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Alerta amarelo, 3.

por FJV, em 10.01.09

Outra coisa interessante: as reportagens da televisão no velho interior português. Aparece uma repórter embrulhada em roupa importada do Canadá, de microfone estendido, procurando reacções ao frio em Bragança, Vinhais, Montalegre, Terras de Bouro ou Manteigas. Encontra um grupo de cidadãos locais a quem aponta o microfone: «Então, está frio?» Os cidadãos locais entreolham-se: «Está, de facto, está frio... Em Agosto não está assim...» Ela: «Mas está mesmo frio, não está?» Os cidadãos locais, voltando-se de novo para a repórter: «Sim, sim, é capaz de nevar, é...» Ela: «Então é porque está frio...» Os cidadãos locais sorrindo: «Sim. Um friozito. Ontem fez aí dois ou três graus negativos.» E o cidadão local ajeita um pouco o casaco sobre a camisa de flanela: «Bom, no ano passado nevou por esta altura.» Ela: «Nevou? Brrrr... E então como é que fazem?» O cidadão local: «Agasalhamo-nos. Acendemos a lareira mais cedo e tal, um bagacito, e esperamos que passe. A água congela na canalização, mas isso é todos os anos. Em Janeiro não vamos para a rua em tronco nu, pelo menos de manhãzinha.»

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Alerta amarelo, 2.

por FJV, em 10.01.09

 

Não sei quem meteu na cabeça das novas gerações a ideia de que somos um país de clima moderado. Não somos. Portugal é destemperado. Só isso explica a parvoíce e a histeria dos jovens jornalistas que se exaltam com temperaturas negativas como se fosse o fim do mundo e que tratam o fecho de uma estrada no Minho ou «para lá do Marão», por causa da neve, como uma catástrofe a pedir Protecção Civil, «alerta laranja» e primeira página. Muita telenovela carioca, só isso explica a tentação de colocar Portugal nas Caraíbas, ou muito optimismo por causa do aquecimento global. Só assim se compreende esta coisa, citada por «A Protecção Civil recomenda que, em caso de frio, se vista várias peças de roupa em vez de só uma.»

Quando eu era miúdo (bom, eu vivia no meio do frio) vestíamos de Inverno, de meia-estação (bem vistas as coisas, a estação «mais elegante») e de Verão. No Inverno, se havia frio, vestíamo-nos para o frio. Hoje, na verdade, algumas pessoas queixam-se do frio mas estão vestidinhas para um Outono morigerado, com brisas tépidas durante a tarde e sopro de Norte depois do crepúsculo. Portanto, sim, entendo que é necessário que a Protecção Civil avise a pátria, no ecrã da televisão: «Está frio, cidadãos. Tempo de roupinha interior, flanelas, lã à antiga, luvas e cachecol. Se chover, usem botas ou guarda-chuva além da gabardina. Em caso de neve, cuidado com o calçado. Não tomar banho de mar nestas condições. Segue-se um espaço de pedagogia cidadã em que o nosso especialista em meteorologia vai explicar como se usam ceroulas. Continuamos em alerta amarelo.»

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Os papistas.

por FJV, em 10.01.09

 

Uma coisa ridícula.

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Corram às bancas.

por FJV, em 10.01.09

Saiu hoje. Para as bancas.

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A Cinemateca e o cortejo de amigos.

por FJV, em 10.01.09

Há uma coisa interessante no adeus de João Bénard da Costa na Cinemateca: dois coros de assobios. Um deles, habitual em todas as actividades, é o coro de ressentimentos contra quem ocupou um lugar só porque esteve na Cinemateca depois de Luís de Pina, um dos nossos outros «apaixonados pelo cinema» (sem ironia nenhum); o outro, mais estranho, é o das «conjunções adversativas» – Bénard era muito bom «mas» dirigiu a coisa como se estivesse em casa. Verdade que ele estava em casa. Graças a ele e às suas equipas a Cinemateca foi o que foi: um lugar para ver cinema, para ir protegendo os clássicos (coisa fundamental, como se esquecem com alguma frequência) e para se falar de cinema. Bénard da Costa esteve lá muito tempo? Sim. Conhecendo o saco de gatos que é cada «área da cultura», melhor que fosse Bénard, respeitado e com história, do que um «moderno» que estivesse na disposição de tanto modernizar a Cinemateca que ela deixaria de fazer sentido e estaria a concorrer com as salas comerciais ou com os ciclos de vídeo. A Cinemateca, desculpem lá, deve ser um museu e, já agora, um museu do cinema; o destaque essencial e quase absoluto deve ir para os clássicos e para o património do cinema – apesar de muita gente ignorar o trabalho subterrâneo da Cinemateca em matéria de preservação e restauro, por exemplo. Pessoalmente, e das pessoas que conheço (uma delas é minha amiga), só vejo duas ou três com perfil para dirigi-la neste sentido. Bénard imprimiu um gosto pessoal à programação da Cinemateca? Sim. E estranhava-se o contrário.
Mas agora há outra coisa perigosa. Chama-se Pedro Mexia. O João Gonçalves acha que o ciclo vicioso vai continuar. Eu escrevi «Pedro Mexia é um nome capaz de renovar a casa», coisa que me pareceu inocente, e o João atribui a esta afirmação a suspeita de Mexia se estar a transformar em «outro sério candidato à eternidade e a novo cortejo de amigos» (do qual eu faço parte, portanto, o que é estranho porque não tenho nada a ver com o assunto nem frequento os «interesses do cinema»). Percebo isso noutras pessoas, mas aborrece-me que o despeito cresça e que a suspeita se multiplique, sobretudo a partir de pessoas que prezo muito, como o João. Acontece que o Pedro Mexia (que, quando apareceu nos blogs e nos jornais, era tratado como um vagabundo «de extrema-direita», «jovem turco», «jovem velho», etc.) é uma das pessoas mais talentosas quer para escrever sobre cinema, quer para falar sobre literatura, quer para fazer o que lhe apetecer, excepto, salvo erro, ser um burocrata da política e da cultura ou lidar com ele próprio (o que faz dele uma pessoa ainda mais séria). Tenho uma grande admiração pelo Pedro Mexia, que não deriva, apenas, de ser amigo dele – num mundo de ignorantes e de meias leituras, de nababos experimentais e de gente sem humor, o Pedro Mexia nem precisava de muito esforço para se distinguir. Mas, como é uma pessoa séria (mesmo que não se concorde com ele nisto ou naquilo), ele trabalha muito, não diz as coisas por dizer e não precisa de um partido político para ser quem é. Num mundo de pequenos sevandijas incultos, isto não faz apenas uma pequena diferença; faz toda a diferença. Portanto, caro João, eu não faço parte de um «novo cortejo de amigos» de Pedro Mexia; eu faço parte do «velho cortejo de amigos» do Pedro Mexia; e isso aplica-se a outros amigos, em cujos «velhos cortejos» me incluo e dos quais só sairei muito dificilmente. Sei distinguir o que é pura amizade da admiração intelectual, e suponho que sei distinguir aquilo que é o «valor intelectual» da «capacidade para exercer um cargo» (sendo que há pessoas com grande «capacidade para exercer o cargo» que não têm «valor intelectual» substantivo). Acontece que o Pedro Mexia tem ambas as coisas, embora ele suponha que não tem a segunda delas e nunca se pôs em bicos de pés para chamar a atenção para a primeira.
Suponho, também, que de entre as pessoas capazes de gerir a Cinemateca (e entre as quais estão essas «duas ou três com perfil») é preciso procurar alguém capaz de manter um «perfil clássico» para a instituição. Porque é esse o seu papel. Num país onde tudo tem de ser «novo», «moderno», «atrevido», «divertido», «inovador», «fracturante» e, até, pasme-se, «jovem», tem de haver instituições que mantêm o seu perfil clássico, conservador, de museu, tranquilo, e até regular. A Cinemateca, até porque o cinema está sempre a fazer-se, é uma delas.

 

PS - Disto isto, há ainda o seguinte: não conheço pessoalmente Bénard da Costa. Li os seus livros e acompanhei, como toda a gente, a programação da Cinemateca. A única vez que falámos, num festival de cinema algures, ele cravou-me um cigarro e eu ouvi-o, deliciado, a falar sobre, repito, as mamas de Jane Russell, que nesse dia tinha chegado a Lisboa e matéria sobre a qual tinha escrito um artigo no O Independente.

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