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Sondagens.

por FJV, em 09.08.10

Salvo erro, não emiti uma opinião sobre o Freeport – acreditei que era assunto da justiça; hoje estou convencido de que a justiça andou mal, que o PGR meteu os pés pelas mãos e que a trapalhada não se resolve. Mas há, no post do Tomás, um pequeno, ligeiro equívoco: que uma larga maioria de portugueses achem bem «que José Sócrates não tenha sido acusado» e que «apenas 27.2 %» vejam «com bons olhos uma acusação ao primeiro-ministro» – não aquece nem arrefece o que tanto eu como o Tomás sabemos que está verdadeiramente em causa. Já quando às outras percentagens («81,5% é de opinião que devia ter encerrado há mais tempo, enquanto 86,5% acha que devia haver um prazo limite para se concluir uma acusação»), ó meu amigo, mas quem no seu perfeito juízo não queria que fosse exatamente assim? O problema é que os vereditos, em países civilizados, não vão a sondagens. E acontece que a opinião pública não é propriamente o fiel da balança quando se trata da lei.

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O cantinho do hooligan. Tinha-me esquecido de perguntar.

por FJV, em 09.08.10

Gostaram?

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Vá lá.

por FJV, em 09.08.10

Vamos lá. Andaram um ano a arranjar coragem mas valeu a pena. Está aí uma onda anti-Bolaño (tão ridícula como a onda absolutamente-Bolaño, concordo). Distingo desta «onda» o texto de Sérgio Lavos sobre O Terceiro Reich, a que mais tarde voltarei. A questão é outra, e não merece grande espalhafato.

Conheço-os há muito tempo. Nunca leram O Nome da Rosa ou O Pêndulo de Foucault porque eram romances impingidos pela máquina infernal do marketing das editoras. Que a máquina infernal os leve a comprar iPhones e iPods, arroz basmati ou tofu banhado de espermicida, isso compreende-se. Mas um livro, foda-se. Umberto Eco era bom, era, enquanto semiólogo, vá lá, e estudioso da estética medieval – mas um italiano do Piemonte que de repente escreve um par de romances acompanhado de lançamento internacional, isso só se deve à máquina infernal. Dão-lhes um livro de 1062 páginas? Isso não, um tijolo que pode estragar-lhes a digestão (devem ler grandes merdas, devem), puríssima e elevada, cheia de águas fosfatadas. Ficam cansados às primeiras páginas, coitadinhos (é o cérebro – o fosgluten não lhes chega em tempos de ressentimento), não estão para isso, e ainda por cima a máquina infernal dá-lhes forte no discernimento. Mas o problema é Bolaño.

O chileno aborrece-os. Em primeiro lugar riu-se das fantasias latino-americanas (lá vai Macondo, lá vão os Tarahumaras), não fez a revolução e desconfia de Gabriel García Márquez, tanto como de Octavio Paz, a maravilhosa esfinge. Em segundo lugar, gostava mais de rock do que de charangas e orquestas de marimbas. Depois, não foi convocado para nenhuma das legiões em combate, ou porque andava mal vestido, ou porque trabalhava para a família e pensava no futuro dos filhos. Pelo meio, gostava mais de Borges (a quem imitava, sem pudor e sem despudor) do que de falangistas de ambas as mãos. Há gente que fica incomodada porque Bolaño, em 2666, «estava sempre a descrever sonhos»; ora, uma pessoa, naturalmente sóbria, culta, equilibrada como um paxá, detesta sonhos. Naturalmente, o que é preciso é acção, acção demolidora, luz do dia, espinafres, função clorofila às horas marcadas e pouco incómodo. Assim, sim.

Um ano de ressentimento custa a curar. Ainda a Quetzal não tinha lançado 2666 e algumas das nossas melhores almas já manifestavam a sua preocupação. Muitos deles não se tinham dado conta de que já havia duas edições de Roberto Bolaño no mercado (Nocturno Chileno, publicado pela Gótica; e Os Detectives Selvagens, da Teorema), mas o pormenor passava. Confundir a operação de entusiasmo (cujos custos de marketing, o infernal marketing, vale a pena dizer, foram dez, vinte, trinta vezes menores do que qualquer romance de hipermercado ou uma estreia de uma locutora de televisão) em redor de 2666 com uma poderosa acção de marketing infernal – só mesmo por distracção e ignorância. Mas aceito o pecado. Fiquei entusiasmado com o livro; correria, de novo, os riscos que – como editor – corri. Maiores do que alguma vez os críticos anti-Bolaño correriam por que livro fosse (alguns deles não correm, nem andam, nem estão parados). Corri esses riscos porque fiquei perdido pelo livro. Isso já não se entende.

Que uma pessoa leia um livro e o deteste, eu defendo que se deve levantar da mesa, do sofá, da cama – e condená-lo à poeira. Que um pobre chileno morto seja queimado em efígie só porque um bando de malfeitores ficou entusiasmado com um livro (ou dois, ou três, ou os que hão-de vir), e isso é motivo de desconfiança, só dá uma ideia do ressentimento banal.

 

Mas o mais penoso é ver como almas simpáticas de repente – à falta do chileno morto – procuram um inimigo a abater, um culpado dos seus livros. Porque tem de haver um culpado, uma mão invisível. Esta mania do Bolaño tem de ter um culpado. A ninguém ocorre, a nenhuma cabecinha, que o chileno – enquanto estava vivo e bebia – apenas escreveu esses livros (não gostar deles, já o disse, é uma coisa; fazer de virgem literária é outra) e não conspirou para minar a sagrada estabilidade das suas digestões. Bolaño é odioso porque os jornais falaram dos seus livros e porque muitos leitores o leram e se surpreenderam? Não é grande novidade nas nossas províncias. Mas deixem o homem em paz. Guardem o Index para mais tarde.

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