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por FJV, em 09.09.07
||| Comentários de domingo, 3. Escócia-Portugal. O comentário de João Fragoso Mendes.



O sentido das lágrimas

As lágrimas que correram pela face de alguns dos jogadores portugueses durante a execução da Portuguesa, antes do jogo de estreia com a Escócia, deixavam antever uma certeza: aquela equipa estava verdadeiramente a sentir um momento único e iria deixar a pele em campo. Frente a um “quinze” histórico do râguebi mundial, claramente favorito, os Lobos “prometiam”, assim, que não dariam facilidades. E não deram. A Escócia sofreu a bom sofrer para chegar ao primeiro ensaio (aos 11 minutos). E durante uns longos 80 minutos – talvez os mais longos e mais belos da vida desportiva dos 22 jogadores ontem utilizados por Tomás Morais – os favoritos tiveram sempre de se empenhar a fundo. Os desinibidos Lobos mostraram ao mundo do rugby (muito duvidoso da sua capacidade) que não chegaram ao Mundial por um acaso. E, com tantas estrelas do primeiro nível mundial presentes em campo, não foi por acaso, também que o “man of the match” foi o capitão Vasco Uva. E se não fosse ele, tal honra só poderia caber a Juan Severino. Foi lindo ver a Escócia tremer. Como foi lindo, também, antes, assistir às dificuldades de Gales ante o Canadá, da Inglaterra frente aos Estados Unidos e, depois, da Irlanda contra a Namíbia. Os favoritos ganharam, é certo, mas isto está a mudar. Quem diria. Agora que venham os “Blacks”.

Este texto é publicado na edição de amanhã do Correio da Manhã, à semelhança desta outra crónica. João Fragoso Mendes, jornalista, foi também praticante (na equipa de Direito), animador do Lisboa Sevens, autor do livro 50 Anos de Rugby e director da Rugby Revista; comentará neste blog os jogos do Mundial de rugby.

Diz Rory Lamont:
«Os portugueses são muito duros e bons nas placagens. Placam baixo e assim é difícil conseguir escapar. Trabalharam muito e foi muito difícil para nós pontuar. Estou bastante dorido após o final do jogo.»
[FJV]

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por FJV, em 09.09.07
||| Comentários de domingo, 2. Escócia-Portugal. [Actualizado]














Se o Criador quisesse dar uma prova da sua existência, depois de ter aberto um sulco nas águas do Mar Vermelho – há muito tempo –, teria escolhido o minuto 44 do jogo, quando Pedro Carvalho deixou para trás os escoceses e rasgou pelo estádio fora na direcção de um ensaio fabuloso. Com isso, provaria a sua existência e indicaria também que era fanático dos Lobos. Infelizmente, o árbitro neozelandês assinalou fora de jogo. É um Apito Escocês na forja. A Procuradoria que investigue.
De resto, não foi um jogo de desilusão. Rory Lamont só chegou ao seu primeiro ensaio aos 12 minutos. E só o terceiro (aquela passagem de Dan Parks para Scott Lawson, aos 23) ia confirmar o peso definitivo dos escoceses, se bem que o primeiro ensaio português acontecesse quatro minutos depois. Glória nas alturas. Vejam as estatísticas: o primeiro ensaio escocês da segunda parte (o de Dan Parks) só aconteceu aos 16 minutos. Podíamos ter chegado a mais dois ensaios na segunda parte? Podíamos, sim. Mas os escoceses, verdadeiramente, perderam o jogo: arrasámos-lhes os nervos (eles pensavam que ia ser fácil), mostrámos-lhes por que razão eles usam saias, revelámos pessoal capaz (olhem Vasco Uva, olhem Severino e, digam o que disserem, olhem o franzino Cabral) e, no fundo, as nossas adeptas nas bancadas eram muito mais apresentáveis do que as deles (contando ainda com o facto de eles estarem carregados de drag-queens vestidos de azul). Foi uma grande vitória nossa e só não foi KO por inexplicável azar.
Poderíamos tergiversar sobre o estatuto amador da equipa, mas não é isso o mais forte que fica do jogo e sim a entrega e a energia. Os derradeiros vinte minutos não trouxeram o esgotamento físico (apesar das distracções fatais que permitiram os ensaios escusados da Escócia), nem a sensação de desânimo que se nota nos mariquinhas do futebol. A dedicação de Vasco Uva, a alegria de João Uva ao regressar ao campo depois do amarelo, a competência de Duarte Cardoso Pinto, a insistência de Penalva apesar de lesionado desculpam essas distracções fatais, sobretudo depois do minuto 60. Os escoceses pensaram que andava ali bruxaria, ou então era o whisky que estava estragado. Uma das duas. Sábado será a vez de cairem os neozelandeses. Bem podem vir com o Haka em três tons.

[Hard work: Portugal made life difficult for Scotland.]

The Independent: «For Portugal, too, there was a measure of joy on what was an historic day for them: a try, a conversion and a penalty with which to mark their World Cup baptism. Despite their own fears, Os Lobos, the wolves, were not entirely lambs to the slaughter.»

The Independent: «There have been those who have questioned Portugal's presence at the top table of world rugby, but not Murray. "These guys have had to play a lot of teams to qualify," he said. "They deserve to be here. They've had to work hard just to get here. This is what they've done all of that hard work for."»

Nuno Mota Pinto, no Mar Salgado: «Um jogo de grande dignidade e valentia. Foram verdadeiros campeões ao superarem-se a si mesmo e equilibrando,a espaços, o jogo com a Escócia. O comentador de língua inglesa da emissão a que assitia referiu a certo ponto: The Portuguse team brought a great spirit to this World Cup

Entretanto, a TVTel acabou com o regabofe e a DSF deixou de transmitir os jogos em sinal aberto para Portugal. O Tiago Mendes informa que a ITV transmite os jogos pela net.


Trinta-e-um no 31 da Armada: O Pedro Lopes Marques escreve: «Prefiro uma Amélia que ganhe a um macho que perca.» E sustenta: «A mais risível das coisas é justificar as, mais que previsíveis, derrotas humilhantes com o “grande” argumento de que aqueles rapazes são amadores. E então? Confesso não sentir ponta de orgulho em ver uns escoceses a dar baile a meus conterrâneos ou ver declarações em que se diz que sofrer menos de 100 pontos contra a Nova Zelândia é fonte de orgulho... » Respostas de Paulo Pinto Mascarenhas («E agora é só uma presença de uma equipa amadora entre as melhores selecções do mundo que contam com jogadores que são pagos a peso de ouro. Se isto não é de aplaudir - e transmitir - então devo estar sintonizado no canal errado.») e de Eduardo Nogueira Pinto (que cita Laurent Bénézech: «Dès les premières minutes, on les a vu très limités techniquement, mais quel coeur, quel courage. Ils ont réussi à perturber les Portugais et ils sortent la tête très haute de ce premier match.»)

Já agora, que me desculpem, mas aqui vai a citação completa de Laurent Bénézech: «[...] joueur que je retiendrais, c'est le troisième ligne portugais Vasco Uva, qui symbolise vraiment cette esprit portugais, cette vaillance. Dès les premières minutes, on les a vu très limités techniquement, mais quel coeur, quel courage. Ils ont réussi à perturber les Portugais et ils sortent la tête très haute de ce premier match.» Há coisas que vale a pena repetir.

No Blood & Mud, blog de rugby: «A plucky performance by the newcomers from the Iberian peninsular yesterday, including this lovely try. Good forwards control to begin and then a delightful offload by the out-half for the winger to score.» [Tem um vídeo do ensaio.]

No Alan's Rugby Blog, o post «Better Know A Rugby Team: Portugal»: «Because, while Portugal doesn't have a rugby leaguer's chance in a union scrum, they have a great story.»

Para ir acompanhando de longe, e fora do Mundial, o blog brasileiro Um Pouco de Rugby, do paulistano Rafael Takano.


[FJV]

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por FJV, em 09.09.07
||| O cantinho do hooligan. Em diálogo com o hooligan civilizado.
Pois é, José Medeiros Ferreira, pois é: talvez o problema não tivesse sido do estádio (até admito), mas os rapazes deviam não apenas ter seguido o apelo das bancadas como, também, a sua própria intuição. Não. Estavam a ouvir sei lá quem.
[FJV]

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por FJV, em 09.09.07
||| Comentários de domingo, 1.










João Fragoso Mendes, que, além de jornalista, foi também um praticante de mérito (na equipa de Direito), animador do Lisboa Sevens, autor do livro 50 Anos de Rugby e director da Rugby Revista, entre muitas ligações ao mundo do rugby, comentará neste blog os jogos do Mundial (entretanto, poderão ler no Correio da Manhã as suas crónicas sobre a matéria). A crónica de hoje no CM:
«À partida, uma advertência necessária: no râguebi só muito raramente há surpresas. Neste jogo não há ‘autocarros’ que cheguem para defender uma baliza – até porque a ‘baliza’ tem 70 metros.
O râguebi é um jogo de contacto, posse e ataque. E os mais fortes (técnica e tacticamente), os mais experientes, os que, por isso, cometem menos erros, ganham inevitavelmente. Por mais ou menos pontos. Neste jogo apaixonante, os ‘Davides’ nunca ganham aos ‘Golias’. E, logo à tarde, quando os Lobos subirem ao relvado do Estádio Geoffroy-Guichard para defrontarem a equipa da Escócia, deveremos todos estar conscientes das diferenças que existem entre as duas selecções em confronto. O adversário é (muito) mais forte. Não deverá, por isso, haver qualquer surpresa.
Aos portugueses compete dificultar a vitória escocesa. E, garantidamente, vão fazê-lo. No único confronto entre as duas selecções (Edimburgo, 1998), na qualificação para o Campeonato do Mundo de 1999, registou-se um triunfo escocês por 85-11. Portugal discutiu, depois, a repescagem com o Uruguai e perdeu duas vezes (46-9 e 33-24).
Oito anos depois chegou a este Mundial à custa desse mesmo Uruguai. É, apesar de tudo, sinal de que algo se modificou entretanto.»
Mais logo, o João comentará o Portugal-Escócia.









É este o quinze português de logo à tarde: Cristian Spachuck, Rui Cordeiro, Joaquim Ferreira, David Penalva, Gonçalo Uva, João Uva, Juan Severino, Vasco Uva, José Pinto, Duarte Pinto, Diogo Mateus, Frederico Sousa, David Mateus, Pedro Carvalho e Pedro Leal. «A big happy family», comenta o site do Mundial, que não deixa de notar que «the three Uvas [João, Vasco e Gonçalo] are cousins of Margarida Sousa Uva, the wife of European Commission president and former Portuguese Prime Minister Jose Manuel Barroso
».

[FJV]

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por FJV, em 09.09.07
||| Balanço & anti-previsão.













Vejo em repetição o Inglaterra-EUA e não há forma de me convencerem de que aqueles cavalheiros, de ar esbranquiçado, foram campeões do mundo seja em que reencarnação for (20-17 à Austrália na última final). Definitivamente, três ensaios (Rees, Robinson e Barkley) e duas conversões não são convincentes. E há aquele nome: Matekitonga Moeakiola, o americano devorador dos últimos quartos. As estatísticas são demasiado importantes no rugby para nos rirmos delas; é por isso que o 28-10 me lembra o tipo de futebol que os ingleses fazem nos últimos tempos. Não hão-de querer Scolari a treiná-los só porque gostam de bigodes, não é?

Hoje, dois jogos e uma batalha: os jogos são País de Gales-Canadá e África do Sul-Samoa (não percam estes rapazes); a batalha é a de Portugal contra a Escócia. A Miss Pearls, portanto, que saiba que nem só o futebol mobiliza os hooligans. E o Pedro Picoito, que prometeu não fazer trocadilhos em inglês, que se prepare para uma fase final digna.

Via Os Bigodes de Gato (o único blog que publica poemas de António Franco Alexandre, Ruy Belo, Kavafis e se interessa por rugby; escreve ele que o «o rugby é apaixonante quando disputado pelos melhores praticantes, e estes são valentes, nobres, dedicados, adoram a modalidade e são sérios, raramente ficando esticados na relva fingindo lesões. Quase nunca os vi discutir uma decisão do árbitro e o respeito por este, pelo jogo, pelo adversário e pelo público é uma constante»), aqui está o vídeo promocional do campeonato do mundo. Também há este, que resume a vitória portuguesa sobre as Fiji e este sobre as fases da selecção nacional. Mas este (de promoção do mundial da Austrália, em 2003) não me parece menos indicado para a ocasião; cuidado:



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por FJV, em 09.09.07
||| Buruma: sobre os limites da tolerância.














O livro de Ian Buruma merece ser lido com muita atenção: A Morte de Theo Van Gogh e os Limites da Tolerância (edição da Presença) é uma reportagem/documentário sobre a morte de Van Gogh (e de Pim Fortuiyn), o «multiculturalismo holandês» misturado com o calvinismo (e saltemos até Com os Holandeses, de José Rentes de Carvalho, por exemplo), o medo ocidental e a explicação do remorso. Ou de como, por detrás da tranquilidade dos melhores bairros de Amesterdão e Haia, há muito mais para compreender. O retrato de Theo Van Gogh é muito bem desenhado, reproduz a sua grosseria e a sua fé liberal, os seus excessos grotescos e aquilo que ele fez de admirável. Ian Buruma (que vive em Nova Iorque) vai visitando os holandeses de hoje, o bairro onde passou a adolescência, os protagonistas (de Bolkestein aos amigos de Theo, passando por dissidentes e apóstatas vindos do Islão, até defensores da Europa islâmica), e o livro tem som, movimento, música, olhares profundos. É muito bem escrito (infelizmente, com ruídos de tradução; a edição original é da Penguin americana), muito bem planeado, feito de raccords perfeitos, de delicadeza (a forma como descreve a relação com Ayaan Hirsi Ali), mas também de crueldade e de excelentes evocações (políticas, pessoais, históricas). Buruma apresenta Theo Van Gogh como um holandês «perfeito» (fatal, a sua descrição dos regentem): ríspido, irónico (curiosíssimas as suas observações sobre a ironia holandesa: é um valor em si, com certeza, mas é também um instrumento para não se fazer nada), directo, provocador. Ou seja, insuportável para Mohammed B., o seu assassino. A descrição da morte de Theo Van Gogh é fria, como um golpe de luz num retrato sombrio; é a partir dessa descrição que Buruma parte em busca da falta da identidade europeia e da natureza do Islão na Europa e naquele pequeno país onde toda a gente se conhecia.
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por FJV, em 09.09.07
||| O cantinho do hooligan. Polónia.
Nem de propósito. Se em vez de controlar a bola, segundo a avisadíssima regra dos comentadores de futebol, os rapazes tivessem jogado melhor, isto não acontecia. Mas se é verdade que o estádio não ajudava (eu sei que estavam à espera disto, eu sei...), não é menos verdade que os polacos não vieram para ser aplaudidos por nós. Fizeram o trabalhinho deles com dois remates. Olha se fosse a Islândia. Já para não dizer a Arménia.

PS - Mas vejam, vejam como os que viveram à sombra de Scolari nos últimos anos (na imprensa e na televisão, claro), se preparam para, tranquilamente, o esfaquear. Nessa altura, virei em defesa de Scolari.

[FJV]

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