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Desdramatizar.

por FJV, em 26.07.09

Parece-me haver aí um problema de preenchimento das listas de deputados. O PS apostou em nomes novos e em independentes e, pode dizer-se, fez pela vida. Do PSD ainda pouco se sabe (também não é tarde, ao contrário do que pregam umas almas que querem, à viva força, ver o programa do PSD, como se o PS tivesse apresentado programa algum; a verdade é que não apresentou), mas espera-se que não rejeite a massa crítica que tem surgido fora das listas dos seus militantes, a menos que não tenha aprendido nada com o «fenómeno Rangel».

 

Mas temo bastante por essas listas. Recordo que, em Julho de 2007, o dr. Aguiar Branco mencionou a dificuldade de pensar durante o Verão (a frase era: “Alguém acredita que é possível reflectir, apresentar e discutir quaisquer ideias para o partido e o país [em Agosto]?”) Pode brincar-se à vontade com a tentativa de «roubar» Joana Amaral Dias ao BE, ou fingir escândalo com o «recrutamento» de Miguel Vale de Almeida, um nome importante, inteligente e que há-de trazer problemas ao partido -- mas, repito, importante em campanha eleitoral. Outro nome importante é João Galamba, por exemplo.

Pessoalmente, não fico nada escandalizado com a ideia de «roubar» Joana Amaral Dias ao Bloco; se Sócrates ou alguém por ele a convidaram, fizeram bem; é um nome, uma presença e um «valor acrescentado» seja a que partido de esquerda for; se lhe prometeu um cargo no IDT, também não me escandaliza; fez bem -- a Joana faria muito melhor trabalho do que oitenta por cento da maralha partidária que tem tomado conta do aparelho de Estado em nome do PS, sem que daí tivessem chegado vantagens para o país. Como com clareza se reconhece aqui, «os Partidos (passe a heresia da analogia) são como um produto ou serviço. Quando lhe faltam certo tipo de atributos ou valores, adquirem-nos ou pedem-nos emprestados a quem os tem». Lembro-me do convite de Fernando Nogueira a Vasco Pulido Valente e ninguém precisa de fazer um superlativo esforço de memória para passar em revista as listas da anterior legislatura para encontrar lá um significativo número de nulidades, geralmente mudas e surdas. Depois da experiência de Paulo Rangel na europeias, um erro crasso de Manuela Ferreira Leite será o de correr o risco de se reunir das listas do costume para não correr um risco menor, o de «perder o partido». Sinceramente, o partido está meio partido e precisa de sangue novo, de ideias novas e não de quotas das distritais para alimentar a fome de poder e de lugares elegíveis. Se o PSD recusar o apoio e a participação nas suas listas de nomes que podem fazer a diferença e que podem ajudar a líder a arrumar o partido, o combate será mais difícil. O PPM relembra nomes como Miguel Morgado, Pedro Picoito ou Luciano Amaral, por exemplo. Acho bem. 

Se o PS escolhe pessoas como Miguel Vale de Almeida, João Galamba ou Joana Amaral Dias (e devia ainda escolher Pedro Adão e Silva), está no bom caminho. No caso de Inês Medeiros, independentemente de lhe achar graça, não lhe conheço uma única ideia ou um contributo para o debate político -- é só o star system televisivo socialista a funcionar. Qualquer um dos três é mais importante, para a renovação socialista, do que foram Vital Moreira ou Ana Gomes e Elisa Ferreira (os desastres da temporada, com os quais Sócrates devia ter aprendido alguma coisa). E qualquer um deles será ainda mais importante quando é visível uma lista desagradável de «pessoas talentosas, trabalhadoras, impolutas quanto a vícios partidários, sairem do armário a dois meses das eleições», na corrida por um lugar, e enchendo a blogosfera de panegíricos lamechas a Sócrates. Esperemos que Sócrates não cai na tentação de ser o Kim Il Sung dessa gente esfomeada.

 

A primeira coisa que Manuela Ferreira Leite devia fazer era livrar-se especialmente do peso dos senadores clássicos do partido. Como escrevi em 2007, «o PSD está cheio de senadores, valha a verdade, e de especialistas em ter “ideias para o partido” (que geralmente se reduzem ao pagamento de quotas, à contabilidade das concelhias, à troca de favores, às prioridades da “jotas” ou do pessoal que esteve “com Cavaco” – na altura em que era fácil estar com Cavaco); mas o papel dos “senadores” é especial. Alguns deles desertaram; ou se passaram para “o inimigo” ou lhe fazem “favores”, ou então dedicaram-se com mais proveito à “privada”, depois de terem exercido no “público” durante os anos em que havia lugar para todos. O poder deixou de lhes interessar pela devastadora razão de que já não o têm. Eles aparecem, a espaços; mas nunca têm disponibilidade, ou nunca estão reunidas “as condições” ideais. No PSD, o papel dos “senadores” é esperar. Sejamos velhacos: esperar, para entrar; e esperar, para sair. Para muitos deles, o PSD é uma sala-de-espera. Até aparecer “qualquer coisa”.»

 

De facto, salvo coisas que ocorram agora (e estão bastante a tempo) «o PSD é um corpo adormecido em busca de refundação, de programa e de gente nova. Os senadores acham isso um exagero. E Agosto, como se sabe, está fora de hipótese.» Um dos erros -- menores, mas erro -- será afastar Passos Coelho do combate eleitoral. E será, sem dúvida, fechar os olhos aos melhores contributos para o que pode ser «um novo PSD», com figuras do mundo académico, «intelectuais», gente que tem contribuído, muito mais do que a parafernália de «aglutinadores de concelhias e distritais», quer para a derrocada de Sócrates, quer para a subida do PSD nas sondagens e nas europeias. Tenho receios, todos eles justificados e sérios, de que na sede do PSD não se tenha aprendido grande coisa.

Manuela Ferreira Leite tem de compreender que há uma diferença acentuada entre o eleitorado do PSD e a sua base de militantes. Tal como acontece no PS, o eleitorado flutua, retrai-se ou entusiasma-se, empresta a crédito o seu voto – mas não quer compromissos. Compreendo-se. Parte substancial do eleitorado do PSD votou Sócrates nas últimas eleições. Quando o PS julgava que tinha o negócio garantido, conferiu a dura realidade: o eleitorado tinha concedido apenas um empréstimo; por isso o PS perdeu as autárquicas e as presidenciais. Esse eleitorado flutuante, inteligente, que não vê grande saídas profissionais no sistema, nem garantias à esquerda, vota PS ou PSD consoante lhe convém e consoante aprecia, ou não, o líder do momento. Sócrates caíra-lhe nas graças; era preciso esperar por outra figura. Esse eleitorado, ao contrário do que se pensa, compara, faz contas, toma notas, dispõe-se a ser cativado, conhece o seu valor. Sabe que o seu voto conta e está disposto a negociá-lo. Mas esse eleitorado pouco se confunde com a base de militantes do PS ou do PSD. Esse eleitorado, para abreviar, é quem dá a vitória em eleições como as de Setembro, e não é o Simplex que vai melhorar a situação com os seus textos ditirâmbicos, cheio de candidatos a veneradores e obrigados.

 

Quem deu a vitória expressiva a Cavaco nas presidenciais não foram o PSD nem os seus barões. Foram, muito mais (o actual Presidente sabe-o bem), as vozes da periferia. Muitas delas tinham votado Sócrates em Fevereiro do ano anterior. É só fazer as contas. O que Sócrates vê, neste momento, é que não conta com um opositor fragilizado, cheio de gripe e de dislates, como Santana Lopes. E, por isso, aprendeu a lição de Cavaco. Manuela Ferreira Leite tem uma responsabilidade histórica: a de mudar as listas do seu partido e a de dar um sinal para o eleitorado (e não para o partido): a de que compreendeu que em Portugal se trava um combate entre «a sociedade» e o Estado e os seus aparelhos. Nem o Estado nem os aparelhos foram capazes de compreender as mudanças na direita e no centro direita (na cultura, nos comportamentos, no que desejam para a educação e para a reforma dio sistema político). Não confie na experiência, que também os cavernícolas têm de sobra; basta-lhe acreditar que também pode mudar e mudar bastante e com benefício.

 

PS - De resto, sobre a matéria programa de governo, e até podendo concordar que o PSD deve apresentar uma proposta minimalista, e quanto antes melhor, registe-se que o PS se tem limitado a propor formas de gastar o dinheiro da arrecadação fiscal.

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Código de conduta.

por FJV, em 26.07.09

Delicioso artigo de Roberto Saviano (autor de Gomorra), no El Pais, sobre os códigos de conduta sexuais na mafia: «Follar es peor que matar. Es mejor que mates a la mujer de un jefe; a lo mejor te perdonan. Pero si follas con ella, estás muerto.» Amar, decidir hacer el amor, besar, hacer un regalo, sonreír, tocar una mano, intentar seducir a una mujer o ser seducido puede ser un gesto fatal. El más peligroso. El último. En un lugar donde todo es ley implacable, los sentimientos y las pasiones que no conocen reglas son, más que cualquier otro factor vital, una condena a muerte.

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A pátria acima de tudo.

por FJV, em 26.07.09

Depois desta notícia (de contornos politicos & morais, abalando a Flórida), veja-se como Portugal nunca se esquece: 

«Portugal, a rich, exotic mediterannean country characterised by passion, complexity and lanquid richness.»

Um grande momento Portugal West Coast. Obrigado Jazella.

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