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Aviso aos incautos.

por FJV, em 28.02.11

Já nas livrarias, o novo livro

de crónicas do Dr. António Sousa Homem

 

«O meu médico de Viana (a quem recorro nas aflições, e que vigia o temperamento das coronárias e do fluxo renal) não o diz, mas sei que a longevidade dos Homem o aflige como um milagre da província. O segredo é só este: espremer a pasta de dentes pelo fundo, não ler demasiados romances, manter os retratos dos antepassados, levantar cedo e evitar ceder à indignação. Depois de fazer oitenta e cinco anos, já lá vão uns tempos, a família trata-me como uma página do álbum de glórias, anterior ao Titanic, destinado ao naufrágio ou ao museu. Faço o que posso, só para não os desiludir.»

 

«Não fosse uma amável série de coincidências e este cronista estaria reservado ao seu destino — terminar os seus dias de velhice neste promontório de Moledo, em frente ao mar do Minho e mantido no merecido anonimato, rodeado dos livros e dos cuidados familiares que não o abandonaram até hoje. Só a vaidade, um bem inestimável, tanto quanto prejudicial ao temperamento humano, permitiu que mais este conjunto de textos visse a luz do dia. Não diferem dos que o leitor já conhece; um velho repete-se até à eternidade convencido de que tem, ainda, alguma coisa para dizer, mesmo num país que preza galantemente a ignorância, a mediania e a meteorologia destemperada do nosso clima ameno.»

Lançamento dia 17 em Caminha; dia 18 em Viana do Castelo.

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Ora aí está.

por FJV, em 28.02.11

Eu não conhecia, mas o Henrique Raposo alertou-nos para a existência de um Prémio Kadhafi para os Direitos Humanos. Fui ver e é verdade.

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O Insurgente.

por FJV, em 28.02.11

Insurgente: seis anos são seis anos. Parabéns.

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O optimismo fácil.

por FJV, em 28.02.11

Nada explica melhor a nossa situação do que o livro Charles Mackay, Extraordinary Popular Delusions and the Madness of Crowds, de 1841. Os economistas tomaram os seus exemplos sobre as bolhas especulativas (a história da tulipas holandesas é a mais extraordinária); mas o seu ataque ao optimismo permanente é de primeira linha. Se falha uma «utopia» inventa-se outra patetice, e assim sucessivamente, até à catástrofe final, sempre com o argumento de que temos de ser optimistas, de valorizar «o que é bom», «o que funciona bem» a curto prazo, etc. É só aplicar à actualidade.

Roger Scruton tem uma interpretação mais radical: Zeus ofereceu a Pandora, como presente de casamento, uma caixa que não devia abrir. O costume em todas as mitologias. Ela abriu-a e libertou todo o género de desgraças; ao ver o que tinha feito, fechou a caixa rapidamente deixando no interior apenas uma das desgraças originais: o optimismo sem escrúpulos.

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Moacyr.(1937-2011)

por FJV, em 28.02.11

De Moacyr, os primeiros livros que li foram O Exército de um Homem Só e O Centauro no Jardim. A década de oitenta foi o grande ponto de partida para uma obra que nunca deixou de ser fascinante pelas interrogações que criava. Saturno nos Trópicos: a Melancolia Européia Chega ao Brasil foi um deles, um ensaio notável; tal como A Mulher Que Escreveu a Bíblia, uma encenação ficcional da tese de Harold Bloom; tal como A Majestade do Xingu, uma história em redor do médico e higienista Noel Nutels e da emigração de judeus russos para o Brasil. O seu mundo era esse, aliás: o de Porto Alegre, a sua cidade de sempre (escreveu um belíssimo Porto de Histórias: Mistérios e Crepúsculos de Porto Alegre), com o bairro do Bom Fim transformado em catalizador da sua memória judaica, da gente humilde que fugira da velha Rússia e do comunismo, judeus que reconstruíam o seu mundo longe da Europa. Entrevistei-o duas vezes, em sua casa, no limite do bairro de Moinhos de Vento, com as suas árvores altíssimas – um apartamento cheio de livros; escrevia em todo o lado, a toda a hora, porque tinha sempre um livro «para terminar». Talvez por isso, «escrevia simples» (as suas crónicas na Folha de São Paulo eram um exemplo disso – uma espécie de adaptação literária de notícias publicadas pelo jornal). Encontrámo-nos em vários voos e aeroportos e ele escrevia em todas as circunstâncias; era um grande leitor, um leitor atento, avassalador. Ficámos mais amigos por causa de A Condição Judaica, um pequeno livro que mostrava o Moacyr simples, com o seu gosto pela clareza e, ao mesmo tempo, pela beleza ética do judaísmo. Um adeus para Moacyr não basta. Vai custar despedir-me.

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Na tv.

por FJV, em 23.02.11

Daqui a pouco, à 01h00, no Nada de Cultura (TVI24), José Gil, Carlos Amaral Dias e Bento Domingues — sobre a crise para além da economia.

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Psicose.

por FJV, em 21.02.11

Quando se juntam uma grande fome de leis e o entendimento de que a sua aplicação não pode ser limitada o resultado é sempre calamitoso. Nada causa tanto regozijo num legislador tarado e psicótico do que a possibilidade de alargar a sua área de influência até ao infinito, ou seja, até à casa das pessoas, moldando-lhe os hábitos, vigiando-lhe os vícios, proibindo-o de ouvir estações de rádio perniciosas, de beber licores de origem duvidosa ou de fumar um cigarro. Há livros que o legislador acha ofensivos? Há maneira de proibi-los. Este grande projecto de pura engenharia social tem pernas para andar, aviso-vos. Na vida, tudo é contrato vigiado pelo Estado. O Estado sabe o que é melhor. Há ainda um pequeno grupo de distraídos que fala de sensatez e de privacidade e de liberdade. Mas vai acabar. O império dos legisladores não conhece fronteiras, não reconhece limites. Nesta peça há ainda um jurista que reconhece – vejam bem – que «uma residência não poder apenas ser entendida como um local de trabalho, mas também um local que as pessoas habitam e onde têm a sua privacidade», mas acho que é o reconhecimento de uma excentricidade.

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Diplomacia económica com a Líbia.

por FJV, em 21.02.11

Lembrem-se da notável presciência da nossa diplomacia. Uma notável análise que tem em conta, necessariamente, os interesses portugueses e a aliança de civilizações.

 

 

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O regresso ao polígono estratégico.

por FJV, em 18.02.11

 

Valença

 

De Valença para Tuy.

 

 

 

 

Caminha.

 

 

 

Moledo, naturalmente.

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Moledo. Na posta restante.

por FJV, em 18.02.11

 

Moledo depois da tempestade. Fotografias enviadas por Ricardo Peres.

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Estado de sítio.

por FJV, em 17.02.11

Silêncio, silêncio. Mapas, atlas, livros de memórias, o extraordinário La Coca de J. Rentes de Carvalho, dois ou três livros mais, árvores ao crepúsculo. Nos próximos dias, o blog estará mais silencioso.

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Déjà Lu: livros para fazer companhia.

por FJV, em 17.02.11

O Déjà Lu é uma página de leilões de livros já lidos. Poderíamos chamar-lhes livros em segunda mão, mas não é a mesma coisa: são livros que já fizeram companhia a alguém. E vão continuar a fazer porque o valor das vendas resultante dos leilões reverterá, na sua totalidade e de forma directa, para a APPT21 (Associação Portuguesa de Portadores de Trissomia 21) e para o Centro de Desenvolvimento Infantil Diferenças.

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Vigiar.

por FJV, em 17.02.11

Apetece muito que Leire Pajin, a ministra espanhola da Saúde e da engenharia social, se transforme numa matrona às antigas. Tarada.

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Vidas.

por FJV, em 17.02.11

A ideia de que “a juventude é que é”, que “a juventude tem sempre razão”, que “é preciso investir na juventude”, entre outras anomalias herdadas dos anos 70, criou um mundo de monstrinhos egoístas e salafrários – e manda-nos esconder os velhos, ou porque têm rugas, ou porque não fazem aeróbica, ou porque são um incómodo e fazem xixi na cama. É preciso afastá-los da vista. Depois de um ou dois dramas mais macabros, a atenção das pessoas regressa aos seus velhos, que o Estado, muito amável, trata por “idosos”. Uma sociedade que não gosta dos seus velhos, que não os protege, que não os salva da doença, que não os prepara para a velhice — não merece a sua sabedoria nem a sua melancolia. Favorece o medo e a angústia diante do futuro. E autoriza todas as formas de egoísmo.

[Na coluna do Correio da Manhã]

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Imigrantes.

por FJV, em 17.02.11
Os jornais de ontem dão uma importante notícia: em janeiro houve 172 imigrantes inscritos no Programa de Apoio ao Retorno Voluntário – não apenas brasileiros, mas também santomenses, angolanos, cabo-verdianos e de países do Leste. Até ao final do ano supõe-se que alguns milhares possam abandonar Portugal, a acrescentar aos que já o fizeram ao longo de 2010. É mau sinal esta saída de imigrantes (não apenas porque traduz o aumento do desemprego e a agudização da crise económica). Nos últimos anos, foram eles que trouxeram sangue novo a um país envelhecido – mas também com algumas perspetivas de crescimento. A integração de muitos desses estrangeiros contribui ou para mudar a nossa palidez, ou para mudar os nossos hábitos de trabalho, ou para impedir a solidão portuguesa.

[Na coluna do Correio da Manhã]

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Moledo. O polígono estratégico.

por FJV, em 17.02.11

 

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O medo é uma máquina de mentiras.

por FJV, em 16.02.11

Já não se pode falar de escândalos, mas isto é escandaloso. O medo de encarar as coisas é terrível, mas a vergonha de dizer as palavras é cobardolas: «Despite the fact that the majority of acts of religious violence in recent years are perpetrated against Christians, EU High Representative Lady Catherine Ashton claimed that it would be politically incorrect to explicitly name one religion.»

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Que amigos.

por FJV, em 15.02.11

Isto tem importância? Não. Mas vale a pena observar que o DN, na sua primeira página, sob o título «Durão em Portugal a preparar resposta para a crise» deu, de repente, importância ao tempo que o presidente da Comissão Europeia esteve com o Presidente da República e com o primeiro-ministro. E informa que Durão dedicou 25 minutos a Cavaco e 90 minutos a José Sócrates. Tanto cuidado, tanta minúcia, tanta precisão: Durão – diz o DN – chegou a Belém às 11h00 e saiu às 11h25. Até seria normal. Mas, na verdade, não foi: Barroso chegou a Belém às 11h00, sim senhor, mas só saiu às 12h25, o que lhe permitiu estar às 12h30 em São Bento. Sabe-se isto pelas agendas oficiais. Mas o DN, caramba, tão preciosista, tão minucioso — enganou-se em 60 minutos numa só notícia de primeira página. Tanto zelo dava para desconfiar, não é?

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Escorregadela.

por FJV, em 15.02.11

É de ler muitos romances de espionagem. É de imaginar como os bastidores são o esqueleto do palco. Mas esta notícia é muito interessante: a moção de censura com que o Bloco tenta tranquilizar o governo (alguém duvida de que o censuro-te mas só ao de leve é uma ajudinha preciosa do Bloco a José Sócrates?) foi agendada pelo próprio ministro Lacão, já que o BE se tinha esquecido de o fazer.«Espera. Está a faltar aqui uma coisa qualquer. O que será? Ah, a moção de censura. Ó Pureza, então vocês esqueceram-se da moção, pá? Então, pá? Tínhamos combinado isso, pá.»

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Sophie Dahl.

por FJV, em 12.02.11

Tem razão, Joana. Muito, muito, muito, infinitamente muito melhor do que aquele ser chamado Chakall e que não tem grande intimidade com a cozinha. Sophie Dahl, 34 anos flutuantes, não tem, digamos, o que se sabe que tinha Nigella Lawson, fantásticos e suculentos 51, embora ser neta de Roald Dahl ajude. Mas é um bálsamo, confesso — embora a 10 pontos da Lawson. Teria (enfim, teria) muitas dúvidas sobre esta truta recheada ou sobre esta omelette (e sobre muitas outras coisas, basta ver como se desfaz de um dente de alho), mas mesmo assim é (sempre) melhor do que Chakall, mesmo que não olhe a câmara de frente, o que seria uma coisa muito interessante, se me faço entender.

E para quem tem saudades, é ir aqui. Há coisas que são como são.

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Cricas e Fura-Pitos.

por FJV, em 12.02.11

Só isto dava um romance.

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Naves.

por FJV, em 12.02.11

No meio de umas semanas distraídas, nem houve tempo para mostrar a bela capa de um belo livro, o de Luis Naves. O Pedro Mexia disse o que havia a dizer na sessão de lançamento, e o João Villalobos disse o que havia a dizer num post de primeira. Antes disso, no entanto, o Luís Naves escreveu o que havia a escrever — o livro prova-o.

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Eu censuro-te, mas só ao de leve.

por FJV, em 12.02.11

Para que serve uma moção de censura? Para censurar, repreender, vituperar (eu gosto muito do dicionário dos fenianos e do da Tertúlia Edípica), improperar, pelejar, advertir, increpar, mas também condenar, desaprovar, satirizar, prasmar, açoitar, caluniar, admoestar, acusar, abocanhar ou, vá lá, verberar, reverberar e zagunchar. Tudo coisas que cabem na cabeça de um filólogo e que emprestam alguma graça à cabeça de um parlamentar. Por isso, uma semanas depois das presidenciais em que o Bloco apoiava Manuel Alegre, que era apoiado pelo PS, esta moção de censura é uma espécie de despedida ao candidato presidencial, agora que ele ja não serve. Pobre Manuel Alegre que, se já só servia para lançar a Cavaco, agora nem para memória tem utilidade. Também pode ser vista (a moção) como um acto de contrição: apoiámos «o candidato do PS» mas calma lá, aqui está a prova de que não apoiamos «o partido do candidato que apoiámos». Claríssimo; é uma moção para consumo interno, para satisfazer o eleitorado mais duro do Bloco, que teria ficado chocado com este andar de braço dado com o inimigo. Compreende-se. Louçã (com o seu apuradíssimo sentido sobre a utilidade das moções de censura), aliás, advertiu logo do que se tratava — era uma moção contra o governo mas também contra o PSD, a direita, o PCP (necessariamente), a couve roxa, o regresso da filoxera, os pepinos em conserva, os filmes de Zefirelli, Moubarak, a pesca do atum, a política económica, Júlia Pinheiro e Hannah Montana. Era, portanto, uma espécie de expiação pública, como disse José Manuel Pureza, à maneira de um professor de Coimbra: «esta moção em concreto, com aquilo que ela vai ser do ponto de vista da análise que leva a esta censura, tornaremos muito claro, e quero dizê-lo sem qualquer equívoco» (juro que foi isto, estou a citar). Traduzir-se-ia desta forma: nós apresentamos uma moção de censura contra o governo (para ver se ele cai, quem sabe) mas não esperamos nem queremos que seja aprovada (porque não queremos que o governo caia); não liguem: é uma coisa entre nós, para reequilibrar os nossos complexos de culpa — ou seja, censuramos o governo mas ficamos lixados se a direita e o PCP nos apoiarem. No fundo, apresentamos a moção só para vejam que somos de esquerda. É ao de leve, compreendam. Nós íamos lá fazer uma coisas dessas ao governo. Aliás, um dos nossos objectivos é, «em concreto, com aquilo que ela vai ser do ponto de vista da análise que leva a esta censura, tornaremos muito claro, e quero dizê-lo sem qualquer equívoco» (fiquei com esta frase), impedir outras moções de censura que tenham como finalidade, digamos, censurar o governo. Quem é amigo, quem é?

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Xeque-mate.

por FJV, em 12.02.11

Sem ademanes, como se impõe.

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Acasos, 39. The White Stripes.

por FJV, em 11.02.11

 

The White Stripes, «I Just Don’t Know What To Do With Myself»


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Papel ao vento.

por FJV, em 09.02.11

A Waterstone's de Dawson Street, Dublin

 

A mítica livraria Waterstone’s de Piccadilly Circus, em Londres, vai deixar de ser livraria – ocupando a maior parte do seu espaço ficará um cinema. Ao mesmo tempo, a Waterstone’s fecha 11 lojas, incluindo as duas de Dublin (a histórica, de Dawson Street), a de Cork e de Drogheda, e prepara-se o encerramento de mais 10, além de outras 10 HMV (as Waterstone's de Maidenhead e de Edimburgo tinham já encerrado as portas em Dezembro). Nos EUA, a cadeia de livrarias Borders prepara-se para dizer o adeus definitivo. A culpa é do livro digital? Não apenas. É sobretudo de uma gestão virada para o “capital financeiro”, que acreditava que podia vender livros da mesma forma que venderia produtos de limpeza, e que poderia impingir eternamente subprodutos infames. Como estava escrito há muito, o livro vingar-se-ia dos seus algozes ignorantes – mas, infelizmente, é um mundo que, tal como se anunciava, termina os seus dias deixando um rasto de desemprego, de desolação e de culpa. É assim.

[Adaptado da coluna do Correio da Manhã]

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Dean.

por FJV, em 09.02.11

James Dean completaria hoje [ontem] 80 anos. Como seria hoje o ator de Fúria de Viver/Rebel Without a Cause, ou de A Leste do Paraíso? A imagem que conservamos da sua beleza, da sua melancolia, de um olhar vago e indeciso, de certa androginia – seria ela prolongada em outros filmes ou, consoante os argumentos, procuraria outros caminhos? Esses aspetos esconderiam outros, mais dramáticos, mas o Jim Stark que ele interpreta no filme de Nicholas Ray ficará como emblema de uma desilusão banal sobre o mundo em que os gangues delimitam o pátio da adolescência. Mas em A Leste do Paraíso, de Elia Kazan, anterior, é John Steinbeck puro – vida dura e difícil, sem complexos nem torturas psicológicas. Seja como for, James Dean teria hoje 80 anos. Poderia ter envelhecido e tornar-se mortal.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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Melros nas oliveiras.

por FJV, em 07.02.11

Acho graça às mais altas auctoridades em matéria sociológica que, de repente, descobrem que a ideia que têm «da imprensa de referência» não coincide com o país, propriamente dito. Chego a isto por uma passagem do post do Henrique Raposo («Este tema não pode continuar a ser apenas do Correio da Manhã. Este tema tem de saltar para a imprensa dita de referência. Portugal não é um país de brandos costumes.») sobre a violência doméstica. Metade do país constitucional (estamos no século XIX, bem vistas as coisas, e tudo o que não passa no Chiado, na Havaneza, no Grémio, é como se não acontecesse), ou talvez mais, descobriu que não somos um país de brandos costumes. Ora, a questão é velha. Durante o regime do dr. Salazar não havia crimes na imprensa, a menos que os facínoras fossem mesmo facínoras; se não havia crimes, não havia páginas de crimes; se não havia páginas de crimes, não havia literatura policial. Os autores de policiais, portugueses, chamavam-se Ross Pynn, Frank Gold, Dick Haskins (Roussado Pinto, Fernando Campos, Andrade Albuquerque), por exemplo. O país constitucional (regeneradores, históricos, progressistas), por outro lado, abomina a violência. Os seus representantes nas cadeiras do pensamento, nas conferências de S. Vicente de Paula, do Casino ou do Grémio, atribuíam isso ao Correio da Manhã, esse albergue de suculentas cabidelas onde o sangue não coagulava de página para página, «que horror, é só sangue, que horror» — mesmo que fosse na casa ao lado. Quando se deu «o crime do Meia Culpa», algumas consciências desgrenharam o chinó mas só de passagem; era uma coisa de província, em Amarante, que horror, que horror, deve ser do vinho verde, lá onde há melros a saltitar de oliveira em oliveira, cotovias e cucos entre amendoeiras a florir, camponeses e comerciantes a jogar à bisca debaixo das pontes, com as famílias ao lado, a dar conta dos farnéis. Violência é na Espanha, que são sanguinários; crimes é na imprensa internacional — os nossos não têm categoria, só vêm no Correio da Manhã. Tiroteios em bairros problemáticos não são crimes, são explosões sociais; vizinhos esfaqueados, adolescentes baleados, maridos que matam mulheres no meio da rua a tiro de caçadeira ou à catanada, sogros que estouram a cabeça de ex-genros (foi anteontem, desculpem lá), ex-maridos que esventram ex-mulheres, miúdos do liceu que esquartejam miúdos de liceu, que horror, que horror, isso é do Correio da Manhã, a nossa imprensa fala de alta sociologia (essa mistura aprazível de socialismo com astrologia), de temas fracturantes, de beleza pura, de arquitectos que vão para o emprego e dividem o carro com uma médica e um psi, de bons alunos que sofrem de stress pré-escolar. E, no entanto, só no Verão, cerca de cinquenta homicídios varreram o país, com as mais altas auctoridades de sociologia em férias, tratando por epifenómenos toda essa bandalheira, reservando a violência doméstica para o capítulo dos crimes políticos, cometidos por facínoras da Legião Estrangeira que retalham esposas na alcova nupcial. O pai que mata o filho com uma caçadeira comprada a uns bandoleiros de Idanha-a-Nova, o marido que vai à feira de Boticas aprazar uma pistola para desfazer o cunhado que está a chegar de França, o marido abandonado que vai esperar a ex-mulher à travessa nas traseiras de casa e depois mete o cadáver no porta-bagagem e o rega com ácido num descampado. Isto não lhes interessa? A mim também não. Os sociólogos do constitucionalismo, para manterem a sua estabilidade emocional em regra, preferem que os crimes de violência doméstica sejam politizados e que não apareçam nas páginas de crime, conspurcados e a meio gás. Acontece que os crimes de violência doméstica são o resultado desta pureza de sangue; casamentos que não se discutem, filhos a quem se permite tudo, mulheres trucidadas por famílias funcionais e por ideias disfuncionais, álcool a rodos (ai, a Direcção-Geral de Saúde!), falta de dinheiro, desemprego, emprego a mais, telenovelas, sangue na estrada, miséria no lar, mau sexo e maus hábitos, machismo mariola, machismo filho da puta transmitido de pais para filhos e de mães para filhos. Escusam de vir com o assunto para a primeira página, como se nunca lá tivesse estado e tivessem sido pioneiros – esteve, mas noutros jornais, ai que horror, que horror, é o Correio da Manhã, que horror. Há namorados que dão cargas de porrada a namoradas, para as educar desde cedo e as meterem na ordem logo no princípio – e elas não se revoltam nem lhes enfiam um balázio nos joelhos, aparecem com olhos negros e o cabelo a tapar nódoas negras. Há mulheres de meia idade que apanham surras e continuam a pagar as contas em casa. Há mulheres jovens que aceitam um estaladão e não respondem com um taco de basebol na virilha. Que horror, que horror, é a violência doméstica, vamos legislar contra a violência doméstica, que bom, e fazer mais duas comissões, e uma marcha de solidariedade, que bom, e mais uma lei, que bom, vai ser tão bom. Cumpram a lei (exijam que se cumpra a lei e que não façam dela uma excepção, mais uma, com alíneas e dúvidas e contratempos), envenenem os maridos que vos batem, castrem os namorados que vos tratam mal, abandonem os lares, deitem-lhes azeite a ferver por cima, ponham-lhes laxantes na sopa, chamem a polícia em altos gritos, exijam que os tribunais sejam mais rápidos, criem uma colónia penal cheia de mosquitos, façam macumba para eles ficarem sem tesão, troquem-lhes os medicamentos da hipertensão, eduquem as vossas filhas e ensinem-lhes a usar a inteligência e o varapau em doses idênticas — mas, sobretudo, não me venham com o nhe-nhe-nhem, nhe-nhe-nhem, e tal, e a violência doméstica, e vamos legislar. Sou pela acção directa: lei e prisão e nomes publicados no adro da igreja, e divórcio compulsivo e obrigatório. E não me venham com sociólogas e sociólogos que não sabem distinguir entre sadomaso e humilhação. E leiam o Correio da Manhã; está lá o país. Podem não gostar dele, está bem, mas foda-se.

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Demonologia.

por FJV, em 07.02.11

No final desta peça, estão «os sete pecados mortais do PS», segundo Ana Benavente. É um assunto interno, evidentemente; mas enfim, nada que não se saiba cá fora.

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A volatilidade dos mercados.

por FJV, em 04.02.11

Tal como o Filipe, eu fico surpreendido com a quantidade de jornalistas e de militantes de causas internacionais (e não me refiro a funcionários da Internacional Socialista) que, de repente, descobre qualidades de facínora em Mubarak. Anwar el Sadat, eu sempre perceberia. Mas temo que o revisionismo chegue mais longe e que Nasser não esteja a salvo. Tudo é possível. Agora que no Irão já se saúda «a revolução islâmica» em curso, começo a compreender. Mas, caramba, há menos de um ano Mubarak era uma barreira contra o mar Vermelho. É a volatilidade dos mercados ideológicos.

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