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Recordações do Paraíso, 2

por FJV, em 15.04.09

 

CALLEN AQUELLS QUE D'AMOR HAN PARLAT

 

Callen aquells      que d'Amor han parlat,
e dels passats      deliu tots lurs escrits,
e·n mi penssant      meteu-los en oblits.
En mon esguart      degú·s enamorat,
car pas desig      sens esperanç·aver.
Tal passió      jamés home sostench;
per als dampnats      nostre Déu la retench:
sol per aquells      qui moren sens esper.

Ausiàs March (1400-1459)

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Recordações do Paraíso

por FJV, em 14.04.09

MEN IMPROVE WITH THE YEARS
I am worn out with dreams;
A weather-worn, marble triton
Among the streams;
And all day long I look
Upon this lady's beauty
As though I had found in a book
A pictured beauty,
Pleased to have filled the eyes
Or the discerning ears,
Delighted to be but wise,
For men improve with the years;
And yet, and yet,
Is this my dream, or the truth?
O would that we had met
When I had my burning youth!
But I grow old among dreams,
A weather-worn, marble triton
Among the streams.

W.B. Yeats, The Wild Swans at Coole (1919)

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Le indagini dell'ispettore Ramos. Entrevista.

por FJV, em 14.04.09

Entrevista na Radio Due, para ouvir online.

Não sou eu. É o inspector Ramos: «Jaime Ramos non era autoritario, ma gli piaceva dare ordini e aspettare tranquillamente che le cose si sistemassero da sole. Se c'era una critica da fare a Jaime Ramos era che non si interessava alle cose con applicazione, impegno, coerenza e ovvietà. Spesso gli sembrava che lo infastidisse qualcosa, la pioggia, un omicidio, il sole, l'estate, l'ora di pranzo. Non era mai entrato nei particolari.»

L'ispettore Jaime Ramos è un uomo disincantato e malinconico, con un passato comunista e una guerra coloniale in Guinea alle spalle, scettico sulla natura umana ma con una fortissima carica di ironia; la capacitá di sorridere lo preserva dall'orrido mondo di coloro che hanno certezze su tutto. E' lui il protagonista dei romanzi Lontano da Manaus e Un cielo troppo blu (La Nuova Frontiera); l'autore, il portoghese Francisco José Viegas, ci racconta il «suo» personaggio e l'ambiente in cui vive.

 

Sobre Longe de Manaus, críticas de Giancarlo de Cataldo no L'Unitá e de Marco Peretti no Liberazione, do La Repubblica, e do Il Manifesto.

Sobre Um Céu Demasiado Azul, crítica no Il Messaggero, Jaime Ramos no La Repubblica, no Il Sole24Ore, de Marilia Piccone (Wuz).

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Está a chegar.

por FJV, em 14.04.09

 

 

O primeiro dos romances póstumos de Guillermo Cabrera Infante, A Ninfa Inconstante.

Ilustração de Pedro Vieira.

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Um debate sobre a vida dos outros.

por FJV, em 14.04.09

O que na altura disse sobre o tema (e, antes, aqui) parecia-me suficiente. Como não foi, recolho os de Filipe Nunes Vicente e de Pedro Picoito a propósito da «exigência de declaração de interesses» a Fernanda Câncio. Subscrevo, palavra a palavra, esses textos.

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A Caipirinha de Aron.

por FJV, em 14.04.09

As crónicas de Henrique Raposo estão finalmente publicadas em livro: A Caipirinha de Aron. Crónicas de um Liberal Triste (edição Bertrand).

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250 anos.

por FJV, em 14.04.09

George Friedrich Häendel morreu há 250 anos. Cumprem-se exactamente hoje, dia em que as crianças regressam à escola depois de duas semanas de férias e de um domingo de Páscoa – data em que era costume ouvir-se uma das suas peças maiores, a oratória Messias. Hoje, nas escolas, não se sabe quem era Häendel e suponho que os nomes de Bach, ou Mozart, ou Haydn, dizem pouco nas salas de aula. Sinto-me cada vez mais desiludido com o esquecimento destas coisas, culpa minha de não saber acompanhar «o ar do tempo». Sou dos que pensa que o ensino da música devia ser universal e obrigatório – seria uma forma de «democratizar» a arte em vez de escondê-la para eleitos. Infelizmente, em democracia, se a maioria defende o mau gosto, é ele que ganha. Tenho pena, mas Händel não é popular.

[No Correio da Manhã.]


Adenda: nem de propósito.

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Regresso ao presente, na Rússia.

por FJV, em 13.04.09

Excelente portfolio sobre a Rússia (de Aleksey Petrosian) no English Russia. Indicação de Francisco Seixas da Costa, sempre atento.

 

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Preconceito.

por FJV, em 13.04.09

Se Orgulho e Preconceito é um dos romances dos romances, para quê juntar-lhe zombies? Ah, pós-modernidade...

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Corín Tellado.

por FJV, em 13.04.09

Adenda ao post anterior:  Eu gostaria de ter conhecido María del Socorro Tellado López mas não saberia por onde começar a conversa – se pelos 400 milhões de livros vendidos, se pelo argumento de ‘Aposta Atrevida’, se pelo desprezo que lhe votavam. Corín Tellado morreu anteontem, mas os seus leitores tinham morrido antes. Ela não fazia apenas parte de um mundo de histórias, enredos românticos, casamentos destroçados e sonhos de subúrbio (com erotismo e ascensão social) – ela era esse mundo. Corín Tellado era uma marota. Trouxe para as suas novelas os sonhos de gente irrisória que, de outro modo, não reconheceria as suas próprias histórias. Nunca bebeu o champanhe das famosas escritoras ‘light’ e a censura franquista proibiu-lhe livros e cortou-lhe muitos capítulos. Vai hoje a enterrar, nas Astúrias.

[No Correio da Manhã.]

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Corín Tellado.

por FJV, em 12.04.09

 

“Alinhavo um argumento em cinco minutos”. Inspirava-se na vida quotidiana e juntava-lhe os ingredientes base: amor, ciúme e infidelidade.

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Códigos.

por FJV, em 12.04.09

Acompanho, com atraso, a onda de indignação por causa do dress code numa Loja do Cidadão em Faro. Uns atacam as regras de vestuário porque elas atentam contra a liberdade individual; outros, porque são obra de Dona Pulquéria e um nome assim parece-se com Dona Pombinha. Tirando a referência à «lingerie preta» (cuja «proibição» parece que já foi desmentida, e que não deve ser chamada para lado nenhum) e às «gangas», a coisa parece mais ou menos equilibrada. Há uns anos, um sindicato chamava fascista a um departamento do Ministério da Educação que teve a gentileza de pedir a um professor que não se apresentasse, nas aulas, de camisa de fora, bermudas e havaianas (os alunos chamavam-lhe um regalo e colavam-lhe papéis nas costas). Em Setembro de 2004 houve um problema idêntico com o regulamento de uma escola de Colares, que proibiu «minissaia, calções, chinelos, decotes ou dizer palavrões». Jorge Bacelar Gouveia dizia que o regulamento punha em causa «a liberdade pessoal e a liberdade de apresentação» -- eu também achei, mas não me pareceu assim tão mal.

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O ónus da prova.

por FJV, em 09.04.09

«Jogada política» ou não, esteve bem o primeiro-ministro na recusa da «inversão do ónus da prova». Não se compreende que o PSD não tenha tomado essa posição antes. Paulo Rangel fez um grande favor a Sócrates, separando-o do grupo de Ana Gomes, João Cravinho e Vital Moreira.

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Camping na tragédia.

por FJV, em 09.04.09

Insuspeito de apreciar Berlusconi, não posso estar mais de acordo com Filipe Nunes Vicente: «Não houve pussy cat que não tenha rosnado com o suposto humor negro do italiano sobre a situação dos desalojados do terramoto. Teriam toda a razão em eriçar os bigodes se tivesse sido esse o caso.»

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As sete maravilhas fora de portas.

por FJV, em 09.04.09

 

A escolha das Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo não vai ter a atenção que foi dispensada às duas iniciativas que a antecederam. Convinha que tivesse alguma. Durante dois ou três séculos Portugal espalhou um pouco de si pelo mundo fora. Há sempre quem ache indigno recordar a expansão colonial e as suas marcas; eu sou dos que gostam de lembrar essa presença. Um templo numa colina da Ásia, um forte nos limites da Amazónia ou na costa da Guiné, um casarão na Colónia de Sacramento, diante de Buenos Aires, um bairro marroquino, deviam ensinar-nos alguma coisa sobre o nosso passado e a pequenez a que não devemos sujeitar-nos. Não se trata de elogiar o “passado glorioso” – mas de lembrar quem fomos. E que, muitas vezes, somos melhores lá fora do que dentro de fronteiras.

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O pão do Redondo.

por FJV, em 09.04.09

Sou alertado, por dois telefonemas, sobre as condições de higiene simplesmente deploráveis em que se teria vindo a fabricar pão na Confraria do Pão, no Redondo. Se a descrição confere com o auto, ou o inverso, mais vale ter cuidado.

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Halterofilismo. [E, depois, a linguagem do comentador.]

por FJV, em 08.04.09

Amar Music é um halterofilista croata. Acaba de erguer 148 kgs; o comentador televisivo corrige-me logo e diz que é «levantar». O seu levantamento de 148 kgs, tendo aquele nome, não cessa de me surpreender; mas não tanto como os comentários à posição do joelho esquerdo de um halterofilista do Azerbaijão (apenas vi cicatrizes) que, no ano passado, esteve à pega com o seu eterno rival, um ucraniano que chegou ao estrado e levantou 150 kgs sem pestanejar. Estes senhores merecem um prémio. Passar uma hora a comentar os encontros de halterofilismo e a performance de atletas romenos, ucranianos, bielorrussos e croatas que em dez segundos erguem aquele semi-eixo de centena e meia de quilos, merece um prémio. Isso e comentários de curling.

 

 

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Adenda: Há, claro, o problema da linguagem. Paulo Tunhas desenvolve o tema aqui. O espectáculo transformou-se numa coisa mais fria e o comentário foi ocupado por especialistas a caminho do doutoramento numa matéria onde o ressentimento e a vigilância dominam completamente. Vou às estantes buscar nomes para contrariar: João Saldanha (acabo de ler Trauma da Bola: a Copa de 82), Valdano, Nelson Rodrigues, Mário Filho, Eduardo Galeano, Osvaldo Soriano, Carlos Drummond de Andrade (fabulosas crónicas de Quando é Dia de Futebol), Fernando Calazans, Roberto Damatta (A Bola Corre Mais Que os Homens) por aí fora. Relembro as magníficas biografias do Flamengo (de Ruy Castro), do Botafogo (de Sérgio Augusto), do Corinthians (de Olivetto), do Internacional (de Luis Fernando Verissimo), o mais hooliganesco dos tratados sobre o Grêmio de Porto Alegre (de Eduardo Bueno, o Peninha, que «fez» Bob Dylan sócio do time), do Fluminense (de Nelson Motta) ou do Santos (de José Roberto Torero), para além da fabulosa recolha de textos em Os Donos da Bola, feita pelo meu amigo Eduardo Coelho (onde estão Clarice Lispector, Chico Buarque, João Cabral de Melo Neto, Vinicius, etc.) -- e percebo por que razão não há tolerância na bola lusitana.

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A Língua.

por FJV, em 08.04.09

José Murilo de Carvalho, o autor vencedor da primeira edição do Prémio Leya, acha que «a Língua pode unir-nos muito mais do que a Literatura». Uma afirmação como esta faz o delírio dos distraídos e dos legisladores da cultura. Mas é grave, por muito que a figura de Murilo seja simpática (e é). Primeiro: se não for a Literatura a fixar a Língua, esta morre, como nos ensinam a história política e a filologia; depois, porque um escritor devia saber que a Língua, sem realização literária, é apenas um bom resíduo para acrescentar o lixo dos burocratas – é apenas um alfabeto sem vida. O que faz a grandeza do Português é ter sido a língua de Euclydes da Cunha, de Eça, de Machado de Assis, de Camilo, de Drummond ou de Vergílio Ferreira – não por ser usada por um director das Alfândegas.

[No Correio da Manhã.]

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Pessah.

por FJV, em 08.04.09

חג פסח כשר בשמח

לשנה הבאה בירושלים

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O cantinho do hooligan. Foi assim.

por FJV, em 07.04.09

 

 

 

Excelente jogo do FC Porto, com coisas tão perfeitas como os passes, as deslocações e os cortes de Fernando; o corredor de Sapunaru; a pontaria de Rodríguez; o magnífico passe de Bruno para Rooney; a garra de Cissokho à esquerda; as defesas de Helton; a sensatez de Lucho; as aparições de Lisandro; a oportunidade de Mariano González. Mão à palmatória para o tabuleiro de Jesualdo.

Mariano continua a ser um dos meus, com aquele ar de empregado de mesa do Tortoni, quase invisível -- e Fernando foi o modelo de um grande trinco, garantindo o lugar por muito tempo. Hulk não pôde fazer nada, e ainda bem (guardadinho no Dragão). Um verdadeiro jogo de campeões, próprio para o apito dourado, os sumaríssimos, os ricardos costas, os ressentidos e o que ainda está aí para vir.

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Liberal à moda antiga.

por FJV, em 07.04.09

Temos pouca cultura liberal entre nós. Liberal à moda antiga. Liberal, de liberdades, de autonomia, de independência e de individualismo. Queremos que a nossa opinião seja logo adoptada como a opinião; ou que a opinião dominante seja tão dominante que nem se dê ao trabalho de ir a debate. Temos medo de ficar do lado da opinião minoritária, do outro lado do poder – de onde vêm benefícios e vantagens. Tememos quem manda. O único horizonte de salvação é o Estado – para funcionários, para necessitados, mas também para empresários, que suplicam favores e facilidades. Por isso, o Estado tem sempre razão em nomes de todos nós («O Estado somos nós.»). Temos medo da palavra indivíduo – a maioria acha que o indivíduo (um luxo suspeito) não vale nada e que deve sujeitar-se ao colectivo, sacrificar-se em nome de todos. A nossa desgraça é precisamente essa.

[No Correio da Manhã.]

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A inversão do ónus da prova, ou os cidadãos. 2

por FJV, em 06.04.09

Ler o texto de Tomás Vasques: «Somos todos suspeitos de qualquer coisa. Em nome de uma causa nobre: a luta contra o terrorismo, como nobre é a luta contra a corrupção e o enriquecimento ilegítimo. Mas isto anda tudo a par: hoje o DN informa que, em nome de outra causa nobre, a fuga ao fisco, o Estado criou uma base de dados gigante que vai cruzar, em relação a cada cidadãos, as bases de dados dos bancos, do fisco e dos tribunais. Nem vale acrescentar outros «mimos» com que nos vão brindando a coberto de «choques tecnológicos»: chips nos carros, vias verdes, cartão único e sei lá que mais. Qualquer dia cada cidadão é apenas um número pendurado num cabide e ao dispor do Estado.»

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A inversão do ónus da prova, ou os cidadãos. Começa-se por algum lado.

por FJV, em 06.04.09

«Sim, fico surpreendido com a forma como as pessoas aceitam a teoria presidencial acerca da inversão do ónus da prova sem avaliar os riscos que daí decorrem. Quando abdicamos da nossa liberdade e da nossa privacidade em favor do Estado estamos a abdicar da nossa dignidade. O resto, embora discutível e aproveitável para debate, é apenas o excessivo poder do Estado e da sua burocracia contra os cidadãos.» [06.10.05]

 

«Inverter o ónus da prova em «medidas de natureza fiscal e de natureza penal que devem ser introduzidas no combate à corrupção» é a primeira etapa. A ideia é que «a justiça e a moralidade sejam repostas». Depois, para repor a moralidade e a justiça noutras áreas, inverte-se apenas o ónus da prova e pronto.» [09.10.05]

 

«Esta é uma questão séria e central. O Presidente mencionou, no seu discurso, os cidadãos que «enriquecem sem se ver donde lhe vem tanta riqueza». Esta demagogia denuncista e popular é grave quando menciona que fulano terá de passar a fazer prova da proveniência lícita dos seus bens. Em que circunstâncias? Quando a administração fiscal for, de bairro em bairro, inventariar piscinas, automóveis, jardins, antenas parabólicas, garagens? Quando receber denúncias de «cidadãos honestos»? Quando os funcionários do SEF passarem a ter de perguntar aos passageiros dos voos vindos da América do Sul se já pagaram as férias na República Dominicana? E os cidadãos que têm de passar a fazer prova da proveniência lícita dos seus bens são aqueles que já estão sob investigação da máquina judicial ou aqueles que o Estado não consegue investigar?» [09.10.05]

 

«Pode não ser o pior inimigo da liberdade, evidentemente. Não é. Mas o optimista do Estado ou com o Estado mantém com a liberdade uma relação difícil e displicente. Tanto lhe faz.» [09.10.05]

 

«Se há inversão do ónus da prova em matéria supostamente fiscal, porque quem não deve não teme, o que impede o Estado de instalar videovigilância onde lhe apetecer (porque quem não deve não teme), de utilizar as câmaras da Brisa para controlar a velocidade e a identidade dos condutores (porque quem não deve não teme), de ameaçar os cidadãos com castigos exemplares caso não provem que não foram eles que atentaram contra a moral (porque quem não deve não teme), de identificar os cidadãos que leram livros de Guy Debord ou de Céline (porque quem não deve não teme), de verificar quem fumou marijuana ou Montecristo (porque quem não deve não teme), de identificar sodomitas e versilibristas (porque quem não deve não teme), de manter ficheiros informáticos de quem sofre de asma ou de dependência de álcool (porque quem não deve não teme), etc., etc?
Começa-se por algum lado. Dificilmente se acaba o desfile de coisas absurdas que acontecem depois.» [09.10.05]

 

«O presidente Sampaio regressa ao tema por vias travessas. Primeiro, autorizou, da Presidência, o próprio conceito de «inversão do ónus da prova» quando falou dos «sinais exteriores de riqueza». Agora, o «cruzamento» de dados «através do qual podem ser detectados delitos». Começam pela evasão fiscal; daí até à ficha completa não falta muito. Toda a gente tem muita vontade de praticar o bem, e não são -- sequer -- capazes de explicar como funcionam as escutas telefónicas.» [12.01.06]

 

«Sim, o cruzamento de informações toda a gente parece apoiar a bem da pátria. Mas como confiar num sistema que quer cruzar informações sobre seja o que for, quando não consegue -- insisto -- explicar a origem, o funcionamento e o aparecimento de escutas telefónicas indiscriminadas? O presidente Sampaio e os vários ministros que trataram do assunto acreditam numa sociedade onde cidadãos denunciam os seus vizinhos em nome da pátria e do bem público[13.01.06]

 

«E há outro debate em que as coisas não estão a ser ditas com clareza: o mundo em que a liberdade era um valor essencial está a chegar ao fim? Há por aí muitos apelos ao sacrifício em nome da ortodoxia religiosa, da conveniência do petróleo e da política real, dos negócios dinamarqueses, da equivalência moral, do direito à indignação muçulmana, da intocabilidade dos novos e dos velhos párias. Mas sobretudo, mesmo sem falar dos cartoons (que são uma merda, sim, mas que cuja taxa ofensiva é mínima), um apelo ao respeitinho. Ao respeitinho e ao controle. À vigilância, à punição e à censura do delito de opinião, à «contenção verbal e discursiva». Outros valores estão em causa: «Não nos incomodem com essa treta da liberdade.» Não sei se estão a ver. O presidente Sampaio apelou claramente à denúncia, à delação e à espionagem sobre os cidadãos em nome do Fisco e ninguém protestou contra a inversão do ónus da prova. Vasco Pulido Valente dizia que não tinha visto um único sinal de desagrado acerca do «cartão de cidadão» que o governo quer impor (por acaso, que me lembre, fui um dos que escrevi contra a ideia) e de que, há tempos, ouvi José Lello (na TSF) tecer elogios ditirâmbicos como uma das grandes contribuições de Portugal para a modernidade. O primeiro-ministro afirma, ao Expresso, que a liberdade, no fim de contas, é prejudicial ao género humano, no que é seguido por bispos e outros pensadores delicados que se perguntam sobre se valeu a pena publicar os cartoons tendo em conta as consequências no mundo islâmico. Uma série de pessoas, para evitar falar do tema, lembra casos de censura cometidos «no Ocidente» contra os quais todos protestámos -- para que não se moleste agora a tranquilidade de Finsbury Park. Em Inglaterra, o sistema de saúde pode enviar funcionários a casa, para verificar se as pessoas estão a fumar. As escutas telefónicas são o lamaçal que se sabe e parece que não são apenas as «figuras públicas» que estão no alvo. Pouca gente se perguntou sobre o que custará, à nossa liberdade, o vasto número de acordos assinados com a Microsoft por parte do Estado português.
Estranhos sinais no ar. Há muita gente a pedir respeitinho; e agora não é só na humidade das sacristias ou dos gabinetes: é nos «fóruns» das rádios, nas «cartas dos leitores» e outras vigílias cívicas. O respeitinho, primeiro. Depois, o catálogo de pecados, de violações da decência e a lista das más companhias. Depois, vigorará apenas um sistema informático. Virá então a proibição de fumar, de beber e de escrever sobre religião. Uma comissão parlamentar há-de criar uma gramática do «politicamente permitido» para que nenhuma palavra ofenda o respeitinho das corporações ideológicas, profissionais e clericais. Vigiarão as anedotas e o riso. Tudo em nome dos valores. Estamos lixados com estes valores, estamos.» [06.02.06]

 

«Há uns tempos publiquei uma série de posts sobre a inversão do ónus da prova e as ideias do então Presidente Sampaio acerca da vigilância que os cidadãos deviam exercer sobre os outros cidadãos em matérias que iam da fiscalidade (ah, os sinais exteriores de riqueza) ao «cruzamento» de dados «através do qual podem ser detectados delitos» vários. Há uma tendência para a denúncia (e para a denúncia anónima vulgar nos comentários dos blogs, por exemplo) na sociedade portuguesa. Num país que não consegue sequer explicar o funcionamento das escutas telefónicas com mandato judicial, é difícil perceber a defesa da transparência absoluta. A lista dos cidadãos com dívidas à administração fiscal é um acontecimento menor, mas é um passo não um passo em si mesmo, mas a permissão para avançar noutras direcções que podem colocar em causa a liberdade e a privacidade dos cidadãos.» [02.08.06]

 

«O ministro António Costa, alertado pelas objecções acerca do perigo de haver tamanha concentração de dados num único cartão, lembrou que "isto não é o Big Brother". Engana-se, meu Caro António Costa não é o Big Brother, mas pode ser o princípio. Nada nos garante que, daqui a uns anos, a uns meses, depois de entrar em vigor o cartão único, não exista um organismo, muito cioso da segurança do Estado e do controle dos cidadãos, que comece realmente a fazer o cruzamento dos dados contidos no "chip" que cada um trará dentro do bolso. Nada que não tenha acontecido antes.

Daqui a uns anos, inclusive, o mundo estará cheio de nostálgicos da liberdade. Gente que terá saudade do tempo em que podia festejar o Natal sem ser acusada de estar a insultar os muçulmanos e os ateus; gente que podia publicar cartoons e rir dos outros - que é uma actividade meritória. Haverá nostálgicos do tempo em que podiam fumar um cigarro ou um charuto, comer costeletas de novilho com osso, andar de minissaia sem ser apedrejada, ler um livro sem levantar suspeitas - enfim, sem ser controlado de alguma maneira por Entidades Reguladoras ou por chips electrónicos que armazenam cada passo que damos, cada fronteira que atravessamos, cada doença de que nos queixámos.» [25.12.06]

«Não contem anedotas, não consumam colesterol, não riam. Deixará de haver uma lei da República que vos garanta a liberdade de fazer; haverá, antes, uma lei que vos restringirá a liberdade de ser o que quiserdes ser. Em nome do Estado, do bem comum, das crenças absolutas dos outros - sempre com a bênção dos que sabem, por nós, o que é melhor para nós. Sim, estamos em guerra pela nossa liberdade.» [25.12.06]

 

«Desde que o ex-presidente Sampaio resolveu propor a inversão do ónus da prova em matéria fiscal para pôr o país na linha, que este assunto mereceria fiscalização. O que o presidente da República acaba de fazer, enviando para o Tribunal Constitucional o decreto que alterou a Lei Geral Tributária e o Código de Processo Tributário é simplesmente dizer que a liberdade dos cidadãos e a sua dignidade não podem ser postas em causa, independentemente daquilo que o TC possa vir a decidir.
No entanto, se o TC decidir que o decreto não está (como se diz?) «ferido de inconstitucionalidade», isso não significa que seja justo ou que os cidadãos não tenham o direito de protestar contra ele. Como extensão de um outro princípio («Mais vale ter razão do que pertencer à maioria.»), a constitucionalidade de uma lei não significa a sua razoabilidade. Mas, para já, esta etapa.» [31.07.07]

 

«O Tribunal Constitucional «chumbou» o decreto que alterou a Lei Geral Tributária e o Código de Processo Tributário. Ou seja, como se escreveu neste post, «decidiu que a liberdade dos cidadãos e a sua dignidade não podem ser postas em causa» e que Jorge Sampaio também não tinha razão. Assim, a Direcção-Geral dos Impostos não vai poder aceder às contas bancárias dos contribuintes quando estes reclamam ou protestem judicialmente uma decisão sua; parece chumbada a lei «dos sinais exteriores de riqueza» com comunicação «ao Ministério Público» (e o agravamento da mesma quando se trata de funcionários públicos, quando «a comunicação de sinais exteriores de riqueza também deveria ser feita ao chefe de serviço»).» [15.08.07]

 

«Somos controlados pela Via Verde, pelo Cartão Único, pelo trajecto dos cartões de crédito, pelos cartões magnéticos dos hotéis, pelo acesso às nossas contas e impostos, pelos registos nas cartas de condução, pelas fichas clínicas (que não são sigilosas), pela ficha de cliente de uma loja – e agora também pelo chip electrónico na matrícula dos automóveis. A nossa vida está na mão de pessoas que não conhecemos mas que nos conhecem bem e que se escondem nos arquivos do Estado. Não é uma invenção da China, do Dr. Salazar ou da velha URSS – é um sistema de vigilância criado pelas ‘democracias liberais’. Há quem argumente que ‘quem não deve, não teme’, lema dos pobres de espírito para quem a vida não vale nada. Entrámos na era da desconfiança. Também nós devemos desconfiar.» [02.09.08]

 

«Não aprendemos grande coisa, nem com o passado nem com os avisos sobre o futuro. Ontem de manhã, numa rádio, ouvi um dos responsáveis pelo cadastramento do DNA dos portugueses admitir que, daqui a uns anos, todos estaremos registados num arquivo onde se guarda o essencial sobre a nossa identidade (DNA) e onde se podem fazer cruzamentos com outros dados. Parece que é um grande avanço. Não sei. Pelo contrário: é um perigo que nos devia deixar alerta. Depois do cartão único virá o chip da matrícula dos carros – e depois o arquivo do DNA. Na série televisiva CSI, aquele arquivo está sempre ao serviço do “bem” e só os maus são punidos. Na vida real, quem tem acesso a um desses dados, pode bem ter acesso a todos. E, nesse caso, trata-se de uma ameaça à nossa liberdade individual. É grave.» [04.03.09]

 

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União de Facto.

por FJV, em 06.04.09

 

O Pedro Marques Lopes e o Bernardo Pires de Lima oficializaram a união de facto e apresentam-se à sociedade.

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A ter em conta.

por FJV, em 06.04.09

Uma das regras da democracia consiste em que ‘quem vai à guerra dá e leva’. José Sócrates pode ter de si a melhor das opiniões e considerar que são injustas muitas das críticas que lhe fazem – e até pensar que muitas delas relevam de má-fé. Mas, mesmo sendo injustas (se for o caso), essas opiniões não são criminalizáveis. Os grandes estadistas passam sobre essas coisas com superioridade. Sabem que o poder tem um preço. Que têm de resistir à vontade de usar todo o poder de que dispõem, legal ou ilegalmente – precisamente porque devem reservar espaço para o contra-ataque, ou então não há jogo, outra das essências da democracia: a tolerância. Há muitos romances sobre o assunto, e nem todos são de espionagem. A maior parte fala da solidão do poder ou de como se perde a razão.

[No Correio da Manhã.]

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O Dr. Freud sobre os títulos da imprensa.

por FJV, em 06.04.09

«Eu próprio li recentemente nos jornais vienenses um artigo cujo título, A Bucovina sob o Domínio Romeno, era, pelo menos, prematuro, pois na época em que este artigo foi publicado a Roménia não estava ainda em guerra connosco. Dado o conteúdo do artigo, este deveria ter por título A Bucovina sob o Domínio Russo, mas o próprio revisor achou, sem dúvida, tão natural o título impresso que o deixou passar sem objecção.»

Psicopatologia da Vida Quotidiana.

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Revista de Imprensa. A moral na política.

por FJV, em 05.04.09

«Soube, esta semana, que ele foi processado por José Sócrates e por causa da tal crónica. Agora fui lê-la toda. Fiquei a saber que a crónica espelhava-se na frase inicial: "Ver José Sócrates apelar à moral na política é tão convincente quanto a defesa da monogamia por parte de Cicciolina." Isto é, toda aquela crónica é opinião. Opinião. João Miguel Tavares, para quem os apelos de Sócrates à moral na política não são convincentes, di-lo: não são convincentes. Mal seria se não o pudesse dizer. É pena José Sócrates não me ter pedido a opinião. Eu teria dito ao primeiro-ministro tudo o que há para dizer sobre processar uma opinião: "Essa agora!"»

Crónica de J. Ferreira Fernandes no Diário de Notícias.

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Revista de blogs. Instintos.

por FJV, em 05.04.09

«Diz-se que as mulheres, assim genericamente, sentem-se atraídas pelo poder por interposta pessoa, ou seja, sentem-se atraídas por homens poderosos. Diz-se também que se pode conquistar uma mulher apelando ao seu instinto maternal. Estas duas pulsões têm, em regra, objectos diferentes, isto é, um homem poderoso não apela ao instinto maternal e um homem que desperte tal instinto está afastado do poder.»

No Ouriquense.

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Revista de blogs. Coisas simples, evidentes.

por FJV, em 05.04.09

«Karl Kraus abominava o conceito de Opinião Pública, e considerava que o público se devia a si próprio a capacidade de fazer juízos. É o que está a faltar. Empurramos os juízos para os outros. Especialistas, ou não. Dá muito jeito. Por exemplo: nem sempre se deve confiar no juízo de um grande um grande advogado que acha que se deve processar um articulista.»

José Medeiros Ferreira, no Bicho-Carpinteiro.

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O cantinho do hooligan. Sumaríssimo, ou «toma lá três envelopes».

por FJV, em 04.04.09

1. Como se sabe, o Guimarães declarou-se benfiquista no princípio da época. A segunda parte do sumaríssimo foi-lhes aplicada hoje, em três prestações assinadas por Ernesto 'El Tecla' Farías, Mariano González e Rolando. Foram três belos envelopes. Guardado estava o bocado. Há coisas que não se esquecem.

 

2. Apenas espero que haja sumaríssimo a aplicar a Nuno Assis pela queda aos 77 minutos (e que, em consequência, Cissokho seja despenalizado daquele cartão amarelo).

 

3. Finalmente, depois das declarações de L.F. Vieira sobre o Benfica («Estamos cada vez mais fortes!») e sobre a justiça em Portugal («O nosso regime moral sofreu um contratempo.»), só me resta enviar esta foto de saudações (retirada do arquivo destes amigos):

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