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O fim do carnaval lusitano.

por FJV, em 14.02.10

 

O Carnaval português sempre me afligiu. Lembro-me dele quando ainda só era Entrudo e não dispúnhamos daquelas raparigas da Mealhada a dançar na rua, debaixo de chuva, abrigadas pelos seus simpáticos biquinis. Essa é a primeira imagem que me assalta: o frio, o desconsolo meteorológico, a desadequação climática. Isso e os seus desfiles, em carros alegóricos montados em cima de tratores. E dos fatos de má qualidade, de brilho barato, cintilante nos domingos de Fevereiro, escarlates. Tinha pena das raparigas. Também me penalizava pelos rapazes, da cidade ou da província, muito machões durante o ano, mas que no Carnaval se mascaravam de meretrizes ou de tias velhas. Mas, insisto, o pior era o frio de Fevereiro, os chuviscos a meio da tarde, o granizo nas ruas de Ovar, de Cantanhede ou Olhão. Um resto de misericórdia vinha do fundo da consciência pedir proteção para os desfiles.
Aos desfiles, propriamente ditos, vi-os sempre pela televisão e bastou-me: umas raparigas sem o sentido das proporções dançavam muito mal o samba, agitavam bandeirinhas, sorriam, enregeladas, com peças de tule cobrindo uns corpos muito brancos que ainda não tinham feito a dieta habitual antes da época balnear. O corpo das portuguesas, neste domínio, é um campo de sacrifícios: durante o ano alimenta-se bem e corajosamente; entre Abril e Maio começa a penar e a penitenciar-se, preparando-se para a exposição solar do Verão. É um mundo de desgraças. Só o Carnaval, com as suas peças de tule com penduricalhos de brilhantes falsos em cima, permite entrever as carnes esbranquiçadas que hão-de estar mais passadas no S. João. As figuras, dos «carros alegóricos», são o bombo da festa tradicional – políticos da televisão, caricaturas sofríveis, mal pintadas, ditos de gosto duvidoso, misturando a tradição popular da província com a piada do Parque Mayer. Tirando o dr. Alberto João Jardim, saltitando na Avenida Arriaga, no Funchal, os desfiles são pobres. Pobres e cheios de frio.
Depois, há umas atrizes de telenovela portuguesa e os seus companheiros de ofício, que vão também aperaltados no alto dos carros (que lembram, a milhas, os «trios elétricos» de Salvador, eufóricos e encalorados): também aí é uma desilusão. Sob os tules, vêm mais panos para esconder a «beleza tradicional portuguesa». As atrizes de telenovela brasileira chegaram entretanto para animar um pouco a paisagem: sorriem muito, recebem o cheque, levantam os braços, cumprem a sua função.
Fico sempre espantado com as notícias das televisões, que falam dos «foliões» que aguardam a passagem dos desfiles: e as imagens dão conta de umas famílias apinhadas nos passeios, com os miúdos encavalitados vendo passar o cortejo de horrores. Isto, claro, sem falar da música permanente de «mamãe eu quero, eu quero mamar» que todas as discotecas do Algarve passam aos berros para que comboios de «foliões», organizados com a espontaneidade de uma missa em latim, se meneiem e transpirem adequadamente. Não sei. Não sei. Mesmo para Portugal, é muito horror junto.

[Publicado há seis anos, na coluna de então no JN.]

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Desculpem lá, mas isto sim, são coisas realmente importantes.

por FJV, em 14.02.10

Nigella Lawson.

Quero lá saber do Ferran Adrià, esse embuste.

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Tauromaquia.

por FJV, em 14.02.10

O ataque mais frontal ao governo é o de Henrique Granadeiro; qualquer análise textual que explorasse a declaração do chairman da PT até às últimas consequências deitaria por terra a tese do «não é nada, é tudo invenção».

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Deutsche Zeitung.

por FJV, em 14.02.10

Paulo: nur diejenigen die deutsche Zeitungen lesen ist eine Person ganz zufrieden.

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Liberdade e etc.

por FJV, em 14.02.10

Espinosa: a legitimidade do conflito em democracia.

 

A questão não é a falta de liberdade de expressão; nessa matéria, Portugal não pode voltar atrás, independentemente de alguns saltos nos índices internacionais de liberdade de imprensa (nos quais estamos atualmente na 33.ª posição, o que significa uma descida da 19.ª, que ocupávamos em 2008, ou da 10.ª, onde estávamos em 2007). A questão é a tentação de a limitar sob pretextos comuns ou absurdos. Isto tanto é válido para a falta de jeito de Gomes da Silva no governo de Santana (e da sua central de informação), como para o discurso chavista de José Sócrates no congresso do PS de há um ano.

 

Conheci vários políticos que encaravam a imprensa com largueza e bonomia (até reconhecendo que a bonomia era uma forma de seduzi-la). Confesso, até, que isto era mais comum à esquerda do que à direita. Vi várias vezes João Soares, por exemplo, encarar jornalistas desafetos ou bastante críticos — com piadas e diálogos frontais. Marcelo Rebelo de Sousa, à direita, era outro dos exemplos. Isto explica-se, facilmente, pelo facto de muitos políticos terem vindo do jornalismo ou por terem passado, de alguma forma, pelas redações dos jornais. Mas não me recordo de um confronto tão desajustado entre os políticos e a imprensa como nos tempos de Santana e de Sócrates. Para os que correm a mencionar o período de Cavaco, relembro que não há queixas sobre pressões de Cavaco Silva sobre a imprensa; O Independente fazia o seu trabalho, Belém fazia o seu (que mereceu uma interessante tese de Estrela Serrano que muita gente devia ler), e S. Bento cumpria as suas obrigações. Cada um sabia qual era o seu território.

Uma nova geração de políticos já não entendia que governar era apenas governar, cumprir o seu papel institucional, fazer escolhas que também podiam ser criticadas, exercer o seu poder no quadro dos vários poderes — era muito mais. Era ser ungido. Essa geração entende que governar é mais do que isso: interpretam uma missão. São «modernos» num país atrasado; «cosmopolitas» num país que vai aos saldos da Zara; visitaram as cortes europeias e ficaram impressionados. Não querem saber de pormenores. O país tem de andar para a frente e o pequeno «mundo» que as suas funções políticas lhes permitiu conhecer entre aeroportos, salões de hotel e reuniões com gente que tem sempre o nome nos jornais, era o retrato que gostariam de trazer para a Pátria. Não, não são apenas governantes. São mais do que isso — são reformadores de costumes, que querem mudar por decreto; são modernizadores da economia, que apreciam no contacto com os grandes empresários a quem facilitam negócios. O resto é um empecilho.

Por isso, qualquer crítica a um simples decreto-lei constitui parte de um ataque mais geral à sua missão, às grandes ideias (que talvez não tenham, mas que alguém serve de bandeja e em resumo), ao papel de modernizador da sociedade, ao lugar que hão-de ocupar na História. Isto tem consequências mentais trágicas. Porque um ataque, um insulto, uma injustiça, um rumor, uma catilinária ocasional, uma crítica, um reparo — não são apenas ao seu governo. Porque as suas ideias (as tais), a sua missão, o seu cosmopolitismo, a sua fúria patriótica estão também relacionadas com a sua roupa, o design da casa, o penteado, o tom de voz (pedagógico, superior, explicativo), os restaurantes que se frequentam. E o que era um ataque à sua política passa, pelo protagonismo que desempenham e que os há-de fixar numa página da História, a ser um ataque pessoal, uma amostra de maledicência, uma prova de má-fé. E, acima de tudo, ou mais profundamente, a prova de que não compreendem o indiscutível talento, uma clarividência histórica, uma generosidade a toda a prova. A imprensa está cheia dessa gente que não manifesta nenhuma compreensão; os blogues (que até o sr. Procurador-geral diz que são uma vergonha) estão cheios de invejosos que não reconhecem a sua altíssima presciência. O que isto significa? Sinceramente, falta de mundo. Mário Soares resistia a todas as críticas (mesmo que se diga que nunca as esquece); porque lhe sobrava mundo; tinha uma vida própria — e biblioteca, e apetites, e vícios amáveis, e amigos — que ultrapassava a vida pública. Cavaco compensava a falta de mundo com a disciplina pessoal e familiar. Mas os políticos para quem toda a vida pessoal foi ocupada em transformar a vida própria em vida pública não têm largueza de sensibilidade, nem escape, nem compensações. O seu rosto é o verdadeiro espelho da alma; não aprenderam a dissimular mais do que lhes ensinam os técnicos de comunicação e a intuição que vem dos combates dentro do aparelho. Qualquer obstáculo — ou crítica, injustiça, reparo — é uma tragédia. Eles, os outros, os pobres de espírito e maledicentes que não compreendem, servem-se da liberdade para a maledicência e o ataque sem fronteiras.

Esses políticos não sabem, simplesmente, que o lugar na História não é decidido agora. Não aprenderam, também, que o poder tem um preço — e que esse preço não é apenas pessoal (porque se sacrifica muito desse espaço pessoal, privado, inviolável); é também público. Exige grandeza para suportar críticas e injustiças. Até injustiças. O poder tem os seus meios institucionais de comunicar, defender, explicar; a imprensa é, justamente, o outro lado. Não se pode estar nos dois lados ao mesmo tempo. E isto é tão válido para um governante como para um jornalista. O poder oferece um mundo de possibilidades, a começar pela direção editorial do Diário da República; se essas não chegam, aí já é um problema mais grave. Há terapias para isso.

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Reformas estruturais.

por FJV, em 14.02.10

Não sei hei-de concordar ou discordar com Joana Vasconcelos, que diz que o busto da República está desatualizado. Ela acha que devia ser o busto de «uma mulher mais jovem, de outra época, uma mulher contemporânea». Não sei. O busto não me parece mal; é igual ao de quase todas as repúblicas, uma marianne com mármores de Vila Viçosa — já a bandeira e o hino, enfim.

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