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por FJV, em 01.11.07
||| Ouro Preto, 2. Fórum das Letras.







1. «O Verissimo já falou?» «Já. A conferência dele era às duas e meia.» «Não, não é esse. O Luis Fernando Verissimo, falo desse Verissimo.» «Já, já falou. Era às duas e meia.» «Você está chato hoje, hein? Eu estou falando do Luis Fernando Verissimo, pô.»

2. «Que debate era esse?» «Sobre literatura e já não sei bem, causas e o papel do escritor.» «Estou sabendo.» «Tu não foste?» «Estive bebendo, depois estive ocupado a ficar sóbrio, depois bebi uma cachacinha, uma Germana, e já passou, e agora estou preparado. Qual é o próximo debate?» «Hoje já não tem mais.» «Vai ser um combate.»

2. «É na Xavier da Veiga, de certeza que é na Xavier da Veiga. Descendo para aquela igreja, você está vendo?» «Não.» «Pô, mas você vai pelo cheiro. Tem aquela rua que vai dar ao centro, sabe?, aí volta à direita, desce, é a Xavier da Veiga, tem lá a cachaçaria. Um baita arquivo de cachaça, se quer saber.» [silêncio] «Já sei, mas não tem cachaçaria nenhuma lá.» «Não?» «Não. Lá é a biblioteca.» «Eu confundo tudo. Deixa.»
[FJV]

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por FJV, em 01.11.07
||| Ouro Preto, 1.













O Fórum das Letras está bom. Tem muitos escritores. Alguns muito bons. Conferências a toda a hora. Mas tem esse problema: com tanta gente a falar uma pessoa não pode dormir em paz.
[FJV]

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por FJV, em 01.11.07
||| Imperial Vila de Ouro Preto.
















Poemas de Tomás António Gonzaga, as ruas onde passou parte da melhor história de Portugal no Brasil. Havia uma poeira fina, amarelada. Essa não foi a primeira imagem mas foi a mais intensa, aquela que perdurou. A primeira foi a do desenho de um vale escuro, denso, sitiado pelo pico do Itacolomi e pela Serra da Mantiqueira, pelos fios de água do Rio das Velhas e do Piracicaba, mergulhado naquela vaga de calor onde cada pedra fala da história e do passado. É impossível não ceder ao peso da história; casarões erguidos em colinas, em ladeiras e becos, pracetas onde ipês frondosos servem de testemunhas à passagem do tempo. Mas a outra imagem, a imagem decisiva, apareceu depois: uma poeira fina misturada às nuvens de calor que subiam e desciam o vale. Foi mais do que isso que levou D. Pedro a chamar-lhe Imperial Cidade de Ouro Preto, substituindo o nome antigo, Vila Rica – o desígnio da história, o centro difusor do independentismo brasileiro que alimentou a Inconfidência Mineira e a conspiração do Tiradentes, a importância económica da região, a tradição de uma cidade que foi capital do barroco brasileiro. De alguma maneira, tanto Gonzaga como Cláudio Manuel da Costa fizeram o melhor da poesia pós-barroca, só comparável em génio ao atormentado e revolucionário Boca do Inferno, o “genial canalha” Gregório de Matos, o escandaloso poeta baiano do século XVI.
Ouro Preto lembra a história das cidades abandonadas por algum mistério do tempo. Há aqui o perfume da maldição e do castigo por, nesses tempos de glória, a riqueza dos seus habitantes ter levado a cobrir varandas e fachadas com folha de ouro. Isolada do mundo, escondida no vale, Ouro Preto fomentou aquela luxúria da decadência e foi um centro produtor de música, de pintura, de escultura, de literatura – e de contemplação, a mãe de todos os vícios artísticos.
Ao crepúsculo, Ouro Preto recebe os seus fantasmas, um a um. Eis a contemplação como um dos elementos da luxúria; não é por acaso: ao observar o vale desaparecendo sob a escuridão, percebe-se por que razão há cidades brasileiras a viver tanto o passado e os seus mistérios.
[FJV]

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por FJV, em 01.11.07
||| Obrigado por cada linha.
Há uma coisa que interessa neste post, para além da estratégia de «querer conversa»; é o título: «Na massa do sangue». Compreendam. Primeiro, ele quer conversa. Depois, ele sabe que «está-lhes na massa do sangue». Que sangue é esse? O dos judeus. De vez em quando é gente que tem sangue e, talvez por isso «[os judeus]acabaram por dar motivos para serem expulsos», primeiro de Espanha e, depois, de Portugal. Convenhamos: «foi o que eles [os judeus] fizeram em todos os países que os receberam durante a sua história de milénios», justamente, «dar motivos para serem expulsos». Usar o «eles» é uma boa estratégia: há «os judeus», «os pretos», «os católicos», «os brasileiros», «os tugas», «os paneleiros», mas sobretudo «eles». Diz-se «eles» e fica o problema resolvido. A massa do sangue é uma coisa bonita de se achar, sobretudo nos outros.
Por isso, obrigado por cada linha deste post. Há coisas que são assim mesmo. Abjectas ou apenas assim, como são. Não interessam os erros históricos e as manigâncias de estilo; o propósito é o de os apontar a dedo. Eles. Nós. Eles. Eu. Cada um.
[FJV]

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