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No P2 de hoje, Richard Zimler com um excelente texto sobre «a questão Saramago». Como sempre, aliás.

Um fragmento do Índico, ia a dizer do pequeno paraíso.
Ou de como graças a um erro simpático a vaidade ainda é o que é. Obrigado, Fnac. Mas Bolaño?

Chegou o terceiro, por Farías, mas isso já sabem, depois de um golaço da Académica, e antes do golo de Sougou que Bruno Alves tentou defender com o calcanhar.
O resultado ficou; mas o jogo, só ao estalo. Mas enfim.

Só a mim. Num jogo deste nível, um golo de Mariano com Farías na linha de golo.
Depois, o de Farías, a passe de Mariano.
Eu falei de três golos; vamos ver como fica a minha pontuação no Expresso.

Estou a meio (um pouco mais) do novo Dan Brown. A esta hora, Robert Langdon já passou pela provação das salas do Capitólio, em Washington DC. Há uma mão decepada e tatuada.Um Mal'akh tatuado que vai ser o génio do mal que subiu a pulso na escala da Maçonaria, embora muito primário. Há uma chefe da CIA chamada Inoue Sato que tem mistério mas idade a mais para Langdon, o que significa que ainda não há nenhuma mulher bonita, e Katherine Solomon, embrulhada em noética, não me parece. Tem toda a artilharia de esoterismo acerca dos pais fundadores da América e sobre a construção do Capitólio. Quanto à maçonaria, lá iremos. Mais notícias em breve.

Aos 36'32'', quando Hulk deixou a bola escapar para fora pela quinta vez, levantei-me e assobiei, juntando-me ao coro que já havia no Dragão. Até aos 41'10'', o FC Porto tinha «rematado» duas vezes à baliza, ambas por Rodríguez – e a única assistência de jeito tinha sido de Sapunaru. O jogador que vi correr com mais velocidade, além de Fucile, quando se lesionou, foi Helton, antes de tentar pontapear a bola para Falcao, lá à frente. Nessa altura, como vi Guarín e Farías a aquecer, levantei-me e saí. Tenho uma vaga esperança de que Mariano saia para que Farías tente ser ponta-de-lança, mas nunca se sabe; Jesualdo gosta de arquitectura, mas esquece-se de que é preciso contar com a arquitectura dos outros. E para ser arquitectura, este futebol não tem régua nem esquadro. Outra das razões por que me levantei e saí é que não suportava ouvir o meu companheiro do lado (o meu filho, na circunstância) a perguntar quanto é que «nos tinha custado» o Prediger e por que é que eles cuspiam tanto para o chão, se não jogavam coisa que se visse. Isso é que eu também gostava de saber.Também me disseram que o Meireles estava a jogar; não dei fé.
Pode ser que até ao fim ainda haja 3 golos, mas enfim.

«Nunca dê um charuto a um desconhecido, este também é o meu lema. Há alguns anos eu era muito amigo de um lorde inglês, que certa noite veio jantar a minha casa. Depois do café e, talvez do conhaque, abri uma caixa de Montecristos que me fora oferecida por um amigo mexicano, um produtor de cinema, proprietário de terras no Yucatan. Era um ricaço das Caraíbas que sabia de charutos e, o que era mais importante, conhecia a minha paixão por bons charutos, sentimento tão veemente como a impaciência de Fortunato pelo amontilado. Embora nunca tenha declarado que um charuto, mesmo que se trate da minha vitola, é melhor do que uma mulher, como Kipling se casou com uma norte-americana porque não podia ter relações mais íntimas com o seu amigo americano, irmão dela. Parece que nunca conseguiu manter relações tão íntimas com o seu amigo americano, irmão dela. Mas essa é outra história.»
Fumo Sagrado é mais do que um livro - são vários: é uma história do tabaco que começa com a sua descoberta, em 1492, por um marinheiro da tripulação de Cristóvão Colombo; é uma celebração do tabaco e do acto de fumar, essa prática bizarra; e uma rapsódia em que intervêm o cigarro e cachimbo. Mas é, sobretudo, uma crónica erudita da relação entre o charuto e cinema. Nesta espécie de breviário do fumo, em que também se evocam os grandes fumadores da História (como Winston Curchill ou Fidel Castro), do Cinema (como Groucho Marx ou Orson Welles) e da literatura (como Conan Doyle ou Italo Calvino), Cabrera Infante, ele próprio um consumidor apaixonado de «puros», é o guia e o narrador das extraordinárias histórias ligadas a um prazer que faz «sempre recordar um tempo que nunca existiu».
Não está em causa a notícia nem o seu teor. Mas um título destes, caramba, merece ser lido: «As sardinhas que chegam aos pratos dos portugueses saem dos mares sem deixar um rasto de destruição». Isto é o título.
Uma das notícias de ontem foi a dúvida da população de Aveiro: parece haver uma proposta para a demolição do Estádio Municipal, construído para o Euro 2004, porque manter aquele monstro é um encargo que a Câmara não pode suportar ou que os munícipes de Aveiro têm de pagar. Tal como o de Aveiro, também o do Algarve e o de Coimbra têm explorações negativas. Trata-se de uma das formas do célebre “investimento público em eventos”. Se não há futebol, haverá concertos; se não houver concertos, arranjam-se concentrações de grupos religiosos; e se não houver nada disso, avança-se para a demolição. Um país de eventos e de investimento público é um país que corre para a frente. Com toda a gente a assistir ao “evento”, naturalmente. Ora, de onde vem o dinheiro para pagar o bilhete?
[Na coluna do Correio da Manhã]
Temos uma má relação com a polémica. José Saramago disse sobre a Bíblia e as igrejas uma série de coisas previsíveis e houve quem lhe respondesse e ripostasse – nada de mais natural e saudável. É só literatura. Mas houve quem avariasse e tivesse perdido a cabeça de repente: Mário David, eurodeputado e vice-presidente do Parlamento Europeu pediu a Saramago que “fosse consequente” e abdicasse da cidadania portuguesa porque as suas opiniões ofendem Mário David. O dislate não se compreende. Assim, de cada vez que as opiniões de alguém “ofendessem os portugueses”, lá teríamos de lhe pedir para devolver o passaporte. Não. Saramago tem todo o direito de dizer o que disse, mesmo que sejam banalidades. E nós de discutir forte com ele. É isso que nos permite viver uns com os outros, pensando coisas diferentes.
[Na coluna do Correio da Manhã]

Sobre a Bíblia há mais do que José Saramago diz (como bom ortodoxo, inspirou-se na ortodoxia adversária). Em primeiro lugar, não se trata de um programa ideológico nem de um guia para a vida prática. Não se limita a enumerar leis de há milhares de anos nem a mostrar os castigos aplicados aos humanos. Não reproduz a história de um Deus material e conveniente. Não é um manifesto para a mudança do mundo. É, antes, o repositório de narrativas que transitam de um povo errante para uma civilização que ocupou o seu lugar no mapa. Não se pode olhar a Bíblia como gostaríamos que fosse – mas como uma hipótese sobre o nosso medo do passado e dos seus mitos. Os fundamentalistas olham-na como tudo; os seus adversários olham-no como nada. Está aí: é papel, é história, narrativa.
[Na coluna do Correio da Manhã]
Vá lá, tenham inveja: aqui está a capa do novo livro do Luís Naves, Territórios de Caça. O lançamento é no dia 9, segunda-feira, na Bertrand do Chiado, às 18h30 — e terá música e bastantes amigos que não hão-de faltar.

Eu falo de São Miguel e lembro-me de muitas coisas (do Carlos Ferreira, meu compadre, do mar na Caloura e em Água d'Alto, da Ponta da Madrugada e de Sta. Iria, do farol da Ponta do Citrão, de certas estradas, do Albano, do José Carlos, do Nuno C.S., da cerveja Especial Mello Abreu, de muitos amigos) e, evidentemente, do Onésimo, que acaba de publicar o livro que estou a ler, De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias (Gradiva). O pior é que, quando falo de Onésimo me lembro de muitas outras coisas — de Rhode Island, de Westport, das caminhadas em busca de livros e de bibliotecas, de certos almoços, de muitos livros.

Quarta e quinta-feira estarei em Ponta Delgada, São Miguel, Açores. Por isso lembrei-me de um dos mais belos poemas de John Updike:
Azores
Great green ships
themselves, they ride
at anchor forever;
beneath the tide
huge roots of lava
hold them fast
in mid-Atlantic
to the past.
The tourist, thrilling
from the deck,
hail shrilly pretty
the hillsides flecked
with cottages
(confetti) and
sweet lozenges
of chocolate (land).
They marvel at
the dainty fields
and terraces
hand-tilled to yield
the modest fruits
of vines and trees
imported by
the Portuguese:
a rural landscape
set adrift
from centuries ago;
the rift
enlarges.
The ship proceeds.
Again the constant
music feeds
an emptiness astern,
Azores gone.
The void behind, the void
ahead are one.
Foi publicado na Harper's, em Janeiro de 1964.
«Esgaramantear uma laustríbia» (apud Alexandre O'Neill) é do melhor que a Língua Portuguesa produziu.
Esperem pela volta. Já ouviram piadas da Hebe Camargo sobre Portugal?

O João é o novo Prémio Saramago deste ano, atribuído ao seu excelente romance Três Vidas (Quid Novi). Há prémios literários que me deixam contente, muito feliz — porque, além de festejar um autor e uma obra, são também o reconhecimento de que um novo autor (este é o seu terceiro romance) não precisa de estar em fim de carreira para merecer atenção. Os três livros de João Tordo, O Livro dos Homens sem Luz, Hotel Memória, e As Três Vidas são novidades na ficção portuguesa, obra de talento e de trabalho duro, sem medo do pobre cânone cultural. Passam-se no mundo sem se passarem em Portugal, alargam as nossas fronteiras sem se deixarem poluir pelo cosmopolitismo de bandeira, tão provinciano como o patrotismo literário. Um grande abraço para o João. Parabéns, gin tónico e isso tudo.
Harry Potter e Charles Darwin vão para a fogueira. E Bíblias, também.
Sócrates descobre as virtudes do diálogo, Deus Pinheiro confirma os reparos de campanha, Francisco Assis contra a arrogância e Manuela Ferreira Leite António Preto enfim. À distância, longe da pátria, vejo que o meu país parece funcionar.

Jantei com Maitê Proença em Lisboa, possivelmente na mesma altura em que a atriz gravou o vídeo que agora está na internet. Nele, Maitê (sempre bem tratada pelos portugueses, que inclusivamente lhe compram os livros) dá por adquirido que os portugueses são inábeis, atrasadinhos, enfim – o costume. Durante esse jantar, Maitê mostrou-se encantada com Portugal, e creio que era mais do que simpatia. Mas no Brasil é outra coisa. Faz parte do gene brasileiro esse apetite saudável por Portugal, a velha metrópole de padeiros, açougueiros e gente desajustada. As jovens nações, entusiastas e adolescentes, acham gracinha a tudo. Comportam-se como crianças quando descobrem a careca dos avós. É natural e compreensível. Depois crescem. Ou pedem que lhes apreciemos as pantomineirices.
[Na coluna do Correio da Manhã]

Eu sempre quis votar num ornitólogo ou num observador de meteorologia. Há um observador de meteorologia nesta lista eleitoral. Veja bem a lista, veja bem, atentamente.
(Via ABC do PPM)
«Proíbam. E proíbam os cães em casa e os gatos e os periquitos nas gaiolas e ofereçam recompensa a quem denunciar que o vizinho tem formigas numa caixa de fósforos. E patrulhem as ruas. Procurem indícios de tabaco, de palavrões sexistas, de galinhas a pôr ovos até que o cu lhes doa, de matança do porco. E não esqueçam: quem deu ao homem o direito de montar o cavalo?»
Filipe Nunes Vicente, no Mar Salgado.

A cidade de Baltimore, no Maryland, decidiu recriar o funeral de Edgar Allan Poe, um dos filhos da terra. Esta homenagem póstuma tem a ver com o funeral de há 160 anos, quando Poe foi enterrado quase em segredo, com a cidade a ignorá-lo. Conheci uma das bibliotecas de Poe, a Athenaum, em Providence, Rhode Island: umas salas belíssimas e tranquilas onde o escritor se escondia durante a tarde e onde lia e escrevia a muitos quilómetros de Baltimore e a dois passos de uma das mulheres da sua vida. Rodeada de árvores frondosas, das baías belíssimas que vão até Cape Cod e do céu negro que cobre aquele litoral, talvez esse cenário fosse melhor do que Baltimore. Poe sobreviveu à sua vida; é natural que sobreviva ao seu segundo funeral, mesmo que Baltimore esteja arrependida.
[Na coluna do Correio da Manhã]
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Ontem, domingo de eleições, almocei com um amigo italiano. Expliquei-lhe, sucintamente, que Portugal era um país brando e solarengo, mas cujos humores oscilavam bastante. Temos uma tradição de homicídios políticos pela província. Neles, tudo se mistura: caçadeiras a monte, ódio político, disparate latente e questões sentimentais. O caso de Ermelo, Vila Real (900 eleitores), vem daí. Em Portugal não seria possível uma disputa italiana como a de Giovanni Guareschi, entre Don Camillo e Peppone. Falta-nos humor para o essencial e coragem para olhar as coisas de longe. Camillo e Peppone, o padre e o comunista, sabiam que eram parte do conjunto – e ajudavam-se para nenhum deles perder a face. A miséria da política é como em Ermelo: pede a exclusão. Daí ao tiroteio é um passo.
[Na coluna do Correio da Manhã]
Depois de redescobrir as canções de Enrico Macias (ficam de fora «Qu'elles sont jolies les filles de mon pays», «Non je n'ai pas oublié», a sua versão de «Habibi Ya Aini» com órgão Farfisa, ena!, ou «La femme de mon ami»), juntam-se no palco um judeu argelino pied-noir (de expressão argelina, cigana, francesa e árabe, ou seja, a soma de um sefardita do Levante) e uma egipto-italiana (de expressão italiana, francesa e árabe). Ambos foram detestados por serem essa mistura e por outras razões ignóbeis. Eu gosto deles por isso, também.
P.S. - Há aqui outra aparição da dupla Dalida/Macias.

Longe de mim querer ser mais patriota do que o meu vizinho; ou do que a primeira página de um jornal. Ai de nós, coitada da pátria, farta de suspiros caseiros e de honras letais, de adjectivos tonitruantes, de urros faceiros, de bertoldinhos de penico e bandeira, de moliceiros e faluas, de bigodes e evocações, de lendas & narrativas. Abençoada pátria que tais coisas tem, porque assim não necessita de nós a cada hora. Mas uma coisa surpreende o hooligan, mesmo quando ele fica contente com os rapazes que lá vão jogando: a primeira página do Record, tal é o seu espumífero arrebatamento larilas, a sua gritadeira gafeirenta, o seu pegadiço flato a piscar o olho à benfiquite mais pernóstica. Quem fica lesada é a pátria, com este pacto de rinchadores zelosos, não vá escapar a alguém que o Benfica esteve lá, e que o rectângulo ou tem por patrono o cheiro do Benfica, ou não tem nehum. Tamanha glória empanturra de felicidade seis milhões. Pois seja, cumpramos o destino. É por estas e por outras.