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Uma memória do fim de século.

por FJV, em 31.10.10

 

Acabo de ler a biografia de Francisco Sá Carneiro, de Miguel Pinheiro (Esfera dos Livros, 768 págs.). Na história dos partidos não-comunistas do pós-25 de Abril, Sá Carneiro foi o único dirigente capaz de criar um partido a partir do nada. Há duas leituras essenciais da sua figura — uma, largamente maioritária, privilegia o homem que quis acelerar o fim do regime revolucionário (com um projecto de revisão constitucional anti-socialista logo em 1978, a luta contra o eanismo e o papel do Conselho da Revolução, o confronto directo com a esquerda e com a imposição dos herdeiros da I República, de que Mário Soares era a figura principal); outra, absolutamente minoritária (e de que Miguel Real é um excelente intérprete), que o vê como um personagem trágico esmagado pelo provincianismo português, de esquerda e de direita.

O livro de Miguel Pinheiro acompanha a biografia política de Sá Carneiro dia a dia, semana a semana: o desenho desse personagem é cada vez mais nítido à medida que se aproxima da morte, cercado de conspirações (grande parte delas só existia na sua cabeça, o que não quer dizer que não fossem reais), de traidores, de submarinos, mas — sobretudo — de vencidos. Ele foi o primeiro político do mainstream a perceber as vantagens do radicalismo, a não contemporizar com as terceiras vias da época, a não ter pudor em fazer da política um jogo, a afrontar os lugares-comuns da via original para o socialismo (e a não sentir esse apelo romântico) e a nomear claramente os seus adversários. Num último golpe, tentou ainda uma aproximação com Mário Soares; Soares sempre esteve aberto a essa grande coligação que tomasse o poder, desde que garantisse o seu lugar à frente da História, mas Sá Carneiro percebera como ninguém que, mesmo nos meses de fogo e chumbo de 1975, primeiro, e 1976, depois, esse projecto seria a morte do PSD, um partido que nascera como herdeiro dos liberais do marcelismo, e que, na sua matriz, era europeu, conservador à maneira inglesa (o que era difícil num pais sem grande gosto pela liberdade e com um ódio radical contra «as elites»), anti-comunista — e cuja base eleitoral era essencialmente populista. Acontece que não podia ser de outra maneira. Foi durante o curto consulado de Sousa Franco à frente do PSD que nasceu a teoria das duas matrizes do partido: ele, Sousa Franco, era o representante do PSD «urbano», «socializante», de «esquerda»; Sá Carneiro tinha o apoio das «massas rurais» sobretudo do Norte e do interior, era «anti-socialista» e não compreendia as vantagens da contemporização. A definição era tão estreita que o próprio Sá Carneiro ficou surpreendido com os riscos que corria e com a natureza do seu «radicalismo» — que os dissidentes de Aveiro, comandados por Sá Borges e pelos herdeiros de Emídio Guerreiro, e os mentores das «Opções Inadiáveis», mais tarde, definiam como caudilhismo e prepotência. Entre esses críticos estavam Sá Borges e Emídio Guerreiro, é certo, mas também Artur Santos Silva ou Magalhães Mota, Mota Pinto ou Sérvulo Correia, e todos os que entendiam que era necessário ser maleável e contemporizador, mas não tinham entendido suficientemente que ou ficavam presos à estratégia de Mário Soares e Eanes para o novo regime (Soares criou Eanes como candidato fraco à presidência na esperança de o substituir mais tarde ou mais cedo — mas nunca teve ilusões sobre o seu moralismo militar e, no fundo, detestava a figura do general), ou afrontavam o PREC e os seus herdeiros. Quando Sá Carneiro tenta a última aproximação com Soares (ele seria primeiro-ministro e Soares o primeiro presidente civil — o que significaria a antecipação do fim do papel político dos militares), Soares não avaliou correctamente a situação (como não avaliaria mais tarde, na sua candidatura contra Freitas) e tomou os seus desejos por realidade, como de costume, confiando na ideia de que a sua genialidade lhe bastava. Enganou-se: daí a poucos meses, o PS ficaria reduzido a 27% e Sá Carneiro conquistaria a primeira maioria absoluta de direita com a AD. É dessa época, aliás, que datam alguns dos episódios mais edificantes do moralismo de esquerda, com críticas do próprio Soares à «relação extra-conjugal» de Sá Carneiro com Snu Abecassis, um assunto que o PS levaria inclusive para o parlamento e que Eanes explorou no seu confronto posterior com o primeiro-ministro que foi obrigado a nomear. Sá Carneiro alimentou sonhos demasiado altos — desde o de um país libertado do provincianismo até à ideia de ser presidente da República (os ataques baixos a Snu foram definitivos na decisão de abandonar o projecto presidencial). Viu, antes de outros (a geração do Semanário, por exemplo, que acabou por assumir uma parte da sua herança civilista e anti-socialista), o que seria esse país dirigido por militares, contemporizador, servil, pequenino. As suas características bipolares não poderiam ajudá-lo; as suas sucessivas depressões foram dolorosas; a história do seu casamento é a de «Um Adeus Português» ao contrário (ele teve a sorte que não teve O'Neill, mas também a coragem que O'Neill não poderia ter na época), e que Agustina Bessa-Luís retrata em Os Meninos de Ouro com a habitual e justa crueldade. A morte prematura faz dele um herói literário que Miguel Real analisa (em O Último Minuto na Vida de S.) e acaba para transferir para Snu Abecassis, transformando «o último grande amor português» num combate contra o país arcaico, mau, mesquinho, moralista, conspirador, falsamente republicano, oligárquico e herdeiro da Inquisição.

Temos poucas biografias entre nós; a de Miguel Pinheiro é um retrato em pano cru de um dos últimos cometas trágicos da nossa política; o que lhe falta em interpretação sobra-lhe em petite histoire deliciosa, em registo factual, em documentação reunida e em entrevistas com actores da época (só isso justifica a abundância de reconstituição de diálogos). O desenho que se vai formando é o de um homem contraditório que prepara, sem o saber, a sua própria biografia como um dos primeiros desiludidos com a revolução e com a fé.

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Tirando isso.

por FJV, em 31.10.10

«Portugal é uma república de financeiros e jornalistas desde 1992.»

José Medeiros Ferreira, no Córtex Frontal.

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Alguns modelos interessantes, mas não precisam de ir já a correr.

por FJV, em 29.10.10

 

 

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Os dados que interessam.

por FJV, em 29.10.10

Nas recentes sondagens não há apenas oscilações entre o PS e o PSD; o dado mais importante é este: «80% dos portugueses diz que governação é “má” ou “muito má”.» Ou seja, 41% diz que é muito má e 39 acha que é . 12% como «boa». 0% como «muito boa». 77% considera que  o Governo fez «mais coisas negativas que positivas».

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Era o que ia a dizer.

por FJV, em 29.10.10

Em momentos delicados não deixem falar Jorge Lacão. Mas olha que deixar falar o primeiro-ministro também não é mau.

 

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Acasos. Aloe Blacc.

por FJV, em 27.10.10

Aloe Blacc, Femme Fatale

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Território comanche.

por FJV, em 26.10.10

Arturo Pérez-Reverte chamou «perfecto mierda» ao ex-ministro dos estrangeiros espanhol, Miguel Ángel Moratinos: «Se es un mierda cuando uno demuestra públicamente que no sabe irse. De ministro o de lo que sea. Moratinos adornó su retirada con un lagrimeo inapropiado. A la política y a los ministerios se va llorado de casa. Luego Moratinos, gimoteando en público, se fue como un perfecto mierda.» O comentário inicial de Arturo, no seu twiter, foi «Vi llorar a Moratinos. Ni para irse tuvo huevos.» Logo uma gigantesca onda de indignação se levantou contra o escritor, lembrando-lhe o passado de incorrecções — malcriado, deselegante, facha, o costume em gente tão elegante e preciosista no uso do dicionário da Real Academía. Foi então que Reverte explicou, como está a abrir este post. Hoje, os grupos parlamentares deram nas orelhas a D. Arturo, mas já antes vários grupos mais atentos, e munidos de léxico de sociologia, lhe tinham chamado machista por ter criticado alguém que chorava depois de ter sido despedido por Zapatero, o homem de plasticina. Hoje, houve mesmo um parlamentar que abordou a «crueldade» de Arturo Pérez-Reverte, equecendo-se, de facto, da crueldade de ter sido despachado do governo; o autor de A Rainha do do Sul e de O Clube Dumas riu-se, como devia, no seu twiter: «Esto es mejor que mi caricatura en Muchachada Nui. Si lo llego a saber, lo insulto mucho antes.» Arturo Pérez-Reverte não tem medo de entrar em território comanche.

 

[Já agora, aqui está a mais recente crónica semanal de Pérez-Reverte.]

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Enfim, uma luz ao fundo do túnel.

por FJV, em 26.10.10

Isso seria muito inteligente. Se o orçamento — como dizem vozes insuspeitas e autorizadíssimas — é assim tão mau e não é possível acordo, então que seja esta a solução. Só se negoceia com quem quer mesmo negociar.

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Fé, 2. [Credo quia absurdum.]

por FJV, em 26.10.10

O problema é permanente. Os computadores e as casinhas já tinham sido anunciadas duas vezes e os números reduzidos pelo menos uma, que me lembre; os reparos são permanentes, também, porque afinal não são as casinhas todas, nem os computadores todos — os portugueses são tratados como telespectadores do «Alô Presidente». E, claro, afinal o défice seria de 8% sem o fundo da PT (que não está cá para o ano), sem os submarinos (que continuaremos a pagar, mesmo que só sejam dois em vez dos três encomendados inicialmente) e sem as receitas da venda de casinhas de computadores de plástico. Fé, é preciso fé. Credo quia absurdum, como dizia o bom Tertuliano, como se lhe tivessem prometido, no mesmo saco, progresso e parcerias público-privadas.

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Literatura de primeira grandeza.

por FJV, em 25.10.10

Vejo no Telegraph uma foto de Ian McEwan, de ténis, calças de azulinhas de linho, panamá branco na mão, numa praia (tem um ar de «vagamente Keith Richards») — ao crepúsculo. Acompanham-no um cavalheiro famoso, de sandálias, e uma senhora desconhecida, enrolada num vestido folgado, esvoaçando ao vento que sopra daquele mar ao fundo. O Índico, descubro a seguir. Coisa fantástica, penso. Só depois leio o texto: trata-se de um momento de pausa & relax, um intervalo nos trabalhos do Hay Literary Festival («a single, broad, invigorating conversation related, directly and indirectly, to the islands’ residents»), que  tem uma extensão nas Maldivas, agora que o arquipélago assinala o seu segundo ano de democracia. De repente dou comigo a pensar que iria, sim, iria assistir aos trabalhos.

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Vai no Batalha.

por FJV, em 25.10.10

Nada contra o cinema português (é uma maneira de dizer, uma vez que ninguém é «contra o cinema»). Soube-se hoje que a nova lei do cinema, em fase de consulta pública, agrada muito «ao sector». Não pode senão agradar: mercê de umas taxas a cobrar sobre as receitas das operadoras de telemóveis, dos provedores de internet, das televisões (2% à SIC e à TVI, 3% à RTP — repare-se que a RTP já é, entretanto, financiada pelo Estado), do cabo e, enfim, das «plataformas» & dos média «tecnológicos», as contas apontam para uma arrecadação de cerca de € 80 milhões. É dinheiro. Deste, 20% passa para a Cinemateca Portuguesa, e o restante para o ICA, que providenciará para que seja entregue à produção «de filmes portugueses» e a outras minudências. Não é trágico nem é novidade. O Estado, legislador neste caso, entende que as empresas de média e de telecomunicações têm uma dívida moral para com o cinema português, o que justifica que se lance esta taxa, cobrada directamente, supõe-se — um pouco como acontece com a taxa de televisão & radiodifusão, cobrada através da EDP (o que tem levado algumas pessoas a mudar o seu fornecedor de energia, preferindo a Iberdrola), mas depois de analisados os relatórios e contas das empresas, o que vai um pouco contra o sistema do utilizador-pagador, mas enfim, cada critério com a sua argumentação moral. Como disse, não é trágico — as empresas de telemóveis já fizeram saber que, sendo assim, aumentarão os preços no consumidor (que não é utilizador-pagador). É um financiamento público, e os representantes «do sector» já lembraram que desta vez é preciso, mesmo, cobrar (o Estado revela uma ineficácia geral e contumaz quando lança taxas semelhantes, aviso-vos — veja-se a cobrança da percentagem das receitas de publicidade das televisões, para afectar «ao audiovisual português»). Não é trágico. Mas, como se trata de dinheiros públicos, convinha que o ICA e a Cinemateca tornassem evidentemente públicos os seus contratos e apoios, ou seja, gostaríamos de saber como é aplicado esse dinheiro público. O ICA faria o favor de publicar os contratos de apoio à produção ou montagem de filmes, e — repito, como se trata de dinheiros públicos — devíamos poder verificar a execução desses projectos: qual a política de remuneração, os custos de cada filme (nada que fira o pudor), etc. Em Inglaterra, por exemplo, todos os apoios que ultrapassem as £25,000 têm, correspondente, um caderno de encargos que é publicado na internet; pela net podemos também acompanhar a taxa de execução e as contas finais. Nada do outro mundo. De contrário, vai no Batalha, como se dizia no Porto.

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Musiquinha.

por FJV, em 25.10.10

De repente começam a surgir números, um a um, num documento e noutro, coisas que são distribuídas «para que vejas». E lembro-me de Mário Soares visitar a Casa da Música com aquele discurso generoso e republicano, «o que é preciso é que as coisas se façam, o dinheiro há-de aparecer». Lembram-se, certamente — é um alto momento de cultura democrática. Se o orçamento anual da Casa da Música pode chegar aos 15, 16, enfim, 17 milhões suportados pelo Estado, pois o dinheiro «lá há-de aparecer» (há quem garanta que são 20 milhões). Aí está o exemplo de uma «instituição independente». Veja-se o caso do seu custo, com uma «derrapagem» de cerca de 250% no prazo de construção e de 193% nos custos. O dinheiro «lá aparece», providenciado pelos bancos, que o emprestam ao Estado, que o atribui à «instituição» e «à obra», e que não aparece no Orçamento de Estado. É que não aparece mesmo. É uma musiquinha.

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Fé.

por FJV, em 25.10.10

Há um problema com esta enumeração. Não há negócio do Estado que não tenha corrido razoavelmente mal, das fantásticas PPP que todos pagaremos nos anos mais próximos (e de que já apresentei factura pró-forma aos meus filhos) às intromissões naquilo que não deveria estar a cargo do Estado e, afinal, está. Esse problema chama-se . Há quem tenha fé num país que vende computadores de plástico, atum e ferries defeituosos à Venezuela. E há quem, simplesmente, não acredite. Fazendo bem as contas, revendo as fotografias onde um José Sócrates cansado se esforça por sorrir quando Chávez promete que daqui a 20 anos ali estará (ele presidente, o outro como primeiro-ministro), procurando reconstituir o puzzle das notícias venezuelanas (repare-se que estes negócios de ontem já foram anunciados duas vezes desde há dois anos), as trapalhadas da cumplicidade com maus parceiros (Chávez, Kadhafi, etc.) — não se acredita numa linha, numa promessa, numa palavra.

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Êxodo.

por FJV, em 23.10.10

Os novos caminhos da emigração portuguesa: «Depuis cinq ans, d’après l’Observatoire des Migrations, 350 000 personnes ont quitté ce pays frappé par une crise violente, montré du doigt comme un maillon faible de l’Union européenne, au bord d’un krach à la grecque. Un exode comparable à celui des années 60.»

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Jane Austen.

por FJV, em 23.10.10

Não foram tidos em conta os manuscritos de Orgulho e Preconceito, Sensibilidade e Bom Senso ou Emma, mas é muito aborrecido que queiram transformar Jane Austen em escritora de vanguarda ou em pessoa que não sabia lidar com a gramática. Posso habituar-me, mas preferia não o fazer.

 

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Sempre a aprender, até no na hora do recreio.

por FJV, em 23.10.10

«Que se elaboren e impulsen protocolos de juego no sexistas para que se implanten y desarrollen en los espacios de juego reglado y no reglado [recreos en los patios de los colegios] en los colegios públicos y concertados de Educación Primaria». Sempre a produzir dislates, sempre a aprender.

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Novas ideias, sempre a aprender.

por FJV, em 23.10.10

«Não se qualificam pessoas para ficar bem nas estatísticas, como dizem alguns críticos?
Que mal é que existe em o país ter uma boa imagem? Essas pessoas preferiam que apenas 20 por cento dos adultos activos possuíssem o ensino secundário? Essa era a imagem do país.»

 

Entrevista a Luís Capucha, no Público — sobre as «Novas Oportunidades». Sempre a aprender, sempre a aprender.

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A Torto e a Direito.

por FJV, em 23.10.10

Regressou o A Torto e a Direito, na TVI24, às 22h00 de sábado. Lá estarão hoje João Pereira Coutinho, Francisco Teixeira da Mota, Constança Cunha e Sá e eu próprio, além de um convidado (na semana passada, Miguel Portas; esta semana, António Bagão Félix). Como de costume, pode ver-se em directo na internet, no site da TVI24. Temas desta semana: O orçamento e o PSD; as presidenciais; o PCP e o fim dos anúncios pessoais de sexo; Angela Merkel e o «fim do multiculturalismo», entre outros. O blog foi também reactivado.

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Engenharia.

por FJV, em 23.10.10

Todos nós entendemos de engenharia financeira. Trata-se, em resumo, de obter financiamento e de garantir receitas com alguma antecipação. Uma vasta geração de optimistas tomou conta do poder com a ideia de que a engenharia financeira era desculpável e alienável, esquecendo coisas como dívida pública, dívida externa e dívida das famílias. A maior parte dos teóricos da «engenharia financeira do Estado», como da «engenharia social», pode ser bem intencionada. As boas intenções são sempre lamentáveis porque acumulam desculpas sobre desculpas, e tratam os cépticos como «economicistas» ou «conservadores» diante do grande magistério de ousadia que representam as suas políticas de alto endividamento. Basicamente, toda a gente percebe que se gastou mais do que se devia. A única engenharia possível é a que garanta condições de financiamento da economia, coisa que não se consegue enquanto não se alterarem os comportamentos do Estado e das pessoas. Chama-se a isso temperança. Uma coisa muito conservadora. Muito chata.

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Memória.

por FJV, em 23.10.10

Por falar em Jorge Sampaio (post abaixo), recordemos como — na sua imensa sagacidade — teve razão antes do tempo: «Há mais vida para além do défice.» Tinha razão. Era um sábio.

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Denunciantes.

por FJV, em 22.10.10

Portual é um país livre sem liberais, ou seja, sem pessoas que protestem contra as ingerências absurda do Estado e das corporações na liberdade dos cidadãos. Já tivemos um presidente da República, Jorge Sampaio, que defendeu a inversão do ónus da prova. Já tivemos (temos) um governo que acha que pode decretar o uso obrigatório de chips electrónicos numa matrícula de automóvel. Toda a gente acha natural que um cidadão sob suspeita da administração fiscal é um foragido que deve ser denunciado. País de denunciantes e de denunciantes anónimos, desejoso de sacrificar a sua própria liberdade.

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Hoje nas livrarias.

por FJV, em 22.10.10

 

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O cantinho do hooligan. Lisandro López, imortal.

por FJV, em 21.10.10

Depois da vitória de ontem, nova ronda hoje em Istambul: mesmo com duas expulsões espanholas, três golos esclarecidos.

[Ou seja, vitórias do SC Braga, do FC Porto e do Sporting. Boa jornada europeia.]

 

P.S. - Sobre o Sporting: não percebo os resultados na liga portuguesa. Medinho?

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Presidenciais.

por FJV, em 21.10.10

Ninguém explica a Manuel Alegre que quase tudo o que diz não tem sentido?

 

Adenda: Nuno Gouveia chama a atenção para a corrida ao disparate.

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Directo.

por FJV, em 21.10.10

De facto. Só existem três tipos de votação: aprovar, abster-se ou votar contra. Por vários motivos, abster-se; este é o vosso orçamento, tomai e comei todos. Mas negociar – nem uma linha. Nada de más companhias.

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Una storia, una luce, una promessa.

por FJV, em 20.10.10

A capa chegou agora e junta-se à das outras traduções italianas. Gosto bastante, gosto – mesmo – muito. Obrigado, Lorenzo; obrigado, Giorgio; obrigado Serena; obrigado Paola.

(E obrigado a Mirella Appiotti, que no La Stampa me chamou «il Montalban portoghese» – acho um elogio tremendo.)

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Vida rural.

por FJV, em 20.10.10

«[…] pergunta a televisão a gerontes surdos se lhes agradaria a vida fora daqui; aparecem uns jipes de mirones citadinos a fotografar isto aquilo e acham "muito típicos" os casebres arruinados, a fonte velha, as pedras do lagar, aquele castanheiro.

A aldeia? Ó senhores, deixem-se de histórias, não nos incomodem nem venham acordar a sonolência a que nos obrigamos para nos podermos aguentar uns aos outros. Dando-nos os bons-dias, conversando à esquina sobre o tempo, a amêndoa e a carestia, enquanto esperamos o camião do padeiro. Sorrindo e batendo nas costas do filho da puta que à noite empurra o contentor do lixo para a nossa parede. Sorrindo ao filho da puta que com ácido queimou as raízes da oliveira que lhe  sombreava o quintal. Sorrindo ao filho da puta que desvia a água da rega. Sorrindo. Sorrindo. Sorrindo e falando manso à grandessíssima que manda o filho mijar à nossa porta, porque a incomoda o ladrar do cão.
Sorrindo e sabendo uns dos outros que não há casa sem pistola.»
J. Rentes de Carvalho, no Tempo Contado.

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A reler.

por FJV, em 20.10.10

«Estes são os melhores anos de Portugal. Não temos ilusões e está tudo por fazer. Nada esperamos da Europa, das obras públicas ou da canalha que nos prometeu o céu.»
Luís M. Jorge, no Vida Breve


«Somos todos iguais – eis o que se descobre nos autocarros – um igualitarismo rodoviário, co-financiado pelo Estado, não vale a pena simular enjoos perante o que se ouve, a pornografia da alma é uma grande conquista das nossas sociedades, todos nus e de mãos dadas num reality-show ininterrupto.»
Bruno Vieira do Amaral, no A Douta Ignorância

 

«Os departamentos criativos encheram-se de quadros médios e de filisteus pomposos (o que há na pompa para estar sempre associada à pobreza?). De um dia para o outro substituimos as campanhas por uma bosta inerme e esverdeada a que chamamos acções, ou conteúdos. De maneira que não consigo afastar esta sensação de falhanço. Hoje em dia trabalharia nas obras, se trabalhar nas obras rendesse, vamos lá, dois mil limpos por mês. Ou, melhor ainda, ia para a marinha mercante. Imagino-me com uma cana de pesca na popa de um petroleiro, a cofiar a barba e a morder o cachimbo, a caminho de Singapura ou da Malásia.

Nas profissões manuais, a percentagem de imbecis é muito inferior à média dos serviços. O bulshit é ontológico, libertador — dizem-se coisas estapafúrdias sobre a vida e as mulheres, mas leva-se o trabalho a sério. Nos serviços, não. Qualquer labrego imprestável nos dá secas sobre a performance, o ROI e a excelência

Luís M. Jorge, no Vida Breve

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DGLB.

por FJV, em 20.10.10

Este governo multiplicou o número de institutos públicos, transformando grande parte deles em albergues para ‘boys’ de estimação. Aproveitando o Orçamento de 2011, tratou agora de acabar com alguns, misturando tudo para que não se entendesse a aldrabice. A Direção-Geral do Livro e das Bibliotecas, herdeira do Instituto Português do Livro dos tempos de Teresa Gouveia (foi então o motor da rede de leitura pública e da única política do livro consistente que até agora tivemos), é uma delas – integrada na Biblioteca Nacional. Primeiro, os políticos retiraram poder, dinheiro e funções à DGLB; depois, tornaram-na inútil – o livro não tem a ver com a política do espetáculo ou com o parlapié dos burocratas, de efeito mais fácil, que é o que lhes interessa verdadeiramente.

[Na coluna do Correio da Manhã]

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Estado Social.

por FJV, em 20.10.10

Um dos grandes prodígios da política é o uso que se faz de certas palavras ou expressões. Por exemplo, ‘Estado Social’. O governo gosta muito dela e o primeiro-ministro usa-a sempre que pode, porque é uma bela síntese e serve para vários fins. Ora, se há coisa que põe em causa o ‘Estado Social’, é o novo orçamento – é estranho que o primeiro-ministro tenha ontem defendido exatamente o contrário: que é o garante do ‘Estado Social’. Aí está outro grande prodígio. Por exemplo: o primeiro-ministro diz que esta ou aquela medida “são de esquerda” porque ele decide que é assim, não porque haja alguma correspondência com o real. A realidade, aliás, é um limite aos desejos de José Sócrates, e um empecilho diante dos seus projetos. Por isso usa as palavras como lhe apetece.

[Na coluna do Correio da Manhã]

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