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A minha dose de insultos e de mentiras sobre Os Belenenses, os seus adeptos e a sua história.

por FJV, em 05.08.09

O Fernando Martins avisa, no Cachimbo de Magritte, que escrevi «a minha dose de insultos e de mentiras sobre os Belenenses, os seus adeptos e a sua história». É uma maneira de ver as coisas. De facto, periodicamente, sempre que passa uma semana ou duas, tenho de escrever «a minha dose de insultos e de mentiras sobre os Belenenses, os seus adeptos e a sua história».Toda a gente sabia menos o Fernando Martins.

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Velhinhos do Restelo.

por FJV, em 05.08.09

O «caso João Bonifácio» é exemplar porque mostra como a imprensa pode perder força quando tenta (uso agora as palavras de Joaquim Vieira, provedor do leitor do Público) «ser federadora» e abdica de ter opinião e de ser quem é. Algumas notas:

 

1. João Bonifácio é uma das pessoas que melhor escreve no Público. Escreve bem. Dá gosto ler. Às vezes compro o Público por causa das pessoas que lá escrevem bem. Nem sempre o faço por causa das opções editoriais. Faço-o porque gosto de ler quem escreve bem e no Público há gente que o faz. Da mesma forma, compro jornais cuja «linha editorial» não me comove só para poder ler alguns dos seus cronistas – tirando o ABC que tem os melhores críticos de livros, os melhores polemistas, os melhores autores de necrologias e a melhor crítica tauromáquica (eu não aprecio corridas e acho que os cronistas do ABC mereciam, pelo menos, juntar o prémio Tusquets ao Planeta porque escrevem melhor do que o Millás).

2. JB escreveu uma crítica a um concerto que teve lugar no Restelo, o estádio do Belenenses desde 1956. O Belenenses tem um história e tal, e do seu estádio vê-se o Tejo; recentemente, o Belenenses permaneceu na I Liga por vantagens de secretaria. JB não gostava da banda de rock ou lá o que é que tocava no Restelo, lugar onde costuma ir ver futebol porque tem uma costela belenense (embora devesse ser apenas do Beira Mar, mas isso não interessa), mas escreveu sobre o espectáculo e disse o essencial sobre ele: os rapazes foram muito profissionais, tocaram bem, e tal. Mas as bancadas estavam vazias. Acontece muitas vezes no Restelo.

3. Escreveu o elementar: que só a velha guarda do Belenenses está nas bancadas durante os jogos. É verdade. São os velhinhos. Eu, quando vou ver jogos do Carcavelinhos (onde o meu filho é guarda-redes dos juniores), tenho pena de não ser um dos velhinhos do Carcavelos. «Lembras-te do Artur Fonseca, um lateral esquerdo que jogava aqui nos juniores em 1967?» Não me lembro. «E do Carlos Alves e do António Roquete?» Não. «E do Carlos Delfim, Manuel Rodrigues, Gaspar Pinto?» Não. Os velhinhos lembram-se. Por isso são os velhinhos. Os velhinhos do Restelo lembram-se tão bem do Vicente a jogar à bola como eu do trio de defesa do GD Chaves em 1972, conhecido como quebra canelas: Lisboa, Rocha e Malano. JB disse que havia velhinhos no Restelo. Foi mais terno do que o Camões que, estacionado na margem do Tejo, olhou para cima e – vendo um homem a encaminhar-se para o estádio de Os Belenenses – chamou-lhe Velho do Restelo. Velhinhos do Restelo são e foram, assim, o Matateu, o seu irmão Vicente (gosto muito do Vicente, com quem bebi mais cervejas do que com o Bonifácio), o Pepe, o Capela, o Feliciano, o Mariano Amaro, o Vasco, o Serafim das Neves, o Alfredo Quaresma e, caramba, o Murça e o Freitas, que depois foram para o FC Porto. E não falo do Pietra, porque foi para o Benfica, nem do José António, porque era um jogador que não sabia dobrar-se para a direita.

4. Os velhinhos do Restelo não gostam de rock ou de punk-rock. Mas sabem que não se pode brincar com o seu estádio (desde 1956, já que o clube vive desde 1919) que só se enche realmente com espectáculos de rock e afim. Ora bolas. O que estava em causa não era um jogo da I Liga (onde o Belenenses permanece porque enfim) mas um concerto de rock. Mas uma piada a meio do texto? Toca de invocar o passado, as glórias dos azuis do Restelo, toca de chamar boi ao crítico do Público, toca de ameaçar que nunca mais compram um exemplar do jornal, e de protestar o seu currículo frente ao despudor de um jornalista que «se excedeu». «Excedeu-se?» Sim, diz o Provedor, posto diante de uma avalancha de insultos dirigidos ao jornalista. A culpa não é dele. O editor é que devia ter lido e corrigido um nadinha o texto. «Excedeu-se?» Sim, diz um dos directores do jornal, que pede desculpa aos velhinhos do Restelo por qualquer coisinha. Estão no seu direito. Um Provedor é um provedor e um dos directores é um dos directores. Eles têm de ser os velhinhos do jornal, à sua maneira. Também é uma designação terna. É como chamar «o velhinho do ABC» ao Luca de Tena, que não sei se existiu. Mas, lamento, João Bonifácio escreveu o que tinha de escrever: a sua crítica. E, sinceramente, se um clube já vem de 1919, o que se há-de dizer? É velhinho.

5. Toda a gente tem uma opinião sobre a crítica literária mesmo que não tenha opinião sobre literatura, e toda a gente tem uma opinião sobre crítica de música mesmo que não tenha uma opinião sobre música (o que não é o caso do Nuno Pacheco, que escreve – bem – sobre música, mesmo que não gostemos de toda a música de que ele gosta, incluindo alguns velhinhos cantores). A todos eles recomendo que leiam a crítica onde Anthony Burgess escreveu aquela pérola, «nunca leio um livro sem primeiro o criticar, para depois não dizerem que tenho preconceitos».

6. O que um editor de livros ou de discos, ou um produtor de espectáculos, têm de ter em conta é que uma crítica é uma crítica – e que a crítica é, muitas vezes, injusta. Mas nenhum editor sensato desata a escrever aos jornais tratando o crítico tal como boi (mesmo que o pense). A vida é assim. Quem vai à guerra dá e leva. Quando muito, o autor do livro (por exemplo) pode (e, em meu entender, às vezes deve), na contramão, apanhar o crítico num restaurante do Bairro Alto ou num bar do Calhariz, e dizer-lhe olhos nos olhos: «Ó meu grande filho da mãe [ou boi, à escolha], seu ignorante de merda, onde é que tu sabes o que é um hendecassílabo?» Também pode mandá-lo ir fazer broches a cavalos, mas dizem-me que já não é uma metáfora. Depois disso, como mandam as regras, vão os dois despejar vodkas e falar de um livro que ambos detestem. É o que se passa em regiões civilizadas do mundo, da Índia a Viana do Castelo e ao Alto Barroso.

7. Mas não, mas não. Daqui em diante, os provedores ocupar-se-ão da crítica e da sua ética, explicarão o que um crítico deve dizer aos seus leitores, e avaliarão «as estrelinhas» (pessoalmente, acho «as estrelinhas» uma inanidade tão injusta como qualquer outra). Ora, a crítica não tem ética nenhuma. Leiam James Wood. Não se pode é pedir que o respeitinho invada tudo na nossa vida.

8. Há aqui outro problema. Jornalista de uma publicação que eu dirija é meu jornalista. E eu sou solidário com ele. Se lhe chamam boi, acaba-se a discussão. Mesmo que ele seja boi. E insinuações absolutamente sujas como «devia é ser despedido» também terminam a discussão.

 

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por FJV, em 05.08.09

 

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