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Julien Gracq, 1910-2007.

por FJV, em 23.12.07


Era o «classique moderne» francês, «le dernier des classiques», o autor de A Costa das Sirtes.
Pierre Assouline tinha escrito sobre ele um mês antes de Gracq completar 97 anos:

«Il n’écrit plus, ou plutôt, il ne publie plus depuis quinze ans, ce qui ne signifie pas qu’il a cessé de remplir des petits carnets, de lire ou d’observer le monde depuis sa maison de famille de Saint-Florent-le-Vieil sur les bords de Loire. Désormais seul depuis la mort de sa soeur auprès de qui il vivait dans les meubles de leurs parents, il consacre ses journées à la découverte des livres qu’on lui envoie, à répondre aux lettres avec une urbanité et une politesse d’un autre âge, à recevoir les visiteurs et à marcher.  Drôle de personnage: une vie retirée de longue date, le refus du Goncourt, seize livres vendus non massicotés et tous publiés chez le même libraire-éditeur José Corti, le refus du passage obligé par les fourches caudines de la télévision, le refus du livre de poche. Gracq, c’est l’écrivain qui dit non.»

É um esplêndido texto de homenagem que termina assim:

«Il partira convaincu que le public de ses splendides fragments n’existera plus en 2020, la culture dite horizontale (toute la littérature mondiale) l’ayant emporté sur la culture dite verticale (l’héritage des Anciens). S’il doit vraiment n’en rester que quelques uns, soyons ceux-là

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Beluga, telemóveis e capital bancário.

por FJV, em 23.12.07


Eu digo-te que crise é essa, Eduardo: é a da classe média, que ameça ruir, sujeita ao peso dos impostos, dos salários e dos deveres & obrigações, mesmo antes da queda. Aparentemente, a «carestia» dos produtos acima de mil euros nas lojas gourmet e de telemóveis é o sinal, para o governo, de que as coisas estão melhores do que dizem; mas, na verdade, é o resultado de uma crise mais vasta – em que a classe média, que pensava que ia viver razoavelmente, a beber Gouvyas três ou quatro vezes por ano, se esforçará a partir de agora por explicar aos filhos que «não pode ser», que «não se pode comprar tudo», que «há dificuldades», enquanto essas coisas estão nas prateleiras como sinal de uma inversão de valores. No meio disso, os telemóveis são um luxo imbecil e o Beluga uma excentricidade inexplicável.

Ora, um tipo que fala de inversão de valores é hoje um representante do paleolítico. Passo diante das lojas de telemóveis (para mim, um telefone desses existe para receber chamadas e fazer algumas, tu sabes) e interrogo-me sobre a natureza humana (mas eu devo ser um desses tipos do paleolítico) ao ver preços acima de 300 ou 500 euros numa loja gourmet. Uma pessoa faz contas ao salário mínimo, ao salário médio e ao salário razoável – e esclarece, mesmo sem máquina de calcular, que não pode ser, e que há uma perversidade geral a tomar conta do sistema. Eu não sinto falta do telefone de 1500 euros, mas surpreende-me, como a ti, que se vendam tantos; só pergunto o que essa gente faz com o resto da vida, se querem beber Gouvyas de vez em quando.

António Guterres achava que o país estava bem porque havia telemóveis e férias no Algarve. O país não estava bem; viu-se. Tu perguntas, com ironia, «onde está a crise?», mencionando cem gramas de caviar Beluga a 410 euros cada latinha (bem as vi, ainda a cheirar ao Cáspio). A crise está, precisamente, aí. Vejamos: quanto custa um jantar num «restaurante médio» onde não se confundem os talheres e os guardanapos são apresentáveis? Digamos, 30 a 40 euros em dias de festa. Uma família, digamos, gasta 160 a 200 euros num jantar desses. Um digno homem de uma agência de viagens informa-me, com ar pesaroso, que 40% dos seus clientes «não corporativos» pagam as viagens a crédito – há pessoas que viajam agora a crédito para «os trópicos» e que ainda não liquidaram as viagens do Verão.

O resto é capital bancário. O BCP paga. A Cofidis paga. Alguém há-de não poder pagar. Quase metade do país há-de não pagar. Por isso, a crise é a da classe média, empurrada pela miragem do Beluga a 400 euros e dos telemóveis idiotas a 1500 euros. Que rica imagem, dirá o governo. Que triste imagem, dirá o coro de pessimistas vindos do paleolítico a lembrar que não apenas os almoços não são grátis como, ainda por cima, são de fraca qualidade.

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Nem de propósito.

por FJV, em 23.12.07
A propósito desta notícia em que Pedro Abrunhosa se junta aos que pedem a proibição do circo e dos jardins zoológicos, eu sei bem por onde começar.

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Não deixem que o Sr. Director-Geral da Saúde se demita.

por FJV, em 23.12.07
Continuo (e continuarei) a minha saga contra a hipotética demissão do Sr. Director-Geral da Saúde. Ele ameaça ir-se embora caso a lei do tabaco não seja levada à prática. Eu quero que ele se demita caso não consiga impedir que os criminosos dos bares de Santos, do Saldanha e do Bairro Alto continuem a vender shots de álcool puro aos adolescentes de 12, 13 e 14 anos.
Se eu fumar num bar, pago uma multa de centenas de euros; se esses energúmenos continuam a vender, com protecção policial, os shots (a um euro), o pólen e a bolota, a crianças dessa idade, são considerados empresários da noite. O Dr. Francisco George tem aqui outro motivo para pedir a demissão. Ou isto não é um problema de saúde pública?

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Antes de começares a comer camarões de Espinho.

por FJV, em 23.12.07
Rita, olha. Obrigado pela distinção. Esta terra está de cócoras, suja e poeirenta. O frio não a melhora, nem a Europa. Tu bem sabes. Bom ano.

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Anti-abrupto.

por FJV, em 23.12.07
Crónica de Ferreira Fernandes no DN de hoje.

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Às vezes sou galego.

por FJV, em 23.12.07



Período ideal para romarias galegas, com o frio, a neve lá em cima, e o apetite como de costume. Depois do castelo de Monterrey e das duas livrarias de Verín, mais uma loja confortável, fui em visita ao velho Mesón da Chispa (agora Bar do Jamón) com um dos meus filhos, entregar-lhe o testemunho. Vinho de «nota cinco», um branco de Monterrey perfeito, enquanto líamos a Marca, a Voz de Galicia e o cardápio, que não mudou quase nada nos últimos vinte e cinco anos. Pão fantástico, ainda a queixar-se do fogo. O vinho servido, a copo (dois, no caso); justamente, num copo bonito e elegante (trata-se de uma taberna galega). Depois, empanadas feitas no forno esta tarde. Pulpo de feira a seguir: no pratinho, de madeira, só água da cozedura, sal, azeite (caseiro) e um tantinho de colorau. A fechar, os calamares de Corcubión, apenas passados por farinha, e um pouco de salada ao lado. Café no final. Comíamos perto da lareira (naquela parede havia, há vinte anos, fotografias de todo o plantel do Real Madrid e um recorte de um artigo de D. Alvaro Cunqueiro sobre os pinchos locais e a forma de temperar as carnes). Perguntei se podia fumar. O Luis, dono do mesón, apontou-me o cinzeiro e o aviso onde se lia «en este establecimiento se permite fumar». A factura total foi de 12,60€. Às vezes sou galego. Espanhol. Às vezes somos de um lugar onde nos sentimos bem.

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Parlamentares e autarcas socialistas estavam a apoiar. Deve ser por causa da sensibilidade social.

por FJV, em 23.12.07
O ministro da Saúde anunciou ontem o encerramento do bloco de partos de Chaves e dos Serviços de Atendimento Permanente (SAP), no período nocturno, de Murça, Alijó, Vila Pouca de Aguiar e Peso da Régua. Não sei o que é pior: se o facto de o ministro aparecer a anunciar isto com ar satisfeito, se a vergonhosa presença de eleitos socialistas a apoiar o ministro. Começa a ser notória a mexicanização da falta de vergonha.

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O cantinho do hooligan. Atrasei-me.

por FJV, em 23.12.07
Foi por não ter net ontem, mas insultei-os em directo. Quaresma fez falta? Sim. E Postiga também fez falta no banco, durante todo o jogo.

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A felicidade do sistema político português.

por FJV, em 23.12.07


Não tenho encontrado muitas referências ao facto na blogosfera e, portanto, não deve ser importante. Mas creio ter ouvido Luís Filipe Meneses dizer qualquer coisa sobre a rotatividade na presidência das instituições financeiras, a propósito da ida de Carlos Santos Ferreira da CGD para o Millenium/BCP. A lógica era esta, salvo erro: se Carlos Santos Ferreira, um socialista, vai para a presidência do maior banco privado, chegou a hora de nomear um gestor «próximo do PSD» para a presidência da Caixa (o nome proposto era Miguel Cadilhe): «Está na altura de o Governo nomear para presidente da CGD uma personalidade próxima da área do maior partido da oposição».
Ora aqui está um interessante princípio que em muito contribuirá para a felicidade do sistema político português, e do bloco central em particular. É claro que a ninguém escapa a utilidade de Santos Ferreira no BCP (muito menos aos seus accionistas). Mas, sendo assim, muitas coisas se explicam. Uma delas é a risota que vai por aí fora.

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