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Os ecologistas que comam bacalhau.

por FJV, em 13.12.07


A fama é isto: nós, portugueses, somos devoradores de bacalhau. Posto isto, um ecologista pediu-nos (a todos nós, mesmo os que dão fazem parte da esquadra natalícia) para comermos menos bacalhau porque se trata de uma espécie em vias de extinção. Depois deste apelo, vários outros se seguiram, nos dias seguintes (a ordinarice é uma vaga de fundo), e com outros intérpretes (eles multiplicam-se nestas ocasiões) sempre de dedinho em riste: somos uns bárbaros, andamos a destruir o planeta com a nossa mania de comermos bacalhau, devíamos ter vergonha.
Finalmente, acabo de saber, graças a Dorean Paroxales (agradeço muito, Dorean), do blog Verdade ou Consequência, que «na Grã-Bretanha se come um terço de todo o bacalhau pescado no Mar do Norte» Mais: «Na sua maioria irá ser coberto por uma camada farinácia e frito até à medula. Quando chega ao prato a espessa cobertura poderia esconder qualquer peixe e a fritura qualquer sabor. Mas eles insistem no bacalhau; aparentemente, é mais barato que a arinca (haddock).»
Pois acabo também de saber, pela Isabela (do O Mundo Perfeito),
que «os povos do Báltico comem tanto bacalhau como nós»; entretanto, ela descobriu que «os MacFish são feitos de bacalhau».
Portanto, ecologistas, cresçam (como o bacalhau) e compareçam à mesa. Não me lixem.

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Memórias de 2007. (3) Salman Rushdie.

por FJV, em 13.12.07


Salman Rushdie foi feito cavaleiro pela rainha de Inglaterra em Junho de 2007. É um facto importante, não pela ordem atribuída mas porque Rushdie é uma das primeiras vítimas do
terrorismo. Salman Rushdie podia ter-nos explicado, com antecedência, como as coisas se passam nesta matéria da liberdade. Uma boa faixa de intelectuais e de gente da política, apesar de tudo, encontra sempre motivos para compreender essas razões, ou pelo menos as razões que levaram à fatwa que condenava Salman Rushdie à morte -- e, por arrastamento, os seus editores e tradutores. Vamos e venhamos, trata-se de uma coisa selvagem condenar alguém à morte por blasfémia. Um ou outro escritor inglês, na altura da fatwa lançada por Khomeini contra Rushdie, apareceu a dizer que o autor dos Versículos Satânicos merecia a ordem para matar decretada em Teerão; ele não teria nada que se meter com o profeta, com o Alcorão ou com os imãs, e, portanto, devia ser punido por isso. Havia uma certa inveja literária, certamente, mas de vez em quando o monstro acorda entre nós, cheio de medo, invocando valores culturais e heranças espirituais: em nome desses valores desculpabiliza-se a tortura, a humilhação de mulheres ou de adúlteros, a excisão feminina, o apedrejamento de homossexuais ou a mutilação de adolescentes que praticaram sexo à margem da lei.
Rushdie deixou de ser o «escritor perseguido» para passar a vestir a pele de autor culpado pela morte de alguns tradutores do seu livro, de atentados contra editores do livro e pessoal da edição e livrarias em todo o mundo. Por que não culpar os comandos islâmicos que, efectivamente, tinham sido os autores desses atentados? Por duas razões: em primeiro lugar, o «carácter» de Rushdie (a sua antipatia, a sua vaidade, o facto de escrever bem); em segundo lugar, aí está, porque Rushdie «não tinha nada que se meter com o Islão».
Um dos escritores cujos livros mais admiro, John Le Carré, foi, então, muito claro na sua condenação de Rushdie. Mas pouco ou nada claro na identificação dos seus próprios argumentos: em primeiro lugar, misturando no libelo as tradicionais acusações de «colonialismo» dirigidas a um inglês de ascendência oriental que tratou mal os muçulmanos (porque se rendera, supõe-se, aos encantos do Ocidente, da liberdade de expressão e do sistema de direitos de autor); em segundo lugar, porque Rushdie era um tremendo egoísta que punha em risco, por causa do seu livro, a vida de editores, tradutores, livreiros, funcionários dos correios e leitores anónimos que não se manifestaram em Londres — em 1988, e aproveitando os direitos à liberdade de expressão e de manifestação — defendendo a eliminação sumária de um escritor (aqui, a palavra «escritor» pode ser substituída por qualquer outra, evidentemente); finalmente, assinalaria Le Carré, porque ninguém teria o direito de insultar uma grande religião.
O caso de Rushdie e das respostas de Le Carré e de outros autores ocidentais, criados em liberdade política e religiosa, mas que não resistiram aos encantos do servilismo e à «questão colonial e religiosa», é sintomático do caminho que podem levar as perversões no campo intelectual. É «correcto» defender a liberdade de um escritor (e, quem fala de Rushdie, fala também de Soyinka, ou dos censurados nas escolas e bibliotecas puritanas da América)? Ou é «correcto» defender os que, em nome de um direito de resposta à agressão secular do colonialismo e da agressão económica e religiosa, acabam por ver com bons olhos a legitimidade da «fatwa», só porque o Ocidente é malvado e ainda mais perverso?
Na altura da distinção atribuída a Rushdie, uns cavalheiros do Paquistão não gostaram e acham que se trata de mais uma forma de incentivar o terrorismo; a solução seria retirar a distinção ao escritor para não ofender o Islão. No Irão, um conselho qualquer dizia que isto não ficava assim e que Rushdie só terá paz quando for assassinado. Como se recordam, já tivemos um ministro que compreendia estas cousas, que não passam de reacções contra a licenciosidade.

Memórias de 2007.(1) O rugby. (2) A miséria estudantil.

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Boa média.

por FJV, em 13.12.07


Uma pessoa sente-se realizada no seu patriotismo quando percebe que contribui para a média nacional em qualquer coisa.

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Abertura à sociedade.

por FJV, em 13.12.07


Por exemplo, nisto sou contra: a abertura da escola à sociedade. Abrir a escola à sociedade? Já acho mal que a gestão das escolas possa contar com a participação de pais e autarcas; o seu limite de influência deve ser, apenas, uma espécie de conselho consultivo. Mais nada.
Agora, esta ideia de «abrir a escola à sociedade», muito certinha e perfeita, não quer dizer absolutamente nada. Acho, aliás, que a escola já está «aberta demais à sociedade», que a enche de lugares-comuns, erros ortográficos, sintaxe de sms e outros elementos de distúrbio. A democracia, que transformou as escolas em «estabelecimentos de ensino», tem de resolver esse problema com a sociedade. Para ver se a escola volta a ser escola.

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Debate sobre educação. Entre novidades e pacóvios.

por FJV, em 13.12.07
É necessário um esclarecimento sobre este post e as suas razões. O Carlos Araújo Alves no seu blog e a Cristina Gomes da Silva nos comentários acharam que a minha objecção era contra a nova forma de gestão das escolas anunciada por José Sócrates no parlamento; insisto que não. Sou, inequivocamente, como já escrevi antes, pelo cargo de director da escola. O de reitor da escola (como defende o João), o de uma autoridade da escola, e muito próximo desta forma, mas menos abrangente.
A questão é que neste debate parlamentar sobre educação, em que muito haveria a dizer, não se apresentou ninguém a desenhar o quadro de erros cometidos pelo governo, nem -- tão pouco -- alguém que conheça a escola, que saiba o que passa verdadeiramente. O PSD, mais uma vez, ficou mal servido com Pedro Santana Lopes, que é, de facto, uma das pessoas que menos poderá falar do assunto.
Em vez de debater a situação da educação (que não se resume, longe, longe disso) a questões sindicais, tudo se resolveu com o anúncio de mais uma novidade. O que os jornais querem é novidades; o que o nosso tempo quer é novidades. De cada vez que o primeiro-ministro quiser apresentar um novo pacote legislativo, uma ideia, uma iniciativa, basta-lhe ir ao debate mensal ou quinzenal do parlamento. Triste oposição. Medonha. Cheia de pacóvios.

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Natal em Dezembro.

por FJV, em 13.12.07
Coisa de Dezembro, tão habituais. No Geração Rasca, o Carlos desenha o quadro de coisas regulares.

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Recordações de Casablanca.

por FJV, em 13.12.07




Dar El Beida (o seu nome em árabe) ocupa o lugar de várias cidades abandonadas. Em primeiro lugar, Anfa, a cidade que os portugueses arrasaram no século XV com dez mil soldados que expulsaram os seus habitantes. Depois, a modesta Casa Bran­ca portuguesa que o terramoto de 1755 destruiu e que foi reerguida cerca de 1770 pelo sultão Mohamed Ben Abdullah, que também fundou Essaouira. A nossa presença em Marrocos termina nessa altura, aliás, depois do abandono de Mazagão (El Jadida), cujos habitantes são enviados para o limite norte da Amazónia brasi­leira (actual Amapá). E a Casablanca onde está a marca dos mercadores espa­nhóis, antes de, no início do século XX, ser ocupada pelos franceses. É im­possível não ver na poeira de Casablanca a marca dessa história fantástica de uma cidade sitiada diante do Atlântico, po­voada e repovoada, abandonada e retoma­da, habitada por comunidades de todas as crenças, sobrevivente às guerras e inva­sões que atravessaram o Mediterrâneo.
O que transforma Casablanca «num caso», para todos nós, é que fica a cin­quenta minutos de Lisboa, do outro lado do Mediterrâneo. Em cinquenta minutos passamos de uma das margens da Europa para uma das fronteiras de África e do Is­lão. Há quem pense que se trata de uma passagem entre o que conhecemos e o que não conhecemos, mas não é bem assim. Casablanca recordou-me o belíssimo ro­mance histórico de Pedro Canais, A Len­da de Martim Regos (publicado pela Ofici­na do Livro) – nele, o herói Martim Regos passa de uma civilização a outra, da Cristandade ao Islão (com o judaísmo de permeio, ainda), com uma facilidade sur­preendente, transformando-se de acordo com a vida das cidades onde pernoita e dos países que o aceitam. Hoje, recordando Casablanca (que visitei em 2007), sinto que o Mediterrâneo nos separa de um mundo que devíamos conhecer melhor antes que a comunicação se torne totalmente impossível.
E é isto que nos devia incomodar.

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Memórias de 2007. (2) A miséria estudantil.

por FJV, em 13.12.07


Um dos momentos de 2007 foi a divulgação do estudo «Inquérito aos estudantes da Universidade de Coimbra: consumos culturais, participação associativa e orientações perante a vida», realizado por Elíseo Estanque e Rui Bebiano. Vale a pena retomar o comentário, da época, escrito por Rui Bebiano no seu blog:
«Cerca de 18,3% dos inquiridos revelou jamais ler livros. Destes, 7,3% pertencem às Artes e Letras, 10,9% ao Direito e 13% às Ciências Sociais, áreas que estão num dos extremos da escala. No outro, quase 48% de Desporto e 40% dos alunos das diversas Engenharias afirmaram jamais pegarem em tais objectos. Do conjunto, para cada rapariga que declarou não ler livros, existem três rapazes que nunca o fazem. Partindo do princípio - não provado, mas que me parece admissível - de acordo com o qual muitos dos inquiridos terão, por pudor ou incerteza, entendido que raramente lêem quando de facto nunca lêem, os valores reais poderão ser ainda mais desoladores.»
Haver vinte por cento de estudantes de Letras que declararam que jamais lêem livros parece-me um dado aterrador. Os inquéritos internacionais ou nacionais sobre aproveitamento escolar e aquisição de conhecimentos (entre eles o PISA) podem revelar o estado da escola. Mas o estudo de Elíseo Estanque e do Rui é devastador para quem se preocupe com o estado das coisas. 44% dos inquiridos revelou ler sobretudo os diários nacionais (entre estes, 23% indicou o jornal Público e 21% os jornais desportivos).
Inquérito anterior, reproduzido no Expresso, mostrava que 64% dos estudantes do secundário frequentava os centros comerciais como local de lazer. Brava democracia que tais filhos produz. A culpa é nossa; não soubemos lidar com isto. É uma das coisas que não podemos esquecer, de ano para ano.

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Futebolite.

por FJV, em 13.12.07
No hard feelings a propósito do futebol. José Pacheco Pereira é o mais popular dos bloggers políticos portugueses e tenho por ele um evidente respeito e admiração. Mas não compreendo. Ou seja: entendo o desprezo pela futebolite, pelo excesso de futebol, pelo país engalanado de redes e chuteiras, pelas televisões grasnando futebol, pelo totalitarismo do futebol. Partilho desse desprezo e dessa repulsa. Subordinar a agenda dos telejornais ao futebol parece-me uma excentricidade de subdesenvolvidos. Fazer horas e horas de directo na televisão com manifestações de rua em que toda a gente diz a mesma coisa, somos os maiores, somos campeões, só queremos Lisboa a arder, ninguém pára o SLB, etc., etc., nem sequer posso atribuir ao subdesenvolvimento mas à estupidez; delirar quando um cabecilha alcoolizado de um clube diz uma palavrinha, dependurado sobre o microfone, devia ser classificado como crime e as televisões de todo o país deviam desligar-se em simultâneo.
As pessoas são como são. Pacheco Pereira pode não saber o que é um livre de onze metros e alimentar sérias dúvidas sobre a sanidade dos seus compatriotas quando comentam uma trivela ou a razão por que Paulo Bento fala daquela maneira. Mas há um excesso de hooliganismo anti-futebolístico que me surpreende com os seus sinais de distinção intelectual. Uma coisa é a futebolite, e a sua doença visível ou televisível; outra, diferente, é a natureza da espécie, onde o gene do futebol está inscrito. Esse desprezo é uma coisa muito vista, muito. Digamos que a pegar-se aos limites do inumano.

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Memórias de 2007. (1) O rugby.

por FJV, em 13.12.07


Um jornal americano chamou-lhes Pavarottis. A imagem percorreu o mundo, não sei se nos encheu de orgulho, mas olhámo-la com comoção – a forma como a rapaziada cantava o hino nacional antes de cada jogo chegava-nos de França como uma espécie de reabilitação da pátria, a velha pátria em chuteiras, medricas e faceira, habituada a ver jogadores de futebol a dar cambalhotas mal lhes tocam no cotovelo ou na armação da marrafa.

Tão cedo não os esqueceremos. Nem os seus nomes nem a pequena glória de terem afrontado os All Blacks daquela forma fatal, íntegra, nobre, olhando-os nos olhos, dançando curto (evidentemente) mas sem alguma vez evitar o confronto ou a ousadia. Um ensaio que fosse valia a pena. Uma fuga que ficasse registada seria inscrita no livro das glórias.

O pequeno país que gosta daquele dicionário de indignidades do futebol, tomou-lhe o gosto. No futebol, habituou-se a ouvir coisas como «falta inteligente», «conseguiu um penalty», «brilhante atitude defensiva». Colocado patrioticamente diante da televisão para ver o melhor rugby do mundo, o adepto lusitano encontrou um grupo de almas diabólicas, ou tomadas pelo diabo, com cara de homens, com físico de homens, capazes de correr e de placar, de fugir e de perseguir, de se arrastarem no chão ou de voarem em busca da bola – como há muito tempo não viam no futebol mariquinhas e de efeito fácil, onde toda a gente finge que se lesiona.

Vimo-los todos, jogo a jogo. Jogo a jogo, a pátria pendurava a chuteiras prateadas e sentava-se para ver o jogo da tribo. Jogo a jogo crescia a admiração por aqueles rapazes, desde o primeiro ensaio português em Mundiais, assinado por Pedro Carvalho. Aliás, se o Criador quisesse dar uma prova da sua existência, depois de ter aberto um sulco nas águas do Mar Vermelho – há muito tempo –, teria escolhido o minuto 44 do jogo contra a Escócia, quando um português deixou para trás os escoceses e rasgou pelo estádio fora na direcção de um ensaio fabuloso. Com isso, provaria a sua existência, indicaria que era fã dos Lobos, e mostrar-se-ia justo. Porque nesse primeiro ensaio em Mundiais estava representado todo o esquadrão de batalhadores que se atreveu a enfrentar equipas profissionais. Mas não só: eles enfrentaram também a ignorância dos snobes modernos, a impreparação do cidadão comum e o desprezo dos mariquinhas do futebol.

Foi um gozo puro. Perderam todos os jogos. Nunca uma equipa tão derrotada foi tão comentada no mundo inteiro, com a imprensa neozelandesa, inglesa, americana e sul-africana falando de uma «great story» da «lovely performance of the newcomers». Laurent Bénézech, no L'Équipe, valorizava a coragem e o coração dos portugueses. O mais difícil dos comentadores da ESPN americana não se cansou de distinguir «the great spirit» do bando de portugueses que se atreveu a discutir, metro a metro, o campo que lhe tinha sido entregue.

Há quem ache que isto era pouco. Paciência. Num país de plástico e de vedetas, os Lobos mostraram-nos como, à sua maneira, desvalorizaram os nossos próprios limites e lutaram contra a nossa condição. Eles ultrapassaram o seu destino. Merecem um lugar de destaque nos nossos aplausos.


{Referências neste blog.}

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Gosto de dar boas notícias.

por FJV, em 13.12.07


Bom gosto, formato irrepreensível, bem escrito, embora ainda sem o ritmo que irá adquirir nos tempos de vendaval (por certo), aí está o Bibliotecário de Babel, o novo blog de José Mário Silva: «um lugar onde os bibliófilos se sintam bem», o que já não é pouco, se acrescentarmos a definição mais geral, referida ao que está «à volta dos livros, antes e depois dos livros». É bom poder dar boas notícias.

Para completar o circuito dos blogs de livros é fundamental passar, sempre, pelo Blogtailors, de Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes, os fundadores da Booktailors Consultores Editoriais.

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