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O fim do carnaval lusitano.

por FJV, em 22.02.09

 

O Carnaval português sempre me afligiu. Lembro-me dele quando ainda só era Entrudo e não dispúnhamos daquelas raparigas da Mealhada a dançar na rua, debaixo de chuva, abrigadas pelos seus simpáticos biquinis. Essa é a primeira imagem que me assalta: o frio, o desconsolo meteorológico, a desadequação climática. Isso e os seus desfiles, em carros alegóricos montados em cima de tractores. E dos fatos de má qualidade, de brilho barato, cintilante nos domingos de Fevereiro, escarlates. Tinha pena das raparigas. Também me penalizava pelos rapazes, da cidade ou da província, muito machões durante o ano, mas que no Carnaval se mascaravam de meretrizes ou de tias velhas. Mas, insisto, o pior era o frio de Fevereiro, os chuviscos a meio da tarde, o granizo nas ruas de Ovar, de Cantanhede ou Olhão. Um resto de misericórdia vinha do fundo da consciência pedir protecção para os desfiles.
Aos desfiles, propriamente ditos, vi-os sempre pela televisão e bastou-me: umas raparigas sem o sentido das proporções dançavam muito mal o samba, agitavam bandeirinhas, sorriam, enregeladas, com peças de tule cobrindo uns corpos muito brancos que ainda não tinham feito a dieta habitual antes da época balnear. O corpo das portuguesas, neste domínio, é um campo de sacrifícios: durante o ano alimenta-se bem e corajosamente; entre Abril e Maio começa a penar e a penitenciar-se, preparando-se para a exposição solar do Verão. É um mundo de desgraças. Só o Carnaval, com as suas peças de tule com penduricalhos de brilhantes falsos em cima, permite entrever as carnes esbranquiçadas que hão-de estar mais passadas no S. João. As figuras, dos «carros alegóricos», são o bombo da festa tradicional – políticos da televisão, caricaturas sofríveis, mal pintadas, ditos de gosto duvidoso, misturando a tradição popular da província com a piada do Parque Mayer. Tirando o dr. Alberto João Jardim, saltitando na Avenida Arriaga, no Funchal, os desfiles são pobres. Pobres e cheios de frio.
Depois, há umas actrizes de telenovela portuguesa e os seus companheiros de ofício, que vão também aperaltados no alto dos carros (que lembram, a milhas, os «trios eléctricos» de Salvador, eufóricos e encalorados): também aí é uma desilusão. Sob os tules, vêm mais panos para esconder a «beleza tradicional portuguesa». As actrizes de telenovela brasileira chegaram entretanto para animar um pouco a paisagem: sorriem muito, recebem o cheque, levantam os braços, cumprem a sua função.
Fico sempre espantado com as notícias das televisões, que falam dos «foliões» que aguardam a passagem dos desfiles: e as imagens dão conta de umas famílias apinhadas nos passeios, com os miúdos encavalitados vendo passar o cortejo de horrores. Isto, claro, sem falar da música permanente de «mamãe eu quero, eu quero mamar» que todas as discotecas do Algarve passam aos berros para que comboios de «foliões», organizados com a espontaneidade de uma missa em latim, se meneiem e transpirem adequadamente. Não sei. Não sei. Mesmo para Portugal, é muito horror junto.

[Publicado há cinco anos, na coluna de então no JN.]

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Eh eh eh

por FJV, em 22.02.09

 

I Am Charlotte Simmons, de Tom Wolfe, sai em meados de Março (Dom Quixote). Estou a lê-lo. Não preciso de dar outra explicação, pois não?

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Os salvadores.

por FJV, em 22.02.09

Eu também ouvi, pela rádio, esta notícia. Jorge Assunção, no Delito de Opinião, tem um comentário certeiro. Cuidado com os salvadores do sistema financeiro.

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PS-PSUV.

por FJV, em 22.02.09

Uma coisa é o relacionamento do Estado português com o Estado venezuelano; outra coisa a comunhão de pontos de vista entre um partido europeu e um caudillo latino-americano. Que se saiba, não é o PS a negociar fornecimento de petróleo e de produtos alimentares nem a defender os direitos da comunidade portuguesa na Venezuela -- isso cabe ao Estado português. O convite para o congresso de um partido supõe algum tipo de solidariedade ideológica, coisa que não se sabia que existia entre o PS e o PSUV. Ficamos cientes. Mas não é uma boa notícia.

 

A ler: Tomás Vasques sobre o convite do PS a Hugo Chávez.

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Se assim foi.

por FJV, em 22.02.09

O que é bom no jornalismo que não faz perguntas é a faculdade do esquecimento. Yiossuf Adamgy esclarece-nos sobre o papel da mulher no Islão relembrando que o Ocidente é o campo da devassidão, das mini-saias, dos tops e dos cabelos molhados. Não menciona o que disse sobre a lapidação de Amina Lawal, na Nigéria: que «pairava acusação de adultério, sem a apresentação de quatro testemunhas oculares, que a lei da sharia exige. E ela parece que sempre negou ter praticado o adultério. Se assim foi (...) penso que não haverá lugar à aplicação dessa pena a Amina Laval.» O problema é que não havia quatro testemunhas, como ele próprio dizia, numa entrevista que lhe fiz; houvesse apenas duas, e «haveria lugar à aplicação dessa pena».

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