargalhadas de Diosdado Cabello [presidente do Congresso] com o fato de María Corina Machado ser arrastada pelos cabelos e espancada pelos valentes revolucionários chavistas.

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O mundo avança.

por FJV, em 08.05.13

Felizmente que o mundo tem pessoas com juízo. Sobretudo na Suécia, onde o Vänsterpartiet (Partido de Esquerda) apresentou anteontem, no Parlamento, uma proposta para que os homens passem a urinar sentados. Não pensem os leitores e leitoras que se trata apenas de uma medida de orientação médica, destinada a evitar problemas na próstata, ou de pura higiene (sim, os homens são descuidados). Há outra razão: questões “de género”. As casas de banho deverão passar a ser unissexo para prevenir a discriminação sexual em que naturalmente assenta o facto de haver pessoas que fazem xixi sentadas – e outras de pé. Isto implica toda uma engenharia de natureza pedagógica, e as famílias devem, desde o início, insistir para que os rapazes se sentem para cumprir a inóspita obrigação. Quem não aceitar a eventual lei, terá de procurar uma casa de banho devidamente identificada para cavernícolas. O mundo avança. 

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Kierkegaard.

por FJV, em 08.05.13

Um dos seus livros, O Conceito de Angústia (havia uma edição na Editorial Presença), marcou o modo como toda a sua obra foi recebida no ocidente e, especialmente, em Portugal, onde o nome do dinamarquês Søren Kierkegaard, cujo bicentenário se assinalou no domingo, era frequentemente associado aos “estados depressivos” (um pouco como Camus, como se dizia no antigo liceu) e à profundidade da melancolia. Provavelmente, não poderia ser de outra forma, tanto simplificamos o que é complexo e difícil de entender. Formado em teologia e filosofia, a religião nunca deixou de ser o centro da sua obra, tal como a busca de liberdade em relação à influência religiosa (daí que a angústia possa ser vista, sobretudo, como a vertigem diante da liberdade). É enorme a influência de Kierkegaard no existencialismo, a corrente dominante na filosofia moral do século XX. Duzentos anos depois, continuamos a comentá-lo e a interpretá-lo.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Observações, 2.

por FJV, em 05.05.13

Há tantos comentadores televisivos, líderes da oposição e génios com soluções de algibeira, que seria uma pena o país não as aproveitar. O destino do governo, a partir de agora, é ser devorado lentamente, desmantelado até não sobrar senão a obstinação de dois ou três solitários completamente isolados, sem qualquer apoio. Mesmo que Marcelo tenha razão (televisão a preto e branco e a cores), trata-se de puro espectáculo, bom para ir fazendo humor negro. Esse espectáculo, penoso e degradante (para o  governo, para a oposição, para a troika, para o Presidente), só pode ser evitado de uma maneira. 

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Observações, 1.

por FJV, em 05.05.13

Nas atuais circunstâncias, ou a coligação está unida – ou não vale a pena mantê-la só para produzir notícias. A declaração de Paulo Portas equivale a dizer, abertamente, que não concorda com as decisões tomadas pelo governo (e anunciadas pelo primeiro-ministro) e que, não satisfeito em ter esticado a corda no caso da remodelação, prefere também outras soluções para enfrentar a crise. Ou seja, por muitos prejuízos que a decisão possa causar ao país (e são muitos, sobretudo tendo em conta que o país é um protectorado sem dinheiro para pagar salários), é necessária uma clarificação

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Não se aprende.

por FJV, em 05.05.13

Deixem-me regressar a John Le Carré, cujo novo livro (A Delicate Truth) foi publicado em Inglaterra na semana passada – e sairá em Junho em Portugal. Recuemos até O Nosso Jogo publicado em 1995 (Dom Quixote), antes do 11 de Setembro e, sobretudo, antes dos recentes acontecimentos de Boston. É um dos seus mais belos livros, narrados pelo ex-espião Tim Cranmer. Pelo meio, uma história de amor entre a sua mulher, a bela Emma, e Larry Pettifer, especialista em assuntos soviéticos – desaparecidos. Tim sabe que, para encontrar um deles, tem de procurar ambos. É uma aventura perigosa que o leva até à Inguchétia, à Ossétia, às paisagens do Cáucaso e da Abecásia – e à herança histórica que atravessa toda a história da URSS, do estalinismo e das religiões locais. Os autores do atentado de Boston, que são chechenos, contariam histórias semelhantes. Mas, infelizmente, lê-se pouco hoje em dia, muito pouco. E não se aprende nada.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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