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Tédio.

por FJV, em 12.01.11

Manuel Alegre anunciou ao país, com discutível sinceridade, que a reeleição de Cavaco «pode abrir caminho não apenas para uma mudança de Governo ou da maioria, mas também para uma mudança da democracia»: Ou seja, «a democracia deixará de ser a mesma». Esta ameaça (tenham medo, tenham muito medo) foi repetida até à exaustão durante a última campanha presidencial, agitada sobretudo no campo soarista, com o resultado que se conhece. Algumas almas entediadas com a coisa chegaram a falar no «regresso ao fascismo» e Augusto Santos Silva, num acesso de astenia cerebral, mencionou que essa eleição configuraria «um golpe de estado constitucional», «uma tragédia». A cantilena repete-se, mas nunca se esperava que o intérprete desse guião medíocre e entediante fosse Manuel Alegre.

 

 

 

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Hammett.

por FJV, em 12.01.11

Cumpriram-se ontem 50 anos sobre a morte de Dashiell Hammett. Para quem leu O Falcão de Malta (adaptado ao cinema por John Huston, Relíquia Macabra, com Humphrey Bogart e Mary Astor), A Chave de Vidro ou Estranha Maldição, todos publicados na histórica coleção Vampiro, é evidente que Hammett está no pódio da «literatura policial». Sam Spade, o seu herói, é um personagem que não nos larga daí em diante; as suas descrições secas, melancólicas, revelam o coração de um grande escritor e de um temperamento solitário. Depois de Hammett, como depois de Chandler, o policial nunca mais foi inocente ou «divertido». Wim Wenders realizou um Hammett inspirado na sua vida (a partir de um romance de Joe Gores), belíssimo. Reler Dashiell Hammett é uma homenagem inspirada.

[Na coluna do Correio da Manhã]

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Chegaram, ficaram.

por FJV, em 12.01.11

Em Espanha há uma ministra imbecil que pretende, à semelhança do boneco de plástico que chefia o governo, “mudar o país”. Leire Pajín, a jovem ministra da Saúde, Política Social e Igualdade, acha que o Estado pode e deve meter-se em todos os domínios da vida civil – proibindo as pessoas da fumar, mas também punindo-as se elas ‘insultam’ (chamar ‘feio’ a outra pessoa pode valer uma multa de 500 mil euros), ou se ‘discriminam’ alguém – por exemplo, perguntar a uma rapariga ‘se tem namorado’ é punível; deve perguntar-se-lhe se tem ‘uma pessoa’. Para isso, vigiará escolas (para que as crianças não tenham brincadeiras ‘sexualmente discriminatórias’), imprensa, ruas e instituições, de látego na mão, mostrando às pessoas como se devem comportar. Os palermas estão no poder.

[Na coluna do Correio da Manhã]

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Resumo dos últimos tempos.

por FJV, em 12.01.11

Aqui, ali, respirando, vendo árvores, fazendo balanços;

resistindo, olhando para lá da janela, arrumando gavetas;

felizmente há médicos que ajudam com poesia.

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Resumo galego.

por FJV, em 12.01.11

 

Escrevo pela tua mágoa, sentado diante da chuva,

numa esplanada de Vigo, entre pombos que nunca

leram Cunqueiro, nem Ferrín, nem os antigos

vates cansados do passado, nem atravessaram

 

as neves de Ribadavia ou os areais de Villagarcía

a meio do Outono, quando os carvalhos mais escuros

emudecem entre os ribeiros. Imagino que chegas

a esta praça uns meses depois, entre os velhos

 

granitos das ruas e as arcadas do crepúsculo – é

a velha Galiza caída sobre o lado esquerdo do mar,

rouca, frequentando as bibliotecas e os caminhos

que nunca terminam, esperando as romarias,

 

dançando nos bosques, observando as ruínas.

Mesmo assim escrevo pela tua mágoa, escrevo

há muito por ela, pelos seus passos em ruas estranhas,

como uma consolação imperfeita, cardíaca, lunar.

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Pela mágoa.

por FJV, em 12.01.11

 

Há gente que passa enquanto falo de amor;

quase nunca falo, quase nunca passo a mão

pelo cabelo, quase nunca evito as horas amargas

mesmo se é contra a mágoa que escrevo.

 

Um rosto sobre outro rosto, coisas que

se sobrepõem e se contemplam numa língua

que não sabes decifrar. Antes de hoje escrevi

muito sobre essa mágoa sem falar de amor,

 

sem se saber que era da mágoa que falava,

ou dos amores de Outono, da chuva, um sopro

que nunca aceita a morte ou aquele vago

cristal que falta à vida para ser vida inteira,

 

perto do riso, escrita como o tempo que desce

das montanhas e respira fundo, e enfrenta

as estações que mudam a face da terra e pedem

companhia, ou só um retrato sobre os trevos.

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