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Que bom, que bom, é Chico, é Chico. O relato de nova vergonha.

por FJV, em 06.11.10

E um grande manguito. Um honorável, directo e profundo manguito — para Chico Buarque inclusive, que não merecia (sabe-se lá porquê, mas estou certo que o seja pelas suas canções até certo momento) estar associado a uma falsificação política e comercial que lembra o cenário de uma ditadura; os generais do Estado Novo brasileiro, de qualquer modo, nunca andaram a falsificar os resultados de prémios literários de dimensão nacional; limitaram-se a engolir. Mas esta gente é de outra estirpe.

O caso é o seguinte: em Outubro, a Câmara Brasileira do Livro anunciou no seu site os vencedores do Prémio Jabuti, uma espécie de distinções literárias conferidas pela indústria. Era como se segue:

Contos e Crónicas: José Rezende Jr., Eu Perguntei pro Velho se Ele Queria Morrer; Vário do Andaraí, A Máquina de Revelar Destinos não Cumpridos; Mario Chamie, Paulicéia Dilacerada. Romance: Edney Silvestre, Se Eu Fechar os Olhos; Chico Buarque, Leite Derramado; Luis Fernando Veríssimo, Os Espiões. Poesia: Marina Colasanti, Passageira em Trânsito; Reynaldo Jardim Silveira, Sangradas Escrituras; Armando Freitas Filho, Lar Biografia: Ricardo Alexandre, Nem Vem que Não Tem: Vida e Veneno de Wilson Simonal; Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão, Lira Neto; (ex-aequo) Frederic Armony, Euclides da Cunha: Uma Odisséia nos Trópicos; Oswaldo Mendes, Bendito, Maldito: uma Biografia de Plínio Marcos.

Ora, anteontem, o que aconteceu em São Paulo? A CBL atribuiu o prémio Jabuti de Ficção a Chico Buarque, que tinha ficado em segundo lugar na categoria «romance». Se tivesse ficado em primeiro na categoria contos e crónicas, ainda se admitia — mas não; Chico tinha ficado em segundo lugar numa das categorias de ficção (na categoria de não-ficção ganhou Maria Rita Kehl, a psicanalista que escrevia no Estadão, com O Tempo e o Cão). Mas há este pormenor: Buarque recebeu o prémio enquanto parte da plateia se levantava, em coro, gritando «Dilma! Dilma! Dilma!» Que bom, que bom, é Chico, é Chico. Esta gente é de outra estirpe.

 


 

Não é a primeira vez que este embaraço ocorre, como aliás escrevi na altura, em 2004. O romance Budapeste, de Chico Buarque, recebeu o Jabuti de Ficção em 2004 contra Bernardo Carvalho, com Mongólia (belo texto, vencedor na categoria Romance), contra Sérgio Sant'anna, O Vôo da Madrugada (outro excelente livro,vencedor na categoria Contos), Alexei Bueno, Poesia Reunida (da categoria Poesia), Caco Barcellos, Abusado (categoria Reportagem e Biografia). Apesar de tudo, o Prémio Ficção foi atribuído a Chico Buarque, que ficou em terceiro lugar (o que dá direito a uma menção honrosa) na categoria Romance, atrás de Bernardo Carvalho e de Luiz Antônio Assis Brasil (A Margem Imóvel do Rio, outro um belíssimo romance).

Nessa altura o silêncio no momento do anúncio do prémio foi ensurdecedor, como escrevia a reportagem da Folha de São Paulo: «O livro-reportagem Abusado, de Barcelos, e o romance Budapeste, de Chico, foram eleitos Livro do Ano-Não Ficção e Livro do Ano-Ficção, respectivamente. O anúncio de Barcelos como vencedor foi muito aplaudida. A vitória de Budapeste, ao contrário, foi recebida com silêncio. O livro de Chico não constava da lista de vencedores já conhecida até então, tendo recebido anteriormente menção honrosa como romance.» Não há nenhuma vergonha que não se repita. Só que este ano não houve silêncio ensurdecedor; já faz parte do esquema.

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