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Declaração de voto. Presidenciais.

por FJV, em 21.01.11

É muito provável — inteiramente, aliás — que tenhamos ideias diferentes sobre muitas opções da nossa vida. Da minha e da dele, Cavaco Silva, que são muito diferentes. São diferentes em muitas coisas; sobretudo no sentido que eu acho que a vida tem, na minha desorganização geral, nos gostos literários, no meu quase desinteresse por questões de economia e até no seu desinteresse por futebol, por exemplo. Um presidente da República não se elege (ou se vota nele) porque é igual a nós, semelhante a mim, com os meus gostos, as minhas obsessões literárias. Escolhe-se um presidente para que ele garanta a liberdade das nossas opções, a estabilidade que permita que eu não tenha de pensar como ele para ser considerado cidadão de pleno direito. Acredito, além do mais, nos valores da seriedade, responsabilidade individual, estudo, lealdade às leis e à vontade dos eleitores, respeito pelas contas do Estado.

Discordo de muitas das ideias de Cavaco Silva sobre economia, intervenção e interpretação dos poderes presidenciais. Limito-me a achar que Cavaco Silva será muito melhor presidente do que qualquer um dos seus opositores. Que o seu tipo de presidência permitirá que os governos governem e que os cidadãos sejam cidadãos de pleno direito — e que actuará com respeito pelas leis. E que Portugal precisa dessa margem de tranquilidade para se repensar e reorganizar sem lugares-comuns nem apêndices burlescos, pequenas lutas protocolares pelos holofotes da glória. E que, portanto, precisa de alguém compreensivo na Presidência — não de quem tenha todas as respostas. Esse é o principal currículo que eu exijo a um presidente. Mas há mais.
O combate nestas eleições presidenciais é entre diferentes modos de entender a vida de um país. Não entre modos de entender a minha vida ou a vida de cada um. O objectivo da política não é o de garantir a felicidade — mas o de possibilitar que cada um possa procurá-la como entender. Não acho, por isso, que tudo pertença à esfera da política ou, sequer, ao inventário de propósitos sobre o que deve ser a vida dos outros — por mais largo e vasto que se imagine esse «arco de interesses» da própria política, construído à maneira de um catálogo de soluções para questões que, muitas delas, não podem ser resolvidas pelo Presidente da República. Para que isso seja possível, julgo que é necessário pensar na governabilidade do país e na sua estabilidade. Só isso pode garantir a nossa liberdade, que é um valor precioso e que deve estar a salvo de todos os ressentimentos e de todos os ressentidos. E de todos os malabarismos.

 

Este texto é muito semelhante ao que neste lugar publiquei há cinco anos. As razões são as mesmas. Daqui a cinco anos hão-de ser diferentes.

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