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O congresso do PSD.

por FJV, em 10.04.10

 

 

O congresso do PSD, 1.

Há três anos que não faço uma viagem no eixo Porto-Lisboa pela A1. Utilizo sempre a A8 e a A17. Fico sempre muito contente com a ideia de terem construído a A17 só para mim. Em Alhandra, há um carro com congressistas que passa em sentido contrário. Ao contrário do pessoal que vai ao estádio, não levam cachecóis nem bandeiras, mas estão compenetrados.

 

O congresso do PSD, 2.

O prof. Marcelo diz na TSF que está agradavelmente surpreendido com Pedro Passos Coelho. Há uma ligeira diferença em relação ao tempo em que era preciso fazer tudo para impedir Passos de chegar à presidência do partido.

 

O congresso do PSD, 3.

Quero parar numa área de serviço mas a sexta-feira à tarde é um impedimento. Ainda não se pôs o sol e estou na serra de Candeeiros. O Filipe N.V. não atende o telefone.

 

O congresso do PSD, 4.

O Eduardo Pitta vai no banco de trás e está pálido. Estamos a 185km/h 120 km/h. Na rádio, dividimo-nos entre o Contraditório e o Governo Sombra. Apesar da Ana Sá Lopes ficamos no Governo Sombra.

 

O congresso do PSD, 5.

No congresso de Mafra havia uns banquinhos de jardim, na alameda que levava ao pavilhão. Vi duas vezes Castanheira Barros lá sentado. Há um treino no campo do Carcavelos, onde o meu filho é guarda-redes. O Filipe N.V. não atende o telefone.

 

O congresso do PSD, 6.

O congresso está a começar e ainda não encontrei o Afonso A.N.. Tenho um recado para ele por causa do Giovanni Guareschi.

 

O congresso do PSD, 7.

O congresso está a começar e ainda não encontrei o Rodrigo M.D.. Tenho um recado para ele mas não posso dizer qual (por causa das agências de comunicação).

 

O congresso do PSD, 8.

O congresso está a começar e ainda não encontrei o João Villalobos. Espero que esteja a escrever o romance. Dizem-me que tenciona ocupar a varanda do 31 da Armada e hastear a bandeira do segundo pelotão dos lanceiros de Braga durante a Patuleia.

 

O congresso do PSD, 9.

O congresso está a começar e ainda não vi aquelas máquinas com água fria. O Filipe N.V. não atende o telefone.

 

O congresso do PSD, 10.

O congresso está a começar e já me disseram que o Villalobos tinha engordado um pouco; espero que seja por causa do romance. Vamos a caminho de Coimbra para a apresentação de Aula de Poesia, o livro de Eduardo Pitta. Apresentação de Osvaldo Silvestre. É uma das capas mais bonitas da Quetzal. O lançamento é na Bertrand Coimbra Estádio Dolce Vita.

 

O congresso do PSD, 11.

O Vasco C. já chegou das Ardenas. O meu filho não está a surfar em Carcavelos.

 

O congresso do PSD, 12.

O Filipe N.V. não atende o telefone pela décima quarta vez e estou só a vinte quilómetros de Coimbra Sul. O Osvaldo também não. Rangel diz que quer Passos Coelho a primeiro-ministro; dizem-me que Maria João Marques teve uma síncope.

 

O congresso do PSD, 13.

Saída de Coimbra Sul, Taveiro, uma terra chamada Bencanta. O largo da Portagem. Tudo muito rápido, mas não vamos a 185km/h 120 km/h. Rua da Sofia, Rua Sá da Bandeira, o TAGV, a rapaziada a beber cerveja, o costume. Como estará o congresso do PSD? O João Villalobos toma notas para o romance.

 

O congresso do PSD, 14.

O Zé Carioca está fechado. Em Carcavelos andam de um lado para o outro à procura de restaurantes. Como o Zé Carioca está fechado, vamos ao Vox, que abriu há uma semana, o que nos deixa apreensivos, mas o Pedro Passos Coelho só é presidente do PSD há duas semanas e o Miguel Relvas secretário-geral há seis anos ou sete. Pedimos água (eu), cerveja (o Osvaldo e a Margarida) e gin (o Eduardo). Em dez minutos traçamos um diagnóstico terrível do país: estamos com fome. Estamos no lounge bar do Vox (os lounge são a coisa que mais melhorou nos índices de crescimento da hotelaria lusitana nos últimos cinco anos) ao ar livre. Temperatura excelente, tépida, o ideal para falar dos últimos catorze escândalos literários, da três piores recensões dos últimos seis meses e das cervejas japonesas, que continuam razoáveis. O Osvaldo Silvestre não atende telefonemas, é um sinal de extremo cavalheirismo.

 

O congresso do PSD, 15.

O congresso do PSD no Blackberry é mobile. Enquanto a temperatura de Coimbra continua boa, somos chamados para a mesa por causa de uns tira-gostos. Amuse bouche, small bites, hors’dœuvre, appetizers. Cosmopolitismo durante o congresso do PSD. Há um telefonema absurdo a dizer que a Assunção Esteves está a mudar ligeiramente o sotaque de Valpaços. É preciso tomar nota disto para os anais de fonologia do Museu Abade de Baçal.

 

O congresso do PSD, 16.

O vinho que o Eduardo escolhe é Post Scriptum. Todos achamos graça. É o congresso do PSD e ele escolhe um vinho PS. Ora essa. Todos compreendemos a graça. O João Villalobos telefona a perguntar se pode parar porque já escreveu trezentas e doze páginas. Ó João, estamos a jantar, pá; o Castanheira Barros já apareceu?; o discurso do Pedro Passos Coelho é este que vem na Lusa?; foram ao chinês dos Lombos ou sempre estão a comer a paella do Saisa?; se vires o Afonso Azevedo Neves, diz-lhe que o assunto do Giovanni Guareschi está a ser tratado; se o Paulo Pinto Mascarenhas estiver por aí, diz-lhe que o vídeo do Arsenal-Porto está desactualizado, lembra-me muito o do Celta-Benfica, mas com menos golos.

 

O congresso do PSD, 17.

O congresso já vai a meio e ainda não vi aquelas máquinas com água fria.

 

O congresso do PSD, 18.

A SIC Notícias desta vez não entrevista Marcelo Rebelo de Sousa à mesma hora do A Torto e a Direito, o que é bom sinal para nós. Mas o Osvaldo lembra-me que o A Torto e a Direito agora é às terças à noite. Ligo ao João Pereira Coutinho a perguntar-lhe se está no congresso do PSD. Responde-me que está a ler Jane Austen. Será que o João Villalobos guardou o romance na pen antes de ocupar o 31 da Armada?

 

O congresso do PSD, 19.

Come-se desenfreadamente a esta mesa. Miguinhas de couve com feijão, cabrito grelhado, filetes de polvo, batatas salteadas, tarte de coco, pudim, vinho PS. Toda a gente sabe que estou de dieta e que emagreci seis quilos. Bebo água e resisto às azeitonas. Em contrapartida, o Villalobos sofre mais porque tem de ouvir o discurso de Marco António Costa. Quando acabo de publicar isto, telefonam-me a dizer que o Marco António Costa não fala. Afinal, o Vasco não regressou das Ardenas mas fala no congresso por volta das onze da noite.

 

O congresso do PSD, 20.

O Filipe N.V. não atende o telefone e nós saímos a toda a velocidade para o Dolce Vita Estádio Coimbra, à procura da Livraria Bertrand. Pelo caminho, faço um resumo mental do que aconteceu até agora no congresso do PSD. Passos Coelho lembrou o apoio a dar à recandidatura de Cavaco; o Público online diz que dois terços da sala aplaudiu com entusiasmo; o outro terço é de rangelistas?

 

O congresso do PSD, 21.

Chegámos com um ligeiro atraso à Bertrand Dolce Vita Coimbra Estádio. O Osvaldo fala de T.S. Eliot, o Eduardo está sentado ao centro da mesa. A Margarida tira fotografias para o blogue. [Há muito tempo que ninguém é tão claro sobre poesia, crítica e Eliot, mesmo a passagem em que Osvaldo insiste, quando Eliot fala sobre vinhos.] Eugénio de Andrade acaba de ser executado. Na primeira apresentação do livro, na Fnac Chiado, a execução de Eugénio tinha sido menos perfeita.

 

O congresso do PSD, 22.

Hora e meia depois termina a discussão no Dolce Vita Bertrand Coimbra Estádio. Falou-se, felizmente, de Rui Knopfli. Ficámos meia-hora a deambular entre as prateleiras da Bertrand, dizendo mal de todos os livros que não são publicados ou pela Angelus Novus ou pela Quetzal. Mentirinha.

 

O congresso do PSD, 23.

Regressamos ao carro, saindo do Estádio Dolce Vita Coimbra Bertrand e atravessamos a «ponte nova» que demorou quase um milénio para ser construída e dirigimo-nos a Condeixa. A EN1/IC2 parece um estaleiro. Pela rádio, ouço um resumo do congresso. A TSF quase anuncia que João Villalobos já terminou o romance. Estou à espera dele há dois anos e paguei uma perdiz no Galito. Mas estou de dieta. Quando se está de dieta só se pensa em comida. Churrasquinho. Massa fresca. Cabrito. Um quilo e meio de sashimi. Duas doses de pataniscas de bacalhau com arroz de feijão encarnado. Está bem, está. O Pedro ML avisa por telefone que vai cumprir a promessa de continuar a dele. Foi um momento de loucura, mesmo antes do terceiro golo do Liverpool, mas ele que se aguente. Afinal, a lei da rolha não salta durante este congresso e o Nacional empatou com o Paços de Ferreira. Tenho uma mensagem de Barcelona no telefone. Está em catalão. Fala do Real e de Messi e de Ronaldo e Barça més que mai; vencerem. On és Madrid? Deixei a caixa das cigarrilhas no Dolce Coimbra Bertrand Estádio Vita.

 

O congresso do PSD, 24.

O congresso já vai a meio e ainda não vi aquelas máquinas com água fria.

 

O congresso do PSD, 25.

O congresso já vai noite avançada, entramos na A1 de novo, e o carro segue a 185km/h 120 km/h. O Eduardo continua pálido mas já está no banco da frente. Para distrair, quando paramos numa área de serviço, conto-lhe o argumento completo de Love Actually não sei porquê, mas acho que por causa de Colin Firth. Quero dizer-lhe o nome de Bill Nighy mas não consigo. Quando entramos em Lisboa ainda falamos de W.H. Auden por outro motivo qualquer.

 

O congresso do PSD, 26.

Lisboa não colabora, ao contrário da Dolce Bertrand Vita Estádio Coimbra. Vou depositar os companheiros de viagem em casas que ficam em bairros opostos de Lisboa e ouço pela rádio mais um resumo do congresso do PSD. O Villalobos tem o telefone desligado e o Rodrigo informa que estão numa esplanada. Depois de ir da EUA à Paiva Couceiro e de descer da Penha de França, há uma fila interminável de carros a dirigir-se para o centro da cidade. São duas da manhã e a esta hora os congressistas estão nos seus quartos, a fazer as últimas leituras do dia. São duas e tal, quase três, e Santana Lopes ainda não falou. Pedro, pá.

 

O congresso do PSD, 27.

Não vou para casa pela Marginal, nem pensar. Os bares de Carcavelos ainda estão cheios. Discute-se Keynes, alguém invoca Andrew Sullivan, citam-se máximas de Sun Tzu, recordam-se passagens de Richelieu e há alguém que atravessa a estrada, diante do restaurante mexicano, com um exemplar de Pratical Homicide Investigation. Tactics, procedures and forensic techniques. Julgava que só eu tinha o livro, além da biblioteca da PJ, onde copiei passagens cómicas de Grafoscopia y Perícia Caligráfica Forense. Há uma grande concentração de BMW e de Audi junto do bar Carruagem. Sigo pela A5.

 

O congresso do PSD, 28.

Durante dois anos e meio vivi numa casa ao lado do Bar da Tina. Digo isto porque pode ser que algum congressista esteja a angariar votos para as listas.

 

O congresso do PSD, 29.

Quando acordo, já tarde, tenho duas mensagens a perguntar se li o Público. Manuela Ferreira Leite aparecerá no Congresso? O próximo romance de Mónica Marques, a publicar em Julho, fala ou não de Carcavelos?

 

O congresso do PSD, 30.

O congresso já vai mesmo a meio e ainda não vi aquelas máquinas com água fria. O Messi dançará tango? O António Nogueira Leite vai ou não tomar café com o Villalobos? (Afonso, o Guareschi está resolvido, não precisas de te preocupar.) O Rodrigo já conseguiu que o tipo do Volvo cinzento desbloqueasse a entrada para a tenda VIP? Vai dar Barça ou Madrid?

 

O congresso do PSD, 31.

Telefono ao Villalobos. Está a almoçar. Só pode mandar o romance depois das três da tarde. Há-de ser apresentado no Estádio Dolce Vita Bertrand Coimbra.

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