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Aprendei, leitores.

por FJV, em 19.03.09

Com três eleições este ano, estamos a entrar numa fase de histeria e de retórica. Qualquer especialista em média pode entrar em campo com um detector de flibusteiros – e trabalho não lhe vai faltar. Mas o leitor (e o eleitor, de braço dado) nem precisa de ajuda: ao ler que o governo vai poupar 50% da prestação da casa aos desempregados (para abreviar), o leitor lê que “o governo vai poupar 50% da prestação da casa aos desempregados”; só depois lê que vai ter que reembolsar tudo daí menos de dois anos. O eleitor percebe então que se trata de uma ajuda à banca (quem paga renda não tem desconto, como se sabe), mas a coisa já não importância. O dinheiro não é de graça.

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Um velho amigo.

por FJV, em 19.03.09

 

Hoje, o meu velho amigo António Sousa Homem, recebe uma distinção especial: foi escolhido, na sua qualidade de cronista, como um dos 30 nomes dos últimos 30 anos, uma das figuras do futuro. Aos 88 anos, em Moledo, ele agradece.


Textos do Dr. António Sousa Homem:

 

«Dobrei já aquilo que se chama a idade do século. O mundo não tem para mim, hoje, passados oitenta e quatro anos, menos segredos do que quando o senhor general Craveiro Lopes foi apeado da Presidência. Há quem pense que a idade é uma vantagem. Seguramente não é. Com o tempo vamos ficando maduros e tranquilos; mas com a idade vamos apenas reparando nos defeitos dos outros e quase nunca nos nossos. Reparo que os meus sobrinhos espremem a pasta dentífrica pelo meio e não pela base. Dou-me conta das mudanças de estação quando os pinhais de Moledo mudam de cor. A velocidade das coisas não me interessa, há muito que me conformei com a sua passagem e a ideia, vulgar e triste, de que há coisas novas para experimentar. Sou um conservador, um botânico e um velho.»

 

«Sou um conservador, um botânico e um velho. Até como botânico sou conservador, reservando sempre o mesmo espaço para as begónias – que me lembram Júlio Diniz e Uma Família Inglesa – e o mesmo enlevo para os hibiscos. A velha casa de Moledo, onde a família passa os domingos e, episodicamente, os finais de semana, não acolhe memórias de um século; alberga apenas a poeira de oitenta e quatro anos assinalados, religiosamente, em Março de cada ano e anunciados à família como um avanço na conservação da espécie.»

 

«Ao dobrar os meus oitenta e oito anos limito-me a convocar a família para um almoço de maledicência (a nossa especialidade). Do alto do velho eremitério de Moledo, no coração do meu Minho, os meus antepassados vigiam-me como a um infeliz desocupado. A minha sobrinha Maria Luísa diz que sou tão conservador que consigo chegar a esta idade.»

 

«Aprendi com o velho doutor Homem (meu pai), que a abundância de livros não deve fazer-nos pensar na sabedoria mas apenas na vaidade e no prazer. Não na alegria (que raramente se retira deles); antes, no prazer que se retira do silêncio, da contemplação e da pequena vaidade.»

 

«Não é todos os dias que um Homem abandona a sua província para se aventurar nos caminhos da Pátria. Desde 1985, quando me fixei naquilo que viria a ser conhecido, em família – e depois entre os meus leitores –, como “o Eremitério de Moledo”, que raras vezes tenho abandonado o perímetro do meu Minho. Ao contrário do meu Tio Alberto, que se enamorou várias e repetidas vezes de senhoras estrangeiras, e que por isso conhecia os melhores hotéis de Madrid, a cor do lago de Genebra, os sabores de Paris ou o odor do Mar Cáspio, eu segui o destino dos velhos Homem de antanho, que só conheciam ou o caminho para casa ou o mapa das deambulações do senhor Dom Miguel.»

 

«O velho doutor Homem, meu pai, assegurava que ninguém no seu perfeito juízo sabia mais do que três ou quatro fra­ses do discurso justificativo de José Acúrsio das Neves em defesa do Príncipe, e que provavelmente isso não teria importância porque as opções do passado não podem alterar-se dois séculos depois. O facto é que os homens não fortalecem o seu carácter colocando-se sempre do lado dos vencedores. Há uma estranha serenidade que só se adquire nas derrotas e, algumas vezes, na reclusão que deve suceder às humilhações. O nosso mundo não se compadece com esta filosofia despropositada - quer vencedores e, podendo, faz deles vencedores absolutos.
Por isso, quando enfrento o velho retra­to do senhor D. Miguel, na casa de Ponte de Lima, iluminado pela penumbra do Verão, fil­trada pelos freixos e pelas cortinas da família, penso que o mundo está bem feito. Não muito bem feito. Mas razoavelmente bem feito.»

 

«Com a idade, as «novas gerações» vão ficando mais interessantes, livrando-se das enfermidades da juventude. O Leopardo foi uma das suas leituras e, para ela, o príncipe – representando «o velho mundo» – assemelhava-se um tanto aos heróis da máfia que apareceram no cinema como figuras românticas que afrontam o trono, o altar e os seus exércitos, como se fossem herdeiros do Robin dos Bosques. Educada pela história oficial, que trata os derrotados com dureza e obs­tinação, a minha sobrinha resiste ainda à ideia de que o mundo não está dividido em heróis e facínoras. O século XIX é para ela uma incógnita maior do que a revolução de 1974. O velho doutor Homem, meu pai, é para ela uma lembrança vaga a que o tempo e a idade emprestam agora mais graça e fascínio. Entrando na biblioteca, observando as lombadas dos livros, imagino que se interrogue como pôde aquele homem culto, irónico, céptico e mordaz (de que ela conheceu vaga­mente a figura) ser um herdeiro da velha ordem e não um revo­lucionário que combatesse as classes médias, a família e as instituições.»


«O meu mundo desapareceu nestas três últimas décadas. Era um mundo onde a pasta dentífrica se espremia pelo fundo do tubo e onde os jornais não tinham erros nas secções de palavras cruzadas. O resto, a política, a bondade ou a crueldade dos homens, a vaidade ou a riqueza, o prazer ou o sofrimento são menos do que acontecimentos; a única coisa que aprendemos é que precisamos de alguma inteligência para não nos zangarmos com o mundo.»

 

 

«O velho Doutor Homem, meu pai, era um madrugador impenitente e dormia seis a sete horas por dia, raramente cabeceando a meio de uma partida de brídge, nas noites de sexta e de sábado, ou durante o obrigatório serão doméstico. O segredo, explicou várias vezes, residia na quantidade de livros aborrecidos que se esforçava por ler e na disciplina que essa leitura requeria.»

 

 

«Mas a verdade é que o país gosta de malandros. Gosta de pantomineiros e desculpa-lhes tudo. O país gosta de apreciar, nos outros, as mesmas faltas de carácter que o distinguem. Tal como as mulheres dos romances libertinos, que preferiam os canalhas, porque eram mais sedutores embora lhes ensinassem apenas o caminho da desgraça, o país também prefere os pantomineiros.»

 

 

«A Tia Benedita, o génio ultramontano da família, comparava os Cabrais à sanha demagoga do dr. Afonso Costa. Ela conhecia, à sua maneira, o elemento humano que se encaminhava para a corrupção e para a impostura.Os Cabrais estão em todo o lado, afinal: esclarecidos, cultos, abrindo estradas e dirigindo o progresso – mas temendo muito a liberdade e as ideias contrárias. Não porque, realmente, tenham medo de ambas; mas porque a liberdade e as ideias contrárias são correntemente um empecilho que desvaloriza a sua vontade de mandar.»

 

 

«A minha sobrinha Maria Luísa manifesta, cada vez mais esporadicamente, algumas perplexidades sobre a relação entre toda a bibliografia acumulada em Moledo e “o histórico” da família. Ela achava, em tempos, que a dimensão da biblioteca deveria afastar-nos da tradição conservadora do clã, até que ela própria (que votava no Bloco de Esquerda) foi escolhida para levar o retrato do senhor Dom Miguel a um artista de Braga, para que o cuidasse e reparasse. Expliquei, sem argumentos de peso, que não era preciso ser de esquerda para apreciar os grandes autores e que nem todos os bons escritores defenderam o comunismo, “o massacre das classes médias” (uma expressão histórica de Eça) ou o encerramento das igrejas. A questão era inteiramente diferente – ou até a inversa: como é que uma pessoa com tamanha biblioteca poderia ser “de esquerda”?»

 

 

«A mim, pelo contrário, uma casa sem duas prateleiras de bons livros parece-me uma parte do deserto de Moçâmedes (onde tivemos um tio agrimensor). É vaidade de velho e arrogância de um minhoto de antes da guerra civil (a de oitocentos, porque não houve outra). A minha sobrinha acha absurdo que, tendo eu lido alguns livros essenciais, e mantendo uma biblioteca razoável, me não importe de ser um conservador dos de primeira. Sobre isso não sei, mas respondo que acho estranho ela ter lido alguns desses livros, ter guardado o prazer de os escolher e de os guardar, e continuar a votar à esquerda.»

 

«No meu tempo havia toda uma mitologia em redor das ostras, um alimento do Inferno destinado a instantes de devassidão. O meu Tio Alberto, que se apaixonou por uma antiga princesa do Cáspio, achava as ostras um bom ornamento para o litoral galego mas não um dos pecados enumerados pelos Concílios – quanto ao caviar, sim, era chave da antecâmara da perdição. Ele considerava que, sendo o esturjão do Cáspio um sobrevivente entre as espécies condenadas pelo Dilúvio, algum motivo haveria para ser tão prezado. A sua princesa persa era uma senhora delicada e culta que nascera já fora da Rússia, de onde a família saíra nos anos vinte. Quando soube do romance, que durou muito tempo, a Tia Benedita temeu tratar-se de uma bolchevista (elas sabia de História apenas o essencial dos almanaques). O meu tio, bibliómano de São Pedro dos Arcos, não se deu ao trabalho de a desmentir. Remeteu-se ao silêncio, como um amante invejado, e limitou-se a suspirar pelo caviar.»

 

«Diante do vastíssimo número de escritores de hoje em dia, o velho Doutor Homem, meu pai, colocaria a hipótese de chamar pela polícia de costumes, uma velharia já no seu tempo. Mas a intenção fica.»

 

«O velho Doutor Homem, meu pai, comportava-se como um poeta satírico cujo propósito era rir dos românticos. Ele costumava dizer que a choraminguice portuguesa tinha sido transformada em lei pelo constitucionalismo e pelos liberais que tanto assinavam decretos como nos puniam com sonetos. A minha sobrinha sofre bastante quando ouve estas perversidades; ela acha que se deve premiar a “sensibilidade” e valorizar o lado “emocional” da vida. Nunca conseguimos chegar a acordo sobre o assunto. Acontece que a “sensibilidade” e o lado “emocional” da vida são coisas para consumo moderado, como os medicamentos, e que a sua prescrição deve ser consagrada para uso íntimo e estritamente pessoal.»

 

«A minha sobrinha acha que a bondade geral, a sensibilidade e a generosidade nasceram na margem esquerda dos caminhos, ficando a direita reservada para os espíritos tortuosos, para a maldade e para a insensibilidade. Por exemplo, a biblioteca. Com esta biblioteca, extensível em temas e autores como um planisfério elástico, eu não poderia levar a sério nem “o conservadorismo da família”, nem a existência do retrato do senhor Dom Miguel (guardado e protegido no casarão de Ponte de Lima), nem a ideia de que o mundo está razoavelmente bem feito. Eu devia, com algum exagero, evidentemente, esconder-me nas penumbras a lançar bombas contra a família, as classes médias e o senhor arcebispo de Braga.»

 

«Acontece que um dos desacertos com que o mundo tem lutado nasce da ideia de que “o bem” está à esquerda, a quem o futuro assenta como uma luva. Ao apropriar-se do “bem”, fica reservado o “mal” para todos os que não ponderam votar no dr. Louçã – desde velhos ultramontanos (que já não existem) a cépticos que manuseiam almanaques de história pátria dos últimos duzentos anos ou que duvidam das boas intenções da sociedade em geral. E, estando o “bem” em algum lugar, ele não pode praticar-se se não se transportar a bandeira das esquerdas. É, digamos, uma lógica insofismável.»

 

«Convivo com o passado sem remorso. Convivo com a História sem lembrar os pecados de outrora. Há uma parte do mundo que recordo com saudade, mas sei que nada disso regressa. Historiador da família, assim me quiseram por vezes, mas falhei: a minha família é um emaranhado de recordações desencontradas. Há ainda, pelos cantos, primos que não aceitam a Concessão de Évoramonte e não passam por Sines (onde o príncipe teria embarcado para o exílio) sem murmurar contra o usurpador. São heróis sem bandeira, silenciosos e ignorados. Meia-dúzia de memórias sem importância são o que me resta da minha consciência política.»

 

«Seja como for, a família tem conservado o retrato do senhor D. Miguel entre as suas relíquias, e de vez em quando (por desfastio e irrespon­sabilidade) limita-se a comparar o brio oratório de José Acúrcio das Neves com o repentismo de Mouzinho da Silveira, para que, na disputa, possa atri­buir alguma vantagem aos seus. Trazemos nos genes, pois, a inscrição dos derrotados, o que nos ensinou os hábitos da discrição, da benevolência e da ironia.»

 

«Hoje em dia diz-se bastante mal do “tabu”. Eu acho o “tabu” uma coisa apreciável e benéfica, independentemente da opinião que coloca a “civilização judaico-cristã” nas ruas da amargura, carregada de pecados e de traumatismos. Acho benéficos os tabus sobre o sexo e os desastres familiares, por exemplo – eles são a linha que delimita aquilo que é público daquilo que é estritamente privado.»

 

«Inopinadamente, como acontece com um rapaz de trinta anos largamente curado de um antigo desgosto de amor, acreditei enamorar-me de novo. Atribuí isso ao clima, à distância de Portugal e, naturalmente, à beleza de uma jovem com quem visitei os restaurantes da moda e que me ensinou, sem saber, a apreciar a leveza da vida. A passagem do tempo dilui essa impressão de época, como os aromas do Jardim Botânico ou da maresia de Copacabana – mas nunca desfez a evocação dessa beleza de outrora, muito diferente das convenções matrimoniais que me estariam destinadas no Portugal governado pelo doutor Salazar.»

 

«Os anos sessenta não foram, pois, uma grande novidade. A educação liberal, o cinema e a generosidade dos costumes, longe de produzirem uma geração interessada em reformar a pátria e em civilizar a política, fabricaram grupos de rapazes de mau feitio e jovens senhoras desejosas de degradação e de liberdade. De modo que o doutor Homem, meu pai, decidiu gozar a vida.»

 

«A ideia é que se fala abundantemente de sexo – isso acontece, diz a minha sobrinha, porque se fala demais do que não se tem e porque as mulheres ‘andam malucas’. Ignoro. A minha relação com o sexo é simpática e prometedora, uma vez que há longos anos que não nos encontramos. Não se trata de uma infelicidade; remetido para o velho eremitério de Moledo e afastado do casarão de Ponte de Lima, aceitando – por vontade própria e sem rezingar – ter a idade de um objecto arqueológico, apenas recordo o perfume das paixões de outros tempos: é um perfume de mimosas na estrada do Minho, o perfume das amoras nos caminhos das serras ou nos arredores das aldeias, ouvindo ao longe a passagem de uma banda de música perdida num adro. O sexo verdadeiro não tem muito a ver com o sexo verdadeiro; é todo feito de recordações, uma penumbra de devassidão e risco cai sobre a nossa vida vinda do passado, onde já nada se perde e onde só as boas coisas se encontram.»

 

«Se o livro tivesse de ser dedicado a alguém, escolheria duas pessoas (além do velho Doutor Homem, meu pai, da Tia Benedita, que ao longo de oitenta anos nos protegeu do bolchevismo, da devassidão moral e do fantasma de Afonso Costa, ou do Tio Alberto, o bibliógrafo e gastrónomo de São Pedro dos Arcos). Falo da minha sobrinha Maria Luísa, leitora fiel e hóspede quase permanente de Moledo, a única esquerdista que sente alguma ternura pelo miguelismo da família. E falo de Torcato Sepúlveda, um jornalista que tive o prazer de conhecer durante um almoço nas margens do Minho. Descobrimos, ao mesmo tempo, que éramos leitores de Camilo e, provavelmente, os últimos portugueses a ter lido o Minho Pittoresco ou o Tristram Shandy

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Botto.

por FJV, em 19.03.09

Passaram cinquenta anos sobre a morte de António Botto, no Rio de Janeiro, numa das ruas onde hoje passam mais turistas portugueses, a Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Eduardo Pitta organizou (para a Quasi) a obra completa de Botto, o que é de festejar. O país envergonha-se de António Botto porque aprecia muito a pequena anedota que desvaloriza uma obra, uma personagem, um nome. O país muito macho e alazão (mas muito bicha às escondidas) suspeita de Botto e evita usar o seu nome. Faz mal. O contacto com a sua poesia só eleva o leitor e abre a caixa dos preconceitos, para os ver cair depois. Um dos títulos das suas obras completas é Cartas que Me Foram Devolvidas, o que dá bem a ideia do medinho com que esta gente ficou, só de ouvir dizer o nome de António Botto.

[No Correio da Manhã.]

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