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Pãozinho.

por FJV, em 22.04.10

Uma coisa é certa: depois de ler esta notícia fiquei sem perceber se devo continuar a comer pão integral de centeio por causa da ocratoxina A, ou se só deixo de comer broa de milho (a saborosa, a única, a fundamental, a luminosa e imprescindível, de Avintes), ou se o consumo de cerveja está vedado, ou se é apenas uma curiosidade protocientífica, uma vez que (como consumimos, em média, entre 15 a 60 nanogramas de ocratoxina A) os 120 nanogramas (por quilo do consumidor) semanais são uma meta muito distante. Não sei se estão a ver o problema, mas parece-me que tudo se reduz a tentar meter-nos medo do pão. Depois (como já temos medo de uma infindável lista de venenos) vem o medo de nos pormos à janela, o de comer vegetais, o de olhar para o expositor do peixe (com os ecologistas a pedirem-nos, por todas as almas, para não comermos peixe...), o de sairmos à rua. Dá gosto.

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Realidade e ficção.

por FJV, em 22.04.10

Uma notícia sem importância aparente, que me lembra uma hipótese formulada pelo sr. inspector Jaime Ramos, numa investigação de 2001.

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Ah, a falência.

por FJV, em 22.04.10

Só países educados no «escrupuloso cumprimento» dos seus deveres podem, como a Islândia, declarar falência. Não porque a Islândia tenha cumprido os seus deveres, mas porque compreendeu que tinha que declarar falência. Contra isto, não há PEC que valha. Poucos acreditam no «escrupuloso cumprimento» do PEC, das «metas limpas», dos planos & orçamentos, porque isso providenciará a imagem de uma espécie de país crescido, organizado, capaz daquilo que se promete em momentos de euforia — enquanto um coro de boas e más almas suspira pela falência, ah!, a falência, como Eça suspirava pela Batalha do Caia que pusesse termo à «choldra» como hoje se suspira romanticamente contra a «mediocridade». Há uma diferença entre a Grécia e a Islândia e não é apenas de «natureza económica» — é, além do modo de viver (uma ninharia, supõem os leitores de Excel), pelo que permitirá que a Islândia faça e pelo que impedirá a Grécia de fazer. Há uma certa lógica na demanda da falência, ah!, a falência: retirará ao Estado a responsabilidade pelas coisas difíceis que aí vêm; apontará «o FMI», «o BCE», os outros, como mandantes de uma disciplina que ninguém quer impor; desmantelará o Estado como ele é, com as suas doenças congénitas, famílias de protegidos, varizes, excessos alimentares, vaidades, frotas automóveis, luxos e desperdícios. Poder e oposição vão resmonear diante do atrevimento inevitável. Melhor que fiquemos em pré-falência, portanto: à beira do precipício, verdadeiramente. Encarando os custos.

Mas a memória deve usar-se. A maior parte dos que falam da falência, ah!, a falência, com aquele secretíssimo prazer de enterrar este Estado gastador, cheio de parceiros e de frivolidades, não se lembram da falência real que outros viveram longe das folhas de Excel: salários baixos, pobreza real, falta real (do arroz ao tabaco, da roupa ao pão). Esses não são os salários nem a pobreza real dos decisores da falência, ah!, a falência. A falência real, essa, será sentida pelos que nunca viram os seus salários comparados com os islandeses ou irlandeses (ah, não mencionemos os outros). Por isso, a leviandade é compreensível mas não deixa de ser leviandade.

É certo que o país merece, não haja dúvida — tem os números engatados, as estatísticas são pouco confiáveis, os ministros enganam-se oito vezes seguidas a prever o défice, consome como se não houvesse amanhã, o Estado rouba o pequeno aforro (o escândalo dos certificados de aforro é um exemplo que não atinge «os decisores» nem «os investidores» do BPN ou do BPP) e continua a escolher o que escolhe. Escolhe isto.

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Lenine.

por FJV, em 22.04.10

A biografia de Lenine, da autoria de Robert Service (publicada pela Europa-América) é um documento impressionante: ela ensina como se constrói um ditador. Mais do que isso: um homem obsessivo, servido por uma corte de legionários fiéis e temerosos, um homem de estômago delicado e frugal, disciplinado e inflexível, sempre preocupado com a sua saúde e com a existência de traidores nas suas fileiras – de qualquer modo, o criador dos ‘gulags’ e do estado policial que moldou à medida dos seus medos e obsessões. Vladimir Ilyitch Ulianov nasceu há 140 anos, cumpridos hoje; também graças a ele, o mundo foi como foi – e o debate sobre o comunismo, a esquerda clássica, o império soviético, não poderá fazer-se sem uma análise da sua fundação, ou seja, da existência de Lenine.

[Na coluna do Correio da Manhã.]

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Tempo atrás de tempo.

por FJV, em 22.04.10

Como vivíamos há alguns anos, sem internet, Facebook, Twiter, Hi5, telemóvel? Curiosamente, marcávamos encontros e encontrávamo-nos a horas. Falávamos com as pessoas. De que viviam os noticiários? De notícias de ontem e de anteontem. De repente, a informação tomou conta de nós tal como a nuvem de cinza vulcânica, que alastrou mais rapidamente na internet do que nos jornais. A Europa excedeu-se em dramatismo, e todos ‘viram’ a face negra da catástrofe a encobrir o continente. Figuras vetustas e ignorantes falaram do aquecimento global. De repente a nuvem afasta-se de Portugal, onde mal tocou (ingrata!), como as andorinhas e os insetos. Retomamos a normalidade. Sobra o vulcão, na Islândia. E uns ‘fait-divers’ sobre como foi cómico não haver aviões. E é isto, afinal.

[Na coluna do Correio da Manhã.]

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