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por FJV, em 21.04.06
||| Nós, o Estado.
Rui Pena Pires chamou a atenção para um artigo de José Lello, no Público de segunda-feira (transcrito aqui, para não assinantes do Público). É um artigo muito importante pelo que deixa supor. Confesso que simpatizo bastante com Lello pessoalmente, mas esta ideia de que os portugueses não podem falar sobre Angola senão para defender os interesses de ambos os Estados, parece-me esdrúxula:
«O que muita imprensa e opinion makers mais gostam de focar são os problemas de corrupção, da falta de democracia e da violação dos direitos humanos. Estão de tal forma obcecados nesse registo que não se percebe bem se estão mesmo interessados em descodificar os contornos reais da actualidade angolana e se estarão verdadeiramente determinados em apoiar a reconstrução nacional, a reinserção social e a normalização política e cívica que a paz tornou possível. [...] É preciso bom senso nesta floresta opinativa e, por vezes, nas cortinas de fumo que se pretendem lançar sobre Angola, que só prejudicam desnecessariamente a percepção e as relações entre os dois países. Se Portugal não faz juízos de valor em relação a outros países, porque simplesmente não tem de se intrometer nos assuntos internos de Estados soberanos, por que razão havia de o fazer em relação a Angola?»
Meu Caro José Lello: depreendo que o último livro de Pepetela, por exemplo, é uma grande prova de falta de patriotismo do escritor angolano, ao preocupar-se com «a corrupção, a falta de democracia e a violação dos direitos humanos». E que a obra de José Eduardo Agualusa, que se preocupava com «corrupção, falta de democracia e violação dos direitos humanos» quando ainda o PS cabeceava entre UNITA e MPLA, é totalmente anti-patriótica. Evidentemente, como são angolanos, o Estado local pode tratar-lhes da saúde à vontade.
Eu compreendo, toda a gente compreende a natureza do negócio com Angola e a sua delicadeza. Mas não vale a pena reeditar a «doutrina Freitas do Amaral sobre os cartoons» a propósito de Angola.

(O Rui Pena Pires tinha já comentado a significativa reacção de outro dirigente partidário, Jorge Coelho, que achava que «nenhum de nós tem o direito de estar agora a definir como deve ser a governação de Angola». Como se confirma, a «doutrina» está a ser adoptada aos poucos. Um dia destes alguém vai dizer que «nenhum de nós tem o direito» de pensar que a Rainha de Inglaterra tem o nariz pequeno. E tem.)

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